quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Non Habemus Papam


A partir deste preciso momento, a Igreja Católica passou a estar em estado de Sede Vacante. Veja aqui o que isso significa e o que se segue. O padre João Seabra também dá uma ajuda nas dúvidas mais práticas.

Foi um dia emocionante. Bento XVI despediu-se dos cardeais, jurando obediência incondicional ao próximo Papa e à tarde deixou o Vaticano, em direcção a Castel Gandolfo, onde ainda se dirigiu aos fiéis que se acumularam na praça. Os seus planos para o futuro ficaram claros: “Vou ser um peregrino na última etapa da peregrinação na Terra”.

Nestes dias foram muitos os portugueses que foram a Roma. Conheça aqui alguns deles.


Não foi hoje que soubemos quem será o próximo Patriarca de Lisboa. Essa tarefa ficará para o próximo Papa, o que faz de D. José Policarpo, a partir de agora, o mais velho Patriarca católico em funções.

Luis Antonio Tagle

Nascido: 21 de Junho de 1957
Ordenado padre a 27 de Fevereiro de 1982
e bispo a 12 de Dezembro de 2001
Arcebispo de Manila, nas Filipinas, o cardeal Luis Antonio Tagle é actualmente uma figura muito popular na Igreja.

Tagle combina um estilo carismático com uma forte preocupação pelos desfavorecidos mas também um rigor doutrinal que no curto espaço de tempo desde que foi nomeado arcebispo já teve de condenar publicamente os esforços do Governo de introduzir medidas de incentivo à contracepção. Tomou também posições públicas contra o ateísmo, a eutanásia e o aborto. Já se pronunciou vigorosamente contra a prostituição, também, que considera uma afronta à condição feminina.

Conhece bem o Papa Bento XVI, com quem serviu na Comissão Teológica Internacional a partir de 1997 e tem também um vasto conhecimento da teologia do Concílio Vaticano II, tendo feito a sua tese de doutoramento sobre o conceito de colegialidade episcopal e tendo colaborado na produção de uma série de volumes sobre a História do Concílio Vaticano II. Em público o cardeal já afirmou que está em linha com a visão de Bento XVI de que o concílio não constituiu uma ruptura com a tradição da Igreja, mas que deve ser lido em continuidade com esta. Este foi um ponto que Bento XVI se esforçou muito por divulgar durante o seu pontificado.

Luis Tagle esteve presente no sínodo da Nova Evangelização, o último grande evento internacional a ter lugar no Vaticano antes da resignação de Bento XVI, e as suas intervenções deixaram uma excelente impressão junto dos restantes participantes.

Em relação a um dos grandes desafios que a Igreja enfrenta actualmente, Tagle já avisou os seus colegas bispos asiáticos para não pensarem que os abusos sexuais praticados por clero são apenas um problema ocidental. Participou num encontro dedicado à análise deste problema que teve lugar no Vaticano em Fevereiro de 2012.

Ao longo do último ano o nome de Tagle tem sido mencionado várias vezes enquanto possível sucessor de Bento XVI, mas a resignação do Papa alemão poderá ter comprometido essas possibilidades, uma vez que aos 55 anos o filipino é ainda muito novo, mais até do que era João Paulo II quando foi eleito. Tagle é mesmo o segundo mais novo de todo o colégio cardinalício.

O facto de ser asiático é uma significativa vantagem, e sendo filipino é uma segurança, visto que se trata do maior país católico da Ásia. Ainda assim, muitos dos cardeais que gostam do seu perfil saberão que muito provavelmente Tagle ainda terá pelo menos mais uma oportunidade para ser eleito, tendo em conta a sua idade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Adeus Bento XVI

Foi um dia muito emocionante, este, em que Bento XVI se despediu dos católicos.

Amanhã ainda haverá uma audiência com cardeais mas a maioria de nós não o voltará a ver tão cedo. Muitos portugueses não quiseram perder a oportunidade de dizer este último adeus, e ouviram o Papa falar português, talvez pela derradeira vez.

Tem havido muitos elogios ao gesto do Papa. Já eu disse, desde o início, que por princípio não gostava da decisão. Hoje, contudo, fiz as pazes com Bento XVI.


Ontem por engano disse que o Cardeal “do dia” era Timothy Dolan, quando na verdade era Sean O’Malley. Por isso se não o foram conhecer mais de perto, não percam a hipótese, porque é um homem muito interessante! Já o Cardeal de hoje, também americano, é Donald Wuerl.

Hoje, como terão reparado, não houve novidades quanto ao Patriarca de Lisboa. Amanhã é o último dia para este Papa nomear um sucessor. Se não o fizer D. José Policarpo torna-se, a partir das 19h, o Patriarca católico mais velho em funções!

Donald Wuerl

Nascido: 12 de Novembro de 1940
Ordenado padre a 17 de Dezembro de 1966
e bispo a 6 de Janeiro de 1986
Por inerência do seu cargo, o arcebispo de Washington D.C., capital dos EUA, tem de enfrentar muitas questões em que a política e a religião parecem entrar em conflito. Nos últimos anos, à medida que tem crescido um ambiente de conflito entre liberais e conservadores que tem repercussões tanto na política como na vida da Igreja, Donald Wuerl tem tido que tomar muitas posições a esse respeito.

O arcebispo tem sido firme na defesa dos valores cristãos e católicos. Recentemente manifestou-se contra a legalização do “casamento” entre homossexuais, chegando ao ponto de dizer que a alteração do conceito tradicional de casamento colocava em risco a prestação de serviços sociais por parte da diocese. A lei foi aprovada à mesma, e a maioria dos serviços continuou, mas as agências de adopção católicas, por exemplo, fecharam por se recusarem a considerar casais homossexuais para adopção.

Noutras questões Wuerl tem sido menos rigoroso que alguns dos seus colegas mais conservadores. No que diz respeito a dar a comunhão a católicos que defendem publicamente ideias contrárias à fé católica, como por exemplo políticos que sejam a favor do aborto, Wuerl tem sido moderado, dizendo que a Igreja prefere procurar convencer as pessoas do que fechar-lhes as portas.

Esta atitude, bem como uma relutância pública em relação ao rito tridentino, valem-lhe a desconfiança de muitos conservadores mais tradicionalistas.

Pelo contrário, a forma como tem agido em relação ao escândalo de abusos sexuais tem sido muito positiva e louvada desde que chegou a Washington. O arcebispo tem deixado claro que a principal responsabilidade da Igreja é para com as vítimas, depois para com as famílias das vítimas e só em último lugar deve estar qualquer preocupação com a reputação da Igreja.

Em vários casos o arcebispo conseguiu reduzir ao estado laical padres acusados de cometer abusos na sua diocese, incluindo numa instância em que para o fazer teve de contrariar pessoas no Vaticano que estariam a tentar proteger o sacerdote em causa.

Há, contudo, algumas acusações contra a actuação do mesmo arcebispo aquando do seu tempo à frente da diocese de Pittsburgh, que todavia não parecem ter levado a qualquer intervenção por parte das autoridades.

Apesar de Wuerl só ter sido elevado ao colégio dos cardeais em 2010, este será o seu segundo conclave. Isto porque o então padre Wuerl era secretário pessoal de um cardeal americano aquando do conclave que elegeu João Paulo II e, nessa altura, foi-lhe permitido acesso ao conclave para poder empurrar a cadeira de rodas do cardeal.

Wuerl é certamente uma figura a ter em conta neste conclave, onde participam 11 cardeais americanos, mas não é provável que o arcebispo de 72 anos seja eleito.

Cargos e Envelhecimento

Randall Smith
Talvez seja por me ter convertido em adulto, mas não estou tão chocado como a maioria das pessoas pela resignação de Bento XVI. Na verdade é o choque delas que me choca mais.

O Papa Bento XVI limitou-se a enfrentar um problema que nós, na América, nos temos recusado a enfrentar. Apesar de dizermos que conseguimos alargar o tempo médio de vida, o que de facto conseguimos foi anular muitas das coisas que matam a maioria das pessoas antes de chegarem aos oitenta ou noventa anos.

Por isso, em vez de morrer rapidamente de pneumonia, tuberculose ou AVC, como acontecia no passado, hoje os idosos vão vivendo, embora com capacidades cada vez mais reduzidas, por muitos anos. Por um lado isto é uma bênção, mas por outro é um desafio.

Quando se estabeleceu pela primeira vez o sistema de Segurança Social a idade a partir da qual se começava a receber subsídios era 65, porque os homens naquela altura morriam por volta dos 63. A Segurança Social era entendida como uma “rede de segurança” para apanhar aqueles que viviam até bem depois da reforma e da “garantia natural” da produtividade humana. A intenção nunca foi de criar um subsídio de reforma por 25 anos, que é aquilo em que se tem tornado. A nossa incapacidade de lidar com este facto conduziu à quase bancarrota do sistema.

Da mesma forma, não sabemos bem o que fazer com as nomeações vitalícias para o Supremo Tribunal. O que é que se faz quando um juiz se recusa a partir, apesar de já estar demasiado velho para desempenhar a sua função? Consta que nos últimos anos do juiz Marshal os seus colegas concordaram que não o deixariam ser o voto decisivo em casos importantes para que mais tarde esses votos não pudessem ser considerados “ilegítimos” por causa das suas capacidades diminuídas.

A veracidade do boato é-me indiferente, o que quero dizer é que temos um problema que nos recusamos a enfrentar. Os cargos vitalícios faziam sentido quando os seus ocupantes morriam no espaço de meses depois de terem sido atingidos por uma maleita mortal. Agora, graças a Deus, temos a capacidade de viver até mais tarde, gozando longos anos com os nossos netos, e sobrevivendo como pilares de sabedoria para a sociedade. Mas isso não significa que seremos todos capazes de desempenhar as funções inerentes aos nossos ofícios (sendo que “officium” é latim para “dever”).

Lembro-me, quando era mais novo de ouvir falar de importantes cardeais a morrer em plenas funções aos 65 ou 68 anos. Hoje em dia pede-se aos bispos que apresentem as suas resignações aos 75. E os cardeais, independentemente da sua idade ou sabedoria (penso por exemplo nos últimos anos do Cardeal Dulles), não podem votar no Conclave depois dos 80 anos. Esta política sempre me pareceu prudente. É evidente que nalguns casos, como do Cardeal Dulles, perdemos votos importantes, mas há outros que provavelmente deviam ser dispensados dessa obrigação. Será o Papa a única figura eclesiástica que está isenta das dificuldades do envelhecimento? É evidente que não.


Os fiéis estão habituados a ter os seus “antigos” bispos e arcebispos a circular pela diocese, a celebrar missas e a aparecer em público, fazendo discursos. Alguns deles, como o meu amado bispo emérito John D’Arcy, que morreu recentemente, estão também a combater os efeitos debilitantes de doenças como o cancro. Homens destes merecem ser dispensados da atenção constante dos media e têm direito a alguma paz enquanto entram no processo de morrer. Porque sejamos honestos: é isso que lhes espera – e a nós também.

Na Idade Média os sábios escreviam tratados sobre a ars moriendi, a “arte” de morrer e morrer bem. Não tinha nada a ver com as doses certas de veneno a tomar, era sobre como preparar-se a si e aos seus durante os últimos meses e dias de vida para poder enfrentar o Criador face a face.

Não se tratava de uma preparação que pudesse ser alcançada durante um seminário de fim-de-semana ou um churrasco. Era preciso oração, muita oração, um ofício no qual não há profissionais e no qual poucos são peritos. Os monges não precisam de reforma. Mas para pessoas que vivem o tipo de “vida activa” de que tanto nos orgulhamos, e que tiveram poucos momentos na vida para acalmar a mente e ficar na presença de Deus, a velhice era o tempo ideal para se habituarem à prática.

Em contraste, no mundo moderno, adoptamos a frase que Dylan Thomas escreveu ao seu pai, no seu leito da morte: “Rage, rage against the dying of light. / Do not go gentle into that good night”. Em vez de acompanhar os nossos idosos, com amor, no seu processo de morte, insistimos que se comportem como “yuppies” produtivos, ou então escondemo-los para que morram sozinhos e longe da vista. A nossa é uma cultura verdadeiramente cruel.

O Papa está no processo de morrer, e tudo o que algumas pessoas conseguem fazer é pensar sobre como a sua partida para uma vida de oração e preparação para esse momento vai afectar a política deste reino efémero que julgamos ser tão importante.

Bento XVI serviu-nos bem e sabiamente. Aguardo ansiosamente mais um ou dois livros, se for esse o seu desejo e o de Deus. Que possa retirar-se e descansar em paz. E que os católicos de todo o mundo se virem novamente para aquele que é o seu protector em tempos de dificuldade: Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, que continuará a guiar a sua Igreja, como sempre fez.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 24 de Fevereiro 2013 em http://www.thecatholicthing.org/)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Papa emérito, Patriarca à espera

Bento XVI diz adeus aos seus sapatos encarnados...
Aproxima-se o fim do pontificado de Bento XVI, estamos a cerca de 48 horas. Hoje ficámos a saber que depois das 20h de dia 28 ele passará a ser conhecido como Papa Emérito e deixará de usar os sapatos encarnados tão característicos…

Quanto ao Conclave, novidades, em princípio, só no dia 4 de Março. Os cardeais podem reunir logo a partir de Sexta mas, em princípio, só o farão na Segunda. Até lá, esperar.

Entre esses cardeais estará o Arcebispo de Nova Iorque, Timothy Dolan. É ele o Cardeal escolhido para analise mais cuidada no blogue, hoje. Dolan já partiu para Roma e deixou um pedido aos seus fiéis: “Se não voltar antes de Domingo de Ramos, mandem manteiga de amendoim, porque lá não há”. E agora fiquei com fome…

Caso não tenham reparado, hoje foi um dia muito importante para o episcopado português. D. José Policarpo e D. Januário Torgal Ferreira fazem anos, e são datas especiais! D. Januário, que foi ontem entrevistado na Renascença, faz 75 e acredita que o seu substituto só virá com a nomeação do novo Papa. Já o Patriarca chega hoje ao fim do prazo de dois anos de “extensão” que o Papa lhe concedeu para o seu episcopado e espera, a qualquer momento, a nomeação do seu sucessor. Não se preocupem que quando houver novidades serão dos primeiros a saber!

Sean O'Malley

Nascido: 29 de Junho de 1944
Ordenado padre a 29 de Agosto de 1970
e bispo a 2 de Agosto de 1984
Em 2003 o bispo Sean O’Malley recebeu das mãos de João Paulo II uma das missões menos invejáveis que é possível imaginar: chefiar uma grande e influente diocese americana que estava totalmente falida e dilacerada por causa de um enorme escândalo de abusos sexuais.

O’Malley, que já tinha feito os possíveis para ultrapassar escândalos semelhantes noutras dioceses por onde tinha passado, tem por isso excelentes credenciais no que toca a lidar com aquele que é provavelmente o mais complicado problema que a Igreja tem de enfrentar actualmente. Em Boston o Cardeal instaurou uma política de tolerância zero para com padres suspeitos de abusos sexuais, acabando com a prática de encobrimentos que foi uma parte tão grande do escândalo até então. Criou também políticas globais para lidar com situações que pudessem surgir entretanto, que são consideradas pioneiras.

Numa medida que lhe garantiu a simpatia de muitos fiéis, O’Malley não hesitou em vender o palácio episcopal para ajudar a pagar as indemnizações às vítimas, tendo-se mudado para um pequeno quarto no seminário da diocese.

Em reconhecimento desse facto, Sean O’Malley foi um dos bispos encarregados de levar a cabo uma visitação apostólica à Igreja irlandesa para tentar averiguar as raízes do escândalo sexual que também abalou a credibilidade dessa igreja.


Foi na Irlanda que O’Malley teve um gesto simbólico muito forte, ao prostrar-se no chão diante de um altar despido, juntamente com o arcebispo de Dublin, Cardeal Martin, em Fevereiro de 2011. Depois os dois arcebispos lavaram os pés a oito vítimas de abusos sexuais.

O’Malley começou a sua vida sacerdotal como monge capuchinho e está fortmente imbuído da espiritualidade franciscana. Aquilo que lhe falta em experiência na curia romana, onde nunca viveu, tem em experiência missionária, tendo trabalhado nas Ilhas Virgens Americanas, com sem abrigo e vítimas de HIV.

No único livro que tem publicado em Portugal, “Anel e Sandálias” (Paulinas), escreve sobre a aparente contradição entre ser monge e bispo: “As sandálias e o anel tornaram-se os símbolos de uma vocação de frade capuchinho chamado a servir como bispo, uma combinação incómoda. Ser franciscano quer dizer procurar o último lugar à mesa e ser o menor dos irmãos. A função de Bispo na Igreja é de autoridade apostólica e de paternidade. Ser ao mesmo tempo o irmão mais pequeno e o pai é um verdadeiro desafio. Não sei se tenho tido sucesso num ou noutro desempenho, mas sei que estou grato a Deus pelo privilégio destas duas vocações”.

Interessantemente, O’Malley é também um grande amigo e admirador de Portugal. Tem um doutoramento em literatura espanhola e portuguesa, trabalhou com a comunidade portuguesa na diocese de Washington e visita frequentemente o país, onde ainda tem bons amigos.

Muitos cardeais hesitam perante a possibilidade de eleger um Papa de uma superpotência mundial, mas com a sua humildade franciscana O’Malley é tudo menos o estereótipo do americano arrogante. Acresce que O’Malley simplesmente não é muito conhecido na Igreja Universal e, como é natural, a maioria dos cardeais irá votar em alguém que conhece bem. Por outro lado o conhecido vaticanista John J. Allen Jr, escreveu no dia 19 de Fevereiro um artigo no qual afirma que O’Malley tem estado a tornar-se um nome cada vez mais repetido, e em termos elogiosos, tanto no Vaticano como na imprensa italiana, o que é muito importante.

O Cardeal americano tem 68 anos, uma idade que se enquadra bem no perfil de Papa mais novo que muitos cardeais têm dito que faz falta agora em Roma.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Mais um Patriarca em Sófia, menos um Cardeal no Conclave

Estão a ser dias muito difíceis para a Igreja Católica. Hoje as alegações de conduta imprópria, de natureza sexual, fizeram mais uma vítima. O Cardeal Keith O’Brien, de Edimburgo, resignou hoje e já afirmou que não vai tomar parte no Conclave.

O número de cardeais no Conclave fica assim reduzido de certeza a 115 cardeais, sendo quase certo que mais um não participa por motivos de saúde. Há ainda a possibilidade de o Cardeal Mahony, envolvido na questão de encobrimento de padres abusadores, ceder à pressão e não participar, pelo que potencialmente serão só 113… e ainda faltam muitos dias!


Ainda por falar no Conclave, hoje olhamos mais de perto para Timothy Dolan, um dos meus favoritos, o que não quer dizer que ganhe porque, estranhamente, ainda ninguém me ligou de Roma para saber a minha opinião sobre o assunto… Se calhar lêem o blogue.

O Papa rezou o seu último Angelus na qualidade de Papa. Esteve presente uma multidão a quem ele garantiu que não está a abandonar a Igreja. Já hoje Bento XVI recebeu uma comissão que preparou um relatório sobre o Vatileaks. Ficou decidido que o relatório fica sob segredo pontifício e que apenas o próximo Papa o poderá ler… Resta dizer que os três cardeais que o prepararam já não têm idade para votar, mas participam nas congregações gerais de todos os cardeais já a partir de Sexta.

Passamos agora aos patriarcas. O de Lisboa, que amanhã completa 77 anos, fez ontem mais uma catequese quaresmal e na Bulgária, também ontem, foi eleito e entronizado o novo líder da Igreja Ortodoxa daquele país. O Patriarca Neofit (na foto) distinguiu-se dos seus colegas bispos, talvez por ser dos poucos que não era também informador da polícia secreta comunista…

Timothy Dolan

Nascido: 6 de Fevereiro de 1950
Ordenado padre a 19 de Junho de 1976
e bispo a 15 de Agosto de 2001
O Arcebispo de Nova Iorque é uma das figuras mais carismáticas de todo o colégio cardinalício.

Num país a braços com um escândalo de abusos sexuais, Dolan tem a grande vantagem de não estar manchado por qualquer suspeita e de ter tido palavras e acções significativas no sentido de limpar a imagem da Igreja e de mudar práticas para melhor lidar com o assunto.

Contudo, no dia 21 de Fevereiro surgiu uma notícia na imprensa a dizer que o Cardeal tinha sido interrogado no dia 20 por advogados a propósito de suspeitas de abusos sexuais que se terão passado em Milwaukee na altura em que era bispo daquela diocese. Não existe, contudo, qualquer indício de responsabilidade ou de más práticas neste momento.

O Cardeal viveu algum tempo em Roma, como prefeito do Colégio Americano, e fala por isso italiano mas não com a fluência que muitos esperariam para um Papa. Tem, obviamente, a vantagem de dominar aquela que é actualmente a língua mais importante do mundo, mas o dia-a-dia do Vaticano ainda decorre muito em italiano e isso pode ser uma desvantagem.

Uma das maiores armas de Dolan é o seu sentido de humor. Tem um à vontade com a imprensa, por exemplo, que é ímpar entre os outros cardeais e consegue apresentar os ensinamentos católicos de uma forma simples, simpática e divertida, mas ao mesmo tempo firme, que desarma facilmente os seus críticos e adversários.

Apesar do seu sentido de humor e ár divertido, Dolan é também um líder formidável. Os seus pares americanos estão satisfeitíssimos com a sua liderança da conferência episcopal. Ao longo dos últimos anos conseguiu unir totalmente os bispos, sem excepção, num duro conflito com a administração de Barack Obama por causa da insistência deste em obrigar as empresas, incluindo as católicas, a fornecer contraceptivos aos seus funcionários através dos seguros de saúde, obrigatórios ao abrigo do novo sistema de saúde conhecido como Obama Care.

Apesar de essa batalha não estar ganha, Dolan tem-se tornado um herói para os católicos praticantes nos EUA pela forma como a tem travado. Contudo, para os restantes cardeais, isso pode também ser visto como uma razão para não o retirar dos Estados Unidos, numa altura em que faz lá falta e pode, enquanto arcebispo de Nova Iorque, tomar posições e fazer afirmações que enquanto Papa dificilmente poderia fazer.

Com apenas 63 anos, Dolan é ainda bastante novo, este vai ser o seu primeiro conclave, e por isso alguns cardeais que simpatizam com ele poderão também pensar que ainda é cedo para ele assumir uma responsabilidade tão grande. Outros há que simplesmente se sentem desconcertados com o seu estilo à vontade e que sentem que lhe falta a seriedade para assumir uma posição desta importância.

Questionado por um jornalista sobre se poderia votar nele próprio, o Cardeal respondeu calmamente que não, porque não deixam entrar malucos no Conclave.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Afinal ninguém sabe de investigações!



Ontem e hoje surgiram revelações na imprensa italiana que dão conta de “lobbies” homossexuais na Curia romana, que poderão estar envolvidos no caso Vatileaks. Falo desse assunto aqui.

Na nossa senda de conhecer alguns dos mais interessantes cardeais deste conclave, e depois de Itália e África, vamos ao continente americano! Começamos por Marc Ouellet.

O Vaticano deu a entender que Bento XVI poderá ser tratado por Sua Santidade depois da resignação. Uma informação crucial para a mão-cheia de pessoas que o vai voltar a ver depois das 20h de dia 28, sem dúvida!


Atenção ao próximo módulo da Escola de Oração, basta clicarem na imagem para ver datas e horários!

Marc Ouellet

Nascido: 8 de Junho de 1944
Ordenado padre a 25 de Maio de 1968
Ordenado bispo a 19 de Março de 2001
No meio das especulações de que o próximo Papa seja de fora da Europa há quem defenda que os cardeais não queiram logo um candidato de um país em vias de desenvolvimento e que prefiram por isso um norte-americano. Há alguns candidatos fortes dos EUA mas muitos cardeais quererão evitar nomear um Papa de uma superpotência, sobretudo uma que é vista com antagonismo em muitas partes do mundo.

Nesse sentido um candidato canadiano poderá ser visto como uma boa solução, ainda por cima um canadiano que viveu muito tempo na Colômbia e que fala muitas línguas.

Mas não é só a geografia que joga a favor do Cardeal Ouellet. O cardeal vem da América do Norte, sim, mas é francófono. Teve experiência à frente de uma grande arquidiocese, do Quebeque, e por isso conhece como ninguém o secularismo agressivo que afecta tantas zonas do mundo ocidental.

Mudou-se para Roma em 2010 quando foi nomeado prefeito da Congregação para os Bispos, que trata da selecção e propõe ao Papa a nomeação de bispos para quase todo o mundo. Conhece por isso, melhor que ninguém, o episcopado mundial, e é muito influente em Roma.

Teologicamente é tido como conservador, considerando, como Bento XVI, que o Concilio Vaticano II tem sido interpretado de forma demasiado liberal, na linha de uma “hermenêutica de ruptura” e não de continuidade, como Bento XVI referiu várias vezes.

Em Junho de 2011, quando questionado sobre as perspectivas de poder eventualmente vir a ser Papa, Ouellet disse que a ideia era “um pesadelo”. É conhecido por ser humilde e uma pessoa aberta a ouvir opiniões de outros.

Poucos dias antes do Conclave, Ouellet deu nova entrevista em que reconheceu que é um dos "papabiles" mas considerou que não só havia outros em melhor posição, como havia cardeais que desempenhariam melhor o cargo.

"Não posso não pensar nessa possibilidade. Quando entrar no Conclave tenho de dizer a mim mesmo 'E se, e se...' Faz-me reflectir, faz-me rezar, faz-me algum medo. Estou muito consciente do peso desta tarefa", afirmou, citado pela Reuters.

Por fim, para todos os que estão a olhar para a fotografia dele e a pensar "eu conheço esta cara de algum lado...", sim, é igual ao Arménio Carlos da CGTP.

[Actualizado dia 5 de Março]

Oração, muita oração!

Clicar para aumentar
Por mais planeamento, inteligência, oratória e astúcia que as pessoas possam ter, a única maneira segura de combater o pecado é a oração. Neste momento precisamos, muito, de oração pela Igreja Católica. Aproximam-se grandes tempestades.

Vamos então ao facto antes de passar às conjecturas.

Factos:

1 - Depois do escândalo Vatileaks, o Papa nomeou três cardeais para compor um dossiê sobre o caso, para tentar chegar mesmo ao fundo da questão. Esse dossiê foi entregue a Bento XVI em meados de Dezembro. Está sob segredo pontifício.

2 – Esse dossiê foi elaborado pelos cardeais Julián Herranz, Salvatore De Giorgi e Jozef Tomko. O Papa pode decidir levantar o segredo pontifício antes de resignar, permitindo assim que o Conclave tenha acesso ao documento. Se não o fizer, estes três cardeais ganharão uma importância enorme nas congregações gerais que reúnem todos os cardeais durante a sede vacante, antes de começar o conclave, uma vez que terão acesso a informação que escapa aos seus pares. Nenhum dos três participa no Conclave, uma vez que todos têm mais de 80 anos.

3 – Ontem e hoje o jornal italiano La Repubblica publicou artigos de fundo sobre o dossiê e o seu conteúdo. O jornal não cita directamente do documento, mas cita fontes que diz que conhecem o seu conteúdo. É por isso que a partir de agora terminam os factos e começam as conjecturas.

Conjecturas:

1 – Segundo o La Repubblica o dossiê entregue ao Papa fala de um lobby homossexual dentro do Vaticano que terá sido responsável pelo roubo e divulgação dos documentos. O dossiê incluirá os nomes das pessoas envolvidas, bem como locais de encontro em Roma e arredores. Estas pessoas agiam, segundo as fontes do La Repubblica, sob “pressões externas”, o que se entende por chantagem. De facto não é difícil acreditar que padres ou bispos homossexuais que se exponham em locais de encontro como os que vêm descritos se estejam a colocar numa situação ideal para serem chantageados…

2 – O jornal italiano faz também alegações graves sobre o Banco do Vaticano e sobre o secretário de Estado, o Cardeal Tarcisio Bertone. Segundo o La Repubblica, Bertone terá boicotado todas as tentativas de “limpar” o banco e as finanças do Vaticano. O dossiê entregue ao Papa dirá mesmo que “qualquer pessoa pode lavar dinheiro” no Banco actualmente.

Minha análise:

Há homossexualidade na Igreja. A nível diocesano, a nível nacional e a nível internacional. É um facto que nos últimos anos houve escândalos de natureza homossexual envolvendo membros da Curia romana, e não, não estou a falar do actual escândalo envolvendo D. Carlos Azevedo. Esses escândalos foram públicos e levaram a demissões. Num caso há mesmo filmagens.

Apesar de a Igreja não condenar a homossexualidade, mas sim os actos homossexuais, durante o pontificado de Bento XVI a Igreja baniu do sacerdócio pessoas com orientação homossexual. É possível que haja casos de padres com orientação homossexual que conseguem viver a castidade e o celibato, mas a quantidade de casos de homossexuais “praticantes” no clero é perturbante. Não estou aqui a fazer uma ligação entre a homossexualidade e os casos de abusos sobre menores. Há quem diga que essa ligação existe, outros que não, mas para o caso não me interessa, os casos de escândalos por relações consensuais são suficientes.

Esta é uma praga que urge ser limpa. Acontece ser também uma das questões mais politicamente incorrectas do momento na nossa sociedade. Por isso, e caso tudo isto seja verdade, o próximo Papa terá de enfrentar uma decisão muito difícil: limpar a homossexualidade “militante” do seio da Igreja, incorrendo em acusações de homofobia, caça às bruxas e obsessão com a homossexualidade por parte de lobbies, governos e de uma sociedade em que cada vez menos pessoas percebem as objecções da Igreja em relação a esta prática; ou então não tocar no problema para evitar essa perseguição e deixar o cancro expandir.

Penso que a escolha é evidente. Mas não vai ser nada, nada bonito.

Precisamos muito de rezar pela Igreja e pela santidade dos nossos padres e bispos, incluindo o próximo bispo de Roma.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Fumo e fogo, de Roma ao Tibete

Clicar para ampliar



D. Carlos encontra-se agora em Roma, na Curia romana. Este escândalo, e as recentes criticas de Bento XVI podem levar muitos a crer que o Vaticano é um antro de intrigas. Um padre que vive em Roma garante, porém, que essa imagem não corresponde à verdade.

Os chineses não parecem muito preocupados com o facto de mais dois jovens tibetanos se terem auto-imolado em protesto. Já a “ingerência nos assuntos internos” do país, que inclui o Papa ousar nomear bispos católicos, é inadmissível!

Afinal o conclave poderá ter apenas 114 cardeais. Um já anunciou que não vai participar, outro não deverá recuperar a tempo e um terceiro está a ser pressionado para se baldar…

Entretanto vamos conhecendo melhor alguns dos cardeais que participam no Conclave. Hoje vamos para África ver mais de perto aquele que dizem ser o “candidato” mais forte deste continente, Peter Turkson.

Quer agradecer o ministério de Bento XVI? Há 400 mil cartazes a serem distribuídos pelo país. Mas se não encontrar nenhum pode sempre "sacar" a imagem deste post e imprimir.


Clicar para ampliar

Peter Turkson

Nascido: 11 de Outubro de 1948
Ordenado padre a 20 de Julho de 1975
e bispo a 27 de Março de 1993
Já no último conclave se falou da possibilidade de se eleger um Papa africano negro, uma vez que até já houve três papas da África do Norte, nos primeiros séculos da Igreja.

Desta vez, e sobretudo depois do fenómeno Obama nos Estados Unidos, as expectativas voltam a ser grandes e aquele que é visto como o principal candidato africano é Peter Turkson, actual prefeito do Pontifício Conselho para a Justiça e Paz.

Tendo em conta que muitos esperam um Papa novo, Turkson, com 64 anos, tem a seu favor o factor da idade.

Para além disso o cardeal tem experiência curial, residindo em Roma desde 2009 e sendo membro de sete congregações romanas, incluindo a Congregação para a Doutrina da Fé.

Mas Turkson tem ainda uma grande experiência pastoral, tendo sido Arcebispo de Cape Coast, uma das maiores cidades do Gana, e tendo acumulado o trabalho num seminário com o de pároco antes de ser bispo. Fala também várias línguas, incluindo italiano, inglês, hebraico, alemão e francês.

Ao contrário da Europa, onde o Cristianismo está em recuo, a Igreja em África está em franca expansão, mas este é também um continente onde existe um grande potencial para conflito entre muçulmanos e cristãos. Nesse aspecto Turkson também tem factores a seu favor uma vez que tem membros da família que são muçulmanos. Do ponto de vista ecuménico também pode ser um candidato a ter em conta, devido ao facto de a sua mãe ser metodista. Mas estas credenciais foram prejudicadas durante o sínodo para a Nova Evangelização, em 2012, quando o cardeal mostrou aos seus pares um vídeo do YouTube, alegadamente sobre “demografia islâmica”, que tem sido denunciada como sendo incorrecto, alarmista e discriminatório.

Doutrinalmente seguro, Turkson agrada também àqueles que dão mais importância a questões de justiça social, devido ao trabalho que tem desenvolvido à frente do Conselho Pontifício a que actualmente preside. Contudo, os seus apelos à criação de uma autoridade global financeira causaram desconfiança em muitos sectores.

Num tema muito polémico, por exemplo, o cardeal tem demonstrado firmeza doutrinal mas também abertura pastoral. Questionado sobre o uso de preservativos para combater a Sida em África, Turkson repetiu o ensinamento católico mas disse que poder-se-ia abrir excepções em casos de casais em que um dos membros está infectado, para prevenir contágio. Disse também, contudo, que a aposta em preservativos para combater a doença era um perigo uma vez que a qualidade geral dos preservativos em África é baixo, pelo que se poderia estar a fomentar um clima de falsa confiança, e que o dinheiro gasto em contraceptivos seria mais bem aproveitado para fornecer medicamentos retrovirais para quem já está infectado.

Poucos dias depois do anúncio de Bento XVI, Turkson deu uma entrevista à CNN em que disse que não era provável que o escândalo dos abusos sexuais se espalhasse em África da mesma forma que se espalhou no ocidente, porque em África a cultura não aceita bem qualquer forma de relacionamento homossexual. Sendo verdade que a maioria dos casos de abusos sobre menores na Igreja é de natureza homossexual, praticados por homens sobre crianças, as declarações do cardeal foram interpretados por alguns como querendo estabelecer uma ligação entre a orientação homossexual e a pedofilia.

Entretanto, uma coisa é certa: Se Peter Turkson for eleito Papa os teoristas da conspiração terão um autêntico festival, uma vez que segundo a profecia de São Malaquias o último Papa deve chamar-se Pedro e, de acordo com a lista de Papa da profecia é chegado agora o momento de eleger o último…

[Um leitor avisou-me que tinha colocado Cape Town em vez de Cape Coast. Agradeço o reparo, já foi corrigido]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre as acusações de abusos na Igreja portuguesa

[Desde que escrevi este texto algumas pessoas sugeriram que ele poderá dar a entender que D. Carlos Azevedo é suspeito de abusos sobre menores, ou pedófilia. Não é o caso, não o queria dar a entender e espero, com esta nota, que isso fique claro. Peço desculpa pelas confusões que poderei ter originado]

Hoje surgiu mais uma acusação grave contra um membro da Igreja, envolvendo comportamentos sexuais desordenados.

Quando Catalina Pestana falou na existência de alguns casos de abusos sobre menores, praticados por membros do clero, ouviu-se de tudo. Desde que ela estava velha e senil, que era tudo uma campanha contra a Igreja orquestrada pelos media, etc.

Acontece é que as denúncias de Catalina Pestana são bastante credíveis. A de hoje, sobre D. Carlos Azevedo, também é.

Amar a Igreja é amar e servir a verdade na Igreja. Toda a gente tem direito à presunção da inocência, mas não fazemos favores a ninguém atacando os mensageiros nestes casos concretos.

Não está a acontecer em Portugal nada que não tenha acontecido já em vários outros países. Aprendamos com os erros dos outros. Se os bispos o tivessem feito, estes problemas não seriam o que são hoje.

Devemos rezar pelos nossos pastores, diáconos, padres e bispos. Rezar por eles e pedir a Deus que purifique a sua Igreja. Ela sairá deste pântano mais pura e limpa. É essa a nossa fé.

CRONOLOGIA DAS ACUSAÇÕES DE ABUSOS NA IGREJA PORTUGUESA

Cardeais, balas e jejum

O Vaticano voltou a dizer hoje que o Conclave pode ser antecipado, começando por isso antes de dia 15 de Março.

Na Renascença tivemos uma sessão de perguntas e respostas com Aura Miguel e o cónego João Aguiar (na foto). Muitas das suas dúvidas poderão estar respondidas aqui.

O Patriarca de Lisboa foi ontem à RTP 1 e falou de vários assuntos, incluindo a crise na Europa.

No blogue continuamos a dar a conhecer alguns dos cardeais a ter debaixo de olho no Conclave. Hoje encerramos o lote de italianos com o arcebispo de Génova, o Cardeal Angelo Bagnasco.

