terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Deus na constituição, ao lado das "outras coisas"

Entrou ontem em vigor a nova constituição da Hungria.

Entre outras coisas a nova lei fundamental daquele país reconhece o carácter cristão da nação húngara, afirmando ainda respeitar todas as religiões no país, e consagra o direito à vida desde a concepção até à morte natural.

O documento afirma que o casamento é entre um homem e uma mulher, colocando de parte a possibilidade de legalizar o casamento homossexual, e diz que o país encorajará os seus cidadãos a ter filhos.

Até aqui tudo bem. Alguns cristãos, sobretudo os mais conservadores, dão vivas e lançam foguetes. O problema está nas outras coisas.

É que a partir de ontem a Hungria criminaliza o maior partido da oposição à esquerda e controla de forma inacreditável a comunicação social. Coloca ainda em perigo a independência dos tribunais e até do Banco Central.

Naturalmente a opinião pública está revoltada e a discussão ameaça ganhar contornos de choque cultural entre conservadores e liberais, cristãos e ateus, direita e esquerda.

Será necessário? Não haverá o bom senso de perceber que se pode achar bem algumas das medidas da nova constituição sem, no entanto, concordar com as restantes?

Os cristãos devem aceitar uma constituição destas só porque lhes dá algumas das coisas que reclamam? E as outras coisas, não interessam? Desde quando é que a luta pela verdade, pela vida, pela liberdade religiosa se tornou um concurso de engolir sapos?

Se fosse só a Hungria era um mal menor, mas os sinais mais preocupantes vêm dos EUA onde os candidatos das primárias republicanas se atropelam para afirmar as suas credenciais conservadoras e cristãs ao mesmo tempo que fazem declarações que roçam por vezes o lunático.

É altura, digo eu, dos cristãos pensarem muito bem se aceitam serem empurrados para um canto político. Têm noção do preço a pagar por essa estratégia? Uma coisa é a participação activa dos cristãos na vida política, outra é o erguer de políticos como messias e defensores do sagrado.

Mas a estratégia não pode resultar? Pensem em quantos políticos foram canonizados e em quantos dos mártires perderam a vida às mãos de políticos e façam as contas.

Filipe d’Avillez

8 comentários:

  1. Obrigado por esta opinião/artigo... deu-me jeito para uma ou outra conversa!
    E concordo totalmente!

    Abraço,

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  2. "a Hungria criminaliza o maior partido da oposição à esquerda"
    "controla de forma inacreditável a comunicação social"
    "Coloca ainda em perigo a independência dos tribunais e até do Banco Central"
    "Naturalmente a opinião pública está revoltada e a discussão ameaça ganhar contornos de choque cultural entre conservadores e liberais, cristãos e ateus, direita e esquerda"

    Filipe, tudo isto é pura propaganda lançada por quem tem medo das coisas pelas quais os "Cristaos dao vivas e lançam foguetes". As tais "outras coisas" que mencionas, pura e simplesmente, nao existem. Isso posso garantir, porque já li com muita atençao a Constituiçao.

    Quanto ao facto da "opiniao publica estar revoltada", isso é o habitual argumento reductor e eternamente falso de quem pretende lançar a confusao. A opiniao publica nao pode ser assim reduzida, independentemente da opiniao de uma parte. Além de que tenho sérias duvidas sobre a dimensao da revolta que alguns anunciam.

    A Constituiçao é de facto muito boa, e só peca por nao evoluir do regime republicano para a natural Monarquia.

    Mais tarde escrevo sobre o assunto.
    Abraço

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  3. Não li a constituição e estou-me a basear no que li na imprensa. É possível que tenha sido "levado" por propaganda. Fico à espera de ler o que escreveres sobre o assunto.
    Em todo o caso, a conclusão sobre o perigo das pessoas transferirem as suas aspirações religiosas para políticos mantém-se.
    Abraço!

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  4. Se estiveres interessado, aqui tens o link para o texto completo em Inglês:
    http://presidentialactivism.wordpress.com/2011/03/28/full-english-text-of-the-new-hungarian-constitution/

    Concordo com o perigo do fanatismo religioso aplicado à política, especialmente do ponto de vista Americano. Este nao é, certamente, o caso.

    Publico logo à tarde no blog a minha opiniao.

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  5. A questão central pela qual os cristãos têm um critério oficial a bater-se desde, pelo menos, o II Concílio do Vaticano e o pontificado de João Paulo II tem um nome: Direitos Humanos; respeito pela liberdade de consciência, pela liberdade de religiosa e todas as outras liberdades. A Doutrina Social da Igreja tem vários critérios para ajuízar do bem ou mal fundado dos diversos projectos e práticas políticas, para além das diversas opiniões políticas: bem comum, destino universal dos bens, subsidiariedade, participação e solidariedade. Na raíz, a dignidade de toda a pessoa humana,com os valores da verdade,da justiça,da paz,da caridade ou amor e da liberdade.
    Parece-me que o processo em curso na Hungria revela uma atitude "revanchista" e uma perigosa visão "revisionista da história", porque só escolhe e mitifica o que lhe interessa da sua própria história, esquecendo as suas responsabilidades, por exemplo, durante as guerras europeias e mundiais do passado. Por outro lado, a nova Constituição não respeita na prática vários daqueles princípios, apesar de os utilizar como bandeiras. Basta distinguir entre a proclamação de valores básicos da democracia e o modo como não respeita, por exemplo, o princípio de separação de poderes, constitutivo de qualquer estado de direito: é ao Presidente (eleito indirectamente, logo, por uma maioria conjuntural actual) que cabe designar os juízes, os professores, o presidente do banco central, as autoriddaes reguladoras da economia e da imprensa, etc, etc etc. Em segundo lugar, reconhece formalmente os direitos das "minorias não húngaras", digamos assim, que considera integrarem o Estado, mas cuja forma de colaboração ou participação com os trabalhos do Parlamento remete para legislação posterior, não lhes reconhecendo direito de voto. Não sendo jurista, a leitura do texto evidencia um nacionalismo "à outrance",nalguns casos, um chauvinismo programático, caldeado com formulações de princípio sobre liberdades, direitos humanos, etc, que depois se vêm negados no próprio texto. No quadro da redinição do projecto civilizacional europ+eu é um "caso" a seguir com muita atenção.
    P. Fontes

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  6. Felipe,
    Vais publicar aqui no blog ou noutro blog? se for outro e puderes por a morada, era bom para seguirmos também a tua opinião e ficarmos mais esclarecidos.

    Abraço,
    P.

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  7. Aqui esta o blog onde publiquei a minha opiniao:
    http://arvoresdespidas.blogspot.com/

    Entretanto a discussao segue tambem num novo post do Filipe, aqui no actualidade religiosa.

    Abraco,
    Felipe

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  8. Discussão continua aqui: http://actualidadereligiosa.blogspot.pt/2012/01/constituicao-hungara-revisitada.html

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