quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Corpus Christi e a Realidade

Depois de ter lido o meu artigo sobre Hegel, um amigo protestante, que recentemente se reformou de uma universidade no Leste dos Estados Unidos, disse que a minha curta referência a algo que o filósofo tinha dito sobre a Eucaristia e a Real Presença talvez precisasse de ser clarificada. Esta Solenidade de Cristo Rei, que foi instituída em 1925 em resposta ao crescente secularismo, parece-me um dia adequado para reflectir sobre este assunto.

A minha referência foi a uma palestra de Hegel sobre filosofia da religião, na qual criticou a doutrina católica da transubstanciação, levando um aluno católico a denunciá-lo às autoridades. Hegel tinha feito uma piada de mau gosto, perguntando se os católicos seriam obrigados a adorar um rato caso este consumisse uma hóstia consagrada.

Hegel respondeu às autoridades públicas que era um protestante a leccionar em Berlim protestante, lidando com uma religião que era inimiga do tratamento “científico”. Para além disso, tinha estado a falar apenas num sentido “indeterminado e hipotético” e não se devia esperar que apresentasse a doutrina católica de forma acrítica nas suas exposições filosóficas. (Não tenho conhecimento de qualquer outro incidente nos seus ensinamentos que tenha causado consternação aos católicos.)

O meu amigo comentou que eu tinha dado a impressão de que os luteranos não acreditam na Presença Real e recordou que Lutero tinha discordado fortemente de Zwingli, Calvino e outros reformadores, que interpretavam a Eucaristia como uma presença espiritual, ou um mero memorial – por outras palavras, Jesus não estava fisicamente presente.

É verdade. Lutero não concordava com a posição católica de que a Eucaristia deixava de ser pão e vinho, transformando-se no corpo e sangue de Cristo. Mas Lutero mantinha que Cristo estava substancialmente presente, juntamente com o pão e o vinho. Por vezes chamou-se a isto “consubstanciação”, por contraste à doutrina católica da “transubstanciação”.

Não sei dizer se a interpretação luterana implica a crença numa presença física, mas parece-me mais próximo da interpretação católica do que muitas interpretações protestantes. A Eucaristia, pelo menos entre as igrejas luteranas mais “altas”, não é apenas um encontro de “recordação da Ceia do Senhor”.

A sucessão apostólica é um factor aqui: Lutero, um padre católico validamente ordenado, poderá ter tido o poder de consagrar, desde que tivesse a intenção certa, apesar de não acreditar em alguns elementos da missa. Mas à medida que os seus seguidores e os outros reformadores aumentaram de número, produzindo diversas interpretações do sacerdócio e do episcopado (quando acreditavam sequer nestes conceitos), qualquer rasto de sucessão apostólica terá desaparecido – ao contrário das Igrejas Ortodoxas e possivelmente, por algum tempo, a confissão anglicana.

Cristo, sendo filho de Deus, não tem qualquer problema em estar verdadeira e substancialmente presente sob a aparência do pão e do vinho. Tal como a Sabedoria Divina, ele delicia-se “junto aos filhos dos homens” (Provérbios 8,31). Os seus anos passados na Galileia não foram suficientes; Ele quer, (qual extremo extrovertido) ter um encontro pessoal com cada pessoa. Se, como Lutero insistia, somos salvos unicamente pela fé, então a crença católica na Presença Real é talvez a mais alta expressão de fé.

No Evangelho de São João (6, 53-54), Jesus diz: “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós (…) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” Essa afirmação de uma necessidade (com as suas notas de canibalismo) levou muitos dos seus seguidores a abandoná-lo. Mas muitos outros permaneceram, possivelmente conscientes do privilégio de estarem vivos para ver um dos factores distintivos do Messias prometido. Em Mateus (13,16-17), Jesus realçou esse privilégio: “Muitos profetas e homens justos desejaram ver as coisas que vocês vêem, e não viram”.



E nós, que passados dois mil anos, não tivemos essa sorte? Poderemos dar por nós a pensar, em alguns momentos, “se ao menos tivesse tido essa oportunidade, e esse encontro pessoal, como a minha vida seria diferente”.

Mas estaríamos enganados. Na última ceia Ele colocou todos os seus futuros seguidores ao mesmo nível que os discípulos, dando-lhes a Eucaristia. Eles poderiam entrar na sua presença com a mesma facilidade da mulher que o abordou e tocou no seu manto (Mc. 5,28), ou do apóstolo João, que se reclinou sobre o seu peito (Jo. 13,25), ou Tomé, tocando-lhe as feridas com mãos trémulas depois da Ressurreição (Jo. 20,27).

Há santos que foram abençoados de forma especial quando recebiam a Comunhão, vendo ou ouvindo verdadeiramente o Senhor. (Os católicos, como outras pessoas, podem ter experiências religiosas). Mas a maioria de nós, a maior parte das vezes, não sente qualquer presença especial.

Mas acham que os seus apóstolos, durante a sua vida pública, sentiam alguma aura especial quando se aproximavam dele? Houve algumas excepções, em que permitiu que a sua divindade se manifestasse de forma sensível: aos presentes aquando do seu baptismo por João (Mt. 3,17); a Pedro, Tiago e João na Transfiguração (Mt. 17,5) e quando os seus captores foram atirados ao chão pelo poder da sua presença (Jo. 18,6).

Na maior parte das vezes, contudo, tal como nós, os seus contemporâneos não sentiram uma presença sobrenatural, embora as suas palavras e obras os tenham fascinado.

Independentemente de nós, passados dois mil anos, sentirmos de forma sobrenatural a presença do Senhor na Eucaristia, esta oferece-nos a mesma oportunidade que tinham os contemporâneos de Cristo: podermo-nos aproximar de Jesus, tornando-nos aptos a algumas das mudanças espirituais que o Filho de Deus pode operar secretamente nos mais profundos santuários das nossas almas.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no domingo, 24 de Novembro de 2013)

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