quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Indiana Jones e os casamentos obstáculo


D. Robinson Cavalcanti, bispo anglicano
assassinado no Brasil
O Patriarca de Lisboa diz que a Igreja está “cansada” de casamentos que se tornam obstáculos à fidelidade cristã. Palavras interessantes que antecipam a catequese quaresmal do próximo Domingo.

Do Brasil vem a notícia do assassinato de um bispo anglicano e da sua mulher. Parece que o suspeito é o filho.

Na China novos confrontos entre muçulmanos de etnia Uigure e polícias. Doze mortos no total, sete dos quais polícias.

O “Indiana Jones” de Israel fez uma descoberta interessante. Já a teoria que está a tentar sustentar com base nela é… enfim… menos credível.

Porque hoje é quarta-feira temos novo artigo em português do The Catholic Thing. Este artigo toca novamente na questão do decreto de Obama sobre contracepção e menciona duas figuras formidáveis pela sua fé face a regimes tirânicos, um dos quais foi o Bispo de Múnster que criticou ferozmente os nazis e cuja história heróica merece ser conhecida.

Nec Laudibus, Nec Timore

Matthew Hanley
Pouco depois da sua ascensão ao poder, os Nazis estavam determinados a extirpar qualquer influência católica fora das paredes das igrejas – fosse nas escolas, nas organizações privadas ou profissionais e por aí fora. Soa-lhe familiar? (Pense no Decreto de Obama sobre contracepção). Nessa altura, como agora, os objectivos socialistas de um Estado totalitário obrigavam a rebater a influência da Igreja Católica.

Em 1933 Clemens August von Galen foi consagrado bispo da diocese de Múnster. Foi a primeira consagração durante o regime de Hitler. Sentindo-se no dever de falar claramente sobre as ameaças políticas emergentes, condenou o “neopaganismo da ideologia nacional-socialista” e, também, o programa de eutanásia e de confiscação de propriedade da Igreja.

Ao falar desta forma aberta estava a arriscar a sua própria vida. O Leão de Múnster, como se tornou conhecido, é louvado ainda hoje pela sua corajosa defesa da fé face à opressão política.

Não obstante, alguns críticos tentaram caracterizá-lo como sendo um reaccionário politicamente motivado e temporalmente desajustado, em vez daquilo que era: um pastor católico fiel. Embora a história o tenha ilibado dessas acusações, elas são as mesmas que hoje são feitas a quem se pronuncia claramente em defesa das crenças católicas de hoje.

O lema episcopal que von Galen escolheu era: Nec laudibus, nec timore; não queria ser motivado “nem pelos elogios, nem pelo medo dos homens.” (Uma tradução comum é “nem os elogios nem as ameaças me distanciarão de Deus”).

O seu lema é intemporalmente pertinente – o sólido guia para pronunciar a verdade na caridade. Mas estava também muito em linha com as necessidades de uma situação particular naquele tempo e lugar que, como nos nossos dias, se tornava crescentemente hostil ao Cristianismo.

O lema também se relaciona com a mensagem quaresmal de Bento XVI para 2012, no qual insiste que: “Não devemos ficar calados diante do mal.” O Papa especifica que uma das razões pelas quais nos mantemos em silêncio é “por respeito humano” – por outras palavras, porque procuramos aquela forma de laudibus (louvor) a que o Leão de Múnster renunciou. Bento XVI lembra-nos que o dever de repreender e admoestar, por mais que temamos essa perspectiva, é de facto uma dimensão importante da caridade cristã.

Nancy Pelosi – há muito a precisar dessa tal caridade, juntamente com outros católicos soi dissant que traem a Igreja e a República – apelidou o decreto tirânico de Obama uma “decisão corajosa” e declarou, com duplicidade que a apoiaria “juntamente com os meus correligionários católicos”. Depois da farsa do “compromisso” foi ainda mais longe e disse que achava que o Governo devia obrigar a Igreja Católica a “pagar directamente por contraceptivos e medicamentos abortivos.”

Após anos e a anos de persistência ultrajante como esta, será injusto interpretar a falta de uma repreensão apropriada por parte dos nossos bispos, incluindo a imposição de sanções canónicas adequadas, como uma falta de caridade?

A caridade é exigente e todos ficamos aquém. Ainda assim é irónico que enquanto, como católicos, lutamos pela liberdade de continuar a providenciar serviços caritativos sem sermos obrigados pelo Governo a cobrir “serviços” imorais, ainda não conseguimos exercer adequadamente esta outra forma de caridade que está completamente ao nosso alcance.

São Tiago advertiu que a fé sem obras de caridade é morta. Talvez uma das explicações para a forma diferente com que os bispos individuais abordam este assunto – e refirmo-me aos casos claramente graves e persistentes de escândalo público – é que de alguma forma eles (como todas as pessoas) têm diferentes níveis de .

Estamos a lidera, claro está, com algo muito mais importante que estes assuntos de disciplina interna da Igreja, mas no fundo tudo se resume a uma crise mais alargada de fé: o Obamacare é um namoro profunda e comprovadamente imprudente com o socialismo, que é “irreconciliável com o verdadeiro Cristianismo.” (Pio XI, Quadragesimo Anno. N. 120)

O decreto de Obama é a codificação coerciva do libertinismo da revolução sexual, que é igualmente antitético à compreensão cristã do amor e da sexualidade humana. O método de fazer avançar estes fins destrutivos implica espezinhar a liberdade religiosa e a consciência individual.

A forma unânime como os bispos rejeitaram o decreto é, sublinhe-se, uma razão para esperança e uma prova de fé. Os tempos pedem homens e mulheres caridosos com um espírito nec laudibus nec timore para iluminarem com a fé a escuridão que invadiu a nossa cultura.

Isto implica uma preocupação verdadeira em conhecer e viver segundo o conteúdo da fé – e como o Arcebispo Chaput observou recentemente: “a imprudência ingénua não é uma virtude evangélica.” É algo que merece ser repetido agora que Obama quebrou de forma descarada a promessa que fez, enquanto era homenageado na Universidade Católica de Notre Dame, no sentido de “honrar a consciência daqueles que discordam” com as suas posições terríveis.

