quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

70 anos de Auschwitz e "Stop Jihadismo" em França

Sobreviventes do horror de Auschwitz
Ontem o mundo recordou o Holocausto, no dia em que se comemora a libertação de Auschwitz. Uma reportagem da Renascença mostra que também houve portugueses condenados a ir para esse campo de concentração.

Entretanto o Papa já publicou a mensagem para a Quaresma 2015 e hoje, em Roma, falou da crise dos pais ausentes e de como isso cria uma sociedade com “sentimento de orfandade”.

Os franceses lançaram uma campanha para travar o recrutamento de jihadistas, que procura mostrar um pouco da realidade do Estado Islâmico para refrear o entusiasmo dos eventuais candidatos.

Estamos a vários meses do Sínodo para a Família de 2015, mas a discussão não vai parar! No artigo desta semana do The Catholic Thing, um sacerdote questiona a falta de referências à contracepção nas questões de preparação do encontro dos bispos em Outubro.

Porque é que o Sínodo de 2015 não fala de Contracepção?

Pe. Mark Pilon
Talvez a coisa mais surpreendente sobre as novas Perguntas para o acolhimento e o aprofundamento da Relatio Synodi – o pedido de opiniões em preparação para o sínodo de Outubro 2015 – não seja o que contêm mas a ausência de questões sobre um assunto que se poderia esperar de um documento deste género. Entre as 46 questões, nem uma toca directamente a questão da contracepção.

É incrível. Como é que um sínodo que lida com o tratamento pastoral do casamento e da família nos dias de hoje consegue excluir completamente qualquer pergunta que tenha a ver especificamente com um assunto que tem sido central para essas mesmas questões ao longo dos últimos cinquenta anos?

Não acredito que seja coincidência. A contracepção tem tido um impacto inegável e grave sobre a instituição do casamento. Pode-se argumentar que o impacto tem sido positivo, mas ninguém pode dizer que se trata de uma preocupação marginal. E, todavia, aqui temos um documento que nem sequer menciona a questão directamente. Há uns pontos gerais sobre o encorajamento da generosidade no acolhimento da vida e a relação essencial entre o casamento e a abertura à vida; e bem. Mas nunca se toca na relação evidente entre a contracepção e o facto de muitos casamentos estarem fechados a ambos.

O documento menciona as “mudanças” demográficas e perguntas se as pessoas têm “consciência das graves consequências” que daí advêm, sem nunca explicitar de que mudança se fala realmente e evitando assim usar descrições mais sérias como “suicídio demográfico” ou “inverno demográfico”, a formulação usada por São João Paulo II.

No Humanae Vitae, esta “mudança” era entendida como sendo uma explosão demográfica, mas hoje não é o caso. Quão importante pode ser esta questão, se não merece mais do que uma frase na pergunta 43? Os países europeus estão em queda-livre demográfica e o documento contém uma referência vaga e nenhuma referência a contracepção nem aqui nem em parte alguma?

Mas não é só a crise demográfica que pede alguma referência de contracepção e da mentalidade contraceptiva. Um dos discernimentos centrais do Beato Paulo VI e, sobretudo, de São João Paulo II era de que o uso de contraceptivos num casamento é destrutivo não só do sentido procriativo mas também da sua dimensão unitiva.

Mas a aparente falta de preocupação com a questão da contracepção parece trair uma convicção de que a instabilidade marital e a crise das famílias tem pouca ou nenhuma relação com o facto de a vasta maioria dos casais católicos usarem contracepção.

Mais, existe uma miopia notável em não compreender os falhanços da catequese e das preparações para o matrimónio por todo o mundo no que diz respeito ao mal moral que é a contracepção. E porém, enquanto o documento inclui questões sobre a catequese e a preparação dos matrimónios no que diz respeito à indissolubilidade do casamento, por exemplo, não existe qualquer questão relacionada com uma correcta catequese e preparação para o casamento no que diz respeito à contracepção -  a não ser que se acredite que a referência à “abertura à vida” cobre o assunto, o que seria absurdo.

Então o que é que se passa aqui? Durante meio século, segmentos inteiros da hierarquia da Igreja, tanto padres como bispos, têm-se mantido em silêncio, para não usar um termo pior, no que diz respeito à contracepção e à preparação para o casamento. O mesmo em relação ao confessionário. Tem sido uma revolução silenciosa. Não podiam mudar a doutrina, por isso ignoravam os ensinamentos.


Será que isto explica o silêncio do documento sinodal? Este ensinamento não pode ser alterado, como o Papa Francisco já disse claramente. E porém, parece claro que muitos líderes na Igreja continuam a manter-se cegos à verdade dos ensinamentos de dois grandes papas, de que a contracepção é um veneno para o casamento e para a sociedade em geral.

Então qual é a solução? Faz-se o mesmo que se tem feito ao longo das décadas, enterra-se a questão com silêncio. Fala-se vagamente da “abertura à vida” da “generosidade” no casamento, mas não se especifica que a contracepção leva as pessoas a estarem fechadas à vida ou egoístas em relação a ter filhos. É como uma comissão médica a falar de SIDA sem referir que ter relações promiscuas tem muito a ver com a sua transmissão.

A velha “Aliança Europeia”, que teve tanta influência nas primeiras fases do Concílio Vaticano II, poderá ter voltado ao poder neste sínodo. Os principais defensores da contracepção no Vaticano II eram principalmente teólogos e bispos europeus que faziam parte desta Aliança Europeia, tão bem retratada no livro “The Rhine Flows into the Tiber”.

Os nomes podem ter mudado, mas a rejeição básica do ensinamento da Igreja sobre contracepção mantém-se. A “sensibilidade” pastoral exige que se as pessoas querem contraceptivos, então devem tê-los. Esse não é certamente o objectivo do sínodo, mas é uma questão que não vai desaparecer. Se o sínodo se mantiver silencioso sobre o assunto, isso será entendido quase de certeza como um abandono da Igreja em relação a este assunto, ao nível “pastoral”.

