quarta-feira, 28 de outubro de 2015

50 anos de diálogo inter-religioso

Coisa só possível por causa do Nostra Aetate
Faz hoje 50 anos que foi publicado o importantíssimo documento “Nostra Aetate” que abriu as portas da Igreja para o diálogo inter-religioso e ecuménico. O facto não foi esquecido por Francisco na sua audiência geral.

Nessa ocasião, o Papa aproveitou ainda para rezar pela situação no Paquistão e no Afeganistão onde um violento sismo fez centenas de mortos.

A Irmandade dos Clérigos vai doar vários milhares de euros aos iraquianos refugiados na Jordânia.

Depois de ter partilhado na segunda-feira a notícia sobre o encontro de Campos de Férias Católicos que decorre no próximo sábado. Agora publiquei a transcrição integral da entrevista ao José Diogo Ferreira Martins e à Carminho Cordovil, que podem ler aqui.

Por fim, e porque hoje é quarta-feira, o artigo desta semana do The Catholic Thing é da autoria de Robert Royal, que faz uma análise séria ao relatório final do sínodo dos bispos sobre a família e do que o futuro nos reserva.

O Texto e o Contexto

O sínodo sobre a família de 2015 já acabou, depois de ter produzido vários pontos positivos, e não poucos negativos. O relatório final contém algumas reflexões espirituais fortes, inspiradas pelas Sagradas Escrituras e as tradições da Igreja. Trata também de forma realística muitas das situações políticas, sociais e culturais de famílias em todo o mundo – situações que variam muito: Desde a cultura hedonista e saturada de sexo do Ocidente às condições de guerra e perseguição do Médio Oriente e África. Alguns parágrafos eram escusados. Se o virmos apenas como uma visão geral da família, tem o seu valor. Mas o contexto em que o texto foi elaborado é outra coisa e será uma ferida aberta durante muitos anos.

Um tema repetido muitas vezes pelos padres sinodais durante as últimas três semanas é que uma Igreja preocupada com o futuro da família estaria a adoptar uma visão muito estreita se se limitasse a reflectir preocupações ocidentais sobre divorciados e homossexuais. Um dos sinais do quão longe o sínodo de 2015 já foi, apesar de ainda haver problemas, é que já não há nada daquela linguagem de “aceitar e valorizar… orientação sexual gay, sem pôr em causa a doutrina católica da família e do matrimónio”, trata-se de uma recuo grande em relação ao relatório intermédio de 2014. Durante o fim-de-semana, a BBC disse que o Papa Francisco tinha sido “derrotado” na questão dos homossexuais – o que não é particularmente correcto, tendo em conta que ele não defende o casamento gay. E ainda por cima, o instrumentum laboris, com o qual ele teve pouco que ver, não dizia grande coisa sobre homossexualidade. Mas a cadeia britânica não foi a única a inventar coisas de acordo com as suas próprias obsessões. Cuidado com estes relatos e com os media em geral. 

Uma boa parte do relatório final é útil e reflecte uma Igreja global interessada em proclamar a Boa Nova e em corresponder às responsabilidades de todas as famílias do mundo. Quando for traduzido, valerá a pena passar algumas horas a estudar, por parte de todos os que se interessam pelos actuais problemas e pelo futuro das famílias.

Mas a questão do acesso à comunhão por parte de divorciados recasados continuou a absorver a maior parte das atenções no mundo desenvolvido – sobretudo nos media. Teria sido bom poder dizer que agora sabemos em que situação estamos. O Wall Street Journal não tem dúvidas: “Bispos entregam ao Papa uma derrota na aproximação aos católicos divorciados”. (Que é como quem diz, como muitos repararam, que não existe uma referência clara ao acesso à Comunhão para estas pessoas no documento e, por isso, não existe apoio textual para uma das correntes que consta do processo sinodal desde que o Cardeal Walter Kasper se dirigiu aos bispos, a convite do Papa, no dia 15 de Fevereiro de 2014). Mas o jornal romano Il Messagero leu a coisa de maneira diferente: “Sim, para os divorciados recasados”. Outros, que queiram que essa seja a mensagem, também o afirmarão. Na verdade, o resultado foi, como tem sido frequente com este Papa, confuso.

Os bispos optaram por não votar sobre o documento como um todo, mas apenas nos parágrafos individuais, o que faz do texto, no fundo, uma série de reflexões apresentadas ao Papa para sua consideração e não uma afirmação global aprovada formalmente pelos padres sinodais. Teremos de esperar por Francisco para ele nos dizer o que considera que deve ser o próximo passo. Poderá ter tornado a sua vida mais complicada tanto pela forma como o sínodo foi gerido como (ver abaixo) pela forma zangada como reagiu às críticas e para com os mais conservadores.

Apesar do que se possa vir a dizer ao longo das próximas semanas, vale a pena repetir: O relatório final do sínodo não refere o acesso à comunhão para os divorciados recasados. Se é isso que o Papa quer, terá de ser ele a colocá-lo lá. Como temos dito desde o início, houve oposição clara a essa proposta em si. Por causa da controvérsia, a linguagem final sobre a relação entre a consciência e a lei moral é muito mais clara no texto final do que no instrumentum laboris. Mas alguns parágrafos do texto final – que obtiveram o maior número de votos negativos – exploram muito a ideia do “discernimento” das circunstâncias individuais e invocam o “foro interno”, ou seja, a direcção privada por um padre ou bispo, chegando mesmo até à fronteira do acesso à Eucaristia, sem o pôr em palavras.

Alguns jornalistas dizem que isto se trata de uma forte defesa do ensinamento actual da Igreja, mas essa é uma caracterização demasiado optimista. Mas também não é um livre-trânsito para liberais. Houve esforços nas discussões do último dia para deixar claro que isto não era um convite para mudar a doutrina ou a disciplina. O padre Federico Lombardi sublinhou propositadamente a continuidade com os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI . O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, realçou, de forma menos convincente, que haveria critérios claros para guiar esse discernimento.

Os critérios existem, mas se são claros é outra questão. Quando se olha para o texto, o que vemos é isto (tradução da nossa autoria, uma vez que o texto em português ainda não foi publicado):

85. São João Paulo II ofereceu critérios compreensivos, que permanecem a base de avaliação para estas situações. “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjectivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido.”

Aqui vemos João Paulo II a ser usado para dar força à ideia de um discernimento mais vigoroso, o que em si pode ser esticar a corda, tendo em conta a forma como o discernimento é entendido hoje em dia. O que falta é o que JPII diz passados dois parágrafos, no Familiaris Consortio: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja, significada e actuada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimónio”.

A indissolubilidade é afirmada noutros pontos do relatório final e há passagens polvilhadas pelo texto que sugerem mais claramente aquilo que o Papa João Paulo II disse. Há também referências ao Catecismo da Igreja Católica sobre “inimputabilidade”, quando as circunstâncias diminuem ou anulam mesmo a responsabilidade pessoal. Devidamente seguidas, todas estas citações poderiam significar que nada mudou na prática da Igreja. Mas oitenta padres sinodais votaram contra este parágrafo, o maior número de votos contra de qualquer parágrafo isolado porque, sem permitir explicitamente uma mudança na prática, ele tem o potencial de permitir muitas escapatórias.

A questão que está a gerar mais controvérsia é esta: O discernimento será devidamente conduzido na linha dos princípios morais firmes enunciados por JPII? É aqui que alguns optam pela abordagem do Wall Street Journal e outros pela do Il Messagero. As palavras do texto são estas:

86: O percurso de acompanhamento e discernimento orienta estes fiéis em direcção a um exame de consciência sobre a sua situação diante de Deus. A discussão com o sacerdote, no foro interno, caminha juntamente com a formação de um juízo correcto sobre aquilo que bloqueia a possibilidade de uma melhor participação na vida da Igreja e sobre os passos requeridos para que ela cresça. Tendo em conta que na mesma lei não existe gradualidade (cf. Familiaris Consortio 34), este discernimento nunca pode prescindir das exigências evangélicas de verdade e caridade, como propostas pela Igreja. Para que isto possa acontecer, devem ser garantidas as condições necessárias de humildade, reserva, amor pela Igreja e pelos seus ensinamentos, na busca sincera pela vontade de Deus e no desejo de responder a ela de forma mais perfeita.

