quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Colaborando com os muçulmanos

Austin Ruse

A reunião das 22h00 iria durar toda a noite. Esta era a última noite de um processo de duas semanas que estava a ser planeado há anos. Todas as decisões mais complicadas seriam feitas durante aquela noite. Estavam todos cansados, a cantina estava fechada, os tradutores tinham ido para casa.

Dirigi-me ao centro da sala de reuniões, na cave do edifício das Nações Unidas. De cima a baixo via-se uma cascata de meios-círculos concêntricos de secretárias, com cento e oitenta e tal bandeiras nacionais, organizadas de forma alfabética. Das janelas via-se o East River, iluminado pela lua.

Na sala aproximei-me de um embaixador muçulmano a quem disse: “Esta sessão vai durar a noite toda e vai ser muito dura. Quando as coisas se tornarem mesmo complicadas, quero que olhe para ali”, disse, apontando para uma secção de cadeiras mais elevadas, “onde estarão vinte cristãos a rezar por si.”

Nessa noite aquele homem foi um autêntico tigre em defesa das crianças por nascer. Os governos ocidentais, juntamente com os burocratas das Nações Unidas, estavam sedentos por consagrar um direito ao aborto que requereria que as nações permitissem a matança sem restrições dos seus bebés por nascer.

Vezes sem conta ele levantou-se para impedir que linguagem perigosa entrasse naquele documento. Bateu na mesa. A certa altura até se levantou em defesa de organizações não governamentais cristãs que tinham sido atacadas pela União Europeia. Quando o sol se levantou os seus esforços, os nossos esforços, tinham valido a pena. Um alegado direito ao aborto tinha sido impedido mais uma vez.

Muitos dos que aplaudem o resultado desta reunião, e outras que tal, não gostam do facto de conseguirmos estes resultados com o apoio dos governos que permitem a perseguição dos nossos irmãos na fé. Seria bom que a coligação nas Nações Unidas dos que defendem a vida dos nascituros fosse grande. Não é.

Se ao menos as chamadas nações cristãs estivessem do nosso lado. A Europa pós-cristã lidera a luta pela legalização mundial do aborto. Até países de confiança, como a Polónia ou Malta se juntam à Alemanha, França e Reino Unido quando a União Europeia adopta uma posição comum, que é quase sempre a favor da cultura da morte.

E a América Latina católica? Há uma série de razões pelas quais não nos apoiam. Há muito que as suas elites se juntaram à Europa na questão do Aborto. Vêem o aborto quase como um sacramento e uma marca de sofisticação. Os seus governos também não querem ser assediados pela comissões de “direitos humanos” da ONU, que defendem um direito universal ao aborto.


Também tendem a tentar agradar às suas feministas radicais permitindo-lhes que representem os seus países nas negociações nas Nações Unidas. Estes governos não querem ser catalogados como sendo parte daquilo a que alguns media chamam a “profana aliança” entre o Vaticano e os países islâmicos. Por isso, a América Latina católica tende a baldar-se nestes assuntos.

África? São tão pobres que não podem sacrificar um só cêntimo do dinheiro que a ONU e os países doadores lhes dão. Há alguns anos uma diplomata nova questionou o facto de o seu país patrocinar uma certa resolução. Logo a seguir um lobbista do Fundo de População das Nações Unidas ameaçou o seu Estado com o corte de fundos financeiros. É uma arma potente.

Podia falar de todas as regiões do mundo e encontrar um sem número de razões pelas quais a nossa coligação nas Nações Unidas é tão pequena.

Há quem diga que não vale a pena defender a vida dos nascituros se isso implicar estarmos do lado de países islâmicos. Recentemente, no site “Big Peace” de Andrew Breitbart, a respeitada Diana West sugeriu que, ao trabalhar em conjunto com os muçulmanos, as ONG pró-vida cristãs ajudavam a divulgar a Sharia e o Islão radical. Ela acredita que a perseguição religiosa é um assunto mais importante do que proteger bebés do seu próprio holocausto.

Muitas pessoas e muitos grupos concordam. Trabalham pela liberdade religiosa e ignoram a luta pela vida dos nascituros. Estão no seu direito. Os grupos devem escolher as suas missões. Mas West e outros vão mais longe. Eles querem que nós paremos o nosso trabalho porque os custos são demasiado altos se os muçulmanos estiverem incluídos.

Ninguém sabe bem quantos morrem por ano devido ao aborto. Serão 50 milhões? Os dados “oficiais” dizem que sim, mas é natural que sejam mais, talvez muitos mais. Isto representa a maior tragédia humana do nosso tempo e pode tornar-se ainda pior se os radicais das Nações Unidas conseguirem levar a sua avante.

Se estivessemos simplesmente a somar mortes, esta coluna tornaria todas as outras insignificantes; todas as guerras, todas as perseguições, todas as purgas e todas as soluções finais. É ainda mais bárbaro porque estas vítimas não têm como se defender, não têm para onde fugir.

E é suposto deixar passar tudo isto porque são os muçulmanos que tornam possível a defesa dos bebés por nascer?

Nós que trabalhamos no movimento pró-vida junto das Nações Unidas acreditamos que somos chamados para esta luta em particular. Aplaudimos todos os que defendem outros assuntos legítimos de direitos humanos, como a perseguição religiosa, mas acreditamos que o direito à vida está em primeiro lugar. É o direito que torna possíveis todos os outros direitos e liberdades, incluindo o direito à liberdade religiosa.

Acreditamos ainda que, à nossa maneira, defendemos a liberdade religiosa. Trabalhando com diplomatas muçulmanos, tornando-nos amigos deles, amando-os até, acreditamos que podemos mudar as suas mentes e os seus corações. E à nossa própria maneira, - misteriosa, talvez – ajudamos os nossos irmãos e irmãs perseguidos. Este caminho, muitas vezes incompreendido, é o caminho de Cristo.

Austin Ruse
(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 13 de Janeiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

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