quarta-feira, 31 de julho de 2013

Buracos na Eslovénia e mitos em Moscovo

Santo Inácio

O Papa anunciou a mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz. Porque hoje é dia de Santo Inácio, o Papa esteve com a comunidade jesuíta de Roma para celebrar.

Dois bispos na Eslovénia resignaram por causa de má gestão financeira. Só a diocese de Maribor tem uma dívida de 800 milhões de euros.

Esta quarta-feira é dia de um novo artigo do The Catholic Thing. Podem pensar que o Austin Ruse me paga uma comissão por cada artigo dele que eu publico, mas a sua “Carta de Moscovo” parece-me mesmo o mais interessante da semana. Ele questiona se Moscovo está mesmo em “guerra” com os homossexuais, como tanto se diz. As reflexões são interessantes.

Carta de Moscovo

Austin Ruse
Recentemente disse a uma senhora da Letónia que tinha estado em Moscovo e que me tinha reunido com o Governo para agradecer a sua posição firmemente pró-família nas Nações Unidas. Ela abanou um dedo ossudo na minha direcção e exclamou: “Não são de confiança. Se estão do seu lado, é por outras razões. São mentirosos!”

Depois de no ano passado ter participado numa conferência em Rodes, patrocinada por Moscovo, um amigo e colega cortou relações comigo durante vários meses, acreditando que eu me tinha associado a gangsters e oligarcas do KGB.

A desconfiança dá tanto para um lado como para o outro. Em Moscovo tanto membros do Governo como cidadãos normais me disseram que os Estados Unidos querem minar os valores e a moral do povo russo. Apontam para um discurso, que provavelmente nunca foi proferido, por Allen Dulles, director da CIA, que terá sugerido minar os valores russos e transformar as suas mulheres em prostitutas. O discurso é mencionado aqui, mas como uma história apócrifa.

Também citam uma coisa alegadamente dita por Zbigniew Brzezinski, que pensam, erradamente, ter feito parte da administração Reagan, no sentido de que a América deve tentar minar a única instituição que permanece na Rússia: a Igreja Ortodoxa.

Mas descontando estes erros, eles têm alguma razão. Afinal de contas a Rússia, como muito do resto do mundo, está recheada de porcaria feita nos Estados Unidos, sobretudo pornografia. Quando me encontro com diplomatas recém-chegados às Nações Unidas, esperam encontrar proxenetas, prostitutas e pornógrafos. Ficam chocados quando se dão de caras com pessoas que rezam.

A América lidera, actualmente, o esforço para espalhar a agenda homossexual a nível global. Nomeamos embaixadores homossexuais para países tradicionais. A República Dominicana está furiosa com esse facto. É uma prioridade da política externa americana avançar a causa homossexual sempre que possível. Organizamos festas gay em embaixadas, até em sítios, como o Paquistão, onde isso ofende.

Mas é a Rússia que se encontra sob o foco dos activistas homossexuais e dos direitos humanos por causa de leis recém-criadas para limitar os avanços homossexuais. O Parlamento russo passou uma lei, quase por unanimidade, que proíbe a propaganda homossexual dirigida a crianças em idade escolar e manifestações públicas de homossexualidade, como marchas.

O dramaturgo homossexual Harvey Fierstein ia tendo um ataque no New York Times esta semana. Ele faz várias afirmações falsas sobre a lei, tal como que os pais que falem sobre homossexuais de forma positiva podem ver os seus filhos removidos ou ser presos. Segundo ele, a nova lei permitiria às forças de segurança identificar e prender turistas suspeitos de serem homossexuais. Tudo isto é falso e o Times devia ter vergonha de o ter publicado.

Até conservadores estão a envolver-se. O site Daily Caller de Tucker Carlson, publicou uma coluna de opinião na semana passada, chamando os homossexuais a envolver-se com a questão na Rússia.

Eu estive na Rússia para agradecer a posição firme que a Rússia tem tido em relação a estes assuntos nas Nações Unidas e para dizer que os conservadores americanos são a favor da lei sobre a homossexualidade.

As afirmações de Fierstein e da imprensa homossexual de que existe uma “guerra aos homossexuais” deixaram-me curioso. Acabei por descobrir que a verdade é outra.

Estava no Hotel Metropol, um dos mais antigos e prestigiados de Moscovo. Segunda-feira de manhã, à porta do hotel, observei um homem transsexual, agora “mulher”, a passear pela rua com calças pretas e uma camisola apertada, com decote para mostrar os seus novos peitos.

Protesto gay na Rússia

Ninguém reparou sequer. E ele não parecia estar particularmente preocupado em ser visto e chateado, muito menos detido pelas forças de segurança.

Na próxima noite, passeava ao pé do Bolshoi quando reparei em três homens peludos, com vestidos. Mais uma vez, ninguém reparou nem os tentou prender.

Curioso, fui à internet e meti “Gay Moscow” no Google. Longe de se ter refugiado no armário, a cena gay de Moscovo está à vista e orgulhosa. Dezenas de sites anunciavam restaurantes e bares. Até existem saunas.

Ouvimos dizer muita coisa sobre a Rússia hoje em dia: Corrupção, autoritarismo, abusos. Tanto de organizações como a Human Rights Watch, a ACLU e a Amnistia Internacional como por parte de malta conservadora. Mas questiono-me se as coisas são tão claras como nos dão a entender.

A afirmação de que a Rússia está em guerra contra os homossexuais é falsa. Que mais será falso? O que sei é que a Rússia está a experimentar um despertar religioso, liderado pela Igreja Ortodoxa.

O czar dos comboios russos, Vladimir Yakunin, com quem me encontrei, organizou recentemente uma visita à Rússia da Verdadeira Cruz de Santo André. Havia filas de cinco horas, debaixo de chuva, para a visitar. Felizmente, Yakunin organizou as coisas para que eu pudesse saltar a fila.

Encontrei-me também com o jovem bilionário Konstantin Malofeev, cujo gabinete está recheado de ícones religiosos. Ele está a trabalhar no sentido de aproximar os ortodoxos russos e os cristãos americanos.