Para chegar a este texto foi preciso muito ajuste e os peritos em teologia irão sem dúvida analisá-lo cuidadosamente. Mas lendo-o como está, e retirado do contexto polémico, até se poderia dizer que tinha sido escrito por João Paulo II. A frase que eu destaquei em itálicos parece dar bastante força à necessidade de uma mudança de vida para remover obstáculos, mais do que outra coisa qualquer. E quando se diz que não existe gradualidade na lei, está-se a dizer que as pessoas se aproximam gradualmente daquilo que devem seguir, mas que a lei é constante e não pode ser abrogada simplesmente porque há pessoas que levam mais tempo a harmonizar-se com ela. Ainda assim, há uma razão pela qual 64 padres sinodais votaram contra este parágrafo, talvez não tanto pelo que diz, mas por aquilo a que poderá conduzir no actual clima que se vive na Igreja.

Mas também vale a pena notar os votos para o Conselho do Sínodo, o grupo que governa os próximos sínodos. Tal como disse na sexta-feira (apesar de os resultados oficiais ainda não serem públicos nessa altura), estes mostram basicamente que existe uma maioria de dois terços a favor do ensinamento católico tradicional. O jornalista Sandro Magister disse durante o fim-de-semana que o arcebispo Charles Chaput, de Filadélfia, foi quem recebeu o maior número de votos de todo o mundo, embora os cardeais George Pell e Robert Sarah também tenham tido números significativos. Isto são excelentes notícias. Das américas temos também o canadiano Cardeal Marc Ouellet (um tipo formidável), e o Cardeal Oscar Maradiaga (muito próximo do Papa). Da Ásia os cardeais Pell, Oswald Gracias (Bombaím) e Luis Antonio Tagle (Manila). De África os cardeais Sarah, Wilfred Napier, e o bispo Mathieu Madega Lebouakehan, do Gabão.

Só na Europa é que as escolhas foram mais fraquinhas: Schönborn, o arcebispo inglês Vincent Nichols e o arcebispo Bruno Forte (cardeais italianos fortes como o Scola, o Caffara e o Bagnasco tiverem também muitos votos individuais, e se os italianos se tivessem unido atrás de um candidato, este teria arrasado). Em todo o caso, na medida em que o Conselho do Sínodo conduzirá os eventos futuros, há uma preponderância de figuras sérias e a sua selecção demonstra o sentir geral dos padres sinodais.

O próprio Papa não estava particularmente contente no final dos procedimentos, embora como é hábito em eventos do Vaticano a linha oficial tenha sido que tudo terminou numa grande demonstração de fraternidade e sinodalidade, incluindo uma ovação de pé no final do seu discurso. Entre muitas afirmações positivas, contudo, Francisco expressou irritação com partes da conversa. “Ao longo deste sínodo foram livremente expressas opiniões diferentes – por vezes, infelizmente, de forma pouco caridosa…”

E nas suas declarações sobre a razão de ser do sínodo, disse: “Tratou-se de abrir os corações fechados, que frequentemente se escondem mesmo atrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções, para se sentarem na cátedra de Moisés e julgar, por vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.

Este é um tema recorrente com ele. Ninguém negaria que existem pessoas autoritárias entre aqueles que enfatizam os ensinamentos tradicionais – tal como há pessoas autoritárias com opiniões teológicas contrárias. Mas estas são as franjas, os poucos. Muitos clérigos e leigos ficaram ofendidos – e enfurecidos – com esta afirmação. É justo sublinhar que pode bem ter estado a dizer que alguns tradicionalistas são duros de coração, mas não foi essa a leitura que a maioria das pessoas fez e é natural que isso venha a exacerbar as divisões que já existem.

Esta é a realidade com que teremos de lidar nos próximos tempos na Igreja. O Relatório Final é um texto tolerável, sobretudo tendo em conta que é produto de uma comissão de 270 pessoas. Se tivesse aparecido durante o pontificado de João Paulo II, teria causado pouco alarido. Mas num contexto de suspeição mútua e de revolta, o tolerável pode bem tornar-se intolerável.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 26 de Outubro de 2015)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Campos de Férias católicos: "Queremos que esta mensagem de Jesus chegue a todos"

Transcrição integral da entrevista feita a José Diogo Ferreira Martins e Carminho Cordovil, a propósito do Congresso de Campos de Férias Católicos, que se realiza no dia 31 de Outubro. A reportagem pode ser lida aqui.

Vai haver então um encontro de campos de férias católicos. Que realidade é esta?
Zé Diogo: Vai haver um encontro no dia 31 de Outubro, de todos os movimentos e grupos que em Portugal fazem campos de férias católicos.

Nós começámos aqui há uns meses largos a perceber que na realidade cada um de nós que faz parte de movimentos diferentes não éramos os únicos. Havia várias pessoas em Portugal a fazer vários campos de férias. Então decidimos reunir-nos, um grupo de cinco campos de férias: Os Carraças, o SAIREF e três grupos de inspiração inaciana, o Campinácio, os Gambuzinos e o Camtil, para em conjunto percebermos o que é isto de fazermos campos de férias, qual é a diversidade, o que nos une, quais são as formas diferentes de trabalharmos nesta perspectiva.

Depois de termos feito algum caminho e de termos tido algumas reuniões, percebermos que não éramos três, nem cinco, somos quase 30 em Portugal. Quase 30 significa milhares e milhares de jovens e crianças que todos os anos em Portugal fazem campos de férias católicos.

Decidimos então pensar que era uma boa oportunidade, esta de vivermos esta realidade também conversando sobre ela, apresentámos a nossa ideia ao Sr. Patriarca, que rapidamente ficou entusiasmado, com este processo e se disponibilizou para se juntar a nós no dia 31, proferindo uma conferência final e também celebrando a missa.

O que é que determina se um campo de férias é católico ou não é? Há um reconhecimento oficial da Igreja, depende da boa vontade de quem organiza? No caso dos jesuítas é evidente, mas no caso do SAIREF, por exemplo?
Zé Diogo: É uma pergunta interessante porque essa é uma das grandes diversidades destes movimentos de campos de férias católicos. Porque nós não temos propriamente a chancela da Igreja e muitas vezes são movimentos mais amadores, mas isso confere-lhes uma grande riqueza e é uma coisa muito engraçada ver como existe uma autonomia muito grande, uma grande facilidade de um grupo de pessoas se reunirem e dizerem vamos, vamos viver o Evangelho com muita alegria entre nós e vamos convidar uma série de miúdos para o fazerem connosco, e vão crescendo, até que a certa altura têm uma dimensão tal que de facto têm de olhar para si mesmos, organizar-se, criar estruturas, regras e funcionamento nesta forma, por isso esta oportunidade de estarmos juntos é também isso, partilharmos experiências, olharmos uns para os outros e ver como cada um de nós faz.

Costuma haver um padre que acompanha cada campo de férias?
Carminho: Sim. Por regra tenta-se que isso aconteça durante o campo de férias. Há campos que não conseguem, só conseguem que um padre vá celebrar uma missa, mas o grande objectivo deste encontro é também perceber como é que os diferentes campos de férias fazem e se têm ou não têm padres.

No teu caso, Carminho, que percurso fizeste nos campos de férias? Foste monitenda também?
Carminho: Sim. Eu fui participante, faço parte do Camtil e comecei aos 12 anos a fazer campos de férias no Camtil. Fui crescendo e o Camtil foi crescendo comigo, até que comecei a ter idade para ser animadora e monitora e entrei também para a direcção do Camtil.