Ainda pensa que o jejum só existe para poder dar esmolas e repartir comida com os pobres? Não é que isso não seja importante, mas há muito mais a saber sobre esta antiga prática cristã. Saiba mais no artigo desta semana de The Catholic Thing.

Angelo Bagnasco

Nascido: 14 de Janeiro de 1943
Ordenado padre a 29 de Junho de 1966 e
Bispo a 7 de Fevereiro de 1998
O Cardeal Bagnasco é arcebispo de Génova. É considerado um conservador e, desde 2007, preside à Conferência Episcopal Italiana, uma posição que lhe dá grande influência junto dos seus compatriotas.

Aos 70 anos parece ter uma idade adequada para ser elegível.

Durante a sua carreira académica Bagnasco foi professor de filosofia e de “Ateísmo contemporâneo” o que o deixa bem equipado para enfrentar um dos grandes desafios que se colocam à Igreja actualmente no mundo ocidental.

Nos últimos anos Angelo Bagnasco tem sido uma das vozes mais firmes do episcopado italiano contra o aborto e o “casamento” entre homossexuais, por exemplo. As suas declarações mereceram-lhe críticas severas da parte de activistas homossexuais e chegou a receber várias ameaças de morte, incluindo embalagens no correio com munições, ao ponto de a polícia de Génova ter destacado um agente para o proteger.

Apesar da firmeza demonstrada na defesa da doutrina católica, o facto de já acarretar tanta inimizade por parte de sectores fora da Igreja poderá ser um factor de alarme para os outros cardeais.

Quaresma: Em Direcção ao Deserto

por David G. Bonagura Jr.
O deserto é o local mais árido e estéril do mundo. Falta-lhe as duas fontes necessárias para que haja vida: água e vegetação. Tem pouca população e não poupa a ninguém. É um local vazio de esperança e que recorda a morte. É o sítio ideal para passar a Quaresma.

Todos os anos, em imitação de Nosso Senhor, retiramo-nos para o deserto durante 40 dias – uma época litúrgica consagrada à conversão pessoal e à preparação da celebração dos grandes mistérios da nossa redenção. Mas porque deve a nossa contemplação da esperança final ser precedida de seis semanas num lugar sem esperança? Como é que um local destes pode cultivar a fé?

A resposta encontra-se no outro grande mistério que conduziu à Encarnação e que foi derrotado na Páscoa: o pecado. “O deserto,” escreveu o Papa Bento XVI, “imagem que se opõe ao jardim, torna-se local de reconciliação e cura”. A morte – simbolizada pelo deserto – é a consequência do pecado, o resultado de nos escolhermos a nós sobre Deus.

Para que a reconciliação com Deus tenha lugar, a morte tem de ser vencida. O pecado tem de ser expiado. Para que isso se realize, “Deus o fez pecado por nós” – entrou no deserto – “para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus.” (2 Cor 5,21)

Redimidos pelo sacrifício de Cristo, temos ainda assim que esforçar-nos para ultrapassar o pecado que está presente nas nossas vidas. Este desafio, que dura toda a vida, ganha um novo ímpeto na Quaresma, quando recorremos à arma especial do jejum para “despir-vos do homem velho, corrompido por desejos enganadores [e] revestir-vos do homem novo, que foi criado em conformidade com Deus, na justiça e na santidade”. (Ef. 4, 22-24)

“O Jejum”, como explica o pai fundador do Movimento Litúrgico, Dom Prosper Guéranger, “é uma abstinência que o homem se impõe voluntariamente como expiação do pecado”. O pecado traz a dor e a morte ao corpo e à alma, por isso é só quando a alma arregimenta a força do corpo para combater o pecado através do jejum que o pecado pode ser vencido.

A suprema expiação do pecado levou o Filho inocente de Deus a sofrer a mais dura dor no seu corpo e na sua alma, sobre a Cruz. Em imitação de Cristo, o jejum também nos causa dor no corpo e na alma.

Aqui se encontra o paradoxo do pecado e, simultaneamente, o coração da nossa observância quaresmal. Embora tenhamos sido criados em amor por Deus, para gozar dos frutos da terra, estes frutos podem consumir-nos e tornar-se, inclusivamente, objectos de orgulho e de pecado, como ficou demonstrado pelos nossos antepassados no jardim. Ao renunciar temporariamente a estes frutos através do jejum, oferecemo-nos para sofrer a sua ausência na nossa carne, como forma de atacar o pecado.

O jejum acarreta sofrimento, mas, tal como a dor que sentimos quando fazemos exercício físico, é mesmo esse o objectivo. E tal como com o exercício, quanto mais dor sofremos por Deus, maiores os ganhos espirituais.

O deserto é, por isso, o lugar certo para a Quaresma não só porque representa o sofrimento e as consequências do pecado, mas também porque é um local de abstinência dos frutos da terra. Quando nos retiramos espiritualmente para o deserto, o vazio que lá encontramos recorda-nos que, no fim de contas, os frutos da terra não nos podem satisfazer. A nossa verdadeira satisfação é Deus, que na ressurreição nos conduz do deserto para o paraíso eterno.

Mas a nossa observância quaresmal é desafiada por um mundo que abandonou o deserto espiritual em favor de um falso jardim, cheio de tantas atracções que estas se tornaram distracções. A constante percolação de responsabilidades, distracções e brinquedos electrónicos contribuiu para empurrar a nossa fé para as margens da vida. Desistir de comer chocolate ou de ver televisão durante a Quaresma tornou-se apenas mais uma coisa no meio de um dia cheio de ocupações em vez de um acto particular que manifesta uma disposição quaresmal compreensiva, centrada em Deus e na conversão.

Antigamente a sociedade civil e a Igreja ajudavam-nos neste período ao contribuir para o deserto espiritual. Constantino proibiu os exercícios militares à sexta-feira, Teodósio suspendeu os processos judiciais, Eduardo o Confessor proibiu o porte de armas. Divertimentos públicos acabavam, bem como o desporto e a caça. A Igreja exigia um jejum rigoroso durante os 40 dias da Quaresma e proibia a celebração de casamentos cristãos.

Esses tempos já passaram e não vão regressar tão depressa. Cabe-nos a nós, crentes e peregrinos espirituais, o desafio de criar os nossos desertos espirituais por entre todas as distracções. Podemos imitar os nossos antepassados católicos e tornar a Quaresma mais do que apenas o sacrifício de um alimento de que gostamos: podemos tornar o deserto, com toda a sua aridez, o local a partir do qual vemos a nossa vida e as nossas acções. Ao jejuar de comida e abster-nos de entretenimento todos os dias da Quaresma, unimo-nos a Cristo na sua Paixão, dolorosa mas esperançosamente conscientes que para se chegar ao Domingo de Páscoa é preciso passar pela Sexta-feira Santa.

“O salário do pecado é a morte” (Rom 6,23) e a morte é o castigo por excelência. Só podemos combater e expiar os pecados que cometemos se nos permitirmos experimentar a morte através do jejum. Numa divina ironia, a esterilidade do deserto é terra fértil para o nosso arrependimento do pecado e renascimento na Ressurreição. Só podemos percorrer o caminho para a cura e a reconciliação se primeiro passarmos pelas tribulações do deserto.


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013 em http://www.thecatholicthing.org)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Cardeais a conhecer e o maior aplauso do mundo

Aproxima-se um Conclave e é natural que nos questionemos quem será o próximo Papa. No blogue comecei a analisar alguns cardeais. Não digo que sejam “os” candidatos ou não, são simplesmente aqueles que devemos ter debaixo de olho… Ontem publiquei o perfil de Angelo Scola e hoje o de Gianfranco Ravasi.

Estamos já em contagem decrescente para o fim do pontificado de Bento XVI e recuperados do choque inicial vários grupos começam a organizar homenagens. Destaco o maior aplauso do mundo!


Fala-se muito na possibilidade de um Papa africano. Falámos com um bispo africano que diz que a proveniência é indiferente, mas D. Ildo Fortes gostava que fosse um homem mais novo.

Entretanto o Papa ainda não resignou, nem deixou de trabalhar. Ontem decidiu enviar representantes para conhecer a situação dos refugiados sírios na Jordânia.

Parabéns ao Passo-a-Rezar, que completou três anos no fim-de-semana e já vai em cinco milhões de downloads!

Gianfranco Ravasi

Nascido: 18 de Outubro de 1941, Lecco, Itália
Ordenado padre a 28 de Junho de 1966 e bispo a 29 de Setembro de 2007
Continuamos a conhecer alguns dos cardeais que vão participar no conclave em Março. Depois de Angelo Scola olhamos para outro italiano mencionado como "papabile".

O Cardeal Ravasi tem sido uma estrela em ascensão nos últimos anos no Vaticano e Bento XVI tem dado provas continuadas de confiança nele, ao ponto de o ter escolhido para pregar o seu retiro quaresmal o que, dado o anúncio da sua resignação, colocará o cardeal bem no centro das atenções.

Ravasi tem-se tornado a grande figura da Igreja no diálogo com a cultura. Pode-se dizer que está para a Igreja Universal como o padre José Tolentino Mendonça para a Igreja portuguesa, pelo menos por enquanto... Ou seja, é um homem de cultura e erudição invulgares, com uma oratória cativante e apaixonante que é aceite e respeitado em meios tradicionalmente mornos ou mesmo hostis à Igreja.

Aos 70 anos este italiano enquadra-se na idade que muitos cardeais estão a dizer que querem para o futuro Papa.

Contudo, apesar de ser uma das figuras mais mediáticas da Igreja actualmente, Ravasi não deverá ter grandes possibilidades de ser eleito Papa. Para começar há indícios de que não é unânime entre os cardeais italianos, cujo apoio seria fundamental ter. Há, também, alguns que consideram que a sua ascensão tem sido um bocado rápida de mais e é-lhe apontada alguma falta de experiência, sobretudo pastoral mas mesmo dentro da cúria romana, uma vez que praticamente só desempenhou cargos ligados à cultura.

Em português estão editadas pelo menos cinco obras suas: “Breve História da Alma”, “O que é o Homem”, “Via Sacra no Coliseu com Bento XVI”, “Um Mês Com Maria - 31 Imagens Bíblicas” e “Os Rostos de Maria na Bíblia”.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Cardeais a ter "debaixo de olho" - Angelo Scola

Angelo Scola
Nascido: 7 de Novembro de 1941, em Itália
Ordenado padre a 18 de Julho de 1970 e bispo a 21 de Setembro de 1991
Ao longo das próximas semanas vou publicar aqui textos sobre alguns dos cardeais que vale a pena ter debaixo de olho neste conclave. Incluo aqueles que são tidos como "candidatos" e outros de particular interesse. Todos sabemos que "quem entra no Conclave como Papa, sai como Cardeal", mas em todo o caso existe claramente um lote que tem maiores probabilidades que outros. Proponho apenas conhecerem-nos melhor.

Historicamente há duas grandes dioceses conhecidas por fornecerem Papas: Veneza e Milão contribuíram, juntas, cinco pontífices nos últimos dois séculos.

Foi por isso muito significativo que Bento XVI tenha nomeado para arcebispo de Milão o então Patriarca de Veneza, Cardeal Angelo Scola.

Há quem tenha interpretado a mudança como um claro indicador por parte de Bento XVI de que era este o homem que lhe deveria suceder.

Scola é um homem da confiança de Bento XVI e é membro do movimento Comunhão e Libertação, que tem ganho muita influência ao longo dos últimos anos em Roma.

Há mais uma série de características que poderão jogar a seu favor no conclave. Scola tem apenas 71 anos, pelo que não sendo novíssimo, é definitivamente mais novo do que Bento XVI era quando foi eleito. Para além disso mistura experiência académica, curial e pastoral.

Ainda novo foi um dos colaboradores da revista “Communio”, juntamente com nomes de peso como Henri de Lubac, Hans Urs Von Balthazar e... Joseph Ratzinger. Fundou também o boletim “Oasis”, que aborda o Médio Oriente e contribui para o conhecimento do Islão e do Cristianismo daquela parte do mundo. Pastoralmente tem tido atitudes de abertura para com os divorciados e recasados, convidando-os a frequentar as igrejas e a aproximarem-se do altar para receber uma bênção especial, embora não possam comungar.

A questão do amor conjugal tem sido objecto da sua reflexão e o único livro que tem editado em português é sobre este assunto: “Homem – Mulher”. Nas palavras da editora portuguesa: “Partindo das origens do sentimento amoroso e das suas raízes católicas, o autor disserta, neste livro de cariz essencialmente teológico, sobre a essência deste sentimento e a importância que nele assumem a partilha, a aceitação das diferenças entre os sexos e a inerente procriação, salientando permanentemente a complementaridade entre o Homem e a Mulher.”

Em 1986 começou a colaborar com a Congregação para a Doutrina da Fé, como consultor, um posto que ocupou até 1991, quando foi nomeado bispo de Grosseto.


Em 1995 voltou para Roma para servir como reitor da Universidade Lateranense e desde então esteve muito envolvido na cúria romana, fazendo parte da Congregação para o Clero, a Congregação para a Família, a Congregação para a Cultura e ainda a Congregação para a Promoção da Nova Evangelização.

A sua actividade pastoral foi entretanto retomada com a nomeação em 2002 para Patriarca de Veneza, o que o colocou automaticamente na lista de potenciais futuros papas. Esse estatuto foi aumentado ainda mais com a transferência para Milão em 2011.

Acresce que Scola esteve algum tempo nos Estados Unidos e fala correctamente inglês.

Apesar de os italianos constituírem o maior número de cardeais eleitores, de longe, não se deve esperar que votem todos em bloco uma vez que não são um grupo unido. Contudo, se a vontade de ter um Papa italiano falar mais alto, poder-se-ão unir à volta de Scola, independentemente de alguma desconfiança de alguns em relação ao Comunhão e Libertação, tornando-o um candidato formidável.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Bento XVI vai para longe da vista...

Museu do Franciscanismo, nos Açores
Bento XVI voltou a falar esta manhã e deu a entender que depois de dia 28 vai desaparecer da praça pública, como seria aliás de esperar. Fez ainda um discurso muito interessante sobre o Concílio, considerando que ele foi deturpado pelos media.

Seja como for o Papa não estará sozinho, terá com ele o seu secretário pessoal e as leigas consagradas do Comunhão e Libertação que tratam do seu apartamento.

Os tradicionalistas terão gostado do discurso do Papa esta manhã, mas resta saber se isso será o suficiente para os levar a aceitar o ultimato que o Vaticano lhes impôs recentemente.


Abriu hoje um museu nos Açores sobre “Franciscanismo”, fica em São Miguel.

Longe de Roma e do Catolicismo, as auto-imolações no Tibete já ultrapassaram a centena. Trágico.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cinzas, despedidas e parabéns

Hoje Bento XVI explicou novamente, desta vez aos fiéis na audiência geral, a razão da sua resignação. Disse também que sentia, quase de forma física, as orações de todos.

A audiência em si foi composta por uma catequese muito rica, que incluiu um interessante gesto para com ortodoxos e judeus!

