segunda-feira, 30 de junho de 2014

Derrota contraceptiva para Obama... e muito mais!

Que diria a freira mais destemida do faroeste
sobre o "mandato contraceptivo?
Temos muita coisa hoje, mas vamos começar por uma notícia de última hora… O Supremo Tribunal dos EUA decidiu contra o Governo americano no caso “Hobby Lobby”, que diz respeito ao mandato contraceptivo do ObamaCare. É uma importante vitória para a liberdade religiosa. Saiba tudo aqui. Há ainda contextualização aqui e aqui.

Antes de sair dos EUA, conheça a fantástica história da freira mais destemida do faroeste, que poderá estar a caminho da santidade. A irmã Blandina enfrentou, entrou outros, o famoso Billy the Kid…

Este fim-de-semana tivemos três notícias importantes do Papa Francisco. No domingo foi a missa da solenidade de São Pedro e de São Paulo, em que o Papa impõe o pálio aos novos arcebispos. Para além de ter perguntado aos presentes do que é que têm medo, o Papa fez questão de usar um pálio “normal” em vez do “Papal”, o que pode ser mais significativo do que uma mera questão de moda.

Mas mais interessante foi a entrevista que o Papa concedeu a um jornal italiano, em que disse que, em relação à pobreza, “os comunistas roubaram a bandeira” ao Cristianismo.

Antes, no sábado, o Papa tinha dado um recado importante sobre o diálogo ecuménico. Falando a uma delegação ortodoxa, Francisco convidou todos a olharem-se pelos olhos da fé.

Temos ainda para si uma entrevista com um padre nigeriano em Portugal, sobre a situação na Nigéria com os ataques do Boko Haram, bem como as últimas de Meriam Ibrahim que foi novamente libertada e encontra-se na embaixada americana no Sudão.

Mudando de ares, começou este fim-de-semana o Ramadão. O Sheikh David Munir explica quais são as dificuldades de não comer nem beber, em pleno verão, durante 17 horas e esclarece que os jogadores da selecção argelina não são obrigados a jejuar hoje, o dia em que jogam os oitavos de final do Campeonato do mundo. Pode ler a transcrição integral da entrevista aqui.

Para terminar, na passada sexta-feira a RTP transmitiu uma reportagem difamatória sobre uma pessoa que me é muito próxima. Porque a conheço e porque me dei ao trabalho de conhecer o caso, escrevi este artigo que vos convido a ler.

Selecção argelina não precisa de jejuar

Transcrição integral da entrevista ao Sheikh David Munir, sobre o início do Ramadão. As notícias respectivas podem ser encontradas aqui e aqui.

Quando é que começou o Ramadão?
Hoje [Domingo dia 29 de Junho] é o primeiro jejum do Ramadão. De acordo com o calendário islâmico o dia muda ao pôr-do-sol, portanto desde ontem ao pôr-do-sol, das 21h10 entrámos no mês do Ramadão. Como o jejum é durante o dia, das 4h10 até às 21h10 é o tempo em que os muçulmanos adultos saudáveis estão em jejum.

O Ramadão calha este ano muito em cima do Verão. Isto traz dificuldades acrescidas. São quase 17 horas de jejum…
É normal que quando os dias são mais longos ficamos mais horas sem comer e sem beber. Quem não come e não bebe durante muitas horas, o corpo ao fim do dia torna-se um pouco frágil. Mas também valorizamos mais aquilo que temos e sentimos mais na pele o que o outro não tem, porque há muita gente que não tem o mínimo, não come porque não tem, não é porque está em jejum, é porque não tem mesmo.

O jejum vem-nos dar um certo valor daquilo que temos e olhar sempre para os que têm menos que nós.

Que recomendações fazem aos fiéis?
Deus prescreveu o jejum para nós nos tornarmos piedosos, portanto cada um analise, verifique, faz uma auto-reflexão do seu ego, da sua própria pessoa, até que ponto cria uma aproximação com o criador. Tento ver o dia que passa. Pôr em prática o que Deus disse para fazer, uma boa conduta, tentar ser um bom cidadão, um cidadão exemplar, respeitar o próximo, pôr em prática os bons hábitos e costumes, e é claro que o Ramadão é considerado um mês de treino, porque não é só o jejum físico, mas também o espiritual. Controlar a sua língua, controlar os seus desejos, não difamar, não caluniar, não insultar, tentar ser o melhor possível.

E recomendações por causa do calor? Há pessoas que não podem deixar de trabalhar neste mês...
Essas pessoas têm de tentar mudar os seus hábitos em termos de alimentação, porque come-se muito cedo. Têm de ser pacientes e caso seja possível convencer o patronato para que haja uma alteração do horário. Se não, tenta cumprir com muita paciência e naquilo que for possível. Quem não consegue mesmo jejuar não deve jejuar.

A Argélia é o único país muçulmano a chegar aos oitavos de final do Mundial. O facto do jogo ser já em tempo de Ramadão pode afectar?
Em primeiro lugar, quando uma pessoa está de viagem está dispensado do jejum. Terá de jejuar os dias que não o fez, depois do Ramadão. Isso já dispensa, independentemente de estar a participar num campeonato de futebol, ou do que for.
Por outro lado, duvido muito que os jogadores, sabendo que vão participar nesta competição, nos dias de jogos, jejuem. Farão certamente esse jejum depois do Ramadão.

Do ponto de vista religioso, então, é justificável dispensarem o jejum?
É justificável, sim.

Tendo em conta que Portugal já foi eliminado, há alguma afinidade dos muçulmanos para com a Argélia?
A afinidade que a comunidade islâmica tem é para com Portugal, estamos muito insatisfeitos pela prestação que infelizmente a nossa selecção teve. Há várias razões, não vamos agora falar delas. Mas claro que um país islâmico participa e por isso há sempre aquele sorriso, aquele olhar, apoiar os nossos irmãos muçulmanos. Mas que ganhe o que jogar melhor. E não nos podemos esquecer que há muitos turcos muçulmanos na selecção alemã também!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sacanices sudanesas, pasteleiros e casamentos

Vida salva pelo TEDH
O caso da sudanesa cristã, Meriam Ibrahim, já passou os limites do razoável. Agora parece que o Sudão está só a gozar connosco. Então não é que a mulher foi detida porque viajava com passaporte do Sudão do Sul, obtido em virtude de ser casada com um cidadão desse país… mas o Sudão não a reconhece como cristã, por isso não reconhece o seu casamento com um cristão e por isso também não reconhece o seu direito a ter um passaporte do Sudão do Sul…


E o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem impediu, numa decisão tomada na noite de ontem, um caso de morte assistida em França. O debate sobre a Eutanásia está de novo ao rubro.

Andámos ao longo das últimas décadas a brincar com o conceito de casamento. O resultado? Actualmente: “É mais difícil para um pasteleiro no Colorado deixar os seus clientes, do que os parceiros num “casamento” homossexual no Massachusetts deixaram-se um ao outro.

Amor Mais Fraco que o Comércio

Francis J. Beckwith
Até há pouco tempo o casamento era concebido universalmente como sendo constituído de três características essenciais: conjugalidade, permanência e exclusividade. As leis em vigor reflectiam, no geral, este conceito.

A conjugalidade refere-se à forma como o casamento é consumado: coito entre esposos masculino e feminino. A permanência refere-se ao facto de o casamento não poder ser dissolvido (ou anulado) sem que certas condições específicas sejam cumpridas ou um dos parceiros morra. A exclusividade refere-se ao facto de os esposos não poderem ter relações de intimidade sexual fora do casamento.

A conjugalidade só é uma condição devido à natureza da relação sexual, que se destina à criação de prole através da união dos dois corpos. É por isso que apertos de mão, abraços, beijinhos e outras formas de toque, penetração ou intimidade não preenchem este requisito.

É também por isto que é errado dizer-se que todas estas outras formas de relacionamento são indistinguíveis daqueles actos conjugais que, devido a doença ou idade, não podem gerar filhos. Estes actos, embora estéreis, não deixam de ser actos conjugais, da mesma maneira que um homem não deixa de ser um animal racional só porque se encontra em coma e deixou de poder exercer as suas faculdades racionais.

Tal como o doente ainda possui dignidade humana apesar de não conseguir exercer as suas capacidades humanas, o acto conjugal estéril entre um marido e a mulher possui a mesma dignidade, precisamente porque actualiza a mesma união misteriosa e profunda que é, pela sua natureza, ordenada para a criação de uma pessoa única e insubstituível que, literalmente, encarna a união.

Dada a natureza sagrada da conjugalidade, um conceito que em tempos era aceite sem qualquer controvérsia por praticamente toda a gente, a exclusividade e a permanência fazem todo o sentido, especialmente para quem acredita que as crianças não só se criam melhor com, como têm direito a, um pai e uma mãe, ligados um ao outro sob a autoridade de uma aliança cujos contornos não têm competência para dissolver ou mudarem meramente pelo consentimento.

Claro que tudo isto – conjugalidade, permanência e exclusividade – já não é um dado adquirido e, para muitos dos cidadãos cuja moral se formou na cultura pós anos 60, pode parecer literalmente incompreensível.

Com a entrada em vigor das leis de divórcio sem culpabilidade, no início dos anos 70, a permanência começou a dissipar. A exclusividade seguiu rapidamente o mesmo caminho. A revolução sexual trouxe consigo não só o desvendar da moral que condenava a fornicação, mas também os conceitos de “swinging”, casamentos “abertos” e mesmo o poliamor. As violações da exclusividade começaram a ser vistas não como intrinsecamente erradas, mas erradas apenas na medida em que os esposos não davam o seu consentimento.

Sem grandes surpresas, estas mudanças levaram à proliferação de nascimentos fora do casamento, mães solteiras (com filhos de uma variedade de pais diferentes), famílias destroçadas e famílias mistas.
 
Casamento moderno: Um esqueleto do que já foi
Consequentemente, não permaneceu nada de especial no casamento. Todas as relações podem, em princípio, ser quebradas, religadas ou removidas desde que exista consentimento dos adultos envolvidos. Contudo, aqueles que não podem consentir, como as crianças, podem ser eliminadas (através do aborto) ou, como qualquer propriedade comum, distribuídos de forma equitativa pelas partes interessadas através de procedimentos judiciais.

Dada esta trajectória, porque é que a conjugalidade há-de se manter? É precisamente isso que insinua a retórica de quem apoia o reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Isto faz todo o sentido para muitos dos nossos concidadãos, à luz da sua experiência pessoal de terem crescido numa cultura em que lhes foi ensinado que o “casamento” é um artefacto moldado pela nossa vontade e não uma instituição sagrada que não inventámos e à qual as nossas vontades e os nossos corpos ficam sujeitos quando a ela aderimos.

O que nos leva a uma das grandes ironias do nosso tempo. Recentemente um pasteleiro no Colorado foi avisado pelo Estado de que não se podia recusar a fazer e decorar um bolo para um casal do mesmo sexo que se tinha “casado” no Massachusetts, mas ia fazer a festa no Colorado onde, actualmente, essas uniões não são reconhecidas. O pasteleiro tinha-se recusado, por não poder, em consciência, apoiar materialmente um evento litúrgico que as suas crenças teológicas consideram gravemente imoral.

Estranhamente, com o fim das condições de exclusividade e permanência, e agora de conjugalidade, esta decisão significa que cada parceiro de um casamento legalmente reconhecido (ou união de facto) tem literalmente menos obrigações legais um para o outro do que o pasteleiro tem para com o casal. Aparentemente, o Estado acredita que a preservação da relação entre o pasteleiro e o “casal” homossexual é de maior importância para a causa da justiça pública do que fazer o mesmo para as relações que afirma estar a defender.

Dito de outra maneira: É mais difícil para um pasteleiro no Colorado deixar os seus clientes, do que os parceiros num “casamento” homossexual no Massachusetts deixaram-se um ao outro.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 20 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Triplete africano e mafiosos excomungados

"Estás excomungado padrinho"
Comecemos por um triplete de notícias africanas: Forças quenianas conseguiram hoje uma importante vitória contra os islamitas do Al-Shabaab, baseados na Somália.

Na Nigéria, mais do mesmo, com um novo ataque do Boko Haram, desta vez a uma universidade.

Mas a melhor notícia, nem que seja porque não envolve mortes, vem do Sudão, onde a cristã Meriam Ibrahim, que estava condenada à morte, foi libertada por ordem do tribunal.

O fim-de-semana foi de Corpo de Deus, com a tradicional procissão em muitos pontos do país, incluindo Lisboa. D. Manuel Clemente destacou a importância da presença de Deus em cada um. Leia também o testemunho do Padre José Vieira, que foi missionário no Sudão do Sul durante vários anos, e fala-nos de como se vivia a devoção eucarística naquele país.

Em Roma o dia já tinha sido assinalado na quinta-feira, mas ontem o Papa criticou a tortura e, no sábado, não fez mais nada do que excomungar os mafiosos!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Papa contra legalização de drogas leves

Clicar para aumentar
O Papa afirmou-se hoje contra a legalização de qualquer tipo de drogas. Francisco considera que a droga não se combate com mais droga.

Também hoje o Papa voltou a referir a sua dor pelo sofrimento dos cristãos perseguidos.

A questão das “barrigas de aluguer” está a voltar à agenda. Para quem não está por dentro da discussão, temos aqui umas perguntas e respostas que podem ser úteis.

O padre António Rego está de parabéns! Festeja 50 anos de jornalismo e de sacerdócio, uma ligação que explora nesta entrevista conduzida por Ângela Roque.

Para quem vive na zona da grande Lisboa, fica o desafio. Esta noite passa o documentário “O Meu Bairro”, na Amadora. Trata-se de um filme sobre o trabalho dos missionários da Consolata no Zambujal, e já foi apresentado ao Papa Francisco.

Também esta noite, para quem está mais para os lados de Sintra, não percam a oportunidade de ir ouvir uma conferência sobre a família. “Sabemos responder aos nossos filhos e netos sobre tudo quanto vêem na escola? E o que lhes dizem os professores?” Vasco e Mary Anne d’Avillez falam do tema na Igreja de São Miguel, em Sintra, às 21h. Eles sabem do que falam, tiveram três filhos e saíram todos lindamente. Sobretudo o mais novo…

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ciática Franciscana

Padre Sérgio Lemos, o agricultor
Hoje é dia do Corpo de Deus. Em Portugal as celebrações passaram para domingo, mas no Vaticano não. Contudo, esta tarde o Papa não acompanha a procissão a pé, por causa de uma crise de ciática.

O mundial vai decorrendo… mas a fundação Ajuda à Igreja que Sofre chama a nossa atenção para outros campeonatos que decorrem à volta do mundo, protagonizados por crianças em situações dramáticas. Conheça aqui algumas e saiba como ajudar.

Pode conhecer ainda o sacerdote que não se conformou com a situação que encontrou em Ferreiros de Tendais. Pôs mãos à obra, criou emprego e produz toneladas de frutas e legumes todos os meses.

Hoje foi proclamado Felipe VI, em Espanha. Ontem escrevi um texto a criticar o facto de ele ter escolhido eliminar elementos religiosos da cerimónia. A “Conversa entre Filipes” mereceu muito mais atenção do que eu esperava… se ainda não leu, não deixe de ver.

Não deixe também de ler o artigo de Hadley Arkes, no The Catholic Thing, sobre os diferentes significados que pode ter a expressão “amor” em diferentes contextos.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Jesus o Refugiado, Felipe o Tolo

Bagdade, aqui vamos nós...
Amanhã é a proclamação oficial de Felipe VI como Rei de Espanha. Ao contrário do que é tradição, a cerimónia não contará nem com a presença de um crucifixo, nem com uma missa. Nesta conversa entre Filipes eu dou-lhe fortemente na cabeça.

O Movimento de Socialistas Católicos lançou uma página de apoio à candidatura de António Guterres às presidenciais de 2016. Guterres não é candidato ainda, mas já começa a coleccionar fãs…

Esta manhã o Papa voltou a falar de refugiados, recordando que Jesus Cristo também já o foi…

Os islamitas que o Ocidente apoia na Síria afinal são os maus da fita no Iraque. É o mundo em que vivemos! Saiba tudo sobre os rebeldes que ameaçam invadir Bagdade, quais as implicações regionais e o que isso significa para os cristãos!

Hoje é dia de novo artigo do The Catholic Thing. Dois anos depois publicamos um artigo de Hadley Arkes, que hoje discorre sobre como quando dizemos coisas como “todos devem poder casar com quem amam”, podemos ter noções bem diferentes de amor.

E Por Fim, o Amor?

Sempre que se fala de sexo e direito nas minhas aulas, a atitude automática dos meus alunos é de dizer que estas questões de amor e de atracção sexual são inescrutáveis e subjectivas: A razão tem pouco a ver com o assunto e por isso também não deve ser invocada para lançar juízos morais sobre o amor que se expressa através de relações sexuais.

Então coloco aos meus alunos a seguinte questão: Um homem diz-nos que se sentiu atraído pela sua mulher por causa dos seus “belos cabelos loiros, as suas feições perfeitas, que ligavam lindamente com os meus cortinados”. Mas essas feições alteraram-se ao longo dos anos e agora, explica, “estou a redecorar o apartamento todo ao estilo Art Deco e ela já não encaixa no novo visual”.

Mesmo com as sensibilidades dos jovens de hoje, esta narrativa continua a despertar risos. Já notei várias vezes a ligação entre comédia e filosofia e a forma como os humoristas ganham a vida jogando com a lógica e as nuances da linguagem. Os risos mostram que os alunos compreenderam a questão central.

Mas convém explicar. Existe aqui uma reacção natural a algo que é claramente, comicamente, fora de escala: tratar a decisão de casar ao mesmo nível que a escolha dos cortinados implica reduzir a relação matrimonial para o plano do acessório. E de igual forma seria reduzido o “amor” que essa relação assinalaria. Trata-se de um amor e de um casamento que não fazem pretensões de durar mais do que as “sensações” que, na altura, tornavam os cabelos loiros e as feições tão agradáveis. Não há aqui a menor sugestão de que “Não a deixa fanada o tempo, nem sua variedade maravilhosa poderá tornar-se, com o hábito, sediça”.

Mas falar de um amor que perdura mesmo quando as feições se perdem é falar de um “bem” não material, um bem da alma. Implica necessariamente a existência de algo no esposo que é admirável de forma duradoura, uma forma que, justamente, atrai o respeito e a afeição persistente. Mas isso implica também a existência de uma componente moral indelével no amor que é entendida desta forma – o amor no seu sentido mais sério, o amor que encontra expressão coerente no compromisso de casamento.

Estamos próximos do primeiro aniversário daquele momento, em Junho do ano passado, quando o Supremo Tribunal, em U.S. v. Windsor, deu mais um passo no sentido de destruir a instituição do casamento. Na altura ouvimos toda a gente a dizer que “as pessoas devem poder casar-se com quem amam”.

Mesmo sem ir ao fundo do sentido de “amor”, essas palavras de ordem foram imediatamente reveladas como um slogan vazio por quem quisesse questioná-las minimamente.

É impossível negar o verdadeiro amor que existe entre pais e filhos, avós e netos, e no entanto essas relações não podem ser menosprezadas só porque não encontram a sua expressão no contacto sexual, confirmado pelo casamento. E o problema dos “poliamorosos” e dos polígamos? O seu amor não se limita aos casais, mas são compostos de combinações de três pessoas, quatro, ou até mais. Porque é que estas pessoas não têm direito a casar-se com “quem amam”?