Malofeev e muitos outros russos vêem-se como uma nação cristã, enviada para ajudar outros cristãos pelo mundo. Para eles, pelo menos, essa é a razão pela qual apoiam o regime de Assad; ele é melhor para os cristãos ortodoxos na Síria.

Ele questiona-se sobre se será possível forjar uma grande aliança global entre os ortodoxos e os católicos, e que efeito é que isso terá na guerra cultural global que está a ser avançada pela esquerda sexual. Eu partilho a sua curiosidade.

A conversa global é religiosa. Os secularistas podem dominar o Ocidente, mas para lá dele nem estão em cena, excepto na medida em que conseguem impor a sua agenda através de instituições internacionais para o desenvolvimento.

As nossas vozes poderiam ser muito mais poderosas se nos unirmos àqueles que muitos parecem ter interesse em silenciar.

Podemos partir do exemplo do Papa Francisco. Nos primeiros dias do seu pontificado recebeu em audiência o Metropolita Hilarion, director das Relações Externas da Igreja Russa. Hilarion deu a Francisco um ícone famoso e poderoso, importante para os ortodoxos, mas para os russos em geral: Nossa Senhora de Kazan. Francisco deu-o a Bento XVI quando se encontraram pela primeira vez, depois da sua eleição.

A Rússia é criticada, e com razão, por muitos dos seus actos. Mas poderá também estar sob ataque por razões que não estão inteiramente à vista.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 26 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Mais uma tragédia na Síria

Padre Paolo Dall'Oglio
Nos últimos anos entrevistei duas vezes o padre Paolo Dall’Oglio, um jesuíta italiano que viveu décadas na Síria. Ontem surgiu a notícia que o sacerdote foi raptado por rebeldes islamistas. Tinha voltado para a Síria para trabalhar com a população. Peço as vossas orações pelo padre Paolo. Aqui podem ler a transcrição completa da mais recente entrevista que lhe fiz, em que me revelou em primeira mão que acabava de ser expulso do país pelo regime.

Na Nigéria houve mais um atentado contra cristãos, no Norte do país, que fez 24 vítimas.

A mega-entrevista dada pelo Papa aos vaticanistas, na viagem de regresso do Brasil, deu pano para mangas. A questão da homossexualidade fez correr muita tinta, mas o que é que o Papa disse na realidade e será que há novidade nas suas palavras? A minha análise e reflexões.

Uma volta de 360º na questão da homossexualidade

Apesar de, na minha opinião, não ter sido o mais interessante, da entrevista que Francisco deu ontem no avião a esmagadora maioria concentrou-se no que o Papa disse sobre os homossexuais. Toda a gente citou a seguinte frase: “Se um homossexual está à procura de Deus, de forma bem-intencionada, quem sou eu para o julgar?”.

Será que isto representa uma alteração ao discurso da Igreja sobre a homossexualidade? De forma sintética… não. O que o Papa disse, basicamente, é o que a Igreja tem dito sobre os homossexuais ao longo das últimas décadas. Que o homossexual enquanto tal não deve ser perseguido, nem hostilizado, mas que as práticas homossexuais não são aceitáveis do ponto de vista moral.

Neste sentido o Papa não disse nada de novo. Contudo, penso que isto merece algumas reflexões:

1º O problema do costume da imprensa, sobretudo da imprensa secular e em larga medida ignorante acerca de temas religiosos. Vimos isso recentemente com a palhaçada das confissões via twitter. Agora é o Papa que revolucionou a posição da Igreja sobre a homossexualidade. É triste, mas não é nada de novo.

2º Se esta sempre foi a posição da Igreja, como definida no Catecismo, então porque é que toda a gente ficou tão surpreendida e, sobretudo, porque é que os que normalmente atiram pedras à Igreja ficaram tão contentes? Por um lado, porque muitos vão na conversa da imprensa e pensam que o Papa acabou de dizer que homossexualidade e heterossexualidade é tudo igual ao litro. Mas por outro lado porque ainda há muita gente que pensa que a atitude defendida pela Igreja para lidar com os homossexuais é a prisão, o insulto ou a câmara de gás. E isto é um problema. Persiste por manifesta falta de interesse da parte dos defensores da normalização da homossexualidade em aprofundar os seus conhecimentos, mas também porque muitos católicos continuam a falar de homossexuais e de homossexualidade como se fossem sinónimos e como se os homossexuais são todos iguais, pensam da mesma forma e agem da mesma forma, o que evidentemente não é verdade.

3º A reacção de muitos católicos agora tem sido de revolta com a imprensa por estar a destacar o que o Papa disse no avião, apesar de não constituir novidade. Mas vamos ter calma. Sei que estamos habituados a jogar à defesa, mas será assim tão mau que, talvez pela primeira vez, a verdadeira posição da Igreja esteja a ser apresentada pelos meios de comunicação social? Há algumas deturpações, sim, mas não duvido que muita gente esteja agora a pensar que, afinal, a Igreja não é a promotora de ódio contra os gays que sempre tinham pensado que era. Isso será mau? Queremos contradizê-lo? Claro que devemos continuar a apontar para o Catecismo e explicar que não há aqui qualquer novidade, mas de resto, deixemos que as pessoas se aproximem, apesar de tardiamente, da verdadeira posição da Igreja sobre este assunto.

Por fim, há de facto uma área em que as palavras do Papa podem representar uma alteração, mas tem passado ao lado da maioria dos comentadores e jornalistas. Ao que parece, a pergunta que foi feita ao Papa era sobre padres homossexuais. A questão está em saber se a resposta versava especificamente o caso dos sacerdotes, ou se estava a falar de homossexuais em geral.

Porquê? Porque há vários anos a Igreja proibiu, formalmente, a ordenação de homens com tendências homossexuais fortemente enraizadas. Isto quer dizer que, se um formador no seminário descobre que um candidato é homossexual, não o devia ordenar. Não implica que qualquer padre homossexual seja expulso do sacerdócio, só por sê-lo.

Estaria o Papa a insinuar que esta política deve ser alterada? A frase: “Se um homossexual está à procura de Deus, de forma bem-intencionada, quem sou eu para o julgar?”, pode, de facto ser lida assim. Mas este é um assunto que deve ser aprofundado e esclarecido, porque penso que a frase em si, mesmo no contexto, não chega para confirmar essa versão e, na verdade, duvido que assim seja.


Adenda: Publico aqui um excerto de uma entrevista ao vaticanista John Allen Jr. que explica muito bem o contexto dos comentários do Papa

Entrevistadora: What specifically was the question that Pope Francis was answering there?

Allen: In this particular case, one of our colleagues asked the pope a question about the so-called gay lobby in the Vatican. He was asked if he believes there is a gay lobby in the Vatican. His first response was to say he doesn't really believe there is, and if there is, he's never seen their ID card.

Entrevistadora: Making a bit of a joke.

Allen: But beyond that, he then engaged the substance of the question by saying if such a thing were to exist, his problem would be with the lobby. His problem would not be with the gay persons, and that lead him to the soundbite that you just quoted, that when he meets a gay person, his instinctive response is who am I to judge them.

Entrevistadora: And is the implication specifically here about gays in the priesthood then?

Allen: Well, the question had to do with the gay lobby in the Vatican, which would refer specifically to people who work in the Vatican, primarily priests. But the sense we had from the pope's response is that he was speaking more generally about his attitude towards gay persons, whether they're priests or ordinary laity.

Entrevistadora: When you heard those words coming from his lips, what was the reaction among the folks on that plane?

Allen: Well, at one level it is quite familiar. I mean the Catholic Church's official teaching on homosexuality says that homosexual persons are to be treated with what the catechism describes as respect, compassion and sensitivity. However, my suspicion is that most gays and lesbians around the world, when they hear the Catholic Church speak, they often probably do not hear that respect and sensitivity.

What they probably hear more often is what they perceive at least to be judgment. So to hear a pope saying I do not judge you is quite remarkable. But what we should say, that this was not a policy speech and the pope is not unveiling any new edict today. And this is characteristic of what Francis has done during the first four and a half months. At the level of substance - that is, concrete acts of governance - he hasn't done a great deal.


What he's been doing instead is at the level of style and tonality trying to induce people to take a new, more sympathetic look at the Catholic Church. And at level, certainly judging by the crowds and the popular reaction in Brazil during the week that Francis was on the ground, you would have to say that he's done relatively well.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ninguém dorme no avião papal!

Aura Miguel no avião do Papa
Pensavam que com o fim da Jornada Mundial da Juventude, acabavam as notícias do Papa por uns dias? Enganaram-se! Francisco decidiu fazer uma sessão de perguntas e respostas de cerca de 80 minutos a bordo do avião.

Ficamos então a saber quê o Papa quer mais mulheres em posições de liderança na Igreja, mas diz que a posição da Igreja sobre o assunto é definitiva.

Francisco ainda não sabe o que vai fazer em relação ao Banco do Vaticano.


Por fim, o Papa também falou sobre a questão da segurança e deixou bem claro que não tem medo do que lhe possa acontecer.

Como imaginam, este é um momento único na carreira de um vaticanista. Aura Miguel conta aqui como tudo se passou.

Entretanto, sim, a Jornada Mundial da Juventude acabou ontem. Tem toda a informação no site da Renascença. A próxima jornada será em Cracóvia.

Dos seus discursos neste último fim-de-semana no Brasil destaco o convite aos jovens para acreditarem no casamento. Esta foi uma das passagens destacadas no meu último artigo de opinião sobre esta viagem, uma viagem que foi bem mais do que cachaça e feijão!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Papa, reclusos e avós

Filipe Teixeira, o português que almoçou com o Papa
Filipe Teixeira é um português de 29 anos que esta tarde esteve à mesa com o Papa para almoçar. Falou-se de muita coisa, incluindo de Portugal. Filipe Teixeira explica tudo aqui.


Ainda ontem o Papa esteve com os jovens em festa na Praia de Copacabana. Foi recebido em êxtase, beijou muitos bebés e até parou para beber “mate”, um chá típico da Argentina. A fé dos jovens, disse o Papa, foi mais forte que o mau tempo.



Dezenas de mortos no Paquistão, em mais um ataque aos xiitas.

E más notícias da Síria, foram detidos três suspeitos do rapto de dois bispos de Alepo. Dos bispos, não há notícia e aumentam as suspeitas de que terão sido assassinados.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Papa aos "palavrões" na favela

"É só estender a mão para tocar no Papa
mas vou tirar uma fotografia"
Esta tarde Francisco visitou a Favela da Varginha, no Rio de Janeiro. A recepção foi fenomenal e entre café e “feijão com água”, só faltou cachaça porque o Papa não quis. Na notícia podem ver a reportagem em vídeo.

No seu discurso aos habitantes da favela o Papa sublinhou a importância da solidariedade. Uma palavra que, segundo Francisco, às vezes mais parece um palavrão.

Ao longo destes dias da visita do Papa ao Rio de Janeiro foi-me pedido para fazer alguns textos de opinião. A primeira, feita após a sua chegada, fala da curiosa expressão “o que vai ser de nós se não cuidarmos dos nossos olhos” e a segunda aborda a questão do Deus das surpresas, como Francisco o descreveu no Santuário de Aparecida.

Esta noite ainda há programa, com o Papa a participar numa festa com os jovens em Copacabana. O começo está marcado para as 22h e, já sabe, pode seguir as imagens em directo no site da Renascença, ou ouvir a transmissão na rádio.

Mas nem tudo são Jornadas. Por cá houve encontro da Pastoral da Liturgia e as conclusões são claras: Menos espectáculos na missa, se faz favor.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um Quarto de Século de Cisma

Austin Ruse
Mais um vez, bispos cismáticos fizeram um ultimato à Igreja Católica. Reneguem os vossos ensinamentos, ou nunca mais voltamos.

A recente declaração dos três bispos restantes dos tradicionalistas da Sociedade Sacedotal de São Pio X afasta ainda mais qualquer esperança de que a Igreja se reconcilie com algum deles nos próximos tempos. Reparem que digo a Igreja reconciliar-se com eles, e não eles reconciliarem-se com a Igreja, porque para eles a reconciliação é toda de sentido único.