A tragédia é que este sínodo poderia ter tido um impacto positivo, não só para a renovação do casamento, mas para salvar um continente Europeu apostado em autodestruir-se. Se não lidarmos directamente com a questão da contracepção de forma frontal e positiva, então o Sínodo terá pouco impacto na renovação e estabilidade do casamento, e a Europa, bem como a América e grande parte do resto do mundo, continuará a trilhar o caminho do suicídio demográfico, não por meio de armas de destruição maciça, mas através de pílulas minúsculas, mas poderosas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mulheres bispo, transexuais espanhóis e paróquias pobres

Hadjadj
Foi hoje consagrada a primeira bispo da Igreja de Inglaterra (anglicana). Falei sobre o assunto com o bispo D. José Jorge de Pina Cabral, da Igreja Lusitana (ramo do anglicanismo em Portugal) e nestes dois artigos analiso os efeitos da decisão tanto a nível interno como para o diálogo ecuménico e as razões pelas quais a Igreja Católica rejeita seguir o exemplo de Cantuária.

Há paróquias em Portugal onde num domingo bom o ofertório rende 15 euros. Como sobrevivem os padres das paróquias pobres? Um deles confessa que foi depois de assumir uma dessas paróquias que descobriu o que é a fé.

No sábado decorreu o II Encontro Nacional de Leigos. Tive a sorte de poder participar num dos ateliês, que correu muito bem, e mesmo os restantes a que pude assistir foram interessantíssimos. Mas o momento do dia foi, sem dúvida, a palestra de Fabrice Hadjadj! Sei que o texto estava escrito e previamente traduzido para português e por isso espero sinceramente que a organização o disponibilize online!

Na missa final, D. António Francisco dos Santos lamentou o facto de estarmos a educar as nossas crianças para a violência.


Por fim, hoje o Papa Francisco pediu o fim da violência na Ucrânia e foi tornado público que no passado sábado recebeu em audiência um transexual espanhol. Aviso já que não aceitarei qualquer comentário discriminatório sobre este assunto. O senhor em questão não tem qualquer culpa, nem escolheu ser como é. Nasceu assim. Estou a falar do facto de ser espanhol, claro.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Descansem! Afinal o Papa gosta de criancinhas

Depois de mais uma “polémica” a meu ver inteiramente artificial, o Papa esclareceu esta manhã que não tem nada contra as famílias numerosas, ao contrário do que alguns meios de comunicação e comentadores têm tentado dar a entender…

É já no sábado que se realiza o II Encontro Nacional de Leigos, no Porto. Se puderem não deixem de ir. Um dos temas a abordar é o papel dos cristãos na política. O moderador desse painel, Filipe Anacoreta Correia, dá aqui umas luzes sobre o assunto.

A Renascença ajuda-o ainda a perceber quais as diferenças entre os mais importantes grupos terroristas islâmicos, bem como o que têm em comum.


Foi uma grande vitória para a liberdade religiosa! Nos Estados Unidos o Supremo Tribunal decidiu por unanimidade que os reclusos podem deixar crescer o cabelo e a barba se a sua fé assim o exigir. Saiba quais as implicações desta decisão.

Esta quarta-feira publicamos um segundo artigo do The Catholic Thing sobre a questão Charlie Hebdo. Os dois autores deste artigo utilizam uma abordagem bastante diferente e dizem que órgãos como a revista satírica também fazem parte do Corpo de Cristo. Não deixe de ler, vale muito a pena.

Só o Charlie Hebdo não Chega

Jason Scott Jones e John Zmirak
O atentado contra o Charlie Hebdo foi um ataque à Cristandade. Paradoxalmente, jornais que publicam caricaturas imaturas a gozar com a religião também fazem parte do Corpo de Cristo – ainda que sejam o intestino delgado, talvez. Numa sociedade formada por uma noção profundamente cristã da dignidade humana, há espaço para maus cristãos e até para não-cristãos, da mesma maneira que existem celas para carmelitas místicas. A visão mais alargada de uma sociedade verdadeiramente cristã, no sentido terreno, não se encontra nos tratados monásticos mas sim nos Contos de Cantuária.

Qualquer tentativa de “purificar” as sociedades cristãs da dissensão e do pecado à força, acaba sempre em catástrofe: com “hereges” agrilhoados, judeus identificados e pilhas de obras de arte em cima de fogueiras. Estas tentativas de truncar o Corpo de Cristo dos seus membros “impuros” deixaram sementes de vingança que deram brotaram em 1798 em França e em Espanha na década de 1930. No Concílio Vaticano II a Igreja renunciou totalmente a quaisquer aspirações de dominar as almas dos homens através da espada do Estado – reconhecendo que a perseguição religiosa é intrinsecamente má, tal como o adultério e o aborto.

Por isso é doentio ver alguns comentadores a arranjar desculpas para a matança de jornalistas, sugerindo que as vítimas “estavam a pedi-las” por terem enfurecido as sensibilidades dos muçulmanos. Como disse Ross Douthat, qualquer religião que ameaça matar os seus críticos precisa de, e merece, ser gozado desta forma – é um método de autodefesa por parte dos não-crentes.

Mesmo os crentes precisam de algum espaço para poderem brincar com as exigências infinitas da religião, por forma a sublinhar o valor da vida terrena perante aqueles que procuram forçar um sentido puramente espiritual em cada centímetro quadrado da existência. Este dever solene de resistência explica o surgimento de fenómenos loucos como o carnaval, as canções profanas escritas pelos monges e as piadas anticlericais entre os devotos.

A fé cristã não defende que num mundo perfeito seríamos todos monges e freiras – como se o casamento, o trabalho e a política fossem um triste compromisso com o pecado. Muitos clérigos ensinaram este género de coisas e foram por isso justamente gozados pelos leigos. John Henry Newman compreendia isto. Quando o Bispo Ullathorne lhe perguntou se a Igreja precisava dos leigos, respondeu que sem eles a Igreja pareceria ridícula.

O Cristianismo aguenta e assimila a humilhação. O próprio Deus veio à Terra para ser abusado, espancado e cuspido. Na nossa piedade representamos esse mesmo Deus feito homem em pequenas imagens de plástico e também nas mais sublimes obras de arte. Os muçulmanos, por outro lado, centram-se em alguém que admitem ter sido apenas um homem – e depois endeusam-no, elevando cada uma das suas acções terrenas, (desde a guerra à poligamia) ao modelo da perfeição moral e afirmando que Ele é demasiado sagrado para ser representado. Era assim que os judeus, que o Islão imitou e depois vilipendiou, tratavam o Senhor, de quem nunca produziam imagens e cujo nome não se atreviam a pronunciar.

Mas apesar de todo o seu temor de Deus, os judeus também têm como modelo Abraão, que discutiu e regateou com Deus, e Jacob, que lutava contra anjos. Os pensadores judeus sempre tiveram a audácia de confrontar Deus com questões difíceis sobre a sua justiça e o sofrimento humano – e quando não encontravam respostas que os satisfizessem, encolhiam os ombros e recorriam ao sarcasmo. De certa forma, o Islão é o Judaísmo, mas sem sentido de humor.

Joana d'Arc
Por isso a Igreja e Ocidente precisam, de alguma maneira, do Charlie Hebdo. Se a França tiver de colocar esquadrões da Legião Estrangeira à frente do edifício para defender a redacção, então vale bem o preço, tendo em conta a alternativa de entregar as liberdades ocidentais aos vândalos barbudos das banlieues.

Mas só o Charlie Hebdo não chega. França precisa de Villon, Rabelais, Moliere, talvez até de Voltaire. Mas não foram estes homens quem construiu o país, nem foram os satíricos e os cínicos que o salvaram, vezes sem conta. O espaço de liberdade onde malandros deste género podem dedicar-se ao que fazem foi povoado, ordenado e embelezado por uma outra estirpe de gente: Carlos Martelo, Luís IX e Joana d’Arc; pelos camponeses da Vendeia, pelos peregrinos de Lourdes e pelos soldados de infantaria em Verdum; e ainda por patriotas desavergonhados como Charles de Gaulle.

Em 1940 os cínicos generais de direita decidiram deixar de defender a corrupta Terceira República, acolhendo a vitória alemã como uma “surpresa divina” e instalando o seu próprio compincha, o Marechal Pétain, como “salvador” da nação. Rejeitada há anos nas urnas, a extrema-direita francesa aproveitou a vitória dos alemães para colocar os Voltaires do seu país no devido lugar. E quem é que se revoltou contra eles? Não foram os Sartres da vida – que continuaram alegremente a encenar teatros para entreter os alemães em Paris. Não foram os quadros comunistas, cujos mestres em Moscovo eram ainda aliados de Hitler. Foi Charles de Gaulle, o patriota chauvinista e sem sentido de humor, que foi para o exílio para dar continuidade à luta “sem esperança”.

Hoje, com uma ideologia igualmente má a ameaçar a França e o Ocidente, não serão os cínicos corajosos a salvar a situação. Serão homens e mulheres, enfurecidos com este ataque à sua nação. Os bem-falantes, multiculturalistas desinteressados que consideram o entusiasmo ordinário estarão, na sua maioria, contra eles. Os de Gaulles, estamos em crer, afastarão os Sartres e salvarão a França e o Ocidente.

Os europeus que o fizerem serão aqueles que odeiam a tirania e os seus valores estrangeiros, tais como a “submissão” irracional a um Deus caprichoso do deserto. Mas mais do que ódio, serão movidos por amor: Amor pelos seus conterrâneos franceses, alemães, suíços e ingleses e os seus modos de vida ancestrais. Este tipo de amor, que exige o sacrifício, surge nos espíritos grandes e vivaços. Só as almas com longo historial de coragem, fortaleza, temperança e prudência podem esperar ter fé ou amor.

Rezamos para que a ética cristã impeça estes patriotas de cometer qualquer acto mesquinho e que o seu combate pelo ocidente respeite os mais elevados valores – no centro dos quais se encontra a pessoa, imagem brilhante de Deus.


O livro “The Race to Save Our Century”, de Jason Scott Jones e John Zmirak pode ser adquirido na loja online do The Catholic Thing na Amazon.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Encontro Nacional de Leigos no Porto e Papa de volta a Roma

Começo com um aviso importante. É já no Sábado que se realiza, no Porto, o II Encontro Nacional de Leigos. Tive a sorte de poder estar no primeiro, o ano passado em Coimbra, e foi muito interessante. Este segundo promete também, e não é porque me convidaram para falar num dos painéis, é mesmo pelo conjunto de outros excelentes oradores, como podem ver no programa, dos quais destaco o francês Fabrice Hadjadj.

As inscrições estão abertas até quarta-feira, por isso aproveitem, se puderem, e apareçam por lá.

De resto, o Papa terminou hoje a sua visita às Filipinas. No avião de volta para Roma aproveitou para conversar longamente com os jornalistas. Explicou que os cristãos não são obrigados a “ter filhos em série”, criticou a corrupção, falou novamente da questão da liberdade de expressão e disse quais devem ser os próximos destinos.

Da estadia nas Filipinas fica aquilo que foi provavelmente a maior concentração de pessoas na história para uma missa; uma celebração em condições muito adversas, precisamente no local devastado pelo tufão em 2013 e, a não perder, este texto da Aura Miguel sobre um dos momentos mais tocantes de toda a visita.

O padre da Golegã acusado de abusos sexuais apresentou a sua versão dos factos, declarando-se inocente.

E, por fim, fique a conhecer alguns dos ocidentais que abandonaram tudo para ir para o Médio Oriente, combater contra o Estado Islâmico.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Actualidade Religiosa: Observatório lançado e muçulmanos indignados

Cristã reza no Sri Lanka
O Papa continua a sua visita pelo Sri Lanka, agora em território tâmil, onde esta quarta-feira canonizou um missionário goês.

Foi hoje lançado o Observatório para a Liberdade Religiosa. Durante o debate, judeus e muçulmanos consideraram Portugal um “paraíso” a este respeito.

Foi hoje para as bancas a edição “pós-massacre” do Charlie Hebdo e, como é evidente esgotou. Mas muitos muçulmanos não gostaram do facto de a revista ter colocado nova caricatura de Maomé na capa, com um líder iraniano a considerar a decisão uma “declaração de guerra”.

Entretanto nos EUA foi detido um homem suspeito de estar a planear um ataque ao capitólio, em nome do Estado Islâmico.

E porque hoje é quarta-feira, aproveite para ler as interessantes reflexões de David Warren sobre os acontecimentos em França. Não concordo com todas as suas conclusões, mas são sem dúvida um acrescento útil ao debate.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o caso Charlie Hebdo

David Warren
O ataque por parte de muçulmanos fanáticos à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, acendeu por momentos em mim as emoções e os impulsos de jornalista. Era notícia, mas mais que isso, o ataque era contra “nós”. Algo devia ser feito, escrito, submetido, o que fosse – logo! Mesmo antes de pensar.

Membros importantes da redacção, incluindo o conhecido editor e quatro cartoonistas famosos, estavam mortos. Mas dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas com cartazes a dizer “Je Suis Charlie” e outras indicações de solidariedade transitória.

Tanto quanto consigo ver, os fanáticos conseguiram tudo o que queriam. Os homens que consideravam blasfemos foram executados. Todo o país parou para reflectir sobre a sua acção. E muçulmanos em todo o mundo passaram a ser vistos como parasitas. Tudo isto eram objectivos dos terroristas.

Talvez fossem psicopatas, mas qualquer pessoa que tenha visto as imagens percebe que estavam bem treinados. Isto não foi uma “operação de imitação”, como outras que têm atingido França, em que muçulmanos tresloucados conduziram os seus carros para o meio de multidões.

Esta operação foi bem planeada, disciplinada, e é uma indicação do que podemos esperar no futuro, com o regresso à Europa e à América de assassinos bem treinados do “califado” na Síria e no Iraque. São impiedosos e sabem que nós não somos. Isto dá-lhes uma vantagem que ultrapassa a mera escolha de armas.

Muito do discurso que temos ouvido tem sido sobre a “defesa dos nossos valores”. Isto é precisamente o que os fanáticos querem, porque eles sabem bem que nós não temos valores. Querem acentuar o contraste entre os crentes e os infiéis; querem convencer os seus correligionários, sobretudo os mais novos, que a nossa única defesa é a blasfémia e que esta pode ser derrotada.

Eles querem que os jovens muçulmanos, já a viver no Ocidente, se sintam isolados também. Querem levar os polícias a persegui-los mesmo até ao coração do gueto, onde perceberão que não são mesmo nada bem-vindos.

Em França, como no resto do mundo, as organizações islâmicas que defendem o princípio da coexistência criticaram imediatamente os ataques. Já aprenderam a fazê-lo rapidamente. Também já aprenderam a não serem ambíguos nas suas condenações. Se acham que o Charlie Hebdo é um jornal de mau gosto, que gozava frequentemente e de forma crassa com o seu profeta, agora não é a altura certa para o dizer.

Mas também isto tornou-se um efeito desejado destes ataques violentos: envergonhar os “moderados”. A mensagem para os jovens cheios de testosterona é: “Nós conseguimos os resultados, eles não conseguem nada.”

Talvez o factor mais desencorajador nesta nossa “guerra ao terrorismo” seja a resposta que é dada pelos verdadeiros tontos do Ocidente: aqueles que dizem “isto não tem a ver com o Islão”, quando até eles sabem perfeitamente que tem a ver unicamente com o Islão.

Já os politicamente correctos não permitem qualquer comentário. Estão presos porque não têm valores positivos a defender e, por isso, não têm qualquer forma de compreender as pessoas que os pretendem aniquilar. Estão pré-aniquilados, e os fanáticos muçulmanos sabem-no. Aliás, sabem mais sobre nós do que nós sobre eles, graças à nossa cegueira voluntária.

Em vez dos valores positivos do Cristianismo, que respondem aos muçulmanos ponto por ponto, seja em acordo ou em desacordo, hoje em dia não apresentamos nada. A nossa “liberdade” é articulada em termos puramente negativos como os “direitos” humanos de gozar qualquer tipo de comportamento de uma forma imediata e material, “desde que não afecte os outros”.

Considerem, por exemplo, uma capa que o Charlie Hebdo teve em 2010. A caricatura mostra o Papa Bento XVI a elevar um preservativo e a dizer: “Eis o meu corpo”. Foi um exemplo típico por parte do jornal de tentar chocar. Foi uma boa tentativa, mas não chegou a ser blasfemo porque, no ocidente moderno, a blasfémia é simplesmente impossível.

Salvo a minoria que continua a ser cristã, e que na maior parte compreende que é preciso ser-se cristão para se poder blasfemar o Cristianismo, o Ocidente já não tem qualquer Deus a quem ofender.

Quando o presidente François Hollande foi à redacção do Charlie Hebdo, depois do massacre, não foi capaz de outra coisa que não repetir uma série de clichés. Foi como uma visita de cortesia, mas aos mortos.

Podemos dizer, altivamente, que a imprensa livre não pode ser silenciada; mas pode, e foi, como se viu por estes eventos. Mas também não tem qualquer problema em silenciar-se a si mesma, como se viu em muitos órgãos de comunicação social em que se desfocaram as imagens de caricaturas que pudessem “ser consideradas ofensivas pelos muçulmanos”.

Excepto quando está a seguir uma multidão, a “imprensa livre” costuma ser cobarde. A única coisa que admiro nos falecidos editores e cartoonistas do Charlie Hebdo é que não eram cobardes. Chegaram mesmo a dizer: “Para nos calar vão ter de nos matar”, e estavam a falar a sério. O seu desafio aos muçulmanos fanáticos redobrou depois de lhes terem incendiado a redacção em 2011.

Nisto são um exemplo a seguir por nós católicos.

O Islão é uma força positiva. Os seus seguidores acreditam em coisas e muitos estão dispostos a lutar por elas. Os fanáticos podem ser deturpados, mas a sua causa não é egoisticamente pessoal. Pretendem conquistar a Europa – assuntos do século VII que ficaram por resolver – e as suas tácticas e estratégias são tudo menos contraproducentes.

Com cada novo atentado ganham respeito e inspiram mais jovens muçulmanos a segui-los. Cada murro que espetam revela como o peito do Ocidente decadente está oco. Nem sequer reconhecemos que estamos em guerra, tamanha é a nossa capitulação.

Mas a verdadeira batalha, conforme eles o entendem, não é entre o Islão e uma libertinagem vazia. Essa é demasiado fácil de ganhar. É entre Cristo e Maomé: a única batalha em que podem ser colocados na defensiva; em que os seus próprios filhos se podem voltar contra eles.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Papa no Sri Lanka e criança carrasco na Síria

São José Vaz
O Papa Francisco já está no Sri Lanka, onde foi recebido “em tons de açafrão” e não perdeu tempo em criticar a intolerância religiosa, numa região onde esta está sobretudo a cargo de budistas fundamentalistas.

Amanhã será o ponto alto da visita, pelo menos do ponto de vista cristão, com o Papa a canonizar o padre José Vaz, um missionário de Goa, cuja história podem conhecer aqui.

Os terroristas islâmicos continuam a conseguir aumentar a fasquia da sua pura maldade. A última foi colocarem uma criança que não deve ter mais de 12 anos a executar dois homens acusados de espiar contra o Estado Islâmico, na Síria.

Entretanto o responsável da Interpol recorda que há cerca de 5.000 europeus a combater nas fileiras desta organização, e que esta gente representa a pior ameaça terrorista para a Europa da última década.

Infelizmente este tipo de acções acabam por ser aproveitados pelos intolerantes no ocidente para promover marchas contra a imigração e contra o Islão, como aconteceu ontem em Dresden.

Um aviso: Amanhã terá lugar o lançamento de um “Observatório da liberdade religiosa”, que será acompanhado de um debate precisamente sobre o Estado Islâmico, a Europa e os desafios à liberdade religiosa. É às 18h30, na junta de Freguesia da Miseriórdia, na Calçada do Combro, em Lisboa, para quem quiser ir, e será um dos temas a explorar no debate religioso de quarta-feira à noite na Renascença. Fiquem atentos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo usa Maomé para passar mensagem cristã

Enquanto escrevo, o Papa Francisco está a caminho do Sri Lanka, de onde segue depois para as Filipinas. É a segunda visita à Ásia, e reveste-se de grande importância, política, religiosa e social. A Aura Miguel explica porquê.

Continuamos a viver a “ressaca” do caso Charlie Hebdo. Aqui pode ver a capa da próxima edição do jornal, que volta a dar destaque a Maomé, mas que curiosamente traz também uma mensagem bem cristã de perdão… Temos também a história de um jovem muçulmano que no ataque ao supermercado agiu como um herói e salvou vidas; temos o lamento de um arcebispo nigeriano que pergunta onde está a onda de solidariedade para com o seu país, que sofre bem mais com o terrorismo; temos a preocupação do Patriarca de Lisboa e temos Erdogan, presidente da Turquia, que quer que toda a gente saiba que ele não é Charlie Hebdo

O Papa Francisco é um dos que não esqueceu os nigerianos, e mencionou o facto no seu discurso ao corpo diplomático, esta manhã, antes de viajar para a Ásia.

Tristes notícias da Líbia, onde 21 cristãos foram raptados pelo braço local do Estado Islâmico. Não augura nada de bom.

E o Vaticano concluiu que o arcebispo Oscar Romero morreu mártir. É um dado importante, uma vez que poderá contribuir para o seu processo de beatificação.

Para quem ainda não leu, mando novamente o link da minha análise sobre se o terrorismo islâmico é, ou não, representativo do verdadeiro Islão, que está a gerar alguma discussão (civilizada) nos comentários.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Fim do pesadelo em França?

Chegou ao fim, pelo menos assim parece, o episódio de terror em França, que começou com um ataque à redacção do Charlie Hebdo e terminou com a morte de três terroristas, incluindo um que tinha levado a cabo outro ataque na quinta-feira de manhã, e mais quatro reféns.

Durante os últimos dias começaram a ouvir-se novamente vários lugares-comuns, entre os quais “Isto não tem nada a ver com a religião”, “Isto não é o verdadeiro Islão” e, por outro lado, “Todos os muçulmanos são assim”. Este facto levou-me a escrever o seguinte texto, em que disputo todas as afirmações.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano duas visitas interessantes. Uma foi de Angelina Jolie, a outra foi dos líderes da comunidade Yazidi. A primeira diz que os refugiados se sentem representados por ele e os segundos chamaram-no “pai dos pobres”.

A minha colega Rosário Silva esteve em Campo Maior para falar com uma noviça da Ordem da Imaculada Conceição que vai tomar o hábito este sábado, e Ângela Roque falou com as Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que querem dar a conhecer o legado da sua fundadora.

O imã radical Abu Hamza Al-Masri foi condenado a prisão perpétua, nos EUA.

O padre Duarte da Cunha explica como os bispos europeus vão apoiar os cristãos da Terra Santa.

Isto é, ou não é, o verdadeiro Islão?!?

O incidente com o jornal Charlie Hebdo chocou-nos a todos e gerou uma onda de solidariedade por todo o mundo, mas também fez sair cá para fora os lugares-comuns de sempre, que em nada contribuem para o debate.

Começo com um que ouvi esta manhã de um respeitado comentador de assuntos internacionais, quando questionado sobre a importância da religião neste fenómeno do terrorismo. Resposta pronta: “Isto não tem nada a ver com a religião! Isto é terrorismo puro”.

Desculpa? Um grupo de homens que se identificam acima de tudo como muçulmanos atacam um jornal conhecido por gozar com a sua religião (entre outras), gritando palavras de ordem como “Deus é Grande” e “Vingámos o profeta” e isso não tem nada a ver com religião?

No dia seguinte outro  homem que se identifica como muçulmano mata a tiro uma mulher polícia e, passadas 24 horas, entra numa loja judaica de produtos kosher onde faz reféns, e isto não tem nada a ver com religião?

Uma coisa é discutir se estes homens e os seus actos são verdadeiramente representativos da religião que dizem professar, (já lá vamos), mas dizer que isto não tem nada a ver com religião é absurdo. Claro que tem tudo a ver com religião. Pode haver outros assuntos à mistura, não nego. Pode ter a ver com imigração, com políticas de integração, com racismo, com muita coisa. A Ana Gomes até acha que a culpa é da austeridade... mas não me venham dizer que não tem nada a ver com religião.

Nunca é demais repetí-lo: A religião é um fenómeno potentíssimo, no sentido em que move o ser humano a fazer coisas de grande dimensão. Para o bem, como felizmente vemos tantas vezes em tantas pessoas fantásticas que se dão inteiramente para ajudar os seus irmãos e vizinhos, mas também para o mal, como já vimos muitas vezes na história e vimos por estes dias em Paris.

“Isto não é o verdadeiro Islão”
Antes de mais convém ver quem é que está a dizer isto.

Se for o Sheikh David Munir, como muitas vezes o faz, é uma coisa. Ele é uma autoridade na comunidade islâmica, é um conhecedor do Islão e um líder muçulmano com um longo passado de participação civil e em actos de diálogo inter-religioso. Podemos discutir com ele se tem razão ou não, mas aceito a autoridade que ele tem para dizer que o que aqueles dois irmãos fizeram não é representativo do verdadeiro Islão.

O que não aceito é que o Zé da Esquina, que aparece como convidado para falar no telejornal, mas sabe tanto sobre o Islão como eu sei sobre física quântica, diga que isto, ou qualquer outra coisa, é representativo do verdadeiro islão. Como não aceito que o diga o Obama ou o Cameron, ou o Passos Coelho, ou sequer o o Papa Francisco.

Não é representativo porquê? Acaso eles se consideram mais conhecedores dos ensinamentos islâmicos que os pregadores que radicalizaram estes e tantos outros terroristas? Sabem recitar o Alcorão? Sabem explicar as suas passagens? Sabem explicar as incongruências que existem no texto?

Não é o verdadeiro Islão porquê? Porque não vos apetece? Porque é politicamente correcto dizê-lo? Porque ouviram o Sheikh David Munir a dizê-lo? É que se for esse o caso então citem-no, mas não falem como se tivessem um pingo de autoridade para estar a dizer a dois muçulmanos qual deles é que é verdadeiro e qual é que é falso.

Eu não sei se isto é o verdadeiro Islão ou não. O que sei é que neste momento há uma divisão no interior do Islão (uma de muitas), entre as pessoas que acham que sim e as que acham que não.É um problema, e é grave, seria ingénuo negá-lo. É uma questão que mundo muçulmano tem de enfrentar e tem de tentar resolver. É um debate que tem de se travar a nível teológico e a nível filosófico, e não com slogans e frases bonitas. Não basta catalogar uma corrente como não-islâmica e esperar que desapareça. Não vai desaparecer.

Verdadeira muçulmana, ou enganada?
“O Islão é isto mesmo”
Aqui aplica-se exactamente a mesma lógica, mas ao contrário. É isto mesmo, por alma de quem? Porque vêem alguns muçulmanos a comportarem-se assim? Então os milhares que vivem pacificamente, que defendem os seus vizinhos cristãos, que pagam impostos e não sonhariam olhar de lado para um polícia, quanto mais matá-lo a sangue frio... estão enganados?

Também aqui, não reconheço a 99% das pessoas que o dizem qualquer autoridade para o fazerem. Claro que podem ter a sua opinião, mas ninguém é obrigado a dar-lhes importância.

Mas esta frase tem uma agravante. É que enquanto a anterior corre o risco de ser demasiado ingénua, não é uma particular ameaça. Esta, pelo contrário, incita à divisão social e ao ódio e, acima de tudo, só pode servir para radicalizar ainda mais os muçulmanos que a ouvem.

Estes terroristas que atacaram o Charlie Hebdo odeiam-nos. Não odeiam só os que fazem caricaturas de Maomé, odeiam-nos a todos, as nossas religiões, o nosso estilo de vida, a nossa maneira de vestir, os nossos hábitos, a nossa democracia, os nossos valores, os nossos direitos. A pior coisa que podemos fazer, em resposta aos seus ataques, é incentivar divisão social e purgas que, levadas ao extremo, representam precisamente o mesmo que eles querem: separação, ausência de direitos e liberdades, morte e terror.

Então não podemos dizer nada?
Eu sei que custa muito, hoje em dia, assumirmos que não temos certezas, mas é um exercício de humildade que nos fica bem. Quando me pedem a opinião sobre estes assuntos eu digo sempre que não sei. Os terroristas e o Estado Islâmico representam o verdadeiros Islão? Ou são os Sheikhs David Munir e os milhares de muçulmanos, como é o caso em Portugal, que vivem a sua vida em paz, contribuem para a sociedade e não chateiam ninguém?

Não sei. Não sou muçulmano e por isso não tenho nada que opinar sobre isso, da mesma maneira que acharia de uma tremenda arrogância o Sheikh David Munir ou outro qualquer vir opinar sobre quem representa o verdadeiro Cristianismo, os católicos liberais, ou os conservadores, ou os protestantes, ou os lefebvrianos.

O que posso dizer é que sei muito bem de quais gosto mais! Disso não há a menor dúvida. Posso dizer que independentemente de quem tem razão nesse debate teológico interno, eu preferia sentar-me à mesma mesa com alguém da linha do Sheikh David Munir do que com alguém que abraça os ideias dos jihadistas. E isso já não é coisa pouca, a meu ver.

Porque aquilo que eu amo sobre a nossa sociedade e os nossos valores não são as caricaturas nojentas que jornais como o Charlie Hebdo tanto gostam de publicar, são os valores que permitem que eles o façam e que ao mesmo tempo protegem a minha liberdade de dizer que não os quero ler, não os acho piada e não quero ter nada a ver com eles. Os valores que eu amo são os que me permitem sentar à mesma mesa que um muçulmano e partir pão com ele e discutir com ele temas do Céu e da Terra, de vida ou de morte, em paz. A salvaguarda desta realidade é algo que é muito mais importante, nesta altura, do que a repetição de frases politicamente correctas, mas racionalmente ocas.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

"Não gostam da liberdade? Emigrem!"

Um dos muitos cartoons de apoio ao Charlie Hebdo
Que dia! Um atentado terrorista fez pelo menos 12 mortos em França, há ainda quatro feridos graves, pelo que o número pode subir.

Um comando de três jihadistas atacou a redacção da revista satírica Charlie Hebdo, matando 10 funcionários e dois polícias. Os suspeitos já foram identificados e estão a ser procurados pela polícia.

As reacções não se fizeram esperar. Boas declarações do Sheikh David Munir, da Comunidade Islâmica de Lisboa e de representantes das comunidades muçulmanas em França. O Papa também emitiu um comunicado sobre o assunto. Entretanto, dezenas de milhares de pessoas manifestam-se em Paris em solidariedade para com as vítimas e contra o terrorismo.

