quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Quem tem medo da Unção dos Doentes?

Com imagens destas, não era suposto termos medo?
Quarta-feira é dia de audiência geral do Papa, e com Francisco isso é sinónimo de notícias… assim tivemos hoje orações pela paz na Venezuela e também a garantia de que não há que ter medo da unção dos doentes.

Também esta manhã soube-se que já foi aprovada a versão preliminar do resumo das respostas aos inquéritos sobre a evangelização e a família. Houve muitas respostas, mas não há detalhes por enquanto.


E aos nossos amigos eborenses fica o aviso de que a renúncia quaresmal deste ano naquela arquidiocese destina-se a ajudar as monjas de Belém, que se estão a instalar por lá e têm um mosteiro para pagar.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é de interesse geral, mas recomenda-se a sua leitura de forma particular aos sacerdotes, em especial aos párocos. Será possível transformar uma paróquia por diocese em exemplo de excelência?

Como Seria uma Paróquia Classe-A?

Bevil Bramwell, OMI
Deixem-me sonhar: E se cada diocese transformasse pelo menos uma paróquia numa Paróquia Classe-A? Com isto quero dizer uma paróquia que se apresenta como trabalhando proactivamente para ajudar cada paroquiano a tornar-se santo.

Afinal de contas: “Como todos os fiéis, também os leigos têm o direito de receber com abundância, dos sagrados pastores, os bens espirituais da Igreja, principalmente os auxílios da palavra de Deus e dos sacramentos” (Lumen Gentium, Vaticano II). Uma Paróquia Classe-A é uma paróquia de abundância espiritual e não apenas uma paróquia de missa dominical com alguma catequese e visitas aos doentes. De facto, dado o apelo à evangelização, esta paróquia procura chegar a cada pessoa na área: Gostaria de ser Católico? Gostaria de ser santo?

A Paróquia Classe-A é um local desafiante onde somos encorajados a aprender sobre a fé, independentemente da idade. Quando Bento XVI pregava sobre a história da figueira e do homem que cuidava da vinha, explicou que não devemos subestimar: “A necessidade de começar a mudar tanto o interior como o exterior das nossas vidas de imediato, para não perder as oportunidades que a misericórdia de Deus nos dá para ultrapassarmos a nossa preguiça espiritual e responder ao amor de Deus com o nosso amor filial”.

Isto podia estar gravado nas paredes da igreja paroquial.

A Paróquia Classe-A é diferente de outras também na medida em que o ensinamento se baseia na doutrina oficial da Igreja e não de qualquer partido político ou do New York Times. A formação na paróquia envolve ir mais além e ajudar as pessoas a aprender a compreender e a aplicar a sua fé nas circunstâncias práticas, tal como a vida familiar, negócios, eleições, etc. Estamos a falar de um tipo de pedagogia muito mais sofisticada do que a mera repetição de algumas verdades, que obriga o professor a meter a mão na massa para compreender e criar empatia com as vidas das pessoas, sempre com uma grande compreensão da fé.

Aprender é importante porque somos chamados a “transformarmo-nos pela renovação das mentes” (Romanos 12, 2). Há apenas uma verdade e é por isso que Paulo diz que devíamos ser transformados “para que com um só coração e uma só voz glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 15,6). Esta unidade testemunha o espírito uno do Deus uno: “O mesmo Espírito, unificando o corpo por si e pela sua força e pela coesão interna dos membros, produz e promove a caridade entre os fiéis” (Lumen Gentium).

Há uma coesão espiritual rica, também: “Daí que, se algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente; e se algum membro recebe honras, todos se, alegram” (Lumen Gentium). Isto vai muito para além de estar sentado ao lado de pessoas na missa. Uma paróquia destas implica conhecer as pessoas e relacionarmo-nos com elas de forma compreensiva.




Não estamos a falar de uma comunidade de auto-seleccionados. Nem de uma comunidade de pessoas da mesma classe social. Pelo contrário, é uma comunidade de pessoas atraídas pelo Deus Vivo, o que significa que estão lá todos. Mais, nesta paróquia: “Devem os leigos abraçar prontamente, com obediência cristã, todas as coisas que os sagrados pastores, representantes de Cristo, determinarem na sua qualidade de mestres e guias na Igreja, a exemplo de Cristo, o qual com a Sua obediência, levada até à morte, abriu para todos o feliz caminho da liberdade dos filhos de Deus” (Lumen Gentium).

Logo, em vez do estilo actual de paróquia em que cada um escolhe o que quer seguir, uma Paróquia Classe-A é aquela em que se exerce a liderança. Esta comunidade anseia pela santidade e isso requer liderança.

Os edifícios da paróquia poderão precisar de renovações para melhor cumprir estas missões. Por exemplo, a colocação de textos do Vaticano II em ecrãs na entrada, ou noutro local onde possam ser lidos pelos paroquianos, pode ajudá-los a ter uma melhor compreensão da sua fé. Alguns dos textos do Ofício das Leituras também seriam úteis. Podiam ser mudados semanalmente para ir informando os transeuntes.

Por fim, uma paróquia desta natureza viveria em profunda e compreensível admiração pelo facto de “Na celebração da Eucaristia entramos no mistério de Deus, naquela rua secreta que não conseguimos controlar: Ele é o único, a glória, o poder... Ele é tudo” (Papa Francisco).