Comecei então a estar do outro lado, a organizar, mas mesmo nesta história toda nunca perdi a paixão pelos campos.

No caso do Camtil, por exemplo, que é dos Jesuítas, que papel é que os leigos têm nestes campos de férias? Não é só uma coisa organizada pelos jesuítas, e depois os jovens aparecem...
Carminho: O Camtil é todo organizado por leigos, tendo um assistente espiritual, da Companhia de Jesus, que é cedido ao Camtil para apoiar a direcção e ao longo do ano tem uma direcção de 17 pessoas, que se vai juntando de três em três meses, para garantir que chegamos ao final do ano e conseguimos ter 10 campos de férias, cada um com 42 miúdos e com 17 animadores.

Portanto se só o Camtil tem cerca de 420 miúdos por ano, entre os outros todos estamos a falar para cima de mil miúdos por ano nestes campos de férias...
Zé Diogo: Muito mais. Se fizermos as contas, só os Carraças têm 10 campos de férias com 60 miúdos cada. Temos aqui 600 miúdos. Mais os 400 do Camtil, só estamos a falar de dois movimentos. Somos 30 em Portugal.

Eu diria, sem fazer assim contas muito profundas, que cinco mil miúdos por ano têm esta possibilidade de viver o Evangelho com muita alegria nos campos de férias.

Obviamente uma coisa que diferencia estes campos de férias é a sua identidade católica. Isso dá frutos na vida dos miúdos?
Carminho: Vê-se sempre muitos miúdos a irem contrariados, sem perceberem porque é que os pais os estão a obrigar a ir e porque é que os irmãos mais velhos gostam tanto, e irem mudando ao longo do campo. O campo, no fundo, são dias vividos com muita simplicidade, com muita verdade, e em que é dada a capacidade aos miúdos de pensarem pela própria cabeça e terem uma equipa de animadores, de adultos e de padres que são um exemplo para eles e eles olharem para esses animadores e adultos e perceberem que eles são felizes porque seguem Jesus e quererem, nessa simplicidade, fazer isso.

Há aqui uma identidade católica vincada, mas não é só oração e doutrina...
Carminho: Claro que não. Há muitos jogos ao longo do campo, há um muito conhecido que é o Survivor, que implica muita lama, há caminhadas, há campos que vão a Fátima, há campos que são no meio do nada e passeiam a pé, há campos que sobem rios...

Zé Diogo: Nós tivemos uma oportunidade recente de ver um musical sobre campos de férias, um teatro que simulava um destes campos, e o testemunho de um dos padres deste musical resumia muito bem a espiritualidade dos campos de férias. Ele dizia: "Os campos de férias são oração e lama" é esta alternância entre olharmos Jesus nos olhos, com intimidade, e cinco minutos antes tivemos numa piscina de lama a fazer um jogo incrível, que é tão atraente… É atraente para os miúdos porque acho que lhes muda mesmo a vida. Lembro-me uma vez de um caso, seguramente há muitas histórias do mesmo género, estava um miúdo num campo em que eu estava também, e ele não tinha uma vivência da fé muito profunda ou regular, e estamos a falar de uma altura em que estamos já no fim do campo e por isso as pessoas já tiveram uma experiência muito forte de amizade e também de oração, e ele, o miúdo de 14 anos, levanta-se no meio de uma roda de 60 crianças, e do nada diz assim: Se o que vocês dizem é verdade, então eu já não tenho medo de morrer.

Isto diz tudo, diz tudo.

O Zé Diogo tem filhos?
Zé Diogo: Tenho três filhos.

Já com idade de fazer campos?
Zé Diogo: Um deles já está a acabar o circuito de fazer campos e está a entrar na idade de animador. Os outros ainda estão completamente na idade de fazer campos.

Mas o Zé Diogo não fez?
Zé Diogo: A minha mulher fez, quando era mais nova, há 30 anos, a Filipa fez campos, depois esteve alguns anos sem fazer e agora fomos convidados como casal para fazer campos.

Portanto em casa já tiveram as vivências todas, enquanto pais, participantes, casal...
Uma das grandes riquezas para nós tem sido viver isto em família, estarmos ao mesmo tempo o pai e a mãe e os três filhos, em que destes três um ou dois participam e os outros fazem de irmãos, mais novos e mais chatos, ou mais velhos e mais divertidos.

Estavam a dizer há bocado que há miúdos que vão contrariados, mas também acontece o contrário, de serem os próprios miúdos a serem evangelizados nos campos e depois a puxarem pelos pais?
Carminho: Claro que sim.

E acontece muitas vezes. Temos casos muito giros de miúdos que chegam a meio do campo e não percebem porque é que os pais não os levam à missa ao domingo. Não percebem... Neste musical de que o Zé Diogo estava a falar há uma miúda que diz: "Não percebo porque é que os meus pais me mandam para aqui, sabendo que isto é tão bom, e não fazem esta vida o resto do ano inteiro”. Por isso acontece muitas vezes, serem os miúdos a levarem os pais à missa. Este ano recebemos uma carta de uma mãe a agradecer a forma como o filho chegou a casa. A dizer: "O meu filho veio uma pessoa completamente diferente, muito obrigado, não sei o que é que fizeram durante esses dez dias, mas só tenho a agradecer a maneira como ele chegou".

Há aqui uma questão que pode ser injusta, ou preconceito, do pouco que conheço destes campos fico com a ideia que é de uma faixa social bastante restrita. Isso é transversal? Pode não ser uma coisa negativa, há-de haver projectos para todos, mas existe a tentativa de variar as experiências do ponto de vista social também?
Zé Diogo: Sim. Temos uma grande diversidade de campos. Alguns são mais homogéneos, do ponto de vista da faixa social, para pessoas que não têm dificuldades económicas, e há outros que são mais dirigidos para pessoas carenciadas, há uns muito focados em bairros carenciados, há uns que procuram uma mistura destas duas realidades, portanto eu diria que há as três vertentes.

Não há ninguém a ganhar dinheiro com estes campos, pois não?
Carminho: Ninguém ganha dinheiro com estes campos. Posso contar o exemplo do Camtil. O Camtil tem cinco mil sócios, que estão organizados em famílias e todos os anos as famílias pagam uma quota e essa quota ajuda-nos a gerir o Camtil ao longo do ano inteiro. Para irem para os campos cada miúdo tem de pagar um valor que, se não conseguir pagar, a organização assume. Ou seja, ninguém deixa de fazer campos por não ter dinheiro.

Paralelamente temos o caso dos Gambozinos, que precisam de fazer uma angariação de fundos para os seus miúdos, que são de uma situação mais carenciada, conseguirem fazer campos de férias no Verão.

Ninguém fica de fora por não ter dinheiro, mas há quem fique de fora por já não haver vagas...
Carminho: Sim, há quem fique de fora por não haver vagas.

Muitas pessoas?
Carminho: Muitas, muitas pessoas. Mas ficam de fora um ano, esperamos que no ano a seguir consigam entrar. A oferta de campos está cada vez maior, porque de facto isto está a mudar a vida de muitas pessoas e as pessoas querem todas vir fazer um campo também.

Se calhar os campos fazem parte de uma faixa social diferente, é uma coisa de que estávamos a falar o outro dia, mas depois é essa faixa que vai criar outros campos para outro tipo de pessoas, com mais dificuldades.

Ou seja, acaba por ser um ciclo que só vai dar bons resultados mas que tem de passar sempre por uma fase mais fechada.

Zé Diogo: E depois há um ponto importante que achamos que é relevante, que é o facto de as pessoas terem uma faixa social mais elevada não significa que não precisem de ouvir falar de Deus, da mesma forma que aqueles que têm uma vida economicamente mais desfavorecida. Todos eles precisam dos campos de férias, como nós também precisamos.

Ainda a propósito de outra coisa, e que é um dos grandes objectivos do nosso seminário, é precisamente conseguir mostrar a todos aqueles que estejam interessados em ir lá no dia 31 que é fácil fazer um campo de férias, que é possível fazer um campo de férias e queríamos muito chegar a todos os párocos da diocese de Lisboa, a todas as instituições católicas, a todas as organizações sociais que tenham uma matriz cristã, todos os colégios católicos, porque de facto há em todas estas instituições ou tipos de instituições que mencionei.

Algumas já conseguem organizar campos de férias, por isso a grande proposta que queremos fazer é, durante o período da manhã vamos discutir e partilhar este dom e durante a parte da tarde vamos partilhá-lo com todos os que quiserem ouvir. E nós gostaríamos muito que todas as pessoas que ainda não fizeram um campo de férias na vida pudessem ir ter connosco, ouvissem o que temos para dizer, conversassem connosco e percebessem que é possível também eles fazerem um campo de férias, porque de facto a procura é uma coisa que nos parte o coração, nós sabemos que temos dois mil miúdos inscritos para fazer um campo dos Carraças e só 800 é que fazem, todos os anos há 1200 que ficam de fora, nós não queremos que isto seja assim, queremos que esta mensagem de Jesus chegue a todos em tempo útil, porque se eles chegam aos 18 anos depois já não há quem lhes ponha na cabeça que vão fazer um campo de férias, porque então já não querem.

Dia 31, onde e a que horas?
Carminho: Dia 31 no Colégio São João de Brito, depois do almoço, mas podem ver todas as informações na internet, vamos ter também uma página no Facebook que vai ter todas essas informações. Se quiserem falar directamente connosco podem enviar-nos um email para redecfc@gmail.com

Numa altura em que se está a falar tanto de Nova Evangelização e de responsabilizar os leigos pela nova evangelização, esta é uma via?
Zé Diogo: Claramente. Aliás quando pensámos na razão de fundo deste seminário, depois havia também uma razão de facto, uma coisa circunstancial, que é o Sr. D. Manuel Clemente ter convocado um sínodo diocesano para Lisboa para 2016, em que lançou este desafio a todos os que querem viver o Evangelho de uma forma diferente e actual, que nos contem que nos contem como é que fazem. E a nossa intenção é precisamente, no final destes trabalhos, resumir isto num documento que entregaremos depois à organização do Sínodo para que seja tornado público por essa via.

Têm ideia de isto acontecer noutros países?
Carminho: Não. Não há campos de férias [deste género] sem ser em Portugal. Um dos nossos objectivos era também conseguir enviar uma carta ao Papa a explicar este fenómeno que está a acontecer em Portugal e explicar este fenómeno e o impacto que está a ter na sociedade portuguesa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sínodo finitu e encontro de campos de férias católicos

Participantes de um campo de férias do Sairef
E ao 21º dia, o sínodo acabou… Em que é que ficamos?

A terminologia na questão dos divorciados recasados é vaga, mas a minha leitura é que se deixa uma abertura para o acesso aos sacramentos. Agora cabe ao Papa escrever um documento definitivo. Vamos aguardar.

D. Manuel Clemente mostrou-se satisfeito com o sínodo, D. Antonino Dias também e o Cardeal Schöenborn, idem. Nesta notícia o padre Duarte da Cunha, que participou como perito, ajuda a interpretar o documento final.

Das pessoas ouvidas pela Renascença, a mais céptica foi o vaticanista do Le Figaro.

Faz parte das milhares de pessoas que já fez, ou ajudou a organizar, um campo de férias católico? Sábado vai haver um encontro dos diversos movimentos e são desafiados a participar, de forma especial, os que gostariam de organizar campos e não podem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poligamia, emendas e hóstias caseiras

Amanhã é o Dia D do sínodo. Os bispos vão votar o documento final. Esse esteve a ser elaborado hoje, depois de terem sido feitas 50 propostas de emendas por parte dos bispos.

Segundo um dos participantes no sínodo, as perguntas são claras, as respostas é que nem por isso.

Tem-se falado muito do facto de as discussões no sínodo terem ignorado a realidade de outras culturas e houve bispos que lamentaram o facto de no sínodo terem ficado assuntos importantes por discutir. A esse respeito falei com um bispo nigeriano sobre o problema da poligamia e a conclusão é que é um assunto mais complexo do que possa parecer à primeira vista.

Conheça aqui o padre de 80 anos que ainda faz hóstias em casa, de forma artesanal…

E não deixe de ler esta reportagem da participação de Jorge Silva Melo nas conversas sobre Deus, com Maria João Avillez, na Capela do Rato.

Por fim, fica novamente a recomendação para ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o que faz verdadeiramente “grandes homens”.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Marx, Müller e o Tarzan das ocupações surpreendem

Cardeal Reinhard Marx
Foram hoje apresentados os relatórios dos grupos de trabalho no sínodo, relativos à terceira parte do instrumentum laboris, precisamente a parte mais “polémica”. Aqui pode encontrar o essencial de todos os relatórios.

Mas o que mais admirou foi o facto de o grupo de língua alemã ter apresentado uma proposta de admissão de algumas pessoas em uniões irregulares aos sacramentos. A surpresa, lá está, não é a proposta, mas sim o facto de ter sido aprovada por unanimidade nesse grupo, o que significa que os cardeais Marx e Kasper estiveram de acordo com o cardeal Muller.

Durante a conferência de imprensa de hoje, o Cardeal Marx aproveitou também para lamentar o tom com que o cardeal Pell se dirigiu aos defensores da mudança da prática da Igreja nestes casos.

A preparação para o matrimónio tem sido um dos assuntos em cima da mesa. A jornalista Matilde Torres Pereira foi ver o que se faz nesse campo em Portugal, e se é suficiente.

Anda a circular uma notícia que diz que o Papa está com um tumor benigno no cérebro, mas o Vaticano desmente categoricamente

O que parece ser mesmo verdade é que alguém do Vaticano escreveu uma carta de apoio ao “Tarzan das ocupações”… pois… mais vale lerem, porque não sei bem o que dizer sobre este assunto.

O padre Tolentino venceu um prémio literário pela obra “A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa”

E hoje é dia de artigo do Catholic Thing. O padre Jerry Pokorsky estreia-se na versão portuguesa com um texto que mostra as diferenças entre a perspectiva terrena e a perspectiva cristã sobre o que constitui um “grande homem”.

Grandes Homens e Perdedores

Pe. Jerry J. Pokorsky
Quando pensamos nos grandes homens da história, quem é que nos vem à cabeça? E quais são os atributos dessa grandeza? Nos tempos de Cristo, os Césares eram grandes homens. Conquistaram muito território, que mantinham a grande custo. Para serem grandes homens gastaram muito dinheiro dos tributos pagos pelos seus súbditos e derramaram, em batalha, muito sangue de pessoas normais.

De igual modo, Herodes o Grande também foi considerado “grande” porque mandou construir um magnífico Templo para os Judeus e era implacável na defesa do seu poder. Na sua velhice assassinou os Santos Inocentes, comprovando novamente que a fasquia terrena de grandeza pode ser medida pela quantidade de dinheiro dos seus súbditos que um líder gasta e quanto do seu sangue derrama. 

Quando os Apóstolos discutiam entre eles quem era o maior, provavelmente não estavam a pensar em termos de gastar os rendimentos de outros ou de derramar muito sangue. Mas poderão ter estado a pensar nalgumas das regalias da grandeza. Afinal de contas, os grandes líderes, antes de pensarem em conseguir grandes feitos, precisam de pensar um pouco naquilo que vão obter, pessoalmente, com essa grandeza.

Cristo ouve a sua discussão e utiliza essa ocasião para lhes ensinar algo sobre a verdadeira grandeza: “Se alguém desejar ser o primeiro, será o último e o servo de todos”. E “quem receber uma criança como esta em meu nome, recebe-me a mim; e quem me recebe a mim, recebe-me não a mim mas ao que me enviou”.

Lendo sobre os grandes homens da história, não me parece que isto seja matéria de grandeza, pelo menos aos olhos do mundo.

Mas a grandeza cristã não pode ser medida em termos mundanos. O maior homem nascido de uma mulher (antes da inauguração do Reino), de acordo com Jesus, é João Baptista. Ele confrontou Herodes sobre a moralidade do seu casamento e em resultado disso foi decapitado. Em termos terrenos foi um perdedor.

São Tomás Moro limitou-se a manter silêncio quando enfrentado com o adultério de Henrique VIII, mas o seu silêncio era testemunho que chegue e por isso também ele perdeu a cabeça. Em termos terrenos, Tomás Moro era um perdedor.

São Isaac Jogues pregou Cristo aos indígenas dos Grandes Lagos, em Nova Iorque. Brutalmente torturado, fugiu apenas para pedir para ser enviado novamente para a América para pregar novamente. Foi trucidado. Tanto quanto consigo perceber da leitura da história, muito poucos índios Iroquois se converterem ao Catolicismo. Os peditórios continuam a render pouco dinheiro. Em termos terrenos – e mesmo, talvez, em termos puramente eclesiais – São Isaac Jogues era um perdedor.

Compreendo bem essa situação. Na minha primeira missão como padre houve uma altura em que me deliciava com as boas sensações que nos chegam da alegria dos fiéis quando um pároco novo, recém-ordenado, chega à paróquia. Por isso imaginarão como me perturbou o facto de encontrar resistência quando proclamei o Evangelho. Certa vez o Evangelho de domingo era o ensinamento de Jesus, “Mas eu vos digo, quem se divorciar da sua mulher e casa com outra comete adultério”. O ensinamento de Cristo é suficientemente claro, e por isso a minha homilia foi toda sobre a primeira leitura.

Verdadeira grandeza
Depois da missa fui confrontado por um paroquiano zangado. Quem era eu para dizer: “Aquele que se separa da sua mulher e casa com outra comete adultério”?! Defendi-me dizendo que me tinha limitado a ler o Evangelho. “Não me crucifique a mim! Crucifica Jesus!” (Ok, talvez não tenha dito exactamente isso.)

Essa foi das primeiras lições salvíficas que tive enquanto padre. Se verdadeiramente aspirava a ser grande, devia aspirar a pegar na minha cruz e sofrer com Cristo. “Em verdade vos digo, nenhum servo é maior que o seu mestre e nenhum mensageiro é maior que aquele que o enviou” (Jo. 13,16).

Suponho que a grandeza, como o mundo a compreende, sempre foi medida por popularidade e sondagens. Mas se um candidato político, hoje, baseasse o seu programa e campanha nos Dez Mandamentos e no Evangelho, quanto tempo levaria até que fosse cercado pelas multidões, gritando “Crucifica-o! Crucifica-o!”? Jesus avisa-nos – incluindo aqueles de entre nós que pregamos o Evangelho: “Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois foi assim que os seus antepassados trataram os falsos profetas”. (Lc 6,26)

Há razões pelas quais os maiores dos santos cristãos foram assassinados, tal como Cristo foi assassinado no Madeiro sagrado. Se eles tivessem escolhido a via da grandeza do mundo, talvez escapassem às masmorras, ao fogo e à espada. Mas a sua grandeza não era deste mundo. Eles escolheram a via estreita da Verdade e da Cruz, o único caminho seguro para a verdadeira grandeza da Ressurreição.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 20 de outubro de 2015

Papa quer Converter o Papado

A irmã Annie, em Aleppo
O Papa Francisco quere a “conversão do papado” e mais colegialidade na Igreja e disse-o no sábado, em pleno sínodo sobre a família. Palavras revolucionárias? Veremos.

O sínodo entrou esta segunda-feira na recta final, e esse facto é aqui analisado por Aura Miguel. Esta tarde esteve na conferência de imprensa o patriarca Fouad Twal, de Jerusalém, que recordou que para os seus fiéis nem sequer existe casamento civil, pelo que a questão de acesso aos sacramentos é simplesmente uma não-questão.

A Comunidade Israelita de Lisboa condena os ataques que têm sido levados a cabo por civis em Israel.

A guerra na Síria destruiu quase tudo, mas não a fé dos cristãos. Quem o diz é a irmã Annie Demarjian, que esteve em Lisboa a semana passada. Aqui pode ler a entrevista desta freira de Alepo na íntegra, em inglês.

Entretanto durante o fim-de-semana foi canonizado um casal, pais de Santa Teresinha.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

“The war in Syria has made our faith stronger”

This is a full transcript of the interview with Sr. Annie Demarjian, a Syrian nun who was recently in Portugal at the invitation of the local branch of Aid to the Church in Need. The news report, in Portuguese, can be found here.

Transcrição integral da entrevista à irmã Annie Demarjian, uma freira síria que esteve recentemente em Portugal a convite da Ajuda à Igreja que Sofre. A reportagem está aqui.


Could you explain to us where you live and work you do?
I am Sister Annie Demerjian, from Syria, with the Sisters of Jesus and Mary.

We have been working in Aleppo since 2004.

Who do mostly work with?
We are working with a school, with the school of the Greek-Catholic Diocese, my sisters and myself, and when the war started we also started doing emergency work with families.

Are you from Aleppo?
No, I am from Damascus, but my mission was in Aleppo.

Do you still have family in Damascus?
Yes.

You have been in Aleppo since 2004. How much has life changed since the beginning of the war?
Since the war began, the situation of displacement within the country, mass flight to neighbouring countries, to Europe, as well as death and injury, loss of infrastructure in the country, as you know. Lots of change happened. Many houses were destroyed and damaged, factories, as you all know, were looted, many places of employment were destroyed and it is difficult to repair them. Schools and hospitals either destroyed or, sometimes if not, the systems have been terribly degraded.

Those who want to stay, or can't leave, are in a real state of poverty. Life is not easy now, and it is very difficult to maintain daily life in Aleppo, especially. Electricity and water are cut off for long hours. The daily life is not easy for families.

What does your congregation do to help?
From the beginning of the crisis, our sisters were holding us in prayer all over the world. And they try to help as much as they can so we can stand with our families. My congregation, as well as Aid to the Church in Need, which is helping us a lot. At least we make the suffering of our families less.

We know that this war has affected the country materially, and there has been terrible loss of life, refugees, etc. How has it affected people's faith, and more specifically the faith of the Christians?
There is a real spiritual growth and the families need the support and welcome of the liturgy and prayer that the churches offer. They are full when prayer or mass is announced. I think also that the crisis has made our faith stronger, and you can see that from the worship of the peopel, the way they pray, the way they trust the Lord, the way they have hope that one day there will be a ressurection.

You say there is hope that one day things will improve. But looking back, only in the past 100 years, you had the massacres of 1915, Simile in 1933, now the persecutions at the hands of ISIS... Do you believe Christians will ever live in peace in this part of the world?
If you go back in the history of the Church, from the beginning we have always had difficult times and peaceful times. So what we are looking for is to live in peace and dialogue.

It is not easy... Always our dear Christians have been facing dangers and difficulties for the sake of Christ. If we really believe in Christ, then what does our life matter?

Pope Francis used an expression which is Ecumenism of Blood. There are so many different churches on the ground in the Middle East, not only Catholic but Orthodox, do you feel that the Christians have drawn closer together faced with these persecutions?
Yes, very much so, especially with the emergency help, they try to help eachother, when one Church has a good, they share it with other churches. Not only on the material level, also on the spirtiual level, every time we have common prayer for peace, for kidnapped people, so yes, this crisis has brought us closer and closer together.