Cupido e Psyche, Orazio Gentileschi
Apesar de tudo isto, recentemente ocorreu-me que nem falamos a mesma linguagem quando os defensores do casamento homossexual discorrem apaixonadamente sobre o “amor”. Em Setembro de 2001 Gareth Kirby, editor do jornal gay-lésbico Xtra West, escreveu:

Sabemos que uma relação de 30 anos não é melhor que um caso de nove semanas ou um engate de nove minutos – é diferente, mas não é melhor... Sabemos que a intimidade instantânea envolvida naqueles 20 minutos perfeitos em Stanley Park pode ser uma coisa profundamente bela.

Tenho amigos sérios do outro lado desta barricada e tenho a certeza que não aceitariam esta definição de amor como aquela que procuram num casamento homossexual.

As palavras de Gareth Kirby aparecem citadas por Robert Reilly no seu recente livro Making Gay Okay. O título engraçado esconde o facto de este ser um trabalho sério, profundo, que recorda Aristótoles, São Tomás de Aquino e Rousseau, bem como estudos empíricos. Esses estudos confirmam, ao longo dos anos, a quantidade surpreendente de parceiros sexuais entre os homens homossexuais.

Num estudo de grande escala, em 2009, 35% dos homens “afirmaram terem tido relações sexuais com menos de 100 homens; 42% tinham tido relações com entre 100 e 499 homens e 23% com 500 parceiros ou mais.”

Mesmo os activistas mais fanáticos evitariam rotular estas relações com centenas de homens, alguns desconhecidos e com a duração de 20 minutos, como amor. A lição é que mesmo os activistas homossexuais estão dispostos a criticar padrões de comportamento que têm sido característicos da população homossexual há décadas.

Sendo esse o caso, porque há de ser inadmissível que outros levantem as mesmas interrogações críticas sobre o significado da vida homossexual? E como é que se admite que o Estado castigue quem julga, precisamente da mesma maneira que os activistas, a forma como algumas pessoas vivem a sua “orientação sexual”?


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 17 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

© 2012 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Uma conversa entre Filipes

Tu és Rei, ou estás prestes a sê-lo, e eu não sou. Logo aí há uma grande diferença entre nós… mas une-nos o nome próprio, pelo que me permitirás falar-te sem cerimónias.

Desde que tenho consciência política que sou monárquico, mais ou menos activo, nunca o escondi. Defendo a monarquia espanhola, gosto dela até… do lado de lá da fronteira, entenda-se, e arrisco dizer que se vivesse nos anos 30 teria contemplado seriamente combater por ela, talvez juntamente com os carlistas, mas isso é outra história.

Amanhã vais ser proclamado Rei de Espanha. Filipe VI. Mas vejo que tomaste a decisão de recusar a celebração de uma missa no contexto dos festejos e que decidiste, também, que o ceptro e a coroa que te serão entregues não se farão acompanhar de um crucifixo durante a proclamação.

Meu caro, como eu ficaria mais descansado se compreendesses as 1001 razões pelas quais isto é um erro tão grande! Começo por recordar-te um episódio histórico. Jesus Cristo, lembras-te dele? Tenho para mim que Ele devia ser o modelo para qualquer pessoa e sobretudo para qualquer rei. Também o quiseram coroar, lembras-te? Queriam fazê-lo rei de um povo, como fazem agora contigo. Mas Ele preferiu a cruz. Lembras-te? Não te incomoda nada que estejas prestes a fazer precisamente o contrário de Cristo nosso salvador?

Apetecia-me perguntar se vais mandar retirar a cruz do cimo da coroa, mas em vez disso vou partilhar contigo aquilo que me explicaram sobre o significado dessa cruz. Não é só uma referência cristã, é a lembrança de que qualquer rei deve estar disposto a ser crucificado pelo seu povo, como Cristo. Se rejeitas esta cruz, que custa tão pouco, aceitarás a outra se te for imposta? Podes responder que não e ser um bom rei? Não me parece.

Até de um ponto de vista pragmático o que fazes é uma parvoíce. Estás a tentar agradar a quem? Os republicanos e a esquerda já te odeiam. Não é por isso que vão passar a gostar de ti… apenas estás a facilitar-lhes o trabalho… Mas arriscas hostilizar os católicos, isso sim. Para quê o tiro no pé?

Terá a ver com outras religiões? Pois digo-te que se eu vivesse na Tailândia ou na Arábia Saudita preferia saber que o Rei se identifica com a religião maioritária do país e se sente responsabilizado por essa crença do que pensar que ele a descartava por razões políticas e sociais.

A monarquia é sempre melhor que a república, sobre isso não tenho dúvidas. Uma das razões, ao contrário do que dizem os críticos, é precisamente o facto de o Rei não ser eleito. Na prática, isso significa que ele não deve o seu posto a nenhuma clique política nem a nenhuma loja maçónica. Mas tem de sentir que a deve a alguém, tem de sentir que tem alguém acima dele.

A cruz que acabas de rejeitar é precisamente essa recordação. É algo que te obriga a ter noção que foste colocado acima do povo para servir o povo mas que terás de responder perante Deus pela forma como te comportas nessa posição. A missa que acabas de rejeitar é precisamente essa recordação, seria o único momento do dia em que mostravas claramente que não te consideras acima de qualquer um dos teus súbditos. Hoje, como há 2000 anos, Cristo é o grande nivelador social da humanidade. Morreu por todos, ama todos e julgará todos. Sentes-te acima desse julgamento? É essa a mensagem que transmites.