Numa declaração emitida no 25º aniversário do seu cisma, os três bispos insistem que o problema não tem nada a ver com a interpretação dos documentos do Concílio Vaticano II, mas com os documentos em si. Consideram que estes são perfeitamente claros e e perfeitamente heréticos.

Um dos trabalhos mais importantes dos últimos dois pontificados foi precisamente o esforço de determinar a interpretação correcta do Concílio, contra os mais loucos, e a colocação dos documentos na perspectiva da tradição da Igreja. Bento XVI insistiu que o Concílio devia ser lido através daquilo a que chamou uma “hermenêutica da continuidade”.

A SSPX entende o Concílio através de uma “hermenêutica da ruptura”. Eles dizem que o Concílio marcou o início de um “novo tipo de Magistério, até então desconhecido na Igreja, sem raizes na Tradição”. Aponta baterias, como fez sempre desde o início da sua revolta em 1988, à “liberdade religiosa, ecumenismo, colegialidade e a Nova Missa”.

A SSPX insiste que a liberdade religiosa equivale a insistir que Deus renuncie ao Seu reino sobre o homem e que isso equivale à “dissolução de Cristo”.

O Ecumenismo e o diálogo inter-religioso levaram a um ponto em que “uma grande parte do clero e dos fiéis já não vê em Nosso Senhor e na Igreja Católica o único caminho da Salvação”.

A SSPX também odeia aquilo a que chama a “Nova Missa”, que “diminui a afirmação do Reino de Cristo através da Cruz. O próprio rito encurta e obscurece a natureza sacrificial e propiciatória do Sacrifício Eucarístico”. A declaração da SSPX diz que a missa destrói a “Espiritualidade Católica”.

Há alguma verdade nas críticas à forma como as coisas evoluíram desde o fim do Vaticano II. O Ecumenismo tem sido um fracasso excepto nas questões em que tem sido posto em prática por católicos fiéis a trabalhar com Evangélicos em questões sociais.

E para mim não há qualquer dúvida que a Missa Tridentina é mais  bonita que a nova em quase tudo. Também é verdade que muitos católicos acreditam hoje que todos os caminhos levam a Deus, e que por isso a evangelização não é mesmo necessária.

Mas nem todos estes problemas são culpa do Concílio Vaticano II. Em vários aspectos, o Concílio tornou a Igreja suficientemente resistente para poder sobreviver aos golpes culturais que em larga medida já destruíram o Protestantismo mainstream.

Há mais de dois anos escrevi neste site que as conversações entre a Sociedade e a Igreja nunca chegariam a bom porto, por duas razões. Primeiro porque a Sociedade está a exigir demasiado. Eles querem mais do que a aprovação universal da Missa Tradicional. Eles querem que a Igreja renuncie aos ensinamentos de de um Concílio Ecuménico. Mas como disse o Cardeal Ratzinger, no “Relatório Ratzinger”, se rejeitarmos o Vaticano II, então também rejeitamos Trento, porque estamos a rejeitar a autoridade de ambos, isto é, a os ensinamentos dos bispos de todo o mundo, em Comunhão com o Papa.
 
Arcebispo Marcel Lefebvre
A segunda razão pela qual a SSPX provavelmente nunca vai voltar é mais complexa que a primeira. É mais do que simples rejeição do ensinamentos católico. Há também o orgulho: orgulho entrincheirado, orgulho que não aceitará a reconciliação, aconteça o que acontecer.

Mesmo que a Igreja renunciasse ao Concílio Vaticano II e impusesse a Missa Tridentina de forma universal, é provavel que o núcleo duro dos SSPX nunca regressem. Agora já se habituaram à sua própria autoridade e uma das coisas mais difíceis é a verdadeira obediência.

O regresso é improvável, mas não é impossível. Há poucas semanas um grupo previamente cismático viu os seus seminaristas prostrados no chão de uma Igreja em Roma, a serem ordenados ao sacerdócio por um arcebispo do Vaticano.

Os Filhos do Santíssimo Redentor chegaram a ser aliados próximos do Arcebispo Marcel Lefebvre, fundador da Sociedade de São Pio X. De facto, quando foram fundados em 1987 foram pedir a bênção a Lefebvre.

Até 2007 viveram no deserto eclesial até 2007, quando o Papa Bento XVI emitiu o motu proprio “Summorum Pontificum”, que permite a celebração universal da Missa Tradicional. Então o grupo pediu a Roma para se fazer uma reconciliação. Houve visitações. O Cardeal Levada da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei esteve envolvido. E o ano passado o Papa concedeu a regularização.

Mas como seria de esperar, apesar de o grupo ter regressado a Roma, alguns membros individuais escolheram manter-se separados em cisma, com a Sociedade de São Pio X.

Para aqueles que insistem que a Sociedade não é cismática, considerem o seguinte: No documento que regulariza este grupo o texto oficial menciona mesmo o fim da sua “condição cismática”.

Os católicos tradicionalistas não são seres estranhos de outro planeta. São os nossos irmãos e irmãs que, em larga medida, são tão fiéis à Igreja como outros católicos – excepto na obediência eclesial . A sua energia, tanto física como intelectual, é algo a contemplar e a admirar, e fazem muita falta à Igreja hoje.

Se ao menos eles direccionassem essa energia a outros alvos que não a Igreja Católica.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 12 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Idosos, doentes, nascituros e outras obras primas

Papa Francisco na praia
Hoje certamente não vos passaram despercebidas as dezenas de manchetes a informar que o Papa ia “perdoar os pecados através do Twitter”. Pois é, o Papa Francisco surpreende, mas não a esse ponto. Claro que a notícia é absurda. Está tudo explicado aqui.

Entretanto o Papa avisou que não quer andar num carro blindado quando estiver no Rio de Janeiro, isto enquanto os escultores de areia se apressam a fazer homenagens ao Pontífice.

O Reino Unido está imerso numa discussão sobre os cuidados paliativos e eutanásia e a Irlanda acabou de aprovar o aborto em casos de “perigo de vida” para a mãe (que pode incluir o perigo de suicídio…). É nesse contexto que o Papa escreve aos católicos ingleses a dizer que mesmo os idosos, doentes e nascituros são “obras-primas de Deus”. Amen!

O Princípio de “Qual é o Mal?”

