quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A causa da chuva e as fontes da violência na Nigéria

Robert Reilly
Neste Natal que passou um grupo islamista no Norte da Nigéria, conhecido como Boko Haram, colocou bombas em duas igrejas cristãs, matando mais de quarenta pessoas, incluindo trinta e sete paroquianos que estavam a deixar a repleta missa matinal na Igreja Católica de Santa Teresa, em Madalla. Muitos outros ficaram feridos. O seu líder actual, o Imam Abubakar Shekau, já avisou que vai haver mais ataques. Porquê? Qual é a relação entre a visão da realidade que este grupo tem e a violência que pratica?

Fundado em 2002 por Mohammed Yusuf (1970-2009), o Boko Haram tem o objectivo de implementar um governo Sharia. O nome oficial do grupo é Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad, o que em árabe significa Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e com a Jihad. Boko Haram, como é mais familiarmente conhecido, significa “A educação ocidental [não islâmica] é sacrilega”.

Quando interrogado pelos aparelhos de segurança do estado, Yusuf terá proclamado: “Todo o conhecimento que contradiz o Islão é proíbido pelo Todo Poderoso.” De que conhecimentos estava a falar? Numa entrevista à BBC, pouco antes de ter sido morto por forças nigerianas em 2009, explicou:

Há pregadores islâmicos distintos que viram e compreenderam que a educação ocidental actual está embrenhada de questões que são contrárias às nossas crenças islâmicas. Como a chuva. Nós acreditamos que é criada por Deus e não que é água evaporada pelo sol que se condensa e se torna chuva. Como dizer que a terra é esférica. Se é contrário aos ensinamentos de Alá, rejeitamo-lo.”

Nesta afirmação, Yusuf revela estar perfeitamente familiarizado com a explicação científica da chuva, mas rejeita-a por razões religiosas. Para muitos isso parecerá estranho, excêntrico, mesmo, mas esta visão tem fortes raízes numa parte significativa do Islão Sunita. Radica na concepção da omnipotência de Deus e o problema da causalidade no mundo natural.

O actual líder do Boko Haram

O dilema é este: Se Deus não é a causa de tudo, pode Ele ser omnipotente? Por outras palavras, se Deus não é a causa directa da chuva, se esta é antes causada por forças naturais (causas secundárias em linguágem filosófica técnica), não estão essas forças a concorrer com Deus? Se A for a causa de B no mundo físico (como por exemplo a condensação que causa a chuva), isso não exclui Deus da equação, ou pelo menos não põe em causa a sua liberdade?

Estas são, claro está, verdadeiras questões teológicas e filosóficas com as quais se debateram todas as formas de monoteísmo. A teologia Ash’arita, que domina o Islão Sunita, concluiu que, se Deus é omnipotente então nada mais pode ser sequer potente.

Quer isto dizer que não pode haver algo como a lei natural ou causa e efeito no mundo natural. Consequentemente, tudo o que acontece se torna o equivalente a um milagre, porque Deus intervém directamente.

Esta visão tem efeitos a nível prático. Durante o governo do General Zia ul-Haq, no Paquistão, os boletins meteorológicos foram suspensos durante vários anos devido a queixas de clérigos muçulmanos que alegavam que as previsões eram ímpias. Se Deus causa o tempo sem qualquer intermediário, como é que podemos prever o que vai acontecer? Como não existe qualquer ordem inerente à natureza, quem pode dizer se vai chover ou nevar? Pretender ter tais conhecimentos é blásfemo e pretencioso.

Um amigo meu que vive no Bahrein estava a conversar com um homem de negócios árabe, muito sofisticado, que lhe disse que ia levar a família a viajar no fim do Ramadão, mas não sabia quando é que ia partir porque isso dependia do aparecimento da lua nova.

O meu amigo explicou-lhe que isso não era problema, ele podia dizer-lhe quando ia aparecer a lua nova. “Como?” perguntou o árabe. O meu amigo explicou que tinha um almanaque. O homem de negócios explicou por sua vez que ninguém pode possuir tal conhecimento. Ele teria de esperar até que o imã confirmasse o aparecimento da lua nova.

Um problema mais grave surge a respeito do uso da violência para propagar a fé. Será moralmente permissível? Esta foi a questão levantada por Bento XVI no seu discurso em Ratisbona. Podemos saber que é irracional recorrer à violência em nome da religião sem uma revelação divina nesse sentido? E como, já agora, é que a razão se torna a bitola para saber o que é moral ou imoral?


Reflectindo sobre a existência de uma ordem na natureza, os filósofos gregos concluíram que Deus é logos. Foi a ordem racional inerente às coisas criadas que levou à apreensão de que a ordem em Deus é a própria racionalidade. Se Deus é racional, então o comportamento irracional torna-se uma questão moral. Conclui-se que seria irracional usar da força contra a consciência no que diz respeito à fé.

Mas o que é que acontece se começamos com a ideia à priori de que não existe ordem no mundo natural, porque isso atenta contra a omnipotência de Deus? Isso não significa que Deus também não é logos? Se Deus não é racionalidade, então não existe qualquer obstáculo à utilização da violência para promover a fé. A combinação desta visão, com algum apoio corânico à jihad armada torna-se letal.

É esta teologia que permite que muçulmanos radicais possam transformar a sua versão de omnipotência divina numa política de poder ilimitado (que usam inclusivamente contra outros muçulmanos). Como instrumentos de Deus, eles são os canais deste poder.

Foi isto que levou Osama bin Laden a abraçar a afirmação surpreendente do seu mentor espiritual, Abdullah Azzam, que citou num vídeo em Novembro de 2001, depois dos atentados do 11 de Setembro: “O Terrorismo é uma obrigação na religião de Alá.” Esta afirmação de que a violência em promoção da fé é uma obrigação, só pode ser verdadeira se Deus está desprovido de racionalidade, como Bento XVI recordou em Ratisbona.

Se Deus está desprovido de racionalidade então não podemos prever a meteorologia, mas podemos obrigar o nosso vizinho a abraçar a nossa religião, e matá-lo caso recuse. Esta é a lógica que está por detrás do Boko Haram e as suas bombas homicidas.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 14 de Janeiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

Robert Reilly é o antigo editor de Voice of América. Leccionou na National Defense University e serviu tanto na Casa Branca como no Gabinete do Secretário da Defesa. O seu mais recente livro é “The Closing of the Muslim Mind: How Intellectual SuicideCreated the Modern Islamist”.

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