Por falar em gestos, simpáticas palavras de Mustafa Ceric, principal líder muçulmano da Europa, para Bento XVI. Aqui pode saber mais sobre o ecumenismo durante o pontificado de Ratzinger.

O Conclave deve começar no dia 15 de Março. Mas talvez não… resumindo, em relação a isso como em relação a tanta coisa, há mais dúvidas que certezas!

Mas nem tudo é Papa! Hoje começa a Quaresma e por isso temos aqui uma explicação sobre o sentido deste período e do jejum e tudo o resto que o acompanha.

Mudando bastante de assunto, referência para os 900 anos que a Ordem de Malta faz por estes dias. Conheça melhor o trabalho desta instituição através do artigo desta semana de The Catholic Thing.

Nove Séculos de Cavalheirismo

Tracey Rowland
Nota do Editor: Amigos, depois do anúncio chocante do Papa de anteontem de que ele tenciona resignar, surgiu um verdadeiro tsunami de opinião e comentário. Em vez de contribuir para aquilo que se tornou um procura repetitiva e por vezes bizarra de algo para se dizer, decidimos continuar com a nossa rotina diária, por enquanto, aqui no The Catholic Thing. Esperamos que com o passar do tempo tenhamos ainda mais razões para ter confiança de que Bento XVI fez o que é melhor para o mundo e para a Igreja. E esperamos que estes esforços vagos para ligar a sua decisão à crise dos abusos sexuais, escândalos no Vaticano e ataques de dissidentes católicos sejam remetidos ao esquecimento que merecem. Mais tarde traremos reflexões sobre isto, quando isso nos parecer mais útil. Entretanto, rezamos pelo nosso querido Santo Padre e pelos cardeais que irão escolher o seu sucessor. – Robert Royal


De 9 a 15 de Fevereiro a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta celebra o seu 900º aniversário.

A Ordem de Malta, como é normalmente conhecida, é a mais antiga Ordem Cavalheiresca do mundo e a quarta ordem religiosa mais antiga da Igreja.

O aniversário assinala a data em que o Papa Pascoal II emitiu a bula Pie Postulatio Voluntatis, dando a sua aprovação à fundação do hospital de São João, em Jerusalém. A bula teve o efeito de transformar os responsáveis do hospital em membros de uma ordem religiosa de leigos.

Hoje a Ordem de Malta funciona como uma ordem religiosa, uma ordem cavalheiresca e como um sujeito jurídico à luz do direito internacional. As suas duas principais missões são o serviço aos mais pobres e a defesa da fé.

Em determinados períodos da história esta defesa da fé assumiu contornos militares. Em 1565 os cavaleiros da ordem derrotaram uma força sarracena muito superior no Grande Cerco de Malta. A vitória removeu o risco imediato de uma invasão da Sicília e até, mais grave, da própria Cidade Eterna.

Seis anos mais tarde, na batalha de Lepanto, membros da Ordem contribuíram com três galés para as forças da coligação que combateram sob o nome Santa Liga. Apesar de os turcos, que atacaram numa ameaçadora formação em forma de crescente, estarem em muito maior número, uma súbita mudança no sentido do vento ajudou grandemente à vitória das forças cristãs.

Pio V, o pontífice da altura, atribuiu a vitória à intercessão de Nossa Senhora, a quem reinos cristãos inteiros estavam a oferecer terços, rezando pela sua maternal protecção. É por causa deste evento que hoje temos a solenidade de Nossa Senhora do Rosário e o título Nossa Senhora da Vitória.

A Ordem tem relações diplomáticas com 104 países e está representada nas Nações Unidas e no Parlamento Europeu. Tem 13.500 membros e 80.000 voluntários permanentes. Está particularmente activa no auxílio a vítimas de conflitos armados e de desastres naturais, através do fornecimento de ajuda médica.

Gere hospitais gerais na Alemanha, França, Inglaterra e Itália e uma maternidade em Belém. Financia também centros médicos no Benim, Burkina Faso, Camarões, Madagáscar, Togo e Líbano. No Senegal e no Camboja a Ordem estabeleceu centros para leprosos e está a desenvolver programas de tratamento de vítimas de HIV tanto em África como na América Central. Há ainda instituições especiais para tratar mães e os seus filhos, vítimas de HIV, na África do Sul e nas Filipinas.

Nos países mais desenvolvidos os cuidados paliativos estão a tornar-se uma preocupação central para a Ordem. Compreensivelmente os doentes católicos não querem morrer em hospitais geridos com critérios utilitaristas. Querem capelas e não salas de oração, crucifixos e não velas de lavanda, padres com o poder de administrar sacramentos e não trabalhadores sociais com cursos em gestão de sofrimento.

Membros portugueses da Ordem de Malta
Médicos e advogados que pertencem à Ordem estão nas linhas da frente, a defender a ética cristã de instituições médicas contra as ideologias da cultura da morte.

A Ordem financiou também o Fundo Global para Pessoas Esquecidas. Estas incluem pessoas com doenças negligenciadas, filhos de reclusos, crianças nascidas com deficiência e mães de recém-nascidos sem cobertura médica.

Em Madrid e São Petersburgo a Ordem opera cantinas sociais para os pobres e sem-abrigo e os membros parisienses da ordem amarraram duas barcas no Sena para dar guarida a sem-abrigo e aos seus cães. Para muitos sem-abrigo um cão é literalmente o melhor amigo e não alguém de quem se querem separar à noite. Os franceses estão muito orgulhosos do facto de terem pensado nos cães.

Vale a pena por isso, nesta semana em que a Ordem celebra 900 anos, reflectir sobre quanta falta faz o cavalheirismo.

Popularmente o termo cavalheirismo é sempre associado à prática de um homem oferecer o seu lugar a uma senhora ou a um idos num transporte em hora de ponta. Mas fundamentalmente o cavalheirismo é uma questão de pessoas com força e poder a usar os dons que a educação ou a natureza lhes deram para ajudar pessoas menos fortes. É a completa antítese dos princípios de sobrevivência dos mais fortes, que governa vida dos primatas.

As feministas tendem a ser contra o cavalheirismo porque não gostam de pensar que as mulheres possam ser o sexo fraco, mesmo que fraco, neste contexto, signifique algo como “fisicamente menos capaz de mover uma árvore caída ou mudar um pneu” e não intelectualmente menor. Do mesmo modo os ideólogos liberais não gostam do conceito simplesmente porque sugere que existem pessoas na sociedade que são mais fortes e capazes que outras. A mera existência destas personagens significa que um século de engenharia social falhou na criação de uma utopia sem classes.

Em contraste, a ideia cristã de cavalheirismo afirma simultaneamente o talento e a habilidade enquanto defende que tais talentos deve ser colocados ao serviço pessoal de quem for menos capaz.

Talvez uma afirmação mais firme de cavalheirismo nos nossos currículos escolares possa ajudar a ultrapassar uma série de patologias sociais, incluindo o feminismo, o machismo o igualitarismo irreflectido e a ideia de que o serviço aos pobres e a defesa da fé é algo que se consegue melhor pela burocracia do que através de pessoas reais.

É algo paradoxal que a defesa da fé no século XXI implique também uma defesa do valor antigo de cavalheirismo.


Tracey Rowland é reitora e membro permanente do Instituto João Paulo II para o Casamento e para a Família em Melbourne, Austrália. É autora de Culture and the Thomist Tradition after Vatican II (2003) e Benedict XVI: A Guide for the Perplexed (2010), entre outras obras.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Fevereiro 2013 em www.thecatholicthing.org)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Partilhar