One of the concerns is that this crisis will drive Christians away from the Middle East. What do you say when young people go to you and say they are trying to leave?
I just listen to them. It is not easy to say for them to stay or to go, because people have a capacity of holding this violence and some people who are leaving have their reasons. So we need to pray together and see what is the good for them and let them make their choices.

We hear so many appeals for help from the Christians in the Middle East, but what exactly can we do to help?
When you have difficulties it is very important to find somebody standing beside you. What we want more, the real intention is that people work for peace. For us as a congregation and as a group working with families, we felt that. We felt that we are not alone. Many people around the world are praying for us, supporting us with material things and even with their prayer. And this is the beauty of the Church. We are one body and when a small part of the body is suffering, the whole church is suffering. So we felt that our brothers are really suffering with us and they are always sending us messages. Sister, we are praying for you, for your communities, we are with you, today we are having mass and praying for you.

The concern for what is happening is beautiful. Maybe on the wider level, the good intention to work for peace and make people aware that we really want peace.

“A nossa prioridade é o casamento”

António e Marta Pimenta de Brito
Transcrição integral da entrevista feita a António e Marta Pimenta de Brito, o casal por detrás do portal datescatolicos.org. A reportagem pode ser lida aqui.


Que projecto é este?
António: É um site de encontros amorosos para católicos em que o primeiro objectivo é promover o encontro das pessoas e em segundo lugar a partilha da fé e dos valores.

Falámos com a Igreja e temos já alguns apoios na Igreja, desde o bispo-auxiliar de Lisboa D. Nuno Brás, ou o secretário-geral das Conferências Episcopais Europeias, o padre Duarte da Cunha, e outras pessoas. 

E de facto a ideia é encontrar solteiros, pessoas que querem casar e desejem encontrar uma pessoa e nós, através desta plataforma online proporcionamos esse encontro e ao mesmo tempo também fornecemos conteúdos, ligados à questão da fé, valores, “lifestyle”, valores humanos e também organizamos eventos. Ou seja, não é só algo online, é algo que também se realiza cá fora, com encontros, retiros, palestras, mas também caminhadas, workshops sobre vários temas, a nossa vida, encontros, etc.

É um modelo que já existe noutros países, não é?
António: Exactamente. 

Marta: Esta plataforma nasceu há dez anos em alemão. Não só em países como a Alemanha, Suíça e Áustria mas também noutros como a Eslovénia e a República Checa. Nós somos o décimo país a entrar e ficamos responsáveis por todos os países de expressão portuguesa e todos os portugueses espalhados pelo mundo, que são bastantes, se pensarmos que um terço dos portugueses está fora de Portugal. 

Não existe nada disto em Portugal... No Brasil também não?
Marta: No Brasil existe, e na América Latina este tipo de sites são conhecidos. Aliás, o termo dating é de origem anglo-saxónica e quer na cultura da América do Norte, quer na cultura latina da América do Sul existem diferentes tipos de site. 

Mas especificamente católicos, no Brasil, já existe?
António: Temos ideia que existe um, ou dois. De qualquer forma este site que estamos a desenvolver também se adapta muito não só ao Brasil mas também a Portugal, cada um tem as suas especificidades culturais, e essa adaptação também é importante. Depois, pertencer a um grupo que já tem muita credibilidade, já tem apoio na Igreja, neste caso na Igreja alemã, e nas outras igrejas de outros países. Portanto é um grupo que tem credibilidade, por ser algo que é apoiado pela Igreja e nesse sentido acaba por ter essa força.

Marta: E tem por base um modelo europeu, tendo nascido na Alemanha.

Fazendo um bocadinho de advogado do Diabo... A cultura dos "dates" não é uma coisa portuguesa. Acham que os portugueses se vão adaptar a esse conceito dos encontros? Nós estamos mais habituados a conhecer as pessoas através de interacção social... 
António: Essa é uma boa questão, que nós nos colocámos, obviamente e todos colocam, especialmente algumas pessoas ainda muito no paradigma do escrito. Hoje em dia vivemos quase 30% do nosso tempo na internet.

Voltando à questão do termo "date", de facto é verdade que é um termo mais anglo-saxónico, até porque eles assumem muito mais esta questão do encontro. Quando se encontram é para ver se dá ou não dá. Nós aqui "engonhamos" um bocadinho, andamos a organizar cafés, depois é ou não é. 

Por outro lado, a vantagem de ser católico, é que nós não andamos propriamente com um sinal na testa a dizer que somos católicos. Aqui acaba por facilitar um bocadinho. Mas o online ajuda-nos a triar certas coisas. Temos um questionário, que não é obrigatório, em que a pessoa pode falar um bocadinho sobre si: "O que é que eu faria numa situação com um mendigo na rua?", "O que é que faço num sábado à tarde?" Pequenas coisas da personalidade. 

Por outro lado, em relação aos valores, que Papas aprecio mais ou com os quais me identifico mais? Que santos? O que é que faria numa determinada situação? Triamos todas estas características e fazemos uma combinação. Há partida a pessoa fica a conhecer o perfil da outra.

Portanto o site recomenda pessoas conforme o nosso perfil?
Marta: Mas cada pessoa pode também fazer a procura. A pessoa começa por fazer um perfil e vai descrevendo-se da forma que melhor o define, com diferentes características, como a cor dos olhos, mas também os santos que mais o inspiram, a forma como passam um sábado e pode fazer a pesquisa em que coloca determinados parâmetros, por exemplo a zona geográfico. Por exemplo, se é de Lisboa e prefere procurar pessoas na zona da Grande Lisboa, pode fazer esse tipo de pesquisa. 

A questão da combinação é no sentido de facilitar e é uma proposta, mas a própria pessoa pode ir pesquisar perfil a perfil.

Outra questão, será que em Portugal existe gente suficiente para um site como este funcionar? Já têm objectivos a esse respeito
António: Claro, a pergunta é importante, porque este projecto não só é algo com objectivo pastoral, de ajudar as pessoas, mas é algo que é gerido profissionalmente e tem de ser sustentável. A plataforma é complexa, e exige manutenção e daí também ter um preço, mas de facto Portugal é eminentemente católico. Olhamos para alguns países, como Espanha que ainda tem bastante anti-clericalismo, que nós também temos, mas temos muito menos. Portugal é um país católico e mesmo que às vezes, como dizem os números da Universidade Católica, que 80% do país é católico, havendo um aumento do número de evangélicos, por exemplo, mas 20% vão à missa. Podemos dizer que os convictos são esses, mas muitas outras podem não ir ao culto mas continuam a identificar-se com a Igreja e com os seus princípios. Portanto esta iniciativa vem na melhor altura, não só no sínodo da família, como há muitas pessoas que sendo um país católico que por várias circunstâncias na vida não conseguiram encontrar aquela pessoa, mas que têm esse desejo profundo de amar e ser amado ainda, e de encontrar alguém e ser felizes.

Falando em números, qual é a vossa expectativa?
Marta: Nós neste momento temos, a cada minuto, os números de interessados a deixar o email e estamos bastante optimistas de que realmente a nossa expectativa inicial dê bons frutos e prevemos que daqui a um ano possamos já ter resultados concretos de termos conseguido, através da plataforma, proporcionar encontros que de outra forma não seriam possíveis. Ou por distância, ou porque as pessoas [não têm tempo], e Portugal é um país em que se trabalham muitas horas, o que muitas vezes dificulta que as pessoas tenham disponibilidade de encontrar a sua cara metade e que partilhe os valores cristãos. Como dizia há pouco o António, não temos escrito na testa que somos católicos. Portanto estamos optimistas e o feedback das pessoas, porque já temos uma página de Facebook e temos a página em que as pessoas podem pedir mais informações e todos os dias recebemos emails e mensagens de pessoas bastante interessadas, a perguntar por exemplo se com 62 anos, sendo uma pessoa viúva se pode inscrever, mas temos também jovens que nos perguntam se não é Deus que escolhe? Se Ele não tem um plano para eles. Todo o feedback que temos recebido nos faz pensar que podemos continuar a estar optimistas e que isto vai ajudar muitos casais a chegar ao altar católico.

António: Estes sites são um bocado diferentes daqueles para encontros ocasionais, como aquele que esteve recentemente nas notícias, que tem cerca de 34 milhões de utilizadores. Não é esse o nosso campeonato nem o nosso objectivo. Por ser de relações sérias e por ter um pagamento associado, se as pessoas vão é porque querem algo sério. O pagamento não é só porque querem algo sério, é porque o sistema é complexo e tem moderação. Mas é para dizer que este site não tem o volume que têm os sites de encontros ocasionais, que são os números que sabemos.

Nós não temos isto para ficarmos ricos, é antes de tudo uma missão, mas quero dizer que os números não são astronómicos, mas também não são demasiado diminutos. Podemos dizer que o site alemão já tem 5000 membros e já conseguiu ter 400 casamentos...

5000 membros, e fundado à quanto tempo?
Marta: Este foi fundado há 10 anos. Mas nós quando falamos de 5000 membros é uma média, porque há pessoas que saem e outras que entram, alguns porque casam.

Dos países que já fazem parte, há algum que se assemelhe a Portugal em dimensão ou prática religiosa, que possam ter como modelo mais próximo?
Marta: Temos por exemplo a Lituânia, que é também um país católico, de dimensão não igual à nossa, e depois também a questão de características culturais, ser uma cultura de leste ou de oeste, portanto totalmente igual nunca podemos dizer que é. Também a nível histórico somos muito diferentes e temos diferenças geracionais também bastante acentuadas na nossa cultura, portanto não diria que existe um país que possa ser exactamente um modelo para o nosso país.

António: O que é muito curioso e muito surpreendente para nós é o acolhimento que tem tido nos media tradicionais, não-católicos, a nossa iniciativa. Esperaríamos que fosse ao contrário, tendo em conta que é uma iniciativa a favor da família. Mas de facto tem tido um acolhimento bastante interessante.

Mas é engraçado que muitas pessoas não-católicas, ou menos praticantes, vêm ter connosco e dizem que sempre quiseram casar, não sabem é como. Obviamente isto é um desafio, temos de acolher todos, e também, obviamente é um desafio, mas ao mesmo tempo é surpreendente e interessante. É um desafio, mas é também gratificante.

Há um pagamento associado, qual é o valor?
Marta: Temos a trimestralidade por 24 euros e a anuidade por 60 euros. A experiência nos outros países é que é mais vantajoso a anuidade, que acaba por ficar apenas a 5 euros por mês, porque é mais vantajoso. Há casos em que pode ser, num date que encontrem o marido ou a sua esposa, mas há pessoas que têm a experiência que só ao terceiro é que se faz o clique. 

É uma plataforma que tem custos. Disseram que não estão aqui para enriquecer, é também uma questão de missão, mas certamente não têm amplitude para estar a perder dinheiro com esta iniciativa. Quantas pessoas precisam de ter inscritas a pagar 5 euros por mês, mais coisa menos coisa, para isto ser rentável e poder continuar.
António: Isso é um número que é preciso ver, só pode ser apurado na altura, porque há várias questões que têm de ser tidas em conta ao nível de custos de implementação, mas de facto não é um valor... É um projecto em que investimos, mas temos toda a confiança que é um projecto que vai ser sustentável. Não é um projecto que nos vai dar muito dinheiro, nem é esse o objectivo, mas penso que vai cobrir os custos, isso sim.

Mas não querem dizer quantas pessoas é que estimam que têm de estar inscritas para isso...
António: É algo que, neste momento, não podemos prever, tendo em conta que ainda não foi feito o lançamento.

Gostariam de, ou prevêem, ser convidados para algum dos casamentos que possam surgir daqui?
António: Obviamente gostávamos bastante...
Marta: A nossa principal preocupação é tentar proporcionar, porque sabemos que nem sempre é fácil encontrar a cara metade e quanto isso é importante, porque temos diversos estudos portugueses e estrangeiros que nos dizem que aquilo que as pessoas querem é constituir família e serem felizes e realmente temos muitas pessoas em Portugal que não conseguiram encontrar, por isso, se daqui a dez anos pudéssemos ver esses casais felizes, para nós isso é a principal motivação. Se nos convidariam ou não é acessório.

António: Os casamentos é importante, é uma realidade palpável, obviamente que também o processo todo que existe, do acompanhamento na fé, tudo isso também é importante, porque também saem daqui muitos amigos, no exemplo que temos da Alemanha, não apenas casamentos mas também a amizade e conhecimento entre todos, também é interessante de ver. E essa caminhada também é importante.

Isso que acabou de dizer é importante... Não teria feito mais sentido talvez apresentar isto mais como uma rede social para católicos se poderem conhecer, porque há muitas pessoas que vivem desacompanhadas na fé, mesmo que não estejam à procura de uma relacionamento amoroso, ou isso não seja prioridade, querem simplesmente estar em contacto com outras pessoas... E depois daí podiam surgir eventualmente relações, do que estar a pôr o enfoque muito na questão do amor?
António: Isso é uma questão, aliás acho que já existe uma rede social desse estilo, não sei se em Portugal ou se noutro país, talvez o Brasil. Isso é importante e é importante existir, é interessante, mas não é o nosso objectivo. O nosso objectivo é mesmo proporcionar um encontro a pessoas que têm valores comuns e querem encontrar uma pessoa para a vida. Porquê? Porque nós vemos no nosso caso, como casal, o facto de termos algumas ideias e princípios em comum, facilita muito a nossa vida. Princípios cristãos como o compromisso, a fecundidade, a fidelidade, o perdão, muitos outros até relacionados com a nossa vida em comum, o respeito pelo outro, colocar o outro em primeiro lugar. Tudo isso, nós tendo essa visão cristã das coisas, facilita muito. Obviamente é importante a química, mas depois algo sólido que pode perdurar pelo tempo. 

As pessoas procuram muito amar e ser amados, nem todos têm vocação para casar, mas os que têm, nós queremos que possam chegar a conhecê-lo. Uma rede social, com amigos, tem os seus objectivos, mas nós queremos outro objectivo. Se a pessoa quer encontrar alguém, aqui é facilitado esse caminho e esse encontro.

É engraçado que existe algum preconceito com o online. Mas temos grupos eclesiais de rapazes e raparigas, universitários, para casais, que acabam muito por fazer essa abordagem. Aqui, o meio que usamos é a nossa especificidade, o online, porque as pessoas hoje em dia estão no online. Já não estamos no tempo do Gutemberg, que foi importante. O online pode ser usado para coisas más, mas também para coisas boas e é isso que nós queremos também proporcionar, acompanhado também com a Igreja. Temos padres que nos acompanham, pessoas que nos acompanham e nos dirigem e através desses meios, apoiados por eles conseguimos, e se Deus quiser, porque para Deus nada é impossível, acompanhar essas pessoas.

Marta: Exactamente. A nossa prioridade é o casamento.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Dia ecuménico no sínodo

Delegados fraternos no sínodo
Os últimos dois dias foram reservados para que os representantes de outras igrejas cristãs e os auditores e especialistas – isto é, os não bispos – presentes no sínodo tomassem a palavra. Na conferência de imprensa o representante ortodoxo pediu aos jornalistas para não focarem só as notícias negativas e o anglicano lamentou que no sínodo não se fale de outros assuntos, para além dos problemas de divorciados recasados.

O Papa Francisco visitou um dormitório para sem-abrigo aberto recentemente no Vaticano e conviveu com os residentes.