Ele vale bem o esforço de uma Paróquia Classe-A.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 23 de Fevereiro 2014 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Heróis na RCA, cobardes na Nigéria

Evangelho em acção na RCA
Começo com uma notícia preocupante e boa ao mesmo tempo. Preocupante porque numa vila na República Centro-Africana 800 muçulmanos estão cercados por milícias cristãs que os querem chacinar. Boa porque esses muçulmanos encontraram guarida numa Igreja Católica e os padres estão dispostos a dar a vida para os salvar.



A Igreja Ortodoxa da Ucrânia fiel a Moscovo distancia-se de Yanukovich e dá sinais de querer dialogar com as outras igrejas ortodoxas a operar no país.

D. Manuel Clemente recebeu esta tarde a UGT para uma audiência no Patriarcado de Lisboa e ouviu elogios ao trabalho social da Igreja.

O meu artigo no blogue sobre casos em que os “direitos” dos homossexuais colidem com a liberdade religiosa foi actualizado novamente. Não deixem de ler e sintam-se à vontade para colaborar, enviando-me casos que conheçam.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Referendo chumbado, Ucrânia de mal a pior

Felizmente o meu bairro não é em Kiev

A situação na Ucrânia agrava-se e começa a levantar-se o espectro de guerra civil. A capelania ucraniana (greco-católica) em Portugal pede orações pelo país e em Roma o Papa fez o mesmo.

Hoje Francisco recebeu das mãos de duas irmãs portuguesas um exemplar do documentário “O meu bairro”, sobre o trabalho de missionários da Consolata no bairro do Zambujal. Veja a reportagem.


Más Notícias da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
A Terceira Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos reúne-se em Roma de 5 a 18 de Outubro para debater os Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização. O gabinete sinodal do Vaticano elaborou um Documento Preparatório que contém uma série de questões sobre o estado actual dos esforços da Igreja em promover as suas doutrinas e práticas, juntamente com os vários desafios que enfrenta.

No dia 3 de Fevereiro a Conferência Episcopal da Alemanha publicou um sumário das respostas de vinte e sete dioceses alemãs e “vinte associações e instituições católicas conhecidas” a estas questões. Infelizmente não temos acesso à lista das associações, o que podia dar jeito para análise. Os resultados são tudo menos animadores, pelo contrário, são preocupantes.

Eis um exemplo do que foi apresentado no sumário (com os meus comentários em itálicos e entre parênteses):

·         “As afirmações da Igreja (NB: afirmações, e não ensinamentos) sobre relações sexuais antes do casamento, homossexualidade, divorciados e recasados e regulação de nascimentos, pelo contrário, quase nunca são aceites, ou são expressamente rejeitados na vasta maioria dos casos”.

·         “A maioria dos baptizados também não está familiarizada com o termo ‘Direito Natural’”.

·         “O Direito Natural praticamente não é objecto de detalhe ou elaboração no interior da Igreja e frequentemente é rejeitado como sendo ultrapassado ou incompatível com o discurso ético moderno. Em particular, existe uma crítica acentuada em relação a uma visão de Direito Natural estreita, biologicamente determinista, que não é ajustada à compreensão cristã do homem”.

·         “Quase todos os casais que procuram casar pela Igreja já vivem juntos, frequentemente há muitos anos (estima-se que entre 90 e 100%)... Tendo em conta a natureza indissolúvel do casamento (respostas subsequentes dão a entender que também isto é rejeitado na Alemanha) e sabendo-se que um casamento falhado implica uma profunda crise de vida, muitos consideram até irresponsável casar sem ter vivido junto antes” (Viver em pecado é visto como um antídoto para a separação).

·         “A maioria dos católicos cujos casamentos falharam não se preocupam com a questão da validade porque não consideram que os seus casamentos, muitos dos quais duraram anos, eram “nulos”, mas sim que falharam. Consideram que um processo de nulidade é desonesto. Esperam que a Igreja os deixe recomeçar numa nova relação (porque é que haveriam de esperar isso?), à imagem do que fazem as Igrejas Ortodoxas.

·         “A exclusão canónica dos sacramentos em resultado do recasamento civil é vista pelos envolvidos como sendo uma discriminação injustificada e uma falta de misericórdia”.

·         “Há uma tendência clara entre os católicos alemães para encarar o reconhecimento das uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, e o seu igual tratamento em relação ao casamento, como mandamentos da justiça. A abertura do casamento a pessoas do mesmo sexo, pelo contrário, é largamente rejeitada. Um elevado número de pessoas acha que seria positivo oferecer um rito de bênção a casais do mesmo sexo.”

·         “A encíclica Humanae Vitae (1968) sobre paternidade responsável só é conhecida pela geração mais velha. A sua recepção foi limitada à partida no que diz respeito à proibição dos métodos de regulação de nascimento chamados “artificiais” (porquê descrevê-los como “chamados”?). Surge claro nas respostas que a encíclica é desconhecida pela geração mais nova.”

·         “A distinção entre métodos de regulação de nascimento “naturais” e “artificiais” e a proibição destes, é rejeitada pela vasta maioria dos católicos como sendo incompreensível (o que não admira, se não conhecem a Humanae Vitae), e não é respeitada na prática”.

·         “As respostas das dioceses são unânimes de que os católicos (todos, incluindo o clero?) não encaram a utilização de métodos contraceptivos “artificiais” como pecaminosos e, consequentemente, como algo que deve ser confessado”.