E o que dizer de “esta coisa da consciência”, como La Pelosi se referiu depreciativamente? “Uma consciência tranquila é mais preciosa que a liberdade ou a vida.” As palavras são de uma operária de fábrica lituana chamada Nijole Sadunaite, perante um juiz da KGB, quando se recusou a testemunhar contra um padre acusado de ensinar religião, em 1970.

Ela tinha sido acusada pelos soviéticos de ter uma doença mental, mas mesmo depois de lhe ter sido proposta a liberdade a troco da incriminação, permaneceu firme: “Se me desse a juventude eterna e todas as coisas bonitas do mundo” em troca, “então todos esses anos se transformariam para mim num inferno. Mesmo que me mantivessem num hospital psiquiátrico para o resto da minha vida, desde que soubesse que ninguém tinha sofrido por minha causa, passaria o dia a sorrir... Preferia sofrer mil mortes do que ser livre por um só segundo com a sua consciência.”

Esta nobre mulher de fé seguiu a sua consciência e acabou por sofrer anos de exílio e trabalhos forçados. Quando terminará o crescente ataque à consciência nos nossos tempos?


Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. O seu mais recente relatório, ‘The Catholic Church & The Global AIDS Crisis’ está disponível através do Catholic Truth Society, editora da Santa Sé no Reino Unido.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Fevereiro 2012 em http://www.thecatholicthing.org/)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fim de feriado adiado, exposição sobre cristãos perseguidos

Ao que parece este ano ainda vamos poder gozar o feriado do Corpo de Deus. As negociações com o Vaticano não deverão estar concluídas a tempo de o suprimir…

Os bispos portugueses estão preocupados com a unidade da Europa. E vão publicar um documento sobre o assunto.

A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai inaugurar amanhã, com um colóquio, uma exposição sobre os cristãos perseguidos no mundo. Fica patente durante a Quaresma.

A “polémica” das declarações de D. Manuel Monteiro de Castro internacionalizou-se. As deturpações publicadas cá foram traduzidas e aparecem no jornal católico The Tablet. Escrevi uma carta à directora da publicação, que pode ser lida aqui.

Hoje foi lançado o programa português para o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e Solidariedade entre Gerações. Amanhã sai um livro alusivo ao assunto. “Entre Gerações” dá conta de sete projectos que unem as gerações e é lançado na Gulbenkian amanhã às 18h, apresentado por Mário Crespo. Laurinda Alves, co-autora, pede-me para dizer que todos são bem-vindos no lançamento. (Clicar na imagem para ampliar)

Tablet colludes in defamation of Cardinal

UPDATE: On Friday the 2nd of January I received a reply from The Tablet, informing me that a correction had been published in the upcoming print edition of the magazine.

Dear Ms Pepinster,
I am writing to call your attention to a grave error in your item on Cardinal Manuel Monteiro de Castro, printed on your website on the 27th of February. [I later realised that it was also published in the print edition]

Your title and interpretation of the Cardinal’s words are based on a clear case of mistranslation.

What the cardinal actually said, in Portuguese: “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos.”

Your article translates this as: “The woman should stay at home, or if she works outside the home, it should be only part-time, so that she can dedicate herself to her essential function which is to bring up the children”

However a correct translation is: “The woman should be able to stay at home or, if she works outsider the home, part-time, so that she can dedicate herself to a function in which she is essential, which is the education of children”

As I am sure you understand, to say that a woman should “be able” to stay at home is very different from saying that she “should stay at home”. Also, to say that a woman is essential in the education of her children is very different from saying that educating children is her essential role.

In publishing this report you have done the cardinal a grave injustice, which I believe merits an apollogy. You have also simply parroted the Portuguese secular press, in which these deturpations first arose, which is somewhat less than what we expect from an informed Catholic Magazine.

Yours,
Filipe d’Avillez

A propósito deste assunto, remeto para aqui.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ciclo de Cinema no Porto

Os enjoos de Rick Santorum e os amigos de Israel

O Patriarca de Lisboa e o Papa Bento XVI assinalaram ontem o primeiro Domingo da Quaresma. O primeiro, que ontem fez 76 anos, falou sobre o catecumenato e o segundo sobre o casamento.


Na Nigéria mantém-se o ataque aos cristãos. Três pessoas morreram durante um ataque suicida em Jos.


E por fim, em Israel o responsável pelos lugares santos católicos queixou-se ao presidente de uma onda de vandalismo contra locais cristãos. Faz tudo parte de uma campanha contra o desmantelamento dos colonatos judaicos.


A complexa relação entre cristãos e Israel

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui uma ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há pouco mais de 60 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos. E atenção que interesse, neste contexto, não tem obrigatoriamente que significar “interesseiro”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Em muitos casos estes não são apenas os judeus que vivem na diáspora, muitos dos quais até são bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é confinado à América.

Os Evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas as razões são mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista. A crença de que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para se verificar o fim dos tempos e o regresso de Cristo em todo o seu esplendor.

Na maior parte esses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem aceite a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral. Um grande número de voluntários nas forças armadas de Israel (que aceita alguns estrangeiros) são cristãos evangélicos que sentem ser o seu dever preservar aquele país e defendê-lo dos seus inimigos. Mais importante que isso, contudo, é a ajuda financeira e política que este sector garante.

Fora da América o caso muda de figura. Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com anti-semitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anti-cristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
 No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto nos territórios ocupados (onde está a diminuir), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana

Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade geral da zona que acaba por desembocar em perseguições anti-cristãs. Esta atitude ficou bem vincada no último sínodo para os bispos do Médio Oriente, por exemplo.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados, sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição, e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas.

Por fim, temos o factor grego e russo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. Entretanto, não esqueçamos que o Patriarcado de Constantinopla se encontrava sedeada precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
 Aos olhos dos Otomanos os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso e a sua presença no Império era mais bem tolerada. Na Terra Santa isso ainda hoje se faz sentir. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras coisas, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas por outro da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Uma última nota para recordar que tudo isto está em permanente mudança, é natural que assim seja quando depende de tantos factores. Por exemplo, o aumento do fundamentalismo islâmico no Médio Oriente, e na Palestina em particular, poderá empurrar muitos cristãos árabes para o colo de Israel. Outro factor é demográfico. Com o crescente êxodo de cristãos árabes vai diminuindo a influência das suas comunidades no Médio Oriente e isso também pode ter os seus efeitos.

Filipe d’Avillez

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Alcorão queimado... Quarta-feira de Cinzas

Morreu ontem e foi hoje a enterrar D. Manuel Falcão, bispo emérito de Beja que deixou uma profunda marca na igreja nacional. Que descanse em paz. (na imagem, à esquerda do actual bispo D. Vitalino Dantas).

Hoje é Quarta-feira de cinzas, começa a Quaresma. Na Quarta-feira de Cinzas de 2010 nascia um projecto que teve sucesso imediato e continua a ter. Falamos do Passo-a-Rezar, claro.


Menos brilhante tem sido a capacidade dos soldados da NATO compreenderem que queimar exemplares do Alcorão não dá grandes resultados

Foi publicado agora o último artigo do ateu militante Christopher Hitchens, que morreu o ano passado. No seu texto ataca G.K. Chesterton, um dos mais influentes pensadores católicos do século XX. No texto que hoje publicamos de The Catholic Thing, Robert Royal analisa e critica este artigo de Hitchens.

Ultimamente muitos católicos, incluindo padres e bispos, têm criticado Obama. Poucos o fizeram com este nível, contudo. A ver!

Padre mostra "o dedo" a Obama

Os católicos estão em guerra com o Obama? Parece que sim, mas ninguém disse que não podem combater com humor!

Apresento-vos o padre Leo Patalinghug, que eu já conhecia por ser uma vedeta na cozinha (ganhou prémios e tem um programa próprio), mas cujo sentido de humor e imaginação me surpreenderam neste vídeo.

Hitchens, Chesterton e “A Queda no Misticismo”

O poeta polaco e prémio Nobel Czeslaw Milosz afirmou certa vez que no seu país (antes de se mudar para os Estados Unidos) as pessoas às vezes comentavam que um determinado pensador tinha “caído no misticismo”, significando que se tinha tornado religioso e, consequentemente, desinteressante.

Milosz era católico, embora afectado pelos desafios modernos à crença religiosa. Mas o seu sentido é claro. Há muito que os evangélicos se lamentam do “fechar da mente evangélica”. A maioria dos católicos não liga ao pensamento católico e não percebem que a Igreja abraça a fé e a razão.

Muitos jovens (e outros menos jovens) que talvez se sentissem intrigados pela filosofia religiosa, a teologia, a literatura e, até, a complexa tradição mística, são confrontados por cristãos que lhes citam versículos da Bíblia, antes sequer de se terem apercebido da importância da Bíblia. Ou então conhecem católicos que são incapazes de oferecer um relato minimamente correcto daquilo em que a Igreja acredita, ou faz.

O Cristianismo, claro, é uma fé que ultrapassa aquilo que é racionalmente demonstrável. Mas a ciência também o faz ao postular que as coisas do mundo existem mesmo e podem ser compreendidas. Tanto a teologia como a ciência procuram relatos racionais de dados adquiridos, i.e. coisas a que não teriam conseguido chegar apenas pela reflexão racional.

É por isso que os grandes pensadores cristãos como Agostinho, Aquino e Newman são tão importantes para a fé como Galileu, Einstein e Hawkings para a ciência.

Uma das grandes diferenças entre estas formas de pensamento, claro, é que a fé não se limita à filosofia ou à teologia. Também tem de poder ser compreendida e praticada – ainda que imperfeitamente – por todos, uma vez que Deus se dirige a todos os homens e mulheres que criou.

Por isso os grandes apologistas do Cristianismo – as vozes que conseguem chegar às pessoas – são muito importantes. E nenhuma voz católica se tem erguido com a mesma eficácia nos últimos séculos do que a de G.K. Chesterton.

Duvidas? Então considere-se o seguinte: Christopher Hitchens, um brilhante jornalista, efusivamente elogiado enquanto morria de cancro do esófago o ano passado, escolheu usar o seu último fôlego, por assim dizer, para atacar Chesterton num artigo, o seu último, que acaba de ser publicado no The Atlantic.

Conhecia Hitchens muito mal. Era um malandro charmoso, sobretudo com as senhoras, de uma época britânica muito particular, o ocaso do domínio inglês. Isso, somado à sua qualidade evidentemente brilhante, garantiu-lhe um lugar proeminente no jornalismo de Washington.

Como muitos outros britânicos bem-educados da sua geração, movia-lhe um ódio particular pelo Cristianismo, que adorava ultrajar – indo ao ponto de criticar a Madre Teresa num livro chamado “The Missionary Position” [Posição de Missionário]. Uma vez que, tanto quanto sei, ele nunca levantou um único pedinte dos esgotos de Calcutá, nunca levei muito a sério a sua afirmação de que a Madre Teresa devia ser encarada como uma tirana beata.

Mas o seu ataque a GKC é um assunto diferente. Neste seu último assalto, Hitchens pretendeu enfrentar um homem – C.S. Lewis vem logo a seguir – que ainda tem o poder de persuasão junto das massas capaz de causar impacto. Caso contrário, para quê gastar os últimos dias com ele?

Ao contrário daquilo a que nos habituou, Hitchens não justifica porque é que o seu alvo merece a sua atenção. Cita T.S. Eliot, que elogiou as “baladas jornalísticas de primeira água” de Chesterton e o próprio Hitchens refere-se à sua poesia como tendo “a mágica faculdade de ser inesquecível”. Mais à frente, refere que Kingsley Amis, um crítico a ter em conta, lhe confessou que todos os anos relia “O Homem que era Quinta-feira”.

Mas para lá destes elogios, apenas um dos quais é do próprio Hitchens, ninguém diria que Chesterton era o autor de “The Everlasting Man” (a sua melhor obra), “The Ballad of the White Horse”, uma série de estudos brilhantes sobre Dickens, Chaucer e os vitorianos, “Francisco de Assis e Aquino”, e dois volumes essenciais: “Heretics” e “Ortodoxia”. Para quem valoriza Chesterton estas obras são o espectáculo principal, mas para Hitchens, aparentemente, não passam de uma distracção.

O reductio ad hitlerum é já uma ferramenta jornalística tão gasta que só um amador – coisa que Hitchens não era – recorre a ela. Mas passa muito tempo neste seu ensaio a falar da obiter dicta de GKC sobre os interesses financeiros dos judeus a que junta uma referência vagamente sinistra à “Concordata entre Hitler e o Vaticano” de 1933, como se a Santa Sé tivesse tratados com indivíduos e não com nações.

Esta acusação tem de ser vaga porque um olhar mais atento à concordata rebentaria nas mãos de quem a tentasse usar como prova de apoio ao regime em causa. Esta vaga associação de Chesterton ao Nazismo é um absurdo, um grande absurdo, dado o nojo que ele reservava para as tiranias modernas.

Chesterton e o seu camarada de armas Hilaire Belloc são culpados de muitas simplificações históricas e gaffes. O distributivismo agrário que eles defenderam como resposta tanto ao capitalismo como ao comunismo tem tantas fraquezas como qualidades. Mas – apesar de Hitchens – eles compreendiam como a tirania na política deriva frequentemente de erros de compreensão da religião.

Hitchens, pelo contrário, parece acreditar que uma perspectiva religiosa firme e tolerante apenas piora a situação:

Chesterton tornou-se parte de uma olvidável operação de retaguarda contra a era da incerteza, que agora se tornou definitivamente a nossa. Parece não haver quaisquer regras, de ouro ou não, naturais ou outras, pelas quais podemos definir o nosso lugar no universo ou no cosmos. Aqueles que afirmam saber mais são condenados por dizer que conhecem aquilo que não se pode conhecer. É um paradoxo, se assim quiserem.

Isto não passa, claro, de uma eloquente balela. A religião não está a desaparecer, salvo nalguns cantos decrépitos. E a busca pelo sentido e pela ordem também não. E Chesterton, como Hitchens reconhece, tinha a “mágica faculdade de ser inesquecível”, coisa que Hitchens não tem – precisamente porque não se ligou a qualquer verdade duradora.

Os livros de Chesterton ainda estão impressos e continuarão a sê-lo. A sua voz, apesar de todos os ataques, jamais se extinguirá, porque é a voz perene da sanidade humana.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 20 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cardeais e dupla devota em Berlim

A grande notícia do fim-de-semana foi, claro, o consistório em Roma em que Bento XVI criou 22 novos cardeais, um dos quais português.

A Renascença teve duas jornalistas presentes (e não dois, como injustamente referi na Sexta), pelo que temos muitos textos e vídeos no site. Deixo apenas algumas sugestões, chegam às outras através das notícias relacionadas.

Colégio dos Cardeais já reflecte Bento XVI (sobre a composição do Colégio, agora que mais de metade dos cardeais eleitores foi nomeado por Bento XVI)

Durante o fim-de-semana foram-me pedidos dois artigos de opinião, que podem também ler aqui.
A quem servir o barrete… (reflexão sobre o discurso do Papa e as recentes polémicas vindas do Vaticano)
Carta aberta a D. Manuel Monteiro de Castro (circula que o novo cardeal disse, numa entrevista, que o lugar da mulher é em casa. Mas foi mesmo isso que ele disse?)

De hoje há duas notícias internacionais. No Myanmar um monge budista volta a desafiar a ditadura e a Alemanha vai passar a ter uma dupla interessante a liderar o país. Angela Merkel, cristã devota e filha de um pastor protestante, e Joachim Gauck, pastor protestante que desafiou o regime comunista da Alemanha do Leste.

Por fim, uma correcção. Na sexta-feira o centralismo apoderou-se de mim e disse, incorrectamente, que Lisboa ia acolher o Átrio dos Gentios. Na verdade vai ser Guimarães. Peço desculpa.

Carta aberta a D. Manuel Monteiro de Castro

Eminência, antes de mais os meus parabéns. Pelo que disse hoje o Santo Padre, “A nova dignidade que vos foi conferida pretende manifestar o apreço pelo vosso trabalho fiel na vinha do Senhor”, mas também, “homenagear as comunidades e nações de onde provindes”, pelo que a sua inclusão no Colégio dos Cardeais é algo que deve encher de orgulho e alegria todos os portugueses.

Na passada sexta-feira foi publicada uma entrevista sua no Correio da Manhã. Nela disse o seguinte, para ilustrar o pouco apoio que, na sua opinião, o Estado dá à família: “A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos.”

Qualquer pessoa cuja capacidade de leitura não esteja subordinada ao preconceito feroz, compreende que uma das palavras-chave aqui é “poder”. A mulher deve “poder” ficar em casa. Subentende-se que deve “poder” se assim quiser, se assim a família entender, se assim escolher.

Mas qual foi a manchete escolhida pelo Correio da Manhã? “Mulher deve ficar em casa”, obviamente. Mas não ficou por aí. O Público pegou na mesma entrevista e, na sua edição on-line, fez eco dela com o título: “Novo cardeal português defende que função ‘essencial’ da mulher é educar os filhos”.

Sim, eu sei que não foi isso que o senhor disse. O que disse, como vem citado, foi que a mulher é essencial na educação dos filhos e não que essa é a sua função essencial. O sentido é radicalmente diferente. Eu percebo isso, imagino que os meus colegas no Público e no Correio da Manhã também o tenham percebido, tanto que o Público acabou por alterar o título para reflectir melhor o verdadeiro sentido das suas palavras. Contudo, o que circula agora pelas redes sociais não é a versão alterada, é a original.

Até há cerca de um mês a esmagadora maioria dos portugueses nunca tinha ouvido falar de si. Compreende-se, uma vez que grande parte da sua missão ao serviço da Igreja foi desempenhada fora do país. Agora, contudo, todos os seus movimentos serão observados e, acima de tudo, todas as suas palavras serão escrutinadas e, em não poucos casos, manipuladas e distorcidas para servir os preconceitos de quem se alimenta do ódio contra a Igreja que serve.

Não bastará que evite dizer coisas que ferem a Igreja, é preciso colocar as coisas em termos tão claros que não seja possível compreendê-las de forma errada. Peço-lhe que tenha sempre presente as palavras de Cristo: “os filhos deste mundo são mais sagazes que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes” (Lc. 16, 8).

Desejo-lhe, senhor cardeal, as maiores felicidades no cumprimento da sua nova missão!

Filipe d'Avillez
(Publicado originalmente no dia 19 de Fevereiro, aqui)

A quem servir o barrete…

Nas últimas semanas o Vaticano foi abalado pela revelação de documentos com denúncias, acusações e insinuações que, acima de tudo, mancham o bom nome da Igreja.

Num dos casos estavam em causa acusações de corrupção e clientelismo no Governo da Santa Sé, noutro falava-se de uma eventual conspiração para matar o Papa que, após uma primeira análise, se revelou uma tontice.

Contudo, em ambos os casos há membros da Cúria Romana, identificados claramente pelo nome, que ficam muito mal na fotografia. Independentemente de os dados relatados serem ou não verdade, estes casos trazem para a luz do dia algo que todos sabemos que existe mas que a maioria dos católicos prefere ignorar, que no Vaticano há politiquice, lutas de poder e jogo sujo. É triste, mas é verdade.

O que nos leva ao discurso proferido hoje por Bento XVI aos novos cardeais, uma boa parte dos quais trabalha precisamente no Vaticano.

“Não é fácil entrar na lógica do Evangelho, deixando a do poder e da glória”, disse Bento XVI, não como quem desculpa estes lapsos mas como quem alerta para o seu perigo.

Ao serem elevados ao cardinalato é sublinhada novamente a responsabilidade que estes homens receberam com o seu baptismo e viram realçada com a ordenação sacerdotal e, na maioria dos casos, episcopal: Viver a lógica do Evangelho, em que o maior é aquele que serve os seus irmãos.

Durante a cerimónia o Papa falou-lhes das vestes encarnadas que simbolizam a disponibilidade de derramar o próprio sangue, isto é, dar a própria vida se for necessário, por amor a Cristo, à Igreja e ao povo de Deus.

Não temos razão para acreditar que a esmagadora maioria dos 213 cardeais que actualmente existem não procura viver esta realidade no seu dia-a-dia. Mas infelizmente quem faz as manchetes são os poucos que parecem mais preocupados em promover a sua própria carreira, como Tiago e João que pediram a Jesus para lhes reservar os lugares à sua esquerda e direita, quando entrasse na sua glória.

Pode ter sido por acaso que o Papa referiu precisamente essa passagem do Evangelho e deixou aos cardeais os “avisos” que deixou. Pode ter sido coincidência, mas se foi não podia ter vindo em melhor momento.

Filipe d'Avillez 
(Publicado originalmente no dia 18 de Fevereiro aqui)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Coincidências?

Durante as últimas semanas tenho-vos chamado atenção para o arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan.

Ontem, na véspera do consistório o Papa teve um encontro com os homens que hoje foram criados cardeais.

Durante esse encontro foi escolhido um de entre os 22 futuros cardeais para dirigir umas palavras ao Papa e ao resto dos presentes. Adivinhem que foi o escolhido?

O Arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan.

Coincidência? Não me parece.

Dolan é o general que comanda as tropas numa importantíssima batalha contra o presidente dos Estados Unidos pela salvaguarda da liberdade religiosa e pelo respeito que o Estado deve à consciência dos indivíduos e das instituições.

Com Dolan conseguiu-se o feito absolutamente inédito de todos, realço, TODOS, os bispos titulares de dioceses nos Estados Unidos terem-se manifestado publicamente contra uma medida de Obama que violava claramente essa liberdade religiosa. E quando digo todos, atenção que são 180!

O discurso de Dolan ontem foi centrado no tema da Nova Evangelização. Foi longo, e pode ser consultado na íntegra aqui, mas destaco apenas esta passagem, que me pareceu particularmente curiosa e pertinente e que Dolan atribui ao já falecido Cardeal Fulton Sheen: “A primeira palavra de Nosso Senhor para os discípulos foi ‘Vinde!’. A sua última palavra foi ‘ide!’. Não se pode ‘ir’ sem primeiro ter ‘vindo’ a Ele.”

Vale a pena ler o texto todo com atenção. Vale a pena estar atento a Timothy Dolan.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Consistórios, roubos e vigílias

Realiza-se amanhã o consistório no qual serão criados 22 novos cardeais. As notícias já começaram, com uma entrevista a D. Manuel Monteiro de Castro em destaque.

Durante o fim-de-semana a Renascença fará uma cobertura exaustiva do consistório, podem ir acompanhando as actualizações aqui. As notícias mais importantes serão destacadas no grupo Actualidade Religiosa do Facebook.

Por Roma por causa do Consistório os jornalistas da Renascença aproveitaram para conversar também com D. Carlos Azevedo. O bispo português diz que vai haver um “Átrio dos Gentios” em Lisboa.



Entramos em período de Carnaval, muitos pensam em festejar, mas alguns jovens universitários vão fazer missão para o interior.

E termino com a divulgação de dois eventos. Na próxima segunda-feira a Missão Mãos Erguidas convida para uma vigília de oração pró-vida, perto da Clínica dos  Arcos, em Lisboa. Já no dia 25 a associação Nós Somos Igreja vai realizar um debate sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, em Lisboa (perto da Igreja de Santa Isabel), com entrada livre e início às 15h15.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

God save the Queen e a barba de Matisyahu

Isabel II... e não Matisyahu
Antes de mais nada, o mundo pode dormir descansado… Matisyahu deixou crescer a barba outra vez! O judeu ortodoxo e estrela do reggae tinha chocado o mundo ao rapá-la em Dezembro. Agora está de volta, o que me deu uma desculpa para escrever sobre a complexa relação entre as religiões e as barbas!

O Patriarca de Lisboa anunciou hoje a “Missão Metrópoles” que decorre em simultâneo em 12 capitais europeias. Durante a Quaresma vai ser realçada penitência e as catequeses quaresmais.

Passou também a estar disponível em português o Site Oficial do YouCat, o catecismo para jovens da Igreja Católica.


E nos Estados Unidos soube-se que a embaixadora itinerante pela liberdade religiosa tentou viajar para a China mas foi-lhe recusado o visto! Obama está a ser novamente criticado por tentado abafar a situação…

Santa Barba!

Matisyahu antes e depois

Em Dezembro foi com espanto que se soube que Matisyahu, o artista judeu ortodoxo de Reggae, tinha rapado a barba. Especulou-se sobre as implicações religiosas de tal acto, porque toda a gente sabe que um verdadeiro judeu ortodoxo pode sempre ser identificado pela sua barba.

Mas os judeus não estão sós neste fascínio por assuntos capilares. Várias são as religiões que regulam detalhadamente as barbas ou os cabelos dos seus crentes.

Entre as religiões que dão preferência a barbas encontramos também o Islão, mas com uma particularidade. Maomé terá dito que o bigode deve ser aparado, mas alguns interpretam isso como significando que se deve cortar totalmente o bigode, enquanto outros afirmam que isso é estritamente proibido e que se deve apenas aparar.

A situação é tão séria que no Irão o Governo publicou um manual com exemplos de cortes de cabelo e estilos de barba que são “islamicamente” aceitáveis.


Entre as culturas orientais a barba é frequentemente um símbolo de dignidade e sabedoria. A tradição passou para as religiões também. Os Sikhs, por exemplo, recusam cortar o cabelo e consideram que a barba é um símbolo da sua masculinidade e dignidade.

Este conceito passou também para o jainismo, outra religião do subcontinente indiano, mas já entre o hinduísmo não há uma corrente única. Algumas correntes ascetas proíbem a posse de bens, o que inclui lâminas, mas outras exigem caras rapadas como símbolo de limpeza.

Um fiel da religião Sikh
Também os rastafáris, uma religião que nasceu na Jamaica e que mistura conceitos cristãos, judaicos e um messianismo negro, proíbem que se corte quer o cabelo como a barba.

No Budismo, embora haja alguma liberdade, a tradição mais generalizada é de rapar não só os pelos faciais como todo o cabelo também.

E quanto ao Cristianismo? Depende da geografia.

No ocidente há uma longa tradição, herdada do império romano, de ausência de barbas. A razão é que a barba seria considerada um adorno, um sinal de vaidade, que se devia evitar a todo o custo. Por isso, embora hoje em dia não seja obrigatório, os clérigos cristãos de tradição ocidental tinham a tradição de não deixar crescer a barba.

No oriente, porém, é diferente. Aí a barba é um adereço obrigatório para os clérigos. A razão é que rapar a barba é considerado um sinal de vaidade… tudo depende da perspectiva! Essa tradição ainda é largamente respeitada, sobretudo nas igrejas ortodoxas.

Monges cristãos ortodoxos
Mas este fascínio por barbas tem às vezes efeitos inesperados, até no campo legal.

Nos Estados Unidos já se registaram vários casos de conflitos laborais e judiciais. Foi o caso de um bombeiro a quem foi ordenado que rapasse a barba para poder caber a máscara de oxigénio ou de um guarda-prisional Sikh que teve de ir a tribunal para poder guardar a dele, uma vez que era considerado um risco para a segurança.

Entre os Amish, uma confissão cristã anabaptista que enaltece a não-violência e evita o uso de tecnologia, tem sido um assunto particularmente complexo. Recentemente uma das comunidades sofreu uma dolorosa disputa na qual uma das facções adoptou o hábito de cortar as barbas dos seus adversários enquanto dormiam, para os humilhar…

Os Amish, curiosamente, não cortam a barba a partir do dia em que casam, mas uma vez que há uma longa tradição militar associada aos bigodes, estes são proibidos por causa dos princípios de não-violência.


O assunto também é melindroso nas prisões americanas, mas aí afecta sobretudo rastafarianos. Em vários estados a lei obriga a que os reclusos tenham o cabelo curto, sobretudo para evitar esconder objectos perigosos, mas como os “rastas” não podem cortar o cabelo tem havido casos de prisioneiros que passam anos em solitária.

E tudo isto a propósito de quê?

Ah, é verdade! Podem respirar de alívio. Contrariando os rumores de que tinha abandonado a sua fé, Matisyahu colocou ontem uma fotografia on-line onde se vê claramente que a sua famosa barba está de volta!


A nova barba de Matisyahy,
para sossego dos seus fãs

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As fugas no Vaticano, baronesas muçulmanas na Santa Sé

Hoje é Quarta-feira, logo há um novo artigo de The Catholic Thing no blogue. Robert Royal analisa a “guerra” entre Obama e os bispos católicos, e não poupa o Presidente.

D. Jorge Ortiga alertou hoje para o risco de “ruptura social”, por causa da crise. Ontem, na mesma linha, D. José Policarpo pediu aos católicos para serem “voz de esperança”.

Fartos de fugas de informação, a sala de imprensa da Santa Sé emitiu um comunicado em que diz que o objectivo é desacreditar os responsáveis da Igreja. O alvo poderá mesmo ser o Cardeal Bertone, como já tinha indicado aqui.

Ainda pelo Vaticano, está lá uma delegação britânica chefiada por uma baronesa muçulmana que ontem fez fortes críticas ao secularismo militante.

Os Kachin (na foto), que são uma minoria étnica cristã no Myanmar, estão a ser duramente perseguidos pelo Governo.

O que nos vale é que alguém se lembrou de vender terra do Muro das Lamentações no eBay. (O rabino responsável pelo local não está contente!)

Do nada, nada virá

Zero.

Foi esse o número de reuniões que a Administração de Obama teve com os bispos americanos antes de anunciar a sua “acomodação” na passada Sexta-feira, segundo alguns dos bispos envolvidos no processo.

É uma forma estranha de procurar chegar a um meio-termo com alguém.

Por isso não foi com grande surpresa que quando a fraude foi anunciada os bispos cedo perceberam que a sua capacidade de chegar a um acordo com o Presidente era precisamente a mesma que a acomodação que ele lhes tinha mostrado: Zero.

O Presidente Obama parece acreditar que os católicos na América são estúpidos e cobardes. É a única maneira de explicar esta sua manobra mascarada de tolerância. A julgar por algumas sondagens até é capaz de ter alguma razão no que diz respeito à estupidez – mesmo entre alguns católicos. Mas devemos dar crédito aos bispos: o Presidente mostrou a mão (ou a pata fendida) e eles não estão a medir as palavras nem a fugir à luta.

Têm razão em fazê-lo por uma questão de princípio, claro. Mas também podem ter a certeza que está em jogo uma ameaça prática e política para o Obama. Via-se na sua fúria mal contida e na sua arrogância durante o anúncio: aqui estava um homem claramente zangado por ter sido obrigado a dar a aparência de estar a recuar de uma política que mesmo alguns dos membros do seu círculo de conselheiros e os seus fãs liberais na imprensa têm tido que dizer que é simplesmente errado.

Muitos têm observado que ele escusava de se ter colocado nesta posição. Mas estão enganados, como ficou claro pela forma como o Presidente fez a sua declaração.

A posição dos bispos está bem fundada em termos legais. A liberdade religiosa é um direito básico garantido pela Primeira Emenda da Constituição. Há muito que é um dos princípios de que os americanos se orgulham. Somos um país que, nas palavras de George Washington na Sinagoga de Touro, em Newport, Rhode Island “não dá assistência nem à perseguição nem à intolerância”.

George Washington
Obama, por outro lado, abriu o seu discurso a falar do “direito fundamental” das mulheres a cuidados de saúde, incluindo contracepção, pílulas do dia-seguinte abortivas e esterilização. Ah, e as mulheres têm direito a tudo isto sem quaisquer custos, porque o presidente proíbe as seguradoras de cobrar. Havia algum direito mais fundamental que a liberdade religiosa na Constituição, mais “primeira” que a Primeira Emenda, pela qual ninguém tinha dado até Sexta?

Se confiarmos meramente nas palavras de Obama, há. Ele, e quem o apoia nesta questão, introduziram um novo trunfo constitucional resultante de décadas de “emanações e penumbras” a justificar a contracepção, o aborto e a interpretação mais radical dos direitos das mulheres.

Só que aquilo que em tempos era considerado uma manobra legal tornou-se agora um princípio central de interpretação constitucional. Dessa perspectiva, qualquer pessoa ou qualquer grupo, como por exemplo as igrejas, que interfira com os novos direitos fundamentais é sectário, às margens da sociedade americana.

Obrigado a escolher entre a Primeira Emenda e um novo direito gerado de atitudes sociais para com as mulheres, Obama escolheu tomar o partido das senhoras.

Muitos comentadores seculares já tinham dito, antes desta controvérsia, que Barack Obama se sente limitado no Governo desta nação moderna pelas restrições excêntricas de um documento do século XIX. Um documento cujo propósito principal é dificultar a vida a quem queira tiranizar a sociedade. É esse o significado de viver num Estado de Direito e de governar com limitação de poderes.


E foi esse documento que o ex-professor de direito constitucional jurou preservar, proteger e defender quando se tornou Presidente dos Estados Unidos.

Deixemos de parte, por um momento, a controvérsia moral sobre os procedimentos médicos. Alguém imaginaria, há apenas algumas décadas, que um Presidente dos Estados Unidos (ou o seu Secretário de Saúde e Serviços Humanos – um departamento que não está previsto na Constituição), poderia sequer pensar em dizer às seguradoras privadas aquilo que devem cobrir nos seus planos de saúde e obrigá-las a cobrir alguns serviços “grátis”? E logo os mais controversos.

Esse é o principal problema por detrás do Obamacare. Alguns de nós tentaram fazer ver isso aos bispos durantes os debates sobre a “reforma” do sistema de saúde no congresso. Já nessa altura era claro que poderia ser possível retirar o aborto temporariamente e tecnicamente da proposta só para vê-lo voltar rapidamente e de forma permanente, juntamente com outros aspectos questionáveis, mal o Governo federal tomasse conta da situação.

É encorajador ver que a nossa hierarquia compreende agora, de forma mais profunda, aquilo que está em jogo nesta luta à volta do sistema de saúde. Se a controvérsia – que tão depressa não vai desaparecer – levar a uma reflexão melhor dos americanos não só sobre a liberdade religiosa mas sobre o tamanho e o alcance do Estado, ainda bem.

Porque não é só o sistema de saúde que está a ameaçar tornar-se uma função do Governo federal. Cada vez mais a educação e o cuidado pelos pobres – duas áreas que não constam dos poderes atribuídos ao Governo Federal – estão também eles a tornar-se exclusivos do Estado.

Quando todas as escolas, hospitais, universidades e agências de socorro aos necessitados forem geridos pelo Governo – e não, como é a tradição americana, por associações da sociedade civil, como igrejas ou outras fontes independentes – não será de admirar que muitas pessoas passem a pensar e a comportar-se como forem mandadas. Já começou, entre católicos tanto como entre a população em geral.

Estas são as ameaças fundamentais à liberdade que culminam em revoltas civis e revoluções. Deus guarde a América de tudo isso.

Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 13 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O São Valentim dos clérigos? Igreja avisa políticos na Grécia

Na Sexta Obama cedeu, porém não convenceu. Os bispos não aceitam a nova proposta de Obama. Esta intransigência do episcopado é um erro? Analiso a questão aqui.

Durante o fim-de-semana o Papa falou da crise na Síria e no Tibete mais uma monja imolou-se pelo fogo. Tinha 18 anos.



A Igreja Ortodoxa Grega alerta para a “impaciência do povo”. Em entrevista à Renascença um jovem bispo descreve o sentimento da população.

Uma excelente notícia: Apesar da crise, nunca a campanha de Natal da Renascença recebeu tantas contribuições! As conferências vicentinas agradecem, certamente.

Bispos ganham batalha, conseguirão ganhar a guerra?


