quarta-feira, 27 de julho de 2016

Islão e os Dez Mandamentos

Howard Kainz
A primeira vez que notei algo fora do comum sobre o Islão foi nos anos 80 quando estava a fazer investigação para o meu livro “Ethics in Context”. Dediquei uma secção do livro à “Regra de Ouro”. A “Regra de Ouro”, na sua formulação negativa ou positiva não existe apenas no Cristianismo (Mat. 7,12), em que Jesus declara que resume a “lei e os profetas”, mas também noutras grandes religiões. Por exemplo, no Judaísmo, “o que for detestável para ti, não o faças ao teu vizinho”; no Hinduísmo, “que nenhum homem faça a outro aquilo que é repugnante para si”; no Budismo, “não magoes outros de formas que também acharias dolorosas”; no Confucionismo, “aquilo que não queres que te façam, não o faças aos outros”.

Na altura interpretei isto como prova de uma relativa universalidade dos princípios éticos racionais no mundo. Mas no Islão não encontrei nada do género, apenas o oposto – o inverso da Regra de Ouro, por assim dizer: “Mohammad é o Mensageiro de Allah, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si” (Alcorão 48,29) e “Os crentes não tomam por confidentes os incrédulos, em detrimento de outros crentes” (3,28). A isto somam-se os comandos do Alcorão para matar os infiéis onde quere que se encontrem (2,191), lutar e ser duro para com eles (9,123), e golpear-lhes os pescoços (47,4)  que acentuam a distância para a Regra de Ouro.

Na altura optei apenas por omitir qualquer referência ao Islão nesse capítulo. Contudo, à medida que investiguei outros assuntos, os problemas religiosos/éticos no seio do Islão são ainda mais sérios. Tal como o Islão ensina o inverso da Regra de Ouro, ensina também o reverso dos últimos sete dos Dez Mandamentos, que lidam com questões de moral:

§  4º Mandamento, Honrar Pai e Mãe: A Universidade de Al-Azhar, a mais respeitada autoridade do Islão Sunita, afirma que um homicídio deve ser vingado, excepto quando se trata de “um pai ou uma mãe (ou os seus pais) por matar um filho, ou o filho de um filho”. Mas os homicídios de honra podem funcionar ao contrário também. Rapazes capturados pelo Estado Islâmico afirmam que receberam ordens para matar os seus pais, de acordo com o que está escrito no Alcorão – Suras 9,23, 58,22, 60,4 – que obrigam ao ódio total por, e dissociação de, infiéis, mesmo que sejam familiares ou pais.

§  Mandamento, não matar: Maomé é considerado o “homem perfeito” pelos muçulmanos, mas ofereceu inúmeros exemplos de homicídio para serem seguidos pelos fiéis muçulmanos – a começar pelo assassinato dos poetas que o ridicularