quarta-feira, 4 de março de 2015

Fátima e as Teorias da Conspiração

Howard Kainz
As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, em 1917, que culminaram em Outubro desse mesmo ano com o maior milagre público da história, diante de 70,000 pessoas, é um exemplo formidável da intervenção amorosa de Nossa Senhora, para alertar o mundo para as ameaças vindouras e oferecer formas de evitar as guerras e alcançar a paz.

Mas é da maior importância fazer uma interpretação correcta de Fátima.

Há várias décadas que o padre canadiano Nicholas Gruner, conhecido como o “padre de Fátima”, e o Fátima Center que ele fundou, afirmam que os males deste mundo e, sobretudo, os que a Igreja está actualmente a sofrer, podiam ser evitados se o Papa e os bispos do mundo tivessem consagrado a Rússia correctamente, tal como Nossa Senhora pediu à irmã Lúcia a 10 de Dezembro de 1925. Correctamente, para o padre Gruner, significa mencionar a Rússia pelo nome.

Em Dezembro de 1983 o Papa João Paulo II consultou a irmã Lúcia, a única vidente de Fátima que ainda estava viva, sobre o cumprimento do desejo manifestado por Nossa Senhora. Enviou cartas para todos os bispos do mundo para se juntarem a ele na consagração da Rússia e do mundo a 25 de Março de 1984. Isso foi feito e o Papa acrescentou, diplomaticamente, talvez tendo em conta as ameaças soviéticas ao movimento Solidariedade na Polónia: “De forma especial, confiamos e consagramos-te todos os indivíduos e as nações que precisam de ser confiados e consagrados de forma particular”.

Mais tarde, a irmã Lúcia escreveu que o Papa tinha cumprido a vontade de Nossa Senhora e, anos mais tarde, o mundo assistiu à queda do muro de Berlim e ao desmantelamento da União Soviética. Como já escrevi noutro lado, e ainda noutro artigo, a prometida “conversão” da Rússia parece já ter começado, com liberdade religiosa, uma grande proliferação de igrejas, mosteiros e seminários e níveis de prática religiosa comparáveis aos de Portugal onde, como Nossa Senhora prometeu à irmã Lúcia, “a doutrina da fé será sempre preservada”.

Mas o padre Gruner e o seu séquito de Fatimistas mantêm que a consagração tem de ser repetida, mencionando a Rússia especificamente, e que os cinco minutos passados a fazê-lo farão surgir uma conversão milagrosa, como o mundo nunca viu. Gruner até recomenda a leitura de um romance, “Russian Sunrise”, no qual o seu “avatar” aparece com o nome Nicholas Gottschalk, e finalmente convence o Papa a seguir o seu conselho, levando a mudanças milagrosas na Rússia.

A alegada “conspiração” de silêncio em relação a Fátima não fica por aqui mas, de acordo com os Fatimistas, o terceiro segredo de Fátima, revelado pelo Papa João Paulo II em 2000, contém uma segunda parte essencial que tem sido escondida. A própria irmã Lúcia, quando revelou o terceiro segredo em 1944 e enviou para o Vaticano em 1957, disse que apenas podia dar os detalhes daquilo que tinha visto mas que não estava autorizada a fornecer a interpretação que Nossa Senhora lhe tinha revelado.

Mas os Fatimistas não têm a menor dúvida. Eles desconfiam que o “texto que falta” diz respeito, de forma apocalíptica, “à visão, em que a Virgem explica pelas suas próprias palavras que uma crise interna de fé e disciplina da Igreja será acompanhada por um grande castigo a todo o mundo”. Ou então, talvez, que “o segredo previa as mudanças do Concílio Vaticano II, sobretudo no que diz respeito à liturgia e ao diálogo ecuménico, como fazendo parte da ‘grande apostasia’ que os líderes da Igreja se recusam a reconhecer”.

Deixando as teorias da conspiração de parte, devemos focar-nos no essencial da mensagem de Fátima. Nas aparições de Maio e de Junho de 1917 Nossa Senhora pediu aos três pastorinhos que rezassem o terço todos os dias, para que acabasse a Primeira Guerra Mundial e pela paz no mundo. Este foi o seu principal pedido.

Padre Nicolas Gruner
A 10 de Dezembro de 1925, Nossa Senhora fez outro pedido/promessa extraordinária – Os cinco primeiros sábados. “Prometo assistir à hora da morte, com as graças necessárias para a salvação, todos aqueles que, nos primeiros sábados de cinco meses consecutivos, se confessarem, comungarem, recitarem cinco dezenas do Rosário e me façam companhia durante 15 minutos enquanto meditam nos 15 mistérios do Rosário, com a intenção de me fazer reparação”.

Porquê os “cinco” Primeiros Sábados? Para fazer reparação pelas cinco blasfémias contra o Coração Imaculado de Maria. A 29 de Maio de 1930, Nosso Senhor explicou à Irmã Lúcia que blasfémias são essas:

1. Contra a Imaculada Conceição de Maria. Embora o próprio Martinho Lutero acreditasse tanto que Nossa Senhora viveu uma vida toda sem pecado, como na Imaculada Conceição, os protestantes, em geral, negam estes conceitos devido à ausência de confirmação explícita na Bíblia. Muitos ortodoxos também duvidam, porque isso implicaria uma limpeza do pecado original antes da chegada do Redentor.