A rejeição em larga escala dos ensinamentos da Igreja revelada por este relatório é uma acusação contra a Igreja alemã. É nítido que muito pouco tem sido feito ao longo dos últimos cinquenta anos para explicar e promover os ensinamentos da Igreja sobre o casamento, a família e a moral sexual. Contudo, isso não parece incomodar minimamente os editores que prepararam o relatório.

Há uma total ausência de arrependimento ou remorsos. Nunca se pergunta: “Como é que chegámos aqui?”. Não há qualquer autocrítica por parte das dioceses ou associações católicas sondadas; nenhum sentido de pena de que as pessoas estão a cair tão facilmente em padrões de comportamento pecaminosos e que consideram os ensinamentos da Igreja risíveis ou ofensivos.

É difícil imaginar uma atitude tão passiva no que diz respeito à rejeição de ensinamentos fundamentais da Igreja sobre casamento e sexualidade humana caso os relatores estivessem interessados em promover ou defender esses ensinamentos, como é da responsabilidade de todos os católicos, sobretudo do clero.

Imagine-se que o Vaticano fazia um inquérito sobre as atitudes em relação à ecologia e descobrisse que a maioria dos baptizados alemães gosta de incendiar florestas e matar animais ao desbarato, essa informação seria enviada para Roma sem qualquer indício de condenação, ou sequer de vergonha, pela Conferência Episcopal?

Estamos perante uma tentativa de forçar uma mudança nos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual. A sociologia tem primazia em relação à razão e à revelação. O povo falou, disse-nos o que quer, seria injusto ignorar ou contradizê-lo! Das duas uma, ou os fiéis alemães apresentam uma ignorância invencível sobre a doutrina católica, ou acham-na pouco convincente. Por isso, os ensinamentos devem ser abandonados.

Corremos o risco de o sínodo se tornar um campo de batalha perigoso. Mas talvez isso seja para o bem da Igreja. O espírito mundano que trata os ensinamentos da Igreja como meras opiniões é destrutivo da fé. Esse espírito deve ser confrontado e refutado. O ensinamento da Igreja é de Deus e a sua verdade não depende das opiniões de católicos mal formados.

Os defensores da Igreja devem estar preparados para se aguentarem firmes e não cederem a pressões como as que se encontram neste documento da Alemanha.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 15 de Fevereiro de 2014)

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uma cobra pode matar um pastor na Dinamarca?

- Morde?
- Não.
- E a cobra? 
Bem-vindos ao bizarro mundo das igrejas cristãs americanas. Nos Estados Unidos existem umas quantas igrejas de manejadores de cobras venenosas, e uns quantos pastores dessas igrejas. Bom, menos um pastor agora. Adivinhem porquê?

**Blog bonus** Quem é, provavelmente, o manejador de cobras mais famoso de sempre? Veja no final do post.

Os oito super-cardeais que vão ajudar o Papa a reformar a Cúria estão por estes dias na Santa Sé. Mas ao que tudo indica não tiveram nada a ver com a decisão de Francisco de viajar com os seus documentos argentinos, que mandou recentemente renovar, em vez do passaporte diplomático a que tem direito.

Mais um sinal preocupante da Europa do Norte. A Dinamarca juntou-se aos países que proíbem o abate ritual de animais para alimentação. Segundo o ministro da agricultura os direitos dos animais são mais importantes que a religião.


Na passada sexta-feira, dia dos namorados, publicámos no site da Renascença uma reportagem com o pastor baptista Tiago Cavaco, sobre o seu mais recente livro “Felizes para Sempre e outros equívocos acerca do casamento”.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Meninos perdidos e a roupa do vizinho na missa

Outra raça de rapazes perdidos...
O Papa Francisco deixou um recado hoje, na audiência-geral, para os que vão à missa comentar os hábitos e a roupa dos outros.

O bispo de Setúbal faz hoje 25 anos de ordenação episcopal e em entrevista à Renascença diz que a Igreja “tem de sair de casa”.


Convido-vos ainda a ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Austin Ruse escreve sobre os “Rapazes Perdidos”, incluindo ele, o seu irmão mais novo e os 10 milhões de rapazinhos americanos que crescem longe dos seus pais.

O Rapaz Perdido

Austin Ruse
Não consigo deixar de chorar sempre que vejo filmes sobre rapazes perdidos. Não sei se o género literário é antigo ou não. Há a passagem sobre Jesus no Templo, mas Ele não está verdadeiramente perdido. William Blake tem um poema belíssimo sobre um rapazinho perdido. E há o Peter Pan, claro.

Mas o cinema moderno dedica-se bastante a este tema. Será porque o número de rapazes perdidos aumentou exponencialmente desde meados do século XX?

Em “Inteligência Artificial” Steven Spielberg mostra-nos um menino robot, David, o primeiro de um novo modelo capaz de mostrar verdadeiro amor pelos donos. É colocado com uma família cujo filho verdadeiro está num estado de animação suspensa até que se encontre uma cura para a sua doença. Encontrada a cura, o rapaz regressa a casa para descobrir que tem um rival mecânico.

O menino verdadeiro cria incidentes que levam os seus pais a temer o David e a clínica decide que ele deve ser destruído. Em vez disso, contudo, a sua mãe deixa-o numa floresta assustadora com um urso de peluche. David suplica com a mãe para não o abandonar.

David e Teddy aventuram-se numa distopia perigosa onde os robôs são torturados e mortos. Procuram a Fada Azul, do Pinóquio, que o pode transformar num verdadeiro rapaz, para que a sua mãe o receba de volta um dia.

Esse é o buraco que os “rapazes perdidos” procuram preencher. Sem qualquer culpa própria, são atirados para o mundo quando tudo o que querem é uma casa, uma mãe, mas sobretudo um pai.

Em “Slingblade” vemos a história de um deficiente mental, Karl, que ainda pequeno foi obrigado a enterrar o seu irmão recém-nascido, depois de um aborto falhado, metendo-o numa caixa de sapatos e enterrando-o vivo.

Aos 12 anos mata a sua mãe e o namorado e é institucionalizado. Libertado, conhece Frank, cujo pai se suicidou e que vive com a mãe e uma série de namorados abusadores.

Embora Karl seja um rapaz perdido, é o desejo do pequeno Frank que nos parte o coração. Vimo-lo dizer: “Às vezes só queria que ele ainda estivesse vivo. A mãe é muito querida, mas gostava de os ter aos dois. Uma vez fomos a Memphis de carro. Estava a chover tanto que nem dava para ver a estrada, mas não tive medo, porque desde que o pai estivesse a guiar, nada nos podia acontecer”.

Mas o filme de rapaz perdido por excelência é outro do Spielberg, o “Império do Sol”, que o próprio considerou o seu trabalho mais profundo sobre a “perda de inociência”. Jamie, filho de britânicos ricos, perde-se da sua mãe numa multidão quando os japoneses invadem Shangai em 1937. Passa os próximos oito anos num campo de internamento localizado perto de uma pista de aterragem japonesa.
Perto do fim da guerra Jamie observa uma cerimónia Kamikaze: três jovens pilotos preparam-se para partir rumo a uma morte certa. Jamie saúda-os e canta o Suo Gân, uma música de embalar galesa. (Ouça, que não se vai arrepender).
Dorme meu bebé, no meu peito,
Tens à volta os braços de uma mãe.
Faz um ninho cómodo e quente.
Sente o meu amor para sempre novo.
Nada de mal te irá acontecer,
A dor sempre passará longe de ti.
Amada criança, perto irás ter sempre,
Em suave dormir, o peito da mãe.

Chega o fim da guerra e Jamie deambula, esfomeado, mas é finalmente socorrido e colocado num orfanato. Certo dia ouve alguém chamar o seu nome. Os seus olhos cansados repousam sobre a sua mãe, que o agarra junto ao peito. Pela primeira vez vemos Jamie a fechar os olhos.

Tenho uma razão pessoal para ficar choroso com estas cenas, é que estes rapazes perdidos são sempre o meu irmão mais novo. O nosso pai morreu quando ele tinha só oito anos, menos dez que eu.

Um irmão mais velho como deve ser teria feito tudo o que fosse possível para ajudar o seu irmão mais novo. Mas não eu. Ao fundo da rua, na escola, mais valia estar a um milhão de quilómetros, no meu pequeno mundo egoísta, longe de toda a dor do meu maninho.

Mas ele foi espectacular. O Doug lutou pelos pais dos seus amigos. E conseguiu. Ensinaram-no a caçar, a pescar e a acampar. Vejo fotografias dele, corajoso, sozinho mas rodeado de rapazes e, sobretudo, dos seus pais. Continua a ter uma relação próxima com muitos deles, mais do que tem comigo.

E por isso, quando vejo esses filmes, penso no Doug. Penso em como o abandonei quando precisava de mim e como nunca mais voltei. Penso em como ele teve de ir em busca de outros homens para substituir não só um pai mas um irmão mais velho. Coro de vergonha.

Um dia a minha mulher perguntou: “Já pensaste que se calhar tu é que és o rapaz perdido?”. Fiquei de rastos.

Tinha só 18 anos quando o meu pai morreu. A sua morte deixou-me à deriva no mundo, e o mundo era-me estranho. O único tutor que tive foi o Zeitgeist, que naqueles dias era particularmente hostil. Só aos 36 anos é que tomei a decisão de amadurecer. Vivi uma vida impressionantemente pouco séria, com educação, empregos e relações encharcadas em longas noites de borga com amigos, convencidos de que eramos os maiores.

Pela Graça de Deus consegui sair desta trajectória ridícula, que me deixou com uma consciência cheia de arrependimento e uma mão cheia de histórias engraçadas. Mas tive sorte.

A nossa nação está repleta de rapazes que poderão não ter essa sorte. Actualmente 27% das crianças americanas vivem longe do seu pai; são 10 milhões de rapazes perdidos. Quem é que os protege?

Da próxima vez que vir um rapaz perdido num filme chorarei pelo meu irmão, e por mim. Mas devemos todos chorar pelos rapazes que, neste momento, estão perdidos e à procura de um lar.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Sexta-feira, 07 de Fevereiro de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Francisco tweeta sobre Bento

O Papa Francisco recordou hoje o seu antecessor Bento XVI, que anunciou há precisamente um ano que ia resignar ao Pontificado. Num tweet Francisco elogia a grande coragem e humildade de Ratzinger.

Também hoje o antigo Secretário de Estado do Vaticano, Tarcísio Bertone, recordou que tentou demover o então Papa de resignar, mas sem sucesso. Irrevogável, para aquelas partes, significa isso mesmo.

Mais um episódio bizarro esta tarde no Vaticano. Meses depois de um homem se ter incendiado na Praça de São Pedro, hoje dois homens tentaram fazer o mesmo, mas foram impedidos.

Morreu o cónego Fernando Marques Dias, de Viseu, que era “amigo de todos os padres” daquela diocese.

E hoje publiquei no blogue a transcrição completa da entrevista que fiz aos Simplus, sobre o seu percurso, a importância da sua música para a fé e a importância da fé para a sua música. Não percam.

"Há pessoas que se sentem confortadas na fé com a nossa música"

Transcrição integral da entrevista aos Simplus. Ver reportagem aqui.

Como surgiu o projecto dos Simplus?
[Luís Roquette] Os Simplus surgiram com base num almoço em que eu e a Maria nos conhecemos. Nós somos primos mas nunca nos tínhamos conhecido porque ela esteve na Bélgica durante algum tempo. Nesse almoço começámos logo a compor, a escrever música, por brincadeira, mas sempre com este pano de fundo da vivência cristã. Começaram a surgir ideias, tema, começou tudo isto a florescer. Isto há uns 12 ou 13 anos. Fez agora 11 anos que começámos o projecto, quando ainda eramos Maria Durão e Luís Roquete.,

Pode-se dizer que vocês procuram evangelizar pela música?
[Maria] Não sei se adoro essa expressão. Pode-se dizer, porque a verdade é que muitas pessoas já vieram ter connosco dizer que se sentem confortadas na fé, ou nas provas que têm n a vida, ou que as ajuda na relação com Jesus e com Deus. Acho que isso é evangelizar. Não se pode dizer na medida em que não é uma coisa consciente. Não pensámos fazer um projecto de música para evangelizar. Escrevemos aquilo que vivemos. Como somos católicos, pode ser que isso ajude as pessoas a viver a sua fé.

Nesta questão da fé, estão sempre em sintonia? Os vossos percursos têm sido bastante diferentes…
[Luís] Não é difícil porque tanto eu como a Maria somos muito abertos à opinião do outro. A Maria normalmente tem mais peso nas palavras, no poema, e eu sou mais virado para a parte musical, de composição.

Nas nossas famílias sempre ouvimos falar neste tema, sempre fomos educados neste sentido. Mesmo que falemos de outro tema qualquer acaba por ir dar aí.

Até que ponto é que a música teve impacto sobre a vossa espiritualidade? Também foram evangelizados pela música?
[Maria] Lembro-me que a primeira vez que fui a um grupo de jovens, resisti meses e meses, mas da primeira vez que fui cantou-se meia hora e depois falava-se. Nos primeiros tempos só ia porque se cantava, e eu nunca cantava antes. Não era daquelas pessoas que cantava em casa e os pais aplaudiam. Foi uma surpresa para a família e para mim, descobrir que afinal cantava, e começou com a minha entrada na Igreja. Por isso claro que a música também está ligada à espiritualidade.

Fui muito marcada pelo coro de Santo António do Estoril, e as primeiras músicas que saíram tinham muito esta marca.

[Luís] Eu fui muito marcado pelo fado. Estou habituado a ouvir fado desde muito cedo e foi um bocadinho por essa via. No fado há muito este tema subjacente, até nos nomes, há uma certa espiritualidade subjacente na cultura portuguesa.

O coro de Santo António também foi importante, bem como a música clássica. Ouvimos Beethoven, Mozart, Bach, Schubert, todos eles compunham um bocado nesse sentido. Porque não, na música moderna, com influências rock e pop, falar de uma realidade que mudou o mundo e muda as nossas vidas.  

Têm feedback dos vossos fãs? Há alguma história de pessoas que se tenham convertido através dos Simplus?
[Maria] Estou a pensar numa pessoa que veio ter comigo e mostrou uma mensagem de um rapaz que tinha tido um desastre e tinha de estar deitado ou fechado em casa durante muito tempo, e dizia que o que o ajudava era rezar o terço e ouvir as nossas músicas.

[Luís] Eu costumo ir à prisão de Tires rezar com as reclusas, juntamente com um grupo grande. E houve uma vez em que se estava a contar histórias e uma rapariga começou a cantar a nossa música, a dizer que a tinha aprendido no Brasil e que era uma das músicas que a fazia sentir fora dali, que a fazia sentir uma certa liberdade, um certo consolo. De repente ela começa a cantar a entrega e cai-me a ficha e percebo que isto está mesmo fora das nossas mãos. É uma história para contar aos netos e aos filhos e que vai ter certamente impacto. É giro ver que isto está do lado das pessoas mais frágeis, a capacidade que a música tem de mover, comover e ajudar pessoas em situações mais frágeis.

O vosso percurso mais comercial tem sido dificultado pelo facto de se identificarem como conjunto cristão?
[Maria] Nem sequer tentámos muito ir pelos caminhos comerciais. Nenhum de nós vive disto. Pelo meu lado gosto mesmo de não viver disto, porque me permite fazê-lo com uma gratuidade e uma distância… não depender do projecto é uma coisa muito boa. Não percebo o que seria escrever se a minha vida fosse isto, porque eu escrevo sobre a minha vida. Entusiasma-me muito ser assim. Nunca tentámos muito entrar na via comercial. Sempre deixámos a comunicação a um grupo de amigos que nos ajuda e às pessoas que se sentem tocadas por isso. Recentemente tomámos a decisão de ter todos os nossos discos disponíveis gratuitamente na internet.

Está claríssimo para nós que é mesmo uma via não comercial, podemos chamar uma via independente. O que nos interessa é mesmo fazer e deixar nas mãos das pessoas que espalhem.

Em Portugal não existe uma grande indústria de música cristã, mas existem algumas bandas e intérpretes. Quem é que destacam?
[Luís] Nesta área propriamente não encontro ninguém específico que me preencha a mim especialmente. Mas há outros artistas portugueses, de outras áreas, que me levam, com as suas palavras e a sua forma de interpretar de outra maneira o que nós fazemos, que acho que são de sublinhar.

Principalmente estas coisas têm de ter uma certa sensibilidade, porque nem toda a gente está disposta a receber uma mensagem assim de caras. As coisas têm de ser feitas como numa conversa com uma pessoa que acredita em tudo ou não acredita em nada. A música tem esse poder, podemos estar a falar de Jesus e conseguir chegar, por outras palavras, a muita gente. Um dos artistas portugueses que consegue fazer isso é o Tiago Bettencourt. Ele tem letras que me levam a pensar que ele está a tentar explicar uma coisa que também sinto, mas de outra forma.

[Maria] Há muitas coisas no Samuel Úria, que gostava de salientar o Samuel Úria, há coisas neste último disco dele que, embora ele não fale muito abertamente de Deus, há claramente uma mensagem cristã. Tenho ouvido muito o disco dele.

Vão ter um concerto em breve…
É no dia 27 de Fevereiro, às 21h no Teatro Gil Vicente, em Cascais. Os bilhetes é tudo online, enviando uma mensagem pelo nosso Facebook. Vamos ter como convidados a Joana Espadinha, o Salvador Seixas, o Francisco Salvação Barreto, a Diana Castro e o Bernardo Romão na guitarra portuguesa.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Música, fé e um ano de resignação

Diálogo inter-religioso no terreno, onde dói
Amanhã faz um ano que Bento XVI anunciou a sua resignação. A Aura Miguel esteve a falar sobre o assunto com D. Amândio, bispo de Vila Real e com João Lobo Antunes. Podem ouvir os 23 minutos da conversa aqui.

Ontem o programa Princípio e Fim foi dedicado especialmente ao papel da música na Evangelização. Há uma reportagem especial sobre o assunto, com análise da importância da música para as diferentes religiões, uma conversa com a Kerygma sobre a evangelização pela música e ainda uma entrevista aos Simplus, um dueto que este mês volta aos palcos.

Depois de meses de terror para os cristãos na República Centro-Africana às mãos de milícias muçulmanas, agora são as milícias cristãs que perseguem e matam os muçulmanos. No meio desta tragédia, graças a Deus, o arcebispo católico e o líder da comunidade islâmica falam a uma só voz contra a violência.

O Papa publicou a mensagem para o dia dos doentes em que insiste que a dignidade não depende das faculdades físicas ou mentais. A este propósito temos ainda uma reportagem sobre ministros da comunhão que fazem chegar o sacramento aos doentes e acamados.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ONU para Santa Sé: "Tornem-se anglicanos SFF"

Senhores da ONU, com isto talvez não
troquem tantas vezes os comprimidos...
A notícia do dia é o relatório da ONU que critica a Santa Sé pela forma como lidou com casos de abusos sexuais sobre menores. O relatório não se fica por ali e, basicamente, recomenda que a Igreja abandone grande parte da sua doutrina moral.

Para o padre, e especialista em direito canónico, José Patrício, esta é uma questão que revela a vertente ideológica da ONU. Mais, o relatório não inclui informação crucial prestada pela Santa Sé.


Noutra notícia de hoje, o Papa falou da importância da missa dominical, durante a audiência geral de quarta-feira.


Não se esqueçam que esta noite há debate sobre religião na Renascença, a partir das 23h00.

Mentes fechadas

James V. Schall S.J.
Como é que pessoas aparentemente boas acabam por defender e fazer coisas terríveis, sobretudo em questões ligadas à defesa da vida? Porque é que negam com tanto vigor que aquilo que fazem está errado? Porque é que se esforçam tanto para destruir toda a gente que descreve aquilo que fazem como sendo mal? Fazem-me muitas vezes estas perguntas. Como responder-lhes?

O Evangelho de terça-feira, segunda semana do tempo comum, é de Marcos 3. Diz respeito ao homem da “mão mirrada”. Sempre considerei esta passagem impressionante. Jesus regressa à sinagoga. Tinha estado a passear pelo campo. Os discípulos comeram grão pelo caminho. São, por isso, acusados de terem violado o sábado. Mas Cristo responde às autoridades judaicas que até os homens de David comeram os pães da proposição no Sábado, quando não encontravam mais nada. “O Sábado é para o homem, e não o homem para o Sábado.” Então Cristo denomina-se “Senhor do Sábado”. Esta afirmação significa que se está a identificar com Deus.

O que acontece de seguida? Um homem com a mão mirrada apresenta-se. Não temos razões para pensar que a mão não estava seriamente deformada, nem que o incidente tenha acontecido. Cristo sabe que está a ser observado. Os líderes judaicos estão à procura de algo com que o acusar. Já o tinham considerado implicitamente culpado por blasfémia, réu de morte. Mas têm cautela. A sua conduta enfurece Cristo. O que é que Ele faz? Ordena ao homem que se aproxime.

Cristo faz uma pergunta a quem o observa. “É lícito no sábado fazer bem, ou fazer mal?” Os líderes sabem que é uma pergunta perigosa. Não respondem, para não ficar mal diante da sinagoga. Ficam “em silêncio”. Cristo olha-os com “indignação”. O seu silêncio é malicioso. Se o homem for curado, mesmo no Sábado, é claramente uma boa obra. O demónio não consegue fazer tal coisa. Ninguém o pode chamar mal.

Mas os fariseus calculam que tal acção violaria as leis rígidas sobre o trabalho ao Sábado. Eles pensam que o homem é feito para o Sábado. A lei governa qualquer contingência. Até uma boa obra é proibida. Mas claramente reconhecem aqui algo contraditório. É por isso que ficam em silêncio. Não querem ficar mal. Mas também não mudam de ideias.

Cristo cura o homem da mão mirrada
 Marcos diz-nos que Cristo se condoeu por terem fechado a sua mente [algumas traduções portuguesas falam antes em “dureza do coração”]. Ele não diz: “Não sabem o que fazem”, mas sim “fecharam a sua mente”. Eles não querem ver o que se está a passar diante dos seus olhos. Implicitamente aceitaram a lógica de que, se alguém é curado no Sábado, isso só pode ser feito pelo Senhor do Sábado. Recusam-se a admitir quem está diante deles.

Cristo diz ao homem para estender a sua mão. Ele fá-lo. “Foi-lhe restituída a sua mão, sã como a outra.” Se não tivesse sido restituída, Cristo teria sido gozado como um impostor. Mas a mão é restituída. Os fariseus não pedem confirmação da cura. É evidente para todos, incluindo para o homem em questão e outros espectadores, que a mão foi restituída. Os fariseus podem não gostar, mas vêem a mão sã.

Como é que se explica a acção dos líderes da Sinagoga? Eles negam as implicações daquilo que acabaram de ver. Fecham as suas mentes. Não reconhecem qualquer lógica na Bíblia que os permita aceitar as premissas do evento que acabaram de testemunhar. Isso obrigá-los-ia a seguir a Jesus, e não as suas opiniões.

De seguida vemos uma das passagens mais assustadoras de todo o Evangelho. Os fariseus “saem”. Para quê? “Tomaram logo conselho com os herodianos contra ele, procurando ver como o matariam”. As provas de autoridade divina não contam contra a sua própria compreensão da autoridade divina. Eles negam a autoridade divina em nome da autoridade divina.

Se alguma vez questionar como é que fiéis ou pensadores inteligentes podem estar diante de verdades evidentes de razão ou revelação e continuar a negá-los a favor das suas opiniões preferidas, eis a razão. Nunca nos devemos espantar com aqueles, mesmo “crentes”, que rejeitam os elementos básicos da fé ou da razão porque não batem certo com a sua visão do que Deus “devia” ser, mas claramente não é.

Esta reacção é pouco comum? Não me parece. Acontece todos os dias entre nós. Continua a deixar Cristo “condoído”? Desconfio que sim. Os principais opositores da fé, tal como nos ensina a história judaica, são frequentemente aqueles que lhe deviam ser mais próximos. Os seus maiores inimigos estão dentro de portas. Eles sabem bem o que fazem. Fecham as suas mentes.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014 em The Catholic Thing)

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Relatório da ONU é ideológica e não corresponde à verdade

Transcrição integral da entrevista ao padre José Patrício, a propósito do relatório que a ONU publicou esta quarta-feira, muito crítica da forma como a Igreja tem lidado com casos de abusos sexuais de menores.

O padre José Patrício, da diocese de Lamego, é especialista em direito canónico e tem acompanhado de perto todo este problema há muitos anos.


Que comentário lhe merece este relatório das Nações Unidas?

É preciso em primeiro lugar integrar o relatório nas circunstâncias em que é emitido. Comos e sabe a Santa Sé faz parte da Comissão para os Direitos da Criança, que é o órgão de controlo e monitorização de uma convenção assinada em 1989, sobre os Direitos da Criança, adoptada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de Novembro de 1989 e entrou em vigor a 2 de Setembro de 1990.

Actualmente fazem parte 193 países. A Santa Sé foi das primeiríssimas a adoptar esta convenção.

Esta Comissão não é um tribunal, é uma comissão de estudo e de controlo, que recebe relatórios periódicos dos estados membros e que depois ao analisar o texto da convenção e a legislação interna dos estados, faz considerações.

No mesmo dia em que saiu este relatório sobre a Santa Sé saíram relatórios sobre vários estados, incluindo Portugal, que é ainda mais extenso que o da Santa Sé, em termos de recomendações. Em relação ao Vaticano isto é um instrumento normal, dentro de um tratado a que a Santa Sé aderiu livremente.

Por isso são recomendações normais para este tipo de comissão, e não são nem mais nem menos graves que recomendações feitas a outros estados membro.

Tem de ficar claro, e para a Igreja isto é claríssimo, que um só abuso sexual de menor por parte de um clérigo ou membro da igreja é algo que não devia acontecer nunca. A Igreja, neste domínio, está a fazer todos os esforços do ponto de vista jurídico e pastoral, de cuidados a ter, para evitar que ocorram abusos cometidos por membros da Igreja. Não conheço nenhum estado nem nenhuma organização que em tão poucos anos tenha promulgado tanta legislação e tenha percorrido um caminho tão longo, em tão pouco tempo, para a protecção das crianças.

Este relatório analisa apenas e só um conjunto muito reduzido de situações ou de passos dados pela Santa Sé e deixa de lado muitos outros, dados também, que vão no sentido de proteger os menores e evitar os abusos, para que a Igreja seja um lugar seguro, pacífico, para todas as crianças.

Não tem em conta sequer aquele que foi o contributo da Santa Sé dentro da comissão. No passado dia 16 de Janeiro, o Monsenhor Silvano Tomasi, representante da Santa Sé na ONU, teve uma intervenção junto desta comissão, em que forneceu um conjunto de dados, de passos que foram dados, de informações, dos quais o relatório não faz sequer menção, o que é estranho. Parece que o relatório estava feito antes de ser ouvida a Santa Sé em relação a um tema tão importante como este.

Dá-se a entender que a Santa Sé é a única organização que não tem uma legislação adequada à protecção das crianças. Pelo contrário a Santa Sé é das instituições que mais se tem esforçado para que isso aconteça e este relatório não corresponde à verdade dos factos, é preciso dizer isso com toda a clareza.

Há influência ideológica neste relatório?
Quando a Santa Sé, em 1990, ratifica a convenção, que dá origem a esta comissão, deixou muito claro que, e passo a citar: “Ao aceder a esta convenção deseja renovar a sua expressão de uma constante preocupação pelo bem-estar das crianças e das suas famílias. Mas considerando a sua singular natureza e a sua posição, ao comprometer-se com esta convenção, não prescinde de qualquer modo da sua missão específica na qual a sua dimensão religiosa e moral têm um aspecto primordial.”

Delegação da Santa Sé que falou à comissão em Janeiro
Isto foi o que a Santa Sé disse à ONU em 1990. Esta convenção, nos últimos anos, tem derivado para um conjunto de posições ideológicas que são cada vez mais incompatíveis com a doutrina cristã, com valores não-negociáveis. A Santa Sé não pode não defender aquilo que Jesus nos deixou como missão, pregar o Evangelho a todas as criaturas, na verdade. E portanto, para não faltar ao mandato de Cristo de pregar a verdade, de pregar o valor da vida nascente desde a concepção até à morte natural, a Santa Sé nestes foros, ao defender as suas posições, tem uma grande vantagem porque está a tratar à luz do direito internacional, temas que são importantíssimos para a vida da Igreja, de todos os países e de qualquer pessoa.

Mas corre sempre o risco de haver pessoas, instituições e ONGs que tenham uma ideologia contrária à religião católica e que tentem impor essa ideologia à Igreja. Devo dizer que no caso concreto desta comissão, como no caso concreto da posição da Santa Sé nas Nações Unidas, estas comissões olham para a Igreja e não sabem muito bem, por vezes, expressar o que querem dizer. Isto porque a Santa Sé não é um estado como outro qualquer. Para já não é membro pleno, é apenas observador. Em segundo lugar tem uma dupla dimensão, territorial, que é o Estado do Vaticano, mas também é o Governo central da Igreja Católica, espalhada por todo o mundo.

Enquanto que num Estado as leis de um país referem-se àquele país, e portanto no caso de Portugal temos uma constituição e depois temos um conjunto de leis promulgadas pelo Governo e é fácil recomendar alterações específicas à legislação, quando estas comissões olham para a Igreja vão ao direito canónico.

Mas a legislação da Igreja não está expressa só no Código de Direito Canónico. Está expresso no direito canónico, que vale para a Igreja Latina, está expressa no código dos cânones das Igreja orientais, que valem para as igrejas orientais, mas depois há um conjunto de normativas que não está em nenhum dos códigos e que são consideradas normas especiais ou estatutárias, que também fazem lei, regulam a conduta dos cristãos e da hierarquia e que neste caso não foram tidas minimamente em consideração.

Por exemplo, está a ser renovado todo o livro VI do código de Direito Canónico de 1983, que se refere ao direito penal, para precisamente transpor para a ordem fundamental da Igreja normas que neste momento têm um valor só de normas especiais e por isso do ponto de vista jurídico não são tão fortes como o direito canónico, mas têm a mesma validade.

Há de facto uma visão ideológica muito diferente entre a Igreja e este relatório das Nações Unidas e essa ideologia é um confronto do qual a Igreja não se pode dispensar. É preciso estar lá, debater as nossas ideias e continuar a explicar a posição da Santa Sé, mesmo que não sejamos ouvidos, que não concordem connosco, e mesmo que nos venham dizer que temos de mudar coisas que à partida sabemos que não vamos mudar, porque são coisas que não depende de nós, dependem daquilo que Jesus nos deixou.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Defensores da família fazem recuar Hollande

"Missa do Papa? O Rodman pode acolitar?"

O Papa Francisco divulgou hoje a mensagem para a Quaresma. O combate à pobreza está no centro do documento.

O Papa vai ter uma visita especial em Abril. Isabel II, que para além de rainha de mais de uma dúzia de países é líder da Igreja Anglicana, vai a Roma. Francisco será o quinto Papa a encontrar-se oficialmente com a rainha.

A visita de Francisco à Coreia do Sul em Agosto é quase certa. Parte da agenda, ainda não confirmada, será uma missa pela paz na Coreia do Norte. A paz é que é na Coreia do Norte, não a missa… atenção.

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