Randall Smith
“Imaginemos duas mulheres”, diz o meu amigo; “elas amam-se e estão comprometidas uma com a outra da mesma maneira que tu e a tua esposa. E digamos que elas estão envolvidas num acto que, se a sua biologia fosse diferente, poderia conduzir à procriação, mas neste caso não pode. Porque é que a ausência desta única dimensão do acto o torna moralmente errado?”

Noutros artigos, recentemente, sugeri que um dos problemas com esta questão é que ela envolve uma subtil equivocação de termos. Falar em “sexo” ao qual “falta apenas uma das dimensões do acto” – nomeadamente o acto de abertura à geração de vida – é como falar em “martelar” sem abertura à utilização de pregos ou a pretensão de construir algo. Será mesmo martelar? Fazer um certo movimento no ar, com um martelo na mão, não é a única coisa que determina o acto de “martelar”, da mesma maneira que fazer certos movimentos com as minhas ancas não determina o que constitui “sexo”.

Por isso a primeira coisa a clarificar é que um homem e uma mulher (ou uma mulher e uma mulher), que estão envolvidos em certos actos físicos não estão verdadeiramente envolvidos no mesmo acto que dois esposos que estão a praticar um acto fundamentalmente procriativo, tanto quanto um cirurgião que abre um doente para operar no seu fígado não está a fazer a mesma coisa que o Hannibal Lecter quando este abre uma vítima para lhe comer o fígado.

Um “acto” tem mais que se lhe diga do que a mera moção física. Igualmente, há muito mais que define um “acto” do que a intenção com a qual é cometido. De acordo com a Igreja devemos considerar tanto o “objecto” do acto como a intenção com que é praticado, bem como quaisquer circunstâncias relevantes.

Mas digamos que a pergunta é feita de forma diferente. A forma como a maioria dos meus alunos me interroga sobre os ensinamentos morais da Igreja é a seguinte: “Porque é que não posso fazer o que me apetece, desde que não prejudique ninguém?”

A primeira coisa a dizer sobre esta pergunta é que trai um utilitarismo bastante simplista, de que o questionador normalmente não se apercebe. Os meus alunos não estudaram as obras de Bentham e Mill para decidir se estavam certos, não, este tipo de utilitarismo está simplesmente no ar que respiram. Por isso a minha primeira tarefa é sugerir-lhes que o princípio de “qual é o mal” não é uma forma particularmente boa de pensar sobre questões morais.

Porquê? Bom, porque normalmente é difícil definir o “mal” de forma a justificar que se impeça alguém de fazer aquilo que lhe apetece. Os reitores das nossas residências universitárias enfrentam estes problemas constantemente. “Só quero ouvir a minha música à noite, enquanto trabalho. Qual é o mal? Não prejudica ninguém!”, insistirá um aluno. Bom, quando se ouve a música tão alto que os outros não conseguem dormir ou estudar, isso “prejudica-os”. Mas será? Se definirmos “prejudicar” como dar um murro em alguém, então não. Então qual o grau de prejuízo que o outro tem de suportar para que você pare de fazer o que quer?

Qual é o mal?
A prevalência do princípio de “qual é o mal” é uma das razões pelas quais estamos obcecados em tentar mostrar que algo esteticamente desagradável, como fumar, vai acabar por matar terceiros que acabam por inalar nem que seja um bafo do fumo. O facto de estar a fumar não só me repugna, como me está a prejudicar, por isso tem de parar. Escusado será dizer que os fumadores tendem a não achar esta argumentação muito convincente. Os alunos que gostam de ouvir música aos berros também não.

O que tende a passar despercebido no meio disto é que este princípio pressupõe uma visão muito problemática da pessoa humana. Os estudantes que compreendem que não se deve beber e conduzir (alguém pode ficar ferido) perguntam-me: “Se eu me embebedar sozinho no meu quarto e mais ninguém se magoar, porque é que isso é errado?” Ao que eu respondo: “Mas alguém está a ser prejudicado: tu! Porque é que eu apenas me hei-de importar se outra pessoa se magoar?”

A forma como se coloca a questão do princípio de “qual é o mal?” pressupõe, a maior parte das vezes, um individualismo redutor, segundo o qual uma pessoa não se encontra intrínsicamente ligada aos outros. Será verdade que o que eu faço, mesmo a mim próprio, não afecta mais ninguém? Ou será que o que fazemos tem de facto um profundo impacto nos nossos amigos, família e sociedade? Não teremos quaisquer obrigações para com os outros, para amar e cuidar deles? Quando nos prejudicamos a nós mesmos não estamos a roubar aos outros algo que lhes é devido?

Na verdade, não será o suicídio, que muitos consideram um assunto privado, de facto um acto egoísta através do qual cortamos com todas as obrigações para com a família, a sociedade e Deus? O maior pacto anti-suicída é a realização de que eu não dei a vida a mim mesmo – foi-me dada tanto como um dom e como uma responsabilidade – e por isso não tenho o direito a tirá-la.

O outro problema é que este princípio deixa muitas perguntas por responder. Será que só conta o mal físico? E os danos morais? Quando cometo certos actos estou a ferir-me física mas também psíquica e espiritualmente? Quem já esteve viciado em álcool ou drogas poderá dizer-lhe que os danos físicos são os menos graves. O maior dano é à nossa autonomia. E claro que o pior mesmo é o mal feito à relação com os nossos entes queridos, mesmo que não tenham sido prejudicados de forma física. O pior mal pode ser moral.

Não, o princípio de “qual é o mal” simplesmente não serve. Mas acabamos por ver os católicos a embrulharem-se todos a tentar responder a uma pergunta que não tem resposta da forma como está formulada. O ensinamento moral não se limita a repetir o que diz a Igreja, mas também a mostrar porque é que a Igreja propõe uma forma melhor de pensar na vida e nas suas questões mais fundamentais.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 11 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

terça-feira, 16 de julho de 2013

Marianne, a ucraniana revolucionária

Inna Shevchenko: Activista, Feminista,
Inspiradora de selos e carrasca de cruzes
A semana passada divulguei uma notícia que indicava que o Papa tinha escrito à Alitalia a dizer que não queria luxos nem uma cama no avião que o transporta para o Brasil. Hoje, porém, o Vaticano negou a existência da dita carta. (Mas não vai haver cama à mesma).

O Papa tem, entretanto, muito trabalho pela frente. Há pelo menos 170 dioceses, ou equivalentes, a precisar de bispo. Isto sem contar a China!

Esperamos que todos possam ter a fibra de Seán O’Malley, o arcebispo de Boston, que em Setembro volta a Portugal para participar num encontro da Pastoral Social, em Fátima.


Um novo selo francês, que mostra a famosa “Marianne” da Revolução Francesa, teve como inspiração uma ucraniana que se tornou famosa depois de derrubar um crucifixo de madeira, com vários metros, usando uma serra eléctrica e em tronco nu. Parece-me adequado.


E terminamos com uma notícia mais triste. Uma freira indiana foi raptada e repetidamente violada, ao longo de uma semana. Ao que parece as causas são um feudo familiar e não perseguição anticristã especificamente, mas tudo se passou em Orissa, onde há cinco anos houve uma grande perseguição aos cristãos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Bombas em Birmingham sim, Kosher em Cracóvia não

Amigos, o tipo que foi pendurado da Cruz que vocês
têm por cima da porta do Parlamento... comia Kosher.
I'm just saying...
O Papa viaja dentro de seis dias para o Brasil e já avisou a Alitalia que não quer luxos no avião. Os luxos para este tipo de viagem costumam incluir uma cama para o Pontífice.

Enquanto não parte, Francisco continua a apertar com a burocracia do Vaticano. Ontem fez questão de marcar presença numa reunião do Banco do Vaticano, para demonstrar a sua preocupação pelo assunto e hoje a Santa Sé anunciou o congelamento dos bens de um membro da cúria que foi detido a semana passada por alegada lavagem de dinheiro.


Houve um ataque a uma mesquita esta tarde. Bagdade? Paquistão? Síria? Não. Birmingham. Ninguém ficou ferido, mas as autoridades estão a tratar o caso como um incidente terrorista.

Entretanto, na Polónia, judeus e muçulmanos vão ter de se tornar vegetarianos, ou então pagar mais caro para comer carne importada, isto porque o Parlamento decidiu que a liberdade religiosa destas duas comunidades vale menos que a agenda do politicamente correcto.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O Hamas Precisa de Amigos...

O Papa Francisco actualizou hoje o código penal da Santa Sé. Naquele Estado deixa de existir pena de prisão perpétua e alarga-se a definição de crimes contra menores.


Normalmente os rigores do jejum do Ramadão só comprometem os muçulmanos, mas na Arábia Saudita quem violar as suas regras em público, mesmo que seja não muçulmano, pode ir para a cadeia ou ser expulso do país.

No Egipto foi morto mais um cristão como represália pelo apoio que os coptas têm dado ao golpe militar contra a Irmandade Muçulmana.

Tem muito dinheiro ou fabrica bombas caseiras? Ligue para a Palestina, porque ao que parece, o Hamas está a precisar de amigos.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Actualidade Religiosa: Novo Patriarca de Lisboa e Papa em Lampedusa

Dom Bernardino Costa,
abade de Singeverga
Durante o fim-de-semana a grande notícia foi claramente a tomada de posse de D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. A Renascença transmitiu tudo em directo e teve a primeira entrevista com o novo Patriarca (ao contrário do que afirmou a RTP). Siga os relacionados para ver as outras notícias.

Os bispos portugueses consideram que ninguém fica bem na fotografia quando o país fica pior. Um recado para quem manda na nação.

O Papa Francisco fez a sua primeira visita oficial para fora de Roma, visitando os refugiados na Ilha de Lampedusa.


Um polémico bispo ortodoxo na Bulgária foi encontrado morto no mar. As autoridades descartam suspeitas de crime.


No Egipto estamos longe de consenso e de paz. Depois de um ano a mandar, a Irmandade Muçulmana está em retirada. Ali ao pé, na Síria, a conclusão entre os rebeldes é de que talvez a democracia não seja assim tão boa, afinal.


Como é que uma ordem contemplativa e de clausura anuncia a eleição de um novo abade? Pelo Facebook, claro!

Esta semana concluímos a série de artigos de Austin Ruse sobre crianças espiritualmente excepcionais. O colunista de The Catholic Thing analisa o significado destes pequenos que tanto sofreram mas tanto ofereceram às suas famílias e quem os conheceu. Não percam, mesmo.

Lições das Pequenas Almas Sofredoras

Austin Ruse
Ao longo dos meus últimos artigos tenho estado a contar a história das pequenas almas sofredoras:

A Audrey Stevenson morreu de leucemia, aos 7 anos, depois de levar toda a sua família à fé.

A Margaret Leo morreu com 14 anos, após uma vida alegre de caridade cristã, apesar de sofrer de espinha bífida.

O Brendan Kelly morreu aos 15. Tinha trissomia 21 e viveu a vida toda com leucemia, mas continua a inspirar todos os que o conheceram.

A primeira coisa que nos marca quando conhecemos estas histórias é perceber o quanto sofreram. Estamos a falar de sofrimento intenso, tanto físico como mental, de longa duração. Sofrimento atroz, do género de fazer o soldado mais rijo chamar pela mãe.

Tanto a Audrey como o Brendan foram sujeitos a tratamentos invasivos de quimioterapia, esteróides, punções lombares e, eventualmente, transfusões de medula. Viveram longos períodos sem sistema imunitário, com o perigo a espreitar por detrás de cada micróbio errante.

A Margaret Leo teve barras de titânio inseridas nas costas para travar o curvar da coluna. Em vez disso foram as barras que entortaram. Ainda hoje o seu pai guarda as barras tortas em cima da sua secretária, para nunca se esquecer do que é, verdadeiramente, um dia mau.

Os pais da Audrey tinham de obrigá-la a falar da sua dor, para que os médicos a pudessem ajudar. A Margaret raramente mencionava o seu sofrimento e, no geral, sorria apesar de tudo e durante os períodos de pior dor, o Brendan tentava fazer rir os seus pais, para que não se preocupassem com ele. A maioria das crianças não é assim. Nós, adultos, não somos assim.