Há várias considerações a tecer sobre esta disputa que se mantém entre a Conferência Episcopal Americana e a administração de Barack Obama. Vejamos alguns pontos.

Segundo uma fonte da administração, citada há uma semana pelo New York Times, a decisão de não dar direito de objecção de consciência às instituições religiosas (como hospitais ou universidades, uma vez que as igrejas propriamente ditas estavam abrangidas por este direito), foi assumida pessoalmente por Obama. O que é que lhe passou pela cabeça?

Não estava certamente à espera da reacção que os bispos tiveram. Mas já lá vamos. Mais preocupante é a forma como o presidente revelou que acha mais importante o livre acesso, gratuito, a métodos contraceptivos e nalguns casos abortivos, do que à liberdade religiosa e de consciência das religiões, das suas instituições e mesmo das pessoas que partilham das suas convicções. Quando os católicos (e não só, é certo) falam de uma cultura da morte, não se referem a uma qualquer ideia vaga e abstracta, mas sim a medidas concretas como esta.

Mas vejamos a reacção dos bispos. Magnífica, é tudo o que se pode dizer. Quer se concorde com o princípio ou não, foi magnífica. E foi tanto mais surpreendente porque foi inédita. No próprio dia 20 de Janeiro, quando a administração anunciou que não ia respeitar a liberdade de consciência das instituições, os bispos estavam prontos e a partir daí falaram com força e firmeza e a uma só voz.

Quem é o responsável por isto? É o arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan, actual presidente da Conferência Episcopal americana e, dentro de cinco dias, cardeal. Dolan é superiormente inteligente, tem fantástico sentido de humor, lida bem com a imprensa e é organizado.

No dia 23 de Fevereiro, foi publicada uma entrevista com o responsável pelo Ordinariato Pessoal para ex-anglicanos nos EUA, Jeffrey Steenson. O ex-bispo anglicano, que agora é padre católico e tem assento na Conferência Episcopal, tinha isto a dizer sobre essa experiência: “Uma das diferenças que vejo é que existe uma unidade entre os bispos católicos muito superior ao que vi entre os bispos episcopalianos [anglicanos]. Isso marcou-me, sentia que existia um consenso maior para as questões importantes. Mais, a Conferência Episcopal tem o Dolan – Nunca vi um homem a dirigir uma reunião com a eficiência dele. Fiquei arrasado com a sua qualidade. Nunca vi nada do género, a qualquer nível”.


Recordem bem este nome. Timothy Dolan. Vai longe.

Na Sexta-feira passada Obama cedeu. Perante a avalanche e com medo dos efeitos que este problema pode ter sobre a sua recandidatura, propôs um compromisso.

Os bispos não foram na conversa e prometem continuar na luta. Mais, não mostraram grande esperança numa maior flexibilidade de Obama, preferindo realçar que vão desafiar o decreto nos tribunais e no Congresso.

Na sexta-feira os bispos tiveram uma importante vitória. Obrigar o presidente dos Estados Unidos a ceder num assunto que é claramente prioritário para ele, é obra. Mas a partir daqui a questão pode não ser tão simples, a decisão de continuar a luta é natural (afinal, é uma questão moral na qual a Igreja não pode ceder), mas pode acabar por ser prejudicial para a imagem dos bispos.

Em parte porque com a cedência de Obama várias pessoas ficaram satisfeitas. O que até agora era uma coligação que incluía os bispos católicos e ortodoxos, mais uma boa parte da direita evangélica e ainda várias instituições liberais, vai ficar reduzida e por conseguinte perderá força. Ou seja, a imagem que poderá passar dos bispos é de meninos embirrentos que recusam um compromisso e querem ter tudo à maneira deles. Pode não ser a imagem verdadeira, mas para o efeito desta análise é indiferente e pode levar a que os bispos percam a guerra depois de terem vencido a batalha.

Naturalmente isto joga-se também a nível político. O ataque inicial de Obama à liberdade religiosa continuará a ser usado como arma contra ele. Terá perdido alguns votos, certamente, mas com a sua “cedência” espera ainda recuperar essa desvantagem. Inteligentemente, Obama cedeu um bocado sem ceder tudo. Deu imagem de flexibilidade e pode agora aproveitar a imagem de inflexibilidade dos bispos e dos seus adversários.


Claro que há ainda a possibilidade de Obama perder as eleições e o próximo presidente revogar o decreto em causa. Isso seria então uma vitória por “knock-out” dos bispos, mas não é de todo provável. De resto, é até natural que o Supremo Tribunal acabe por declarar o decreto inconstitucional, mas isso levará anos.

Mas não é este mesmo o drama que a Igreja enfrenta quando se mete na coisa pública? É que a Igreja não faz política. As concessões morais e o jogo dos compromissos e das cedências não é o ambiente em que os bispos se sentem mais à vontade, nem devia ser. Mas num assunto como estes em que a opinião pública tem muito peso isso acaba sempre por ser um factor.

Os próximos meses dirão como é que este assunto se desenrola, mas os bispos continuam a ter uma arma formidável que Obama não deve subestimar. Chama-se Timothy Dolan.


Filipe d'Avillez

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Conspirações, conclusões e campeões

Dolan obriga Obama a desviar-se



Ontem terminou em Roma o simpósio sobre abusos sexuais. O padre Manuel Morujão dá conta das conclusões.

A Paróquia de Arroios lançou um livro chamado “Sentimentos de uma Vida”, sobre o problema dos idosos. E por amanhã ser Dia do Doente, a Renascença foi falar com um capelão hospitalar que diz que “Morre-se mal em Portugal”.

Amanhã faz também cinco anos do referendo que legalizou o Aborto em Portugal. Os números dão conta de 80 mil abortos praticados nesse período. Entretanto o Ponto de Apoio à Vida aproveita para inaugurar amanhã a sua nova sede. Conheça aqui o trabalho do PAV, vale a pena ouvir a reportagem completa.

E quanto a mim toda esta história da conspiração para matar o Papa não passa de um esquema para desviar as atenções do que é verdadeiramente importante. Os padres portugueses são campeões europeus de futsal!

Partilhar