Por cá, a Igreja de São Cristóvão, que tem tentado, de forma heróica, sobreviver, entrou na lista de monumentos em risco, elaborado pela World Monument Foundation. É uma boa/má notícia.

Foi inaugurada uma nova sede para a Ajuda à Igreja que Sofre, em Évora. Na cerimónia de abertura o Arcebispo de Évora disse que a perseguição aos cristãos só vai acabar com uma “intervenção musculada” das organizações internacionais.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre os preconceitos que existem em relação à religião e à violência, do nosso grande Randall Smith.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Igreja ou é missionária ou não é Igreja

Agora é que as coisas vão começar a aquecer! Os padres sinodais já começaram a discutir a secção do documento orientador do sínodo que contém as questões mais polémicas. Hoje já foi assunto no briefing.

Em relação à segunda secção do documento, que acabou de ser discutido, pode ler aqui o essencial dos relatórios de cada grupo, publicados ontem. Também ontem foi ficando mais claro que os bispos querem mesmo que o Papa publique algo, como uma exortação apostólica, para dar mais sentido às conclusões do sínodo.

Directamente de Roma D. Manuel Clemente, que participa neste sínodo, esteve no debate sobre religião na Renascença e também comentou a actualidade política, dizendo que considera um acordo entre a coligação e o PS como a solução mais “normal” para o actual impasse.

O Papa enviou uma mensagem à fundação Ajuda à Igreja que Sofre em Portugal, que acaba de cumprir 20 anos de existência, em que pede que o mundo acorde para o sofrimento e a perseguição de que os cristãos são alvo.

A Igreja ou é missionária, ou não é Igreja”. Quem o diz é o padre Tony Neves, que acaba de lançar um segundo volume do seu livro “Crónicas com Missão”.

É verdade que há muita violência religiosa no mundo, mas precisamente por isso não precisamos que se veja essa ligação entre as duas realidades onde ela não existe. Randall Smith escreve aqui sobre o seu encontro surreal com uma jornalista em “Religião, Violência e Preconceito Ignorante”, o artigo desta semana do The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Religião, Violência e Preconceito Ignorante

Randall Smith
Ligaram-me de um dos gabinetes de “relações públicas” da minha universidade, esta semana, a perguntar se poderia falar com um jornalista de uma estação de televisão local sobre o tiroteio na escola de Oregon.

“Porque é que querem um teólogo?”

“Porque o atirador poderá ter seleccionado as suas vítimas por serem religiosas.”

Como muitas outras, a nossa faculdade quer que os docentes aceitem estas entrevistas para que o nome da instituição apareça na televisão e as pessoas saibam que ela existe. Noutras universidades querem que os docentes dêem entrevistas para parecerem “peritos”, mas quem tiver essas expectativas terá uma grande desilusão. Os jornalistas não querem mais do que seis segundos do que quer que se seja sobre um assunto, normalmente os seis segundos mais banais e pouco esclarecedores que consigam encontrar. Assim, um perito sobre padrões de votação dirá, sagazmente: “E por isso é importante que todos votem”.

A avó dele poderia ter dito o mesmo. Mas eles vieram até à faculdade, montaram o equipamento, procuraram um bom ângulo para a câmara e filmaram-no a fazer meia dúzia de comentários inteligentes para que pudessem ficar com os seis segundos em que diz o que qualquer outra pessoa poderia ter dito. Essa frase é, provavelmente, o que eles queriam que ele dissesse à partida. Mais valia terem arranjado bonecos de ventríloquo da Disney, poupava-lhes tempo.

Mas precisamos da publicidade gratuita e eu respeito isso, por isso tento dizer que sim sempre que possível e penso num bom local para fazer a entrevista, onde o “camera man” possa obter uma boa imagem do campus. Sei que eles só procuram um “sound bite”, por isso quando aparecem digo ao jornalista: “Posso dizer estas duas frases. Se quer alguma delas então vamos despachar isto”. Normalmente ficam todos contentes, porque como eu eles também não querem perder o seu tempo, uma vez que ainda têm de voltar para a estação, editar e publicar a reportagem. Estão-se nas tintas para o que eu tenho a dizer e eu estou-me nas tintas para o facto de eles estarem nas tintas, desde que não se enganem no nome da universidade e a filmem (e na medida do possível a mim) de um ângulo lisonjeador.

Por isso quando apareceu a jornalista eu tinha um local seleccionado e estava pronto para ela me perguntar sobre este tipo que tinha morto pessoas religiosas. Estava preparado para dizer que é cedo na investigação e que não devemos chegar a conclusões precipitadas; que as pessoas tendem a tornar estas tragédias ideológicas, mas que devíamos ser pacientes e esperar pelos factos; que no massacre de Columbine um dos atiradores tinha perguntado a uma rapariga se era cristã e que quando ela disse que sim ele disparou sobre ela, mas que os investigadores não concluíram que o tiroteio tinha sido o resultado de ódio anticristão. Ia-lhe dizer que, quando pessoas loucas fazem coisas loucas, tirar conclusões rápidas sobre as suas “razões” – como se não fossem loucas – é um erro de palmatória.

Resumindo, ia tentar evitar tornar isto uma questão ideológica sobre o ódio de crentes por parte de secularistas, em primeiro lugar porque não havia provas para suportar essa conclusão e também porque me parece perigoso retirar conclusões gerais destas situações trágicas, para além da conclusão óbvia de claramente não estarmos a lidar com estes indivíduos perturbados da maneira certa. Parti do princípio que a jornalista encontraria algo relativamente inócuo para retirar disso tudo – provavelmente a última frase sobre o tratamento inadequado, que qualquer pessoa poderia ter dito.

Foi por isso com total surpresa que, depois de tudo montado, ela me perguntou: “Porque é que a religião causa tanta violência?”

Vigília pelas vítimas do tiroteio no Oregon
Espera… O quê? Este tipo entrou numa universidade e disparou sobre pessoas porque eram religiosas, e ela queria saber porque é que a religião causa violência? Isso é como perguntar o que é que as mulheres têm que as tende a tornar vítimas de violação?

Um dos meus colegas diz que eu deveria ter respondido: “Mas você está a culpar as vítimas?” É uma boa frase, devo admitir, mas ela teria simplesmente cortado essa parte, como faria se eu tivesse dito “o que é que torna os secularistas tão intolerantes e predispostos à violência?”

Por isso disse-lhe que, embora qualquer coisa possa ser usada para fins malévolos, a religião não é mais causa de violência que muitas outras coisas, como nacionalismo, xenofobia ou várias formas de utopia.

“Mas”, insistia ela, uma e outra vez, “não acha que a religião é particularmente uma causa de violência?”. Pensei para mim: “Espero que ela não esteja a pensar ir à mesquita mais próxima fazer as mesmas perguntas”. Não estava.

“Porque é que a religião é tão fracturante?”, quis saber. Disse-lhe que o Papa Francisco acabara de discursar diante de uma sessão conjunta do Congresso e que e esse episódio não tinha parecido particularmente “fracturante”. Pelo contrário, os congressistas pareciam mais conciliadores do que em qualquer altura dos últimos anos.

Claramente, esta mulher ouvia as palavras “violência” e “religião” e não conseguia senão juntá-las, partindo do princípio que uma era a causa da outra.

Nesse espírito, considerem os seguintes pares de palavras:

Negros/Problemas
Estrangeiros/Perigo
Mulheres/Fraqueza

Se alguém ligasse automaticamente a primeira palavra à segunda, saberíamos o que concluir sobre o assunto. Preconceito ignorante.

Teria isso dado um “sound-bite apropriado”? “Desculpa, minha senhora, mas não percebe que a sua pergunta a revela como uma preconceituosa ignorante?”

Olhando para trás, talvez devesse ter optado pelo “mas você está a culpar as vítimas?” e depois assegurado que estava a conseguir captar boas imagens das roseiras.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 8 de Outubro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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