Filipe, meu caro homónimo, cometeste um erro grave. Fizeste sem que ninguém te pedisse aquilo que incontáveis mártires, incluindo tantos no teu próprio país, no século passado, foram intimados a fazer mas recusaram, ao custo da própria vida.

Acorda Filipe. Andas a dormir? É que por cá temos um ditado: “Rei que adormece no trono, acorda no exílio”.

Com votos de que possa estar redondamente enganado a respeito de ti, despeço-me com amizade!

Filipe

P.S. A minha irmã ainda está um bocado chateada por não te teres casado com ela… Ou pelo menos estava, já que o meu cunhado nunca renunciou um crucifixo…

P.P.S. Quando quiseres devolver Olivença…

terça-feira, 17 de junho de 2014

Teóloga premiada e imã atacado

Ecumenismo de sangue, ou trabalho de "redes políticas"?
A conta do Papa Francisco no Twitter continua a crescer e já ultrapassou os 14 milhões de seguidores. O Actualidade Religiosa não pode confirmar nem desmentir que Michel Platini é um dos 256 mil seguidores da conta em latim, mas confirma, sim, que a conta alemã tem apenas 195 mil.

Pela primeira vez, o “Nobel da Teologia” vai ser entregue a uma mulher. A teóloga francesa Anne-Marie Pelletier partilha o prémio Ratzinger com um padre polaco especializado em diálogo com os judeus. Qualquer rumor de que Michel Platini tenha estado na calha para ser seleccionado é pura especulação.

E o Papa criticou esta manhã todos os corruptos, considerando que estes “irritam Deus e fazem pecar o povo”. Mas chega de falar de Michel Platini!

Viramo-nos para o Islão… Os ataques que já fizeram pelo menos 65 mortos no Quénia parecem ser de autoria de muçulmanos fundamentalistas. Testemunhas confirmam-no, os próprios islamitas confirmam-no. Toda a gente confirma excepto… o Presidente do Quénia, que culpa “redes políticas locais”, seja o que for isso.

E na Noruega um dos mais influentes imãs da comunidade muçulmana foi ontem atacado violentamente com um machado. Sobreviveu, mas o criminoso, de identidade desconhecida, continua a monte.

Não deixem de ler os dois artigos do The Catholic Thing que foram publicados nas últimas semanas! Um sobre Medicina Ideológica e outro sobre o Confronto Final civilizacional.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ronaldo cita o Papa no regresso da Actualidade Religiosa

Estive fora as últimas semanas em licença de paternidade, devido ao nascimento do Joaquim. Agradeço a preocupação e as orações de todos! Toda a família está muito bem, obrigado.

Não vou recapitular o muito que se passou na minha ausência no mundo da religião, mas hoje também tivemos notícias. O Papa recebeu em audiência o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby. Comprometeram-se em conjunto a combater o tráfico humano, o que é excelente, claro, mas pode também indicar uma certa desistência do diálogo ecuménico ao nível doutrinal.

Mas a notícia do dia, claro, é o facto de Cristiano Ronaldo ter citado o Papa numa mensagem de incentivo para a selecção nacional, no dia em que Portugal se estreia no Mundial. O Papa, entretanto, comprometeu-se a não desequilibrar as coisas e não interceder junto de Deus (o verdadeiro, e não o Maradona) para que ajude a Argentina a ganhar…

Em Dezembro falei-vos do Imã Ahmet Tuzer. Lembram-se? Não faz mal… o “Imã Rockeiro” esteve estes últimos meses a ser investigado pelo Directório dos Assuntos Religiosos da Turquia mas afinal está tudo bem. Há licença para rockar!

O Iraque está de novo mergulhado no caos, mas os radicais islâmicos voltaram a fazer estragos também no Quénia, hoje.

Amanhã é o “Dia da Consciência”, uma efeméride internacional inspirada em Aristides Sousa Mendes… saiba mais nesta reportagem.

Durante a minha ausência foram publicados dois artigos do The Catholic Thing em português. O primeiro inclui uma impressionante, e pouco conhecida, profecia de João Paulo II sobre o “Confronto Final” civilizacional. O mais recente é de interesse sobretudo para pessoas ligadas ao ramo da saúde e fala do fenómeno da “Medicina Ideológica”. Um excerto:

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Medicina Ideológica

Matthew Hanley
Há poucas semanas a Centers for Disease Control (CDC) anunciou novas recomendações para a prevenção da SIDA. Pessoas não-infectadas em risco de contracção de HIV deviam tomar um comprimido – um medicamento antiretroviral – diariamente. Refere-se a isto como profilaxia “pré-exposição”.

A ideia de uma pessoa não infectada ter de tomar o mesmo medicamento que um infectado, por um período indefinido, é de certa forma triste, mesmo sem ter em conta a despesa, as possibilidades de efeitos secundários graves e as implicações em termos de resistência aos medicamentos no futuro.