2. Contra a Virgindade Perpétua de Maria. Embora Lutero, Calvino e Zwingli tenham afirmado todos a virgindade perpétua de Maria, muitos protestantes agora negam-no, concluindo que as referências bíblicas aos irmãos e irmãs de Jesus dizem respeito a irmãos biológicos e não, como acontece frequentemente na Bíblia, a primos ou outros parentes. Como se, depois de ter dado à luz ao Filho de Deus, Maria estivesse interessada em ter outros filhos! Ou como se Maria tivesse tido outros filhos mas nenhum deles pudesse tomar conta dela depois da crucifixão. Pelos vistos São João seria a única pessoa disponível.

3. A sua divina maternidade e maternidade de toda a humanidade. Embora Lutero, Calvino e Zwingli desencorajassem a veneração de santos, abriram excepções para a Virgem Maria. Os Ortodoxos também reverenciam tradicionalmente a Theotokos (Portadora de Deus). Porém, hoje muitos protestantes ignoram Maria e a possibilidade da sua intercessão. Mesmo alguns fundamentalistas, devotos da Bíblia, são hostis, considerando que a devoção a Maria prejudica a fé em Cristo.

4. A tentativa pública de implantar no coração das crianças uma indiferença, ou mesmo desprezo e ódio, pela sua Imaculada Mãe: É triste ver a atitude de alguns protestantes que pensam estar a prestar um serviço a Deus ao inculcar hostilidade para com Nossa Senhora nos seus filhos e ainda mais triste pensar que há católicos liberais ou feministas que temem que qualquer exposição a Maria venha a dar aos seus filhos uma visão ideologicamente inaceitável da condição da mulher.

5. A ofensa de todos os que a insultam directamente, profanando as suas imagens sagradas: Temos visto numerosos incidentes destes ao longo dos últimos anos. Em 1999 uma pintura incluída numa mostra num museu de Brooklyn chamada “Sensation” mostrava Nossa Senhora coberta de fezes de elefante. Em 2011 na Nova Zelândia a Igreja Anglicana fez um cartaz que mostrava a Virgem Maria com um teste de gravidez numa mão e a outra a tapar a boca aberta, com ar de surpresa. Em 2012 protestantes em Belfast colocaram uma estátua de Nossa Senhora numa fogueira, durante as tradicionais festas de Shankir. Em 2014 o Estado Islâmico destruiu a imagem de Nossa Senhora da Igreja de Mosul e fez explodir a igreja. Em Janeiro deste ano em Perugia, Itália, cinco muçulmanos destruíram a imagem de Nossa Senhora da capela de São Barnabé, e urinaram-lhe em cima. Este tipo de incidentes está a tornar-se cada vez mais comum, juntamente com a destruição de igrejas católicas no Médio Oriente.

Na missa do Primeiro Sábado deste mês fiquei admirado com o número reduzido de pessoas presentes, para além dos habitués da missa diária. Haverá tão poucos católicos interessados em responder ao pedido do Céu de fazer reparação pelas múltiplas ofensas à Virgem Maria? Será que cumprem os primeiros sábados uma vez que seja, para poderem beneficiar das extraordinárias graças prometidas por Maria? Quantos católicos rezam o terço diariamente – o primeiro e certamente o mais importante e simples pedido de Nossa Senhora de Fátima?

Milagre do Sol, Fátima 1917
Existe um mandato divino urgente para reparar os insultos feitos ao Imaculado Coração de Maria. Nosso Senhor, no seu corpo glorificado, presumivelmente tem emoções corporais. O recente comentário do Papa Francisco sobre a reacção natural de um homem ao ver a sua mãe insultada talvez seja uma boa analogia.

Mas os fatimistas acreditam mesmo que se o Papa “consagrar a Rússia” de novo, utilizando a expressão exacta, em cinco minutos, de repente vamos assistir a conversões milagrosas por todo o lado, entre as multidões de cristãos actualmente a utilizar contraceptivos como os pagãos, a promover a homossexualidade e a profanar o casamento?

A União Soviética já não está a perseguir cristãos nem a “espalhar os seus erros pelo mundo”. Isso agora cabe aos islamitas. Nossa Senhora não divulgou qualquer segredo sobre o Islão em Fátima. Não é preciso “segredos” especiais para aqueles que seguem as notícias, mesmo de vez em quando, a crise espiritual é evidente. Mas a solução principal que Maria ofereceu em Fátima mantém a sua relevância. Se pensam que o mundo está no mau caminho, chegou a altura de começar a seguir os pedidos simples de Nossa Senhora – o terço diário e os cinco Primeiros Sábados.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 28 de Fevereiro de 2015)

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1 comentário:

  1. "A própria irmã Lúcia, quando revelou o terceiro segredo em 1944 e enviou para o Vaticano em 1957, disse que apenas podia dar os detalhes daquilo que tinha visto mas que não estava autorizada a fornecer a interpretação que Nossa Senhora lhe tinha revelado."

    Qual a fonte do autor para afirmar isto? Nunca vi nada semelhante.

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