Enquanto seres humanos simplesmente não somos capazes de imaginar este tipo de dor. Fugimos da dor. Escondemos a dor por detrás de analgésicos cada vez mais desenvolvidos. Refugiamo-nos na cama. Choramingamos e queixamo-nos. Falamos da nossa dor, talvez todos os dias. Um “Como é que isso vai?” pode espoletar um verdadeiro catálogo até das dores mais pequenas. É verdade que às vezes oferecemos a dor como sacrifício pelos outros, mas na maioria das vezes não o fazemos.

O sofrimento é um dos grandes mistérios. Ocupa não só as grandes mentes de todos os tempos, mas também o meu e o seu. Uma das Quatro Nobres Verdades do Budismo é sobre o sofrimento e de como usar o Nobre Caminho Octuplo para o evitar. O Hinduísmo vê o sofrimento como uma espécie de punição por mau comportamento. O Islão diz que os fiéis devem aguentar o sofrimento como uma prova da sua fé.

Só o Cristianismo vê o sofrimento como redentor, como uma forma de partilhar no sofrimento de Cristo na Cruz e de Lhe diminuir o sofrimento. Os católicos também acreditam que o sofrimento pode ser oferecido para diminuir a dor dos outros. Esta noção é perfeitamente estranha à maioria das religiões.

Uma leitora discordou veementemente de algumas das ideias no artigo sobre a Audrey. Simplesmente não era capaz de conceber que a sua história fosse verdadeira. Avisou que os adultos às vezes impõem as suas ideias aos mais novos e perguntou se os pais da Audrey não teriam incutido nela uma espécie de religiosidade precoce. A leitora, que é judia, questionou se às vezes os adultos não vêem coisas nas crianças que de facto não estão lá. É uma preocupação compreensível.


Uma vez dei uma entrevista sobre a Audrey a uma rádio católica. A entrevistadora sugeriu que eu investigasse o caso de outra menina com o mesmo nome, Audrey Santo, à volta da qual tinha crescido uma certa devoção. Depois de um acidente de natação, esta menina desenvolveu uma condição chamada mutismo acinético, que a deixou incapaz de se mexer e de falar. A sua mãe levou-a a Medjugorje e anunciou que a rapariga, a pedido da Virgem Maria, tinha aceite tornar-se uma alma vítima. Dizia-se que tinha as chagas, que as imagens choravam, e por aí fora. O bispo local sugeriu cautela em relação a toda a história.

Mas os casos sobre os quais escrevi não têm nada a ver com isto. Não há estátuas a chorar, nem chagas. Só crianças normais em circunstâncias extraordinárias. Eram antes de mais crianças, e não os objectos de imaginações religiosas. Nenhuma delas queria estar doente ou sofrer.

O Brendan era a alma de todas as festas. Vi fotografias de ele a dançar em casamentos com amigos e familiares a aplaudir. Adorava desporto. A Audrey tinha de facto um sentido aguçado de propriedade e chegava a evitar ir a festas de anos com medo de ouvir palavrões, mas não deixava de ser uma menina normal que brincava com as irmãs e com as amigas. A Margaret adorava ver os outros meninos a brincar no parque. Eram crianças normais a quem tinham sido dadas grandes cruzes para carregar – e grandes dons para as ajudar a carregá-las.

São os santos do mundo actual. Mais do que isso, são santos do nosso tempo, porque a outra coisa que noto sobre eles é que nasceram em grandes desertos espirituais. Enquanto as suas famílias eram em larga medida católicas praticantes, estas crianças cresceram num meio social de poder, influência e riqueza, que tende a fugir de religião. São os verdadeiros desertos dos tempos de riqueza.

O Brendan era amigo do James Pavitt, ex-chefe do serviço clandestino da CIA. Erik Prince, o polémico fundador do serviço de segurança privada Blackwater chorou como um bebé quando soube que Brendan tinha morrido, e transportou toda a sua grande família do Médio Oriente para irem ao funeral.

A Audrey nasceu numa família influente em França, com ligações e interesses nos Estados Unidos e noutros países.

A Margaret Leo tornou-se muito amiga de Clarence Thomas, o juiz do Supremo Tribunal. A sua fotografia ainda está na sua secretária, dentro de uma moldura feita por ela, de pauzinhos de gelado.

Quando pensamos em crianças a quem foram dados grandes dons espirituais, normalmente pensamos em pastores, ou algo parecido, como em Fátima e em Lourdes. Mas estas crianças eram diferentes. Estas receberam muitos bens materiais, excelentes oportunidades de educação e conhecimentos sociais. Deus colocou estas pequenas almas sofredoras nestes locais e neste tempo por uma boa razão, para que as suas histórias possam tocar as almas que habitam as casaronas de Great Falls, McLean, Paris e mais além.

Audrey Stevenson, Margaret Leo, Brendan Kelly, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 3 de Julho 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sábado, 6 de julho de 2013

Mais uma vítima da Primavera Árabe


Padre Mina Aboud Sharween, da Igreja Copta, no Sinai, Egipto. Assassinado por islamistas.

Mais uma vítima da Primavera Árabe.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Vatican in overdrive...

Do Egipto... uma das mais bizarras fotografias inter-religiosas de sempre
Um manifestante enverga um Alcorão e um crucifixo enquanto equilibra
um veículo militar em cima da cabeça. (Nem sei o que tem na boca...)
É uma regra básica do marketing que uma organização não deve fazer várias iniciativas no mesmo dia, porque acabam por ofuscar-se umas às outras. Alguém que explique isso ao Vaticano se faz favor porque só esta manhã tivemos:


Pela primeira vez desde que regressou ao Vaticano, Bento XVI foi visto em público com Francisco, não no lançamento da encíclica, mas para a inauguração de uma estátua de São Miguel Arcanjo.

No meio disto tudo decidiu-se fazer uma conferência de imprensa para anunciar que João Paulo II e João XXIII devem ser canonizados ainda este ano. A surpresa é que “O Papa Bom” foi “dispensado” de um segundo milagre…

Também hoje foi aprovada a beatificação de monsenhor Álvaro del Portillo, sucessor de Josemaria Escrivá à frente do Opus Dei… e ainda… foi promulgado o reconhecimento das “virtudes heróicas” da fundadora das Concepcionistas, a portuguesa Madre Isabel.