Nem toda a gente acredita que o comprimido vai mudar o rumo da prática actual, devido à forma imperfeita de protecção que providencia, a potencial falta de adesão e o facto do efeito preventivo poder ser anulado por um aumento de comportamentos de risco (como se viu quando se introduziram os antiretrovirais e profilaxia de pós-exposição). Mas a medida está a ser anunciada como uma revelação.

Seja como for, esta nova recomendação – que corresponde a uma mudança de ênfase – surge acompanhada de um reconhecimento que foi pouco divulgado. Os responsáveis da CDC, segundo o New York Times, “há muito que estão frustrados pelo facto de o número de infecções de HIV nos Estados Unidos mal ter mudado ao longo de uma década, mantendo-se teimosamente nos 50,000 por ano, apesar de 30 anos a recomendar o uso de preservativos para bloquear a transmissão”.

Não digam a ninguém, mas isto significa, basicamente, que Bento XVI tinha razão quando teve a ousadia de observar que o preservativo não é a solução para a crise da SIDA. Por isto, como se recordam, foi criticado e acusado de ser uma ameaça à saúde pública. Que conclusões devemos tirar dos nossos próprios responsáveis de saúde?

Este falhanço tem de ser encarado com silêncio porque a questão mais séria – que precisamos de humanizar a sexualidade – é considerada anátema. Nem quando estamos perante uma morbidez grave as autoridades sentem que se deve ir por aí.

Estamos perante aquilo que o bispo e especialista em bioética Elio Sgreccia referiu como “medicina ideológica”, que se opõe claramente à medicina tradicional e hipocrática. A medicina ideológica preocupa-se com poder – com a imposição de uma agenda que “ignora ou ultrapassa a questão da verdade”. No seu diagnóstico, esta realidade corresponde precisamente à “exploração da profissão médica para fins ideológicos, legais ou não, que estão presentes na sociedade”.

A disciplina de Saúde Pública tem sido utilizada para avançar o objectivo ideológico da normalização. (Aliás, seria difícil encontrar uma profissão que não tenha sido sujeita às mesmas pressões). Os exemplos são muitos, mas a Dra. Vanessa Cullins, vice-presidente para “questões médicas” na Planned Parenthood deu-nos recentemente um exemplo claríssimo, num recente vídeo de “orientação” online: “Em termos de doenças sexualmente transmissíveis, deve esperar contrair o Vírus Papiloma Humano quando iniciar a sua intimidade sexual”.


Ou então o editorial recente do New England Journal of Medicine, que afirma que “a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pode melhorar a saúde e o acesso a cuidados de saúde para pessoas da comunidade LGBT”. Porquê? “Pessoas LGBT que vivem em estados que proíbem o casamento homossexual têm maiores probabilidades que os seus pares noutros estados de, por exemplo, apresentar sintomas de depressão, ansiedade e abuso de álcool”.

Não faço ideia se o editor que deu espaço a este artigo de propaganda acredita verdadeiramente que se trata de uma contribuição medicamente útil. Também não sei o que é que é pior: pensar que sim, ou pensar que não mas aceitar ainda assim. O que realmente vale a pena notar, contudo, é o assumir implícito de que estes sintomas “depressão, ansiedade e abuso de álcool”, resultam do facto de não se legalizar o casamento homossexual.

A medicina ideológica insiste que estes sintomas não podem verdadeiramente, decisivamente, derivar do comportamento em si (incluindo traumas prévios). Li algures, numa fonte de confiança, que o índice de suicídio entre jovens homossexuais é muito mais alto do que a média nacional. Tanto quanto sei não existe uma solução técnica para isso.

Em todos os casos, seja por causa do risco acrescido de contracção de HIV ou de suicídio, é necessário manter-se a ilusão de que o comportamento subjacente é normativo e saudável. A fachada de que os pacientes possam estar a ser bem servidos desta forma é um exemplo clássico de medicina ideológica.

Seria muito melhor, embora rebuscado, se o responsável pela CDC fosse um discípulo de Pascal. Acreditar no que ele escreveu nos seus Pensamentos seria um obstáculo ao avanço profissional, mas chegaria ao cerne do problema com a filosofia actual de “redução de riscos”:

É perigoso mostrar claramente ao homem a sua igualdade com as bestas sem lhe revelar também a sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe demasiado claramente a sua grandeza, sem a sua vileza. É ainda mais perigoso deixá-lo na ignorância de ambas.

As estratégias médicas para prevenção da SIDA conseguem simultaneamente ter o homem em demasiado alta e demasiado baixa conta. Demasiado alta no sentido em que justificam e facilitam qualquer forma de comportamento, sem ver qualquer necessidade de emenda, porque consideram que o homem não pode fazer o mal; em demasiado baixa conta porque acreditam que o homem não tem capacidade de mudar e está irrevogavelmente preso a estilos de vida destrutivos.

Ir demasiado longe em qualquer um destes sentidos é pedir um desastre. E nós já fomos longe de mais.

A lei inscrita no coração do homem, como testemunha Santo Agostinho nas suas Confissões, é tal que nem o mal mais entranhado pode apagar. Não me parece ingénuo dizer que a esperança que deriva desta verdade vale mais do que qualquer profilaxia farmacêutica.

Mas em vez de se tornar prioridade, essa esperança é posta de lado. As pessoas que trabalham tão arduamente para esconder a verdade deviam compreender claramente, nas palavras de Romano Guardini, que estão a “privar o homem da sua humanidade”; mesmo as verdades mais evidentes são colocadas à margem, porque a sua “realização os esmagaria e destruiria”.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 5 de Junho 2014 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Confronto Final

Pe. C. John McCloskey
“Estamos agora diante da maior confrontação histórica que a humanidade alguma vez enfrentou. Penso que grande parte da sociedade americana e da comunidade cristã ainda não compreenderam bem isto. Estamos diante da confrontação final entre a Igreja e a anti-Igreja, entre o Evangelho e o anti-Evangelho.”

“Temos de estar preparados para nos submetermos a grandes provas no futuro próximo; provas que nos obrigarão a estarmos dispostos a dar até as nossas vidas e uma dádiva total de nós mesmos a Cristo e por Cristo. Pelas vossas orações, e pelas minhas, será possível aliviar estas tribulações, mas já não será possível evitá-las... Quantas vezes a renovação da Igreja não foi alcançada através do sangue! Desta vez não será diferente.”
- Conferência proferida nos EUA, pelo futuro São João Paulo II, então Cardeal Karol Wojtyla de Cracóvia, Polónia, a propósito dos 200 anos da independência dos Estados Unidos.

Da primeira vez que li isto os meus olhos quase que saíram das órbitas. Não queria acreditar que fosse autêntico, mas já confirmei várias vezes e é. E disse-o a nós, americanos, quando estávamos no apogeu da nossa grandeza, pouco antes da queda do “Império do Mal”.

É para levar a sério? Sim, muito a sério. Afinal de contas, o orador estava prestes a tornar-se um dos maiores papas da história da Igreja. Mais, era um místico e, sim, um profeta e proclamador da verdade, que sofreu debaixo dos nazis e do comunismo, e de certa forma do Islão. (Recordemos que quase foi morto por um assassino muçulmano, sendo salvo apenas pela intercessão de Nossa Senhora de Fátima, como o próprio admitiu).

Deixem-me ser claro: A minha meditação sobre as palavras de João Paulo II não pretende levar-vos a vender tudo o que têm, fechar as contas no banco, construir um abrigo nuclear e esperar pelo Juízo Final. Essa não é a atitude católica. Mas é difícil não “meditar estas coisas no nosso coração”. O que é que o Papa viu? Ou o que é que lhe foi revelado? Talvez o melhor seja procurar respostas nos seus escritos, embora não haja aqui espaço para os analisarmos exaustivamente.

Também podemos olhar à nossa volta, para o que resta daquilo que em tempos se chamava o Ocidente cristão e notarmos uma quantidade de comportamentos e crenças que parecem feitos à medida para acelerar o declínio. Por exemplo, no Ocidente damos conta da crise demográfica, aborto legal, homossexualidade aberta e “casamento” homossexual, níveis epidémicos de pornografia, queda nos índices de casamento e aumento dos níveis de coabitação.


Politicamente, até os Estados democráticos e tolerantes como o nosso estão a começar a negar os direitos de liberdade religiosa a famílias, empresas e igrejas. Mais, notamos uma crescente centralização do poder nas mãos daqueles que se opõem a qualquer crença religiosa excepto a idolatria da saúde, riqueza e tecnologia. Colocam a sua esperança de longo prazo na possibilidade de a ciência encontrar formas de impedir a morte. Viram demasiados filmes do Star Trek e da Guerra das Estrelas quando eram crianças. Infelizmente, acabarão por ir para onde muitos homens já foram – e não para o espaço.

Esta é, certamente, a anti-Igreja que São João Paulo previa – seja como for está aqui, está a crescer e, até certo ponto, já destruiu a Europa.

O que podemos fazer? Em primeiro lugar, claro, não desesperar. Enquanto católicos, vivemos esta vida com os olhos postos na próxima. Não podemos perder pois, como disse São Paulo, para nós a morte é lucro e não temos que temer.

Então como devemos enfrentar a anti-Igreja? Imitando as vidas dos primeiros cristãos! Considerem esta famosa descrição dos cristãos na “Carta a Diogneto”, escrita por um autor desconhecido, no ano 79 depois de Cristo.:

Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. (...) Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. Casam como todos e geram filhos, mas não abandonam à violência os neonatos. Servem-se da mesma mesa, mas não do mesmo leito. Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos. São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras. Fazendo o bem, são punidos como maus.

Se vivermos como viveram os primeiros cristãos, também nós podemos confrontar e triunfar sobre a Igreja dos Impérios Globais do Mal.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 1 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

O Pe. C. John McCloskey é historiador da Igreja e Investigador na Faith and Reason Institute em Washington D.C.

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