terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Evangelização

Pode parecer estranho estar a dedicar uma secção à evangelização quando a exortação é precisamente sobre a evangelização. Em todo o caso, estas passagens pareceram-me particularmente interessantes.

Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo». (#7)
Isto é fundamental e dou graças a Deus por Francisco o ter incluído logo ao início. A grande novidade do Cristianismo no mundo é esta. Relação. Uma relação com um Deus que é Ele mesmo relação entre Pai, Filho e Espírito Santo. O Cristão é criado por relação para relação e não (apenas) para cumprir rituais e seguir regras. Quem não entende isto, quem não vive isto, está longe, muito longe de casa.

A proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina (#11)
Precisamente por ser relação, Deus não pode ser reduzido a fórmulas e preceitos. Tentamos fazê-lo à nossa própria conta e risco. Tentar escrever sobre evangelização sem deixar estes aspectos claros seria inútil. Evangelizar é comunicar. O que é que queremos comunicar? Isto.

Agora, sim, podemos avançar.

Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas «por atracção» (#14)
Quantas vezes olhamos para a evangelização pelas lentes do gosto. “Eu não gosto muito de evangelizar... não tenho muito jeito. Há quem goste mais”, ou “Eu não tenho interesse em ouvir essa mensagem, não é o meu género”.

Mas aqui o Papa explica que a evangelização deve ser vista por outra lente. Dos direitos e dos deveres. Os cristãos têm o dever de evangelizar e os não-crentes, ou não cristãos, têm o direito de ouvir a Boa Nova. Claro que todos somos dotados de liberdade, somos livres de ignorar esse dever, e livres de não aproveitar o nosso direito. Mas por este prisma fica claro que um homem que vive nesta Terra e morre sem ter sido exposto à Boa Nova de Jesus Cristo é um homem injustiçado. E se era nosso dever dar-mo-la a conhecer e não o fizemos, poder-nos-ão ser pedidas contas disso mais tarde. Medo.

Convém ser realistas e não dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fascínio. (#34)

Uma vez ouvi o cónego João Seabra a dizer que quando uma pessoa está fraca e com fome, devemos dar-lhe um bife. Se lhe dermos uma vaca, de fome morrerá. Quantas vezes não atiramos vacas a quem nos pede bifes? Não é fácil perceber a medida daquilo que o outro aguenta, mas mais vale dar pouco e ir aumentando do que dar tudo de uma vez.

Quantas vezes não vimos pessoas que estão a começar a aproximar-se da Igreja serem acusadas por outras de não serem verdadeiramente cristãs porque ainda não cumprem com tudo ou ainda não conhecem tudo? O que nos leva ao seguinte ponto...

Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. (#44)
Temos noção do peso disto? Basicamente isto quer dizer que o filho pródigo agradou mais a Deus no momento em que decidiu afastar-se da pocilga, ainda longe de chegar a casa, do que o irmão mais velho o tempo todo que lá esteve.

Ainda não? Usemos um exemplo mais radical. O Papa está a dizer que um homossexual, por exemplo, que decide abandonar uma vida de promiscuidade por uma relação monógama, agrada mais a Deus do que alguém que vive uma vida pacata e feliz, num casamento harmonioso, mas que nunca tem de se preocupar com nada. Não... não significa que Deus se contente com esse pequeno primeiro passo. Deus quer que demos todos os passos, até à santidade. Nem quer dizer que a nossa vida pacata e o nosso casamento harmonioso são coisas más, não são. Quer apenas dizer que se calhar devíamos olhar com outros olhos os desgraçados dos pecadores que nos rodeiam, só isso.

Em todo o caso, lá somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. (#86)
Eu li a exortação em inglês e no inglês esta passagem é bem mais bonita, porque fala de “fontes de água vivas” [isto é, a fonte é que é viva e não a água] e não de “homens-cântaro”. Mas independentemente disso, a imagem é fortíssima. No deserto espiritual que é a nossa sociedade, nós, que temos fé, somos fontes de água para os nossos irmãos? Ou somos ilhas?

Jesus cura um cego
Entretanto o Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. (#88)
Mais uma vez, relação. O Cristianismo não se vive à distância, exige contacto, exige proximidade. Já pensaram que praticamente todos os milagres de Jesus são operados em proximidade? Há excepções. O servo do soldado romano é salvo à distância... talvez tenha sido apenas para que percebamos que Jesus era capaz. Mas de resto, Jesus desloca-se sempre, vai ao encontro, toca, põe a mão, beija. O Cristianismo é relação e é, sobretudo desde a Encarnação, relação humana. E os homens não se relacionam sem se tocarem.

Jesus não diz aos Apóstolos para formarem um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus diz: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (#113)
Contentamo-nos com os nossos movimentos, os nossos grupinhos, os nossos bandos de amigos correligionários? Também eu. Mas não é suposto ser assim. Desinstalemo-nos.

Se um texto foi escrito para consolar, não deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi escrito para exortar, não deveria ser utilizado para instruir; se foi escrito para ensinar algo sobre Deus, não deveria ser utilizado para explicar várias opiniões teológicas; se foi escrito para levar ao louvor ou ao serviço missionário, não o utilizemos para informar sobre as últimas notícias. (#147)
Este é um caso em que gostaria mesmo que o Papa tivesse dado algum exemplo concreto. Citar a Bíblia é fácil, mas sabemos que é possível encontrar citações para justificar muita coisa e os seus opostos. Aqui é necessária muita formação, em primeiro lugar para os padres mas também para os leigos.

É incrível como quando ouvimos uma passagem do Evangelho “descascada”, bem explicada, tudo muda. Quantas vezes não lemos passagens e o verdadeiro sentido está a passar-nos ao lado?

Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar» (#164)
“ama-TE”,”TE salvar”; “conTigo” “TE iluminar...”. Um Deus pessoal. Um Deus de cada um de nós. Não uma força abstracta, não uma energia que dá equilíbrio ao universo. O nosso Deus é um Deus pessoal e esse é talvez o maior legado que o Judaísmo deixa ao mundo.

Desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária. (#200)
Nunca é demais dizê-lo. A Igreja existe para isto. Para evangelizar e comunicar Cristo e levá-lo aos outros.

Não podemos ser cristãos e evangelizar sem nos comovermos com a pobreza material, com a fraqueza, com a fome, com a sede, com o cativeiro. Mas o grande tesouro que temos não está nos cofres do Vaticano, é Jesus Cristo. Tão só e mais nada.

É que vestir os nus, alimentar os famintos, dar de beber a quem tem sede etc. é tudo muito bonito, mas se não for acompanhado do nome diante do qual todos os joelhos dobram, da água e do pão que matam a sede e a fome eternamente, então não é Cristianismo.


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