Tudo isto no dia em que muitos dos cristãos de rito oriental celebram o Natal. A minha colega Cristina Nascimento foi a uma liturgia dos ucranianos greco-católicos, em Lisboa, e fez esta bela reportagem. Podem ver a fotogaleria também.

Há mais de um ano passei um dia em território dos Amish, nos EUA. Levou muito tempo, mas dessa visita nasceu esta reportagem que vos convido a ler e a ver, em vídeo, que me deu muito gosto fazer. Os amish são uma das comunidades mais peculiares e apaixonantes do espectro cristão.

As instituições católicas devem despedir funcionários que contrariam os ensinamentos da Igreja? Professoras que engravidam solteiras; funcionários que se assumem como homossexuais, etc? É uma coisa que tem acontecido nos EUA mas o debate aplica-se a qualquer país, incluindo Portugal. Randall Smith pede calma e cuidado com o discernimento destes casos.

De Escândalos e Escolas Católicas

Randall Smith
No ano que passou assistimos a uma série de conflitos mediáticos à volta de escolas católicas que despediram professores que tinham engravidado fora do casamento, ou que revelaram ser homossexuais. Neste artigo não tenciono comentar nenhum caso específico.

A verdade é que o problema com a maioria dos comentários a casos deste género é que nos falta o conhecimento dos detalhes relevantes para tomar uma decisão sábia. Da mesma forma que casos difíceis dão más leis, a falta de conhecimento dos detalhes impede-nos de dizer coisas que contribuam para um debate útil. A prudência recomenda que tenhamos um melhor sentido do contexto relevante do que aquele que lemos, vemos e ouvimos nas notícias.

Assim, por exemplo, precisaríamos de saber se a professora solteira que engravidou se opõe abertamente aos ensinamentos da Igreja, o que normalmente não sabemos. Uma grávida solteira, seja professora ou aluna, pode acabar por ser fonte de boas lições para a comunidade, dependendo da situação. É preciso pensar, por exemplo, se ao exilar uma mulher nestas situações a escola católica não está a colaborar com as forças do mal, pressionando-a a fazer um aborto.

Conheço demasiados casos de raparigas de famílias conservadoras, católicas e piedosas, por exemplo, que optaram por abortar simplesmente porque tinham demasiada vergonha de revelar a verdade aos seus pais. O que é pior, em vários casos pais ou irmãos que são supostamente “bons” católicos desviam o olhar quando suspeitam que vai haver um aborto. “Problema” resolvido. Escândalo evitado. Deixa de ser necessário comparecer diante da comunidade como um daqueles pais, alguém que criou uma filha que engravida solteira.

Quanto aos pais católicos dos rapazes que engravidaram as raparigas, bem, isso tende a nem sequer ser um problema. A resposta é simples, mantê-lo na escola, agir como se nada fosse e negar qualquer responsabilidade.

Por estas razões, e outras, expulsar mulheres grávidas das escolas, sejam professoras ou alunas, tende a parecer-me uma má ideia.

Porém, se eu fosse um pai pobre a tentar ajudar os meus filhos a escapar à pobreza para terem um futuro melhor, imagino que não veria com bons olhos enviar a minha filha para uma escola onde dezenas de raparigas engravidaram antes de casar e na qual, por várias razões, a gravidez nestas situações se tornou socialmente “aceitável”, quase como um rito de passagem. O primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro baile e agora o primeiro filho fora do casamento. Isso é um problema. Mas também o é uma escola que exila as raparigas, mal engravidam, mas nada faz para responsabilizar os rapazes envolvidos. O contexto em que se tomam as decisões é fundamental.

De igual forma, uma pessoa que vive a sua atracção homossexual de forma casta enquanto ensina numa escola católica é muito diferente de uma que viola abertamente os ensinamentos da Igreja.

Mas por outro lado isso aplica-se a toda a gente numa escola católica. Uma escola católica que despediria um homossexual casto, que vive fielmente os ensinamentos da Igreja, ou uma grávida solteira, mas que nem pensaria em despedir uma freira que passa a vida a criticar o Magistério, age de má-fé. A gravidez pré-matrimonial ou a atracção homossexual são as únicas razões pelas quais se pode despedir um professor católico? Se sim, temos um problema.


Não é menos apropriado ter um funcionário com atracção por pessoas do mesmo sexo, mas que vive esse desafio de forma honesta em autêntica fidelidade ao Magistério da Igreja a ensinar numa escola católica do que seria ter outra que se esforça por ser fiel no que diz respeito aos ensinamentos sobre pornografia, luxúria ou consumismo, ou gula ou toda uma série de outros vícios e pecados. Se as instituições católicas só pudessem contratar pessoas sem pecado, as escolas estariam vazias e eu desempregado.

Conheço muitos homens e mulheres que falam abertamente sobre as suas atracções homossexuais e que escrevem eloquentemente sobre a forma como vivem em acordo com os ensinamentos da Igreja. Um deles é casado com uma mulher e tem três filhos lindos. Seria para mim um orgulho tê-los como colegas na universidade católica onde dou aulas. Alias, qualquer um deles seria preferível aos colegas que se dizem católicos mas que odeiam os ensinamentos do Magistério com uma paixão profunda que só um filho revoltado pode sentir pelos seus pais. Porque é que pessoas destas aceitam trabalhar numa universidade católica? Não faço ideia.

As escolas deviam prestar menos atenção a quem se intitula “católico” e muito mais a encontrar pessoas que acreditam verdadeiramente na missão da escola e estão aptas a ajudar a fazê-la cumprir. Quanto a despedir pessoas unicamente para “evitar escândalo” (um caminho que lida certamente à hipocrisia), lembremo-nos que nos dias que correm, o mero facto de se ser católico já é motivo de escândalo. Nesta cultura em que vivemos, uma escola autenticamente “católica” é simplesmente uma escola de escândalo. Esta realidade tem sido frequente ao longo da história.

Na maioria destas disputas há que tomar uma decisão ajuizada. Há diferentes “bens” a procurar e “males” a evitar. Quando estes casos se tornam distracções no grande circo mediático tende-se a assistir a uma corrida à condenação, com uma parte a criticar os dirigentes da escola, como se fossem intolerantes cheios de ódio e a outra a defender a escola como se estivessem a defender a Santa Madre Igreja.

São Paulo adverte-nos a mantermo-nos ocupados e não nos intrometermos na vida alheia. Condena os fofoqueiros e os preguiçosos, que vão de casa em casa e que dizem o que não devem.

Os media ganham dinheiro com polémicas. Temos um dever para com os nossos irmãos católicos de agir com paciência e prudência. Temos de proteger as ovelhas, sem nos juntarmos à matilha de lobos que uivam à porta do curral.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 3 de Janeiro 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Finalmente, "Cardeal Patriarca"

A grande notícia é, claramente, a nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal. Ao contrário do que se dizia, e olhando para os restantes na lista, esta nomeação era tudo menos certa.


Podem ver também várias reacções, incluindo de Cavaco Silva e a do próprio. E afinal de contas o que faz um cardeal? Explicado aqui.

O meu colega Ricardo Conceição esteve seis dias no Caminho de Santiago, a acompanhar um grupo de portugueses. O resultado é uma excelente reportagem, que não deve perder, pode ouvir através deste link, bem como esta fotogaleria.

Da Alemanha chega a notícia de que os movimentos anti-islâmicos estão a ganhar força, apesar da oposição da Igreja Católica, entre outros.

A nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal

Agora finalmente os que insistem em dizer
Cardeal Patriarca vão ter razão!
Demorou um ano, mas chegou!

Em bom rigor, como expliquei aqui em Janeiro de 2014, D. Manuel Clemente deveria ter sido nomeado Cardeal no consistório de 2014. Deveria, digo, não porque me apetece, não pelos seus lindos olhos, não porque “é costume”, mas porque existe uma bula que estipula que o Patriarca de Lisboa é nomeado Cardeal no primeiro consistório depois de tomar posse e essa bula, com força de lei, nunca foi revogada.

O ano passado, contudo, não foi e quem quiser saber o que eu concluí disso pode ler o texto. O que interessa é que este ano já foi. O que é que mudou?

Em primeiro lugar, mudou o facto de D. José Policarpo, infelizmente, já não estar vivo. Se estivesse, ainda seria eleitor e poderia por isso ser um impedimento à elevação de D. Manuel Clemente, por força de uma tradição mais recente da Igreja, mas que não é uma regra escrita, que estipula que não haja mais que um cardeal eleitor por diocese.

Contudo, olhando para dioceses como Veneza, que também é patriarcado, e Bruxelas, ambas consideradas dioceses “cardinalícias”, vemos que isso não é garantia nenhuma. Francisco voltou, novamente, a ignorar os bispos daquelas dioceses que assim continuam a não ser cardeais. Em vez disso decidiu elevar bispos de países como Tonga, Cabo Verde e Birmânia, algumas das quais, tanto quanto sei, nunca tinham tido um cardeal nem teriam grande esperança de vir a ter.

Está mais que visto que o Papa não liga à tradição das dioceses “cardinalícias” e por isso eu diria que a inclusão de D. Manuel Clemente na lista se deve sobretudo à existência da bula. Sei perfeitamente que não passaria pela cabeça do Patriarca fazer “lobbying” para ver este seu direito reconhecido, mas já não diria o mesmo sobre o Ministério dos Negócios Estrangeiros que poderá bem ter insistido junto da Santa Sé para que esta honrasse a sua própria lei. Não tenho aqui qualquer informação privilegiada, é uma mera suposição.

Mas a verdade é que, olhando para a lista dos novos cardeais, a inclusão de D. Manuel é um facto importantíssimo para a Igreja portuguesa que muito nos deve alegrar. Lembremo-nos que para além da não inclusão de várias dioceses que tradicionalmente têm cardeais, não houve um único nomeado da América do Norte, por exemplo.

Um espelho do mundo
O ano passado falou-se muito de o Papa ter incluído nomeações de países como o Haiti e Burkina Faso. Na altura isso até podia ser lido como uma mensagem, o Papa a querer abanar um bocadinho a consciência dos cardeais com as suas primeiras nomeações e brincar um bocado com a sua fama de imprevisibilidade. Mas as nomeações deste ano mostram que não se tratou de uma ideia passageira. Esta tendência veio, julgo eu, para ficar, e vai marcar a Igreja de forma importante nos próximos anos e, se assim continuar, no próximo consistório.

Como? Para começar, um grupo de cardeais completamente disperso, que só se conhecem e estão juntos nos consistórios que de tempos a tempos são convocados, têm maior dificuldade em formar grupos de pressão e lobbies para eleger os seus candidatos preferidos. E atenção que vejo ambas as coisas como normais, não é um comentário depreciativo. Ora, se isso acontecer, e ao contrário do que se pensava ser a tendência com Francisco, quem fica a ganhar mais são os cardeais da cúria romana, que se conhecem bem e estão juntos a toda a hora. É apenas um dado interessante, claro que a Igreja tem muito a ganhar em ter presente uma voz que fale pelos católicos do Tonga e das outras ilhas do Pacífico, bem como do Haiti, de Cabo Verde e tantos outros sítios.

Outras ausências
Por fim, o ano passado lamentei a não inclusão do Patriarca da Igreja Greco-Católica da Ucrânia na lista dos novos cardeais, sendo ele o líder da maior das Igrejas Católicas de Rito Oriental. Este ano o líder da Igreja Católica Etíope foi incluído, o que me parece excelente, mas o ucraniano não. É pena, sobretudo, porque existe a possibilidade de essa exclusão ser para não “ofender” Moscovo. Se for o caso é lamentável. Esperemos que não seja.

Teria sido também um gesto bonito, à luz da realidade actual, o Papa nomear um Patriarca de uma das Igrejas do Médio Oriente. Há pelo menos dois que não são Cardeais e poderiam ser: o Patriarca Sako, dos Caldeus (principalmente Iraque) e o Patriarca Inácio José Younan, da Igreja Siro-Católica. Younan seria uma escolha especialmente adequada, uma vez que a maioria dos católicos que estão actualmente refugiados na zona de Mosul e Planície de Nínive serão fiéis desta Igreja. Contudo, é possível que, à imagem do actual Patriarca da Igreja Melquita, estes tenham dito que não estão interessados, o que todavia não me parece provável.

Partilhar