Apesar das tentativas de monopolizar as notícias por parte do Vaticano, há mais actualidade religiosa… os cristãos egípcios apelam à reconciliação nacional após o fim do regime do islamista Mohamed Morsi. Os islamistas, por sua vez, apelaram a uma “sexta-feira de cólera” que já fez pelo menos quatro mortos. Se está a leste do que se passa no Egipto, pode ler aqui o meu texto sobre o assunto.

E se está pelo Norte e quer ajudar a criar um banco de leite para São Tomé e Príncipe, saiba aqui como.


Última nota para dizer que este fim-se-semana D. Manuel Clemente toma posse do Patriarcado de Lisboa. Pode assistir a tudo ao vivo no site da Renascença. Amanhã, a partir das 11h00.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Drusos e judeus em Israel; Papa na Turquia em 2014?

Drusos no enterro de um membro da comunidade
morto ao serviço das forças armadas israelitas
O Papa Francisco vai visitar a ilha de Lampedusa, já na próxima segunda-feira. A viagem servirá para visitar os refugiados que ficam albergados naquela ilha. Para Jaime Nogueira Pinto, com este acto, o Papa está a fazer o que Cristo faria.

Mas há mais viagens no horizonte do Papa. Informação ainda não informada dá a entender que estão previstas viagens à Turquia, Ásia e África, em 2014, e América do Sul em 2015. Claro que a viagem ao Brasil está ao virar da esquina.

Há cerca de duas semanas mandei uma notícia sobre um judeu que tinha sido morto junto ao Muro das Lamentações, alegadamente por ter gritado “Allahu Akbar” e posto a mão no bolso, enquanto se aproximava de um segurança armado. Ao que parece a realidade é bastante mais complexa. O homem em questão terá insultado o segurança por ser da comunidade drusa e este matou-o por vingança. Pelo menos é nisso que crê a polícia.

Tal como previsto, o regime egípcio caiu mesmo, e com a bênção de importantes líderes religiosos. No blogue encontra-se a minha análise do significado deste golpe e do que o futuro poderá reservar para o Egipto e para a sua comunidade cristã.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a Eutanásia desde a Alemanha nazi até agora.

Um olhar sobre o Egipto pós-Morsi

O primeiro Presidente democraticamente eleito no Egipto não durou mais que um ano.

Mohamed Morsi foi ontem deposto através de um golpe militar anunciado. O mais interessante, para mim, é o facto de os militares se terem reunido previamente com os principais líderes religiosos do país, que sancionaram a sua actuação.

Do lado cristão, a escolha era óbvia. O carismático e recém-eleito Papa Tawadros II esteve presente e fez questão de dar a sua aprovação à acção dos militares e aos manifestantes que se encontravam nas ruas.

Do lado muçulmano, o escolhido era o líder da Universidade Al-Azhar, a principal e mais prestigiada instituição de ensino em todo o mundo islâmico. Mas aqui é que a situação fica mais complexa. Como se sabe, o Islão não tem uma hierarquia centralizada. Cada sheikh, ou imã, é virtualmente independente. Em alguns países há cargos oficiais criados pelo Governo, ou então há cargos como este que carregam inerentemente grande prestígio, mas as suas bases não são teológicas e, por isso, não é difícil outras correntes apresentarem objecções ou darem a sua fidelidade a outros líderes.

Por isso, não se pode presumir que, pelo simples facto de o presidente do Al-Azhar ter “dado a sua bênção”, os militares contem agora com o apoio dos islamistas. A Irmandade Muçulmana, e todos os seus seguidores, estão tudo menos contentes com o golpe.

Isto porque, no meu entender, a Irmandade Muçulmana é a grande derrotada deste golpe militar. Quando caiu o regime de Hosni Mubarak ela era, de longe, a força social e política mais bem organizada do país. Foi com naturalidade que chegou ao poder, através do seu Partido da Justiça e da Liberdade, e fez eleger o seu candidato à presidência. Um ano depois o Presidente foi deposto, depois de ter sido abandonado por todos os seus aliados, à excepção da Irmandade, e os líderes do movimento estão detidos.

Tenho sérias dúvidas de que a Irmandade recupere a sua legitimidade e capacidade de acção. Mesmo que lhe seja permitida concorrer a novas eleições. Mas o problema é que isso deixa em aberto um espaço vazio que poderá muito bem ser preenchido por forças bastante mais fundamentalistas. É que em vários aspectos a Irmandade Muçulmana é bastante moderada.

O futuro do Egipto é, portanto, incerto nesta altura. É esperar para ver.

E os cristãos? 10% da população, os coptas são a mais importante comunidade cristã de todo o Médio Oriente. Eles estavam publicamente desiludidos com o regime de Morsi e as suas políticas islamizantes e recordavam frequentemente que ao longo dos últimos anos o número de ataques anticristãos tinha crescido, em relação ao regime de Mubarak.

O apoio dado pelo Papa Tawadros às forças armadas e aos protestos foi impressionante e muito explícita. A sua “glorificação” dos militares é curiosa, tendo em conta a forma como os coptas os criticaram quando há cerca de dois anos mataram uns 25 cristãos desarmados durante uma manifestação.

A seguir à queda de Mubarak todos os egípcios acabaram por revelar a sua impaciência com o tempo levado pelos militares a abandonar o poder aos civis. Agora veremos quando tempo é que as Forças Armadas continuam nas boas graças dos defensores da democracia.

Em todo o caso, o que parece evidente é que os coptas têm em Tawadros um líder forte, sem medo de se comprometer com as causas e de dizer a verdade e defender o seu rebanho. Tawadros é carismático e de sorriso fácil e está a ser levado a sério pelos actores políticos, neste caso pelos militares, o que é bom augúrio para o estatuto dos cristãos no futuro próximo do Egipto.

Vejamos se é desta que o Egipto experimenta mesmo uma Primavera, ou se vem aí outro verão quente seguido de inverno.

Outros artigos relacionados:

quarta-feira, 3 de julho de 2013

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