domingo, 22 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Para Mim

Por fim, nesta série de textos, abordo as passagens que me tocaram mais directa e profundamente, por diversas razões.

Quando se procura ouvir o Senhor, é normal ter tentações. (#155)
A Igreja não fala o suficiente disto e penso que faz mal.

Uma das grandes surpresas deste pontificado tem sido a insistência de Francisco em falar de Satanás. Pois se ele existe, não pára quieto e as pessoas que mais gosta de desviar são aquelas que estão a voltar a face para Deus, a iniciar uma caminhada de regresso a casa. Imagino apenas as vezes que ele deve ter sussurrado ao ouvido do filho pródigo que o exercício de regressar à casa do pai era em vão! Os obstáculos que não deve ter lançado no caminho!

Os cristãos têm o direito de saber que é precisamente quando começam a tentar melhorar a sua vida, a viver mais próximos de Deus, que o demónio ataca com mais força, que o caminho de repente parece mais íngreme, que as tentações sobejam e tudo parece mais difícil.

Se assim fossem avisados e se percebessem que diante dessas tentações não devem desesperar mas antes gloriarem-se de serem merecedores de tal atenção do inimigo de Deus, então talvez encontrassem forças para combater com mais ferocidade. Talvez percebessem que quando sucumbem a algumas dessas tentações – e sem dúvida a algumas irão sucumbir – não devem desesperar, mas sim levantar-se e combater de novo.

Triste a vida do homem que não é tentado. É sinal que nem o demónio se digna a lutar pela sua miserável alma.

Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo eclesiais. (#201)
De toda a exortação apostólica, esta foi a passagem que mais me custou a ler. E ainda custa. Porque nela me revejo inteiramente e sinto vergonha e sinto que tenho de fazer algo para mudar. Obrigado Francisco.

Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo. (#270)
Não sei se é da tradução, mas eu adoro a palavra “maravilhosamente” aqui. “Complica-se maravilhosamente”, não há melhor expressão para a experiência cristã.

Estávamos nós tão bem nas nossas vidinhas quando veio este tal Jesus Cristo e olhou-nos, e tocou-nos, e falou-nos... e as nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Complicaram-se. Sim. Mas complicaram-se maravilhosamente!

Nunca nos podemos esquecer que o nosso Deus é um Deus flagelado, que gritou e sangrou e caiu e enlameou-se e foi furado com uma lança. O nosso é um Deus que não se coibiu de sofrer a maior das indignidades. Quem somos nós para virar as costas ou ter nojo das chagas dos nossos irmãos? Quem somos nós para tapar o nariz quando o sem-abrigo entra na nossa carruagem do metro? Quem somos nós, que nos alegramos por termos sido salvos por um homem que tentaram apedrejar, para atirar pedras aos incompreendidos ou aos verdadeiramente maus dos nossos dias?

Não podemos. Não podemos, graças a Deus. É verdade que ter de olhar nos olhos ao mendigo, mesmo que seja para lhe dizer que hoje não há nada para dar, pode ser complicado. Mas é uma maravilhosa complicação. Graças a Deus.

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