domingo, 22 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Os Ricos

"For he had great possessions", Watts (detalhe)
Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns actos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. (#188)

É preciso recordar-se sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a humanidade, e que o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente. É preciso repetir que «os mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros». (#190)

A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios. (#218)
Aqui a palavra “apropriação” poderia dar a ideia de que o Papa está a falar para os corruptos, mas penso que não é o caso. Ele está a falar para quem, de facto, tem mais que os outros. Bastante mais. E a mensagem, parecendo evidente, não deixa de ser significativa. Homem rico: Não contestamos o teu mérito, não contestamos a legitimidade do que é teu. Mas o que é teu não é só para ti e quando o partilhas não é apenas magnanimidade da tua parte. É tua obrigação, porque a vida, e uma vida digna, do teu vizinho pobre, tem prioridade sobre os teus bens e a tua propriedade privada e até da tua tranquilidade.

A solidariedade é uma reacção espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. (#189)
Para quem acusava o Papa de ser marxista, este parágrafo não podia ser mais claro.

A Igreja reconhece o direito à propriedade privada, ao contrário do marxismo, mas reconhece-a com certos limites e como instrumento para melhor alcançar aquilo que está consagrado na doutrina social da Igreja: O destino universal dos bens.

Ou seja, propriedade privada; riqueza privada; sim. Mas não como fins em si mesmos. Isso é que é crucial perceber.

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1 comentário:

  1. Caro Filipe, permita-me uma pequena observação. Nenhuma pessoa séria disse que o Papa é marxista. Simplesmente, está à vista de todos que o Papa também não é incisivo na hora de condenar o marxismo de forma vigorosa e sem margem para dúvidas. Pelo contrário, parece demasiado conivente, ao dizer que conheceu marxistas que eram boas pessoas (isso é argumento?). Com palavras delicadas não admira que muitos tenham esperança de ver nele um revolucionário de esquerda para o século XXI. Enfim, quanto à falta de rigor das palavras que ele utilizada para criticar a concorrência e o mercado livre (que não existe no sistema actual...existe, isso sim, intromissão estatal, proteccionismo, regulação por compadrio), isso é indicutível. Mas uma Exortação é apenas isso. Uma Exortação... Nenhum católico é forçado a concordar absolutamente com ela.

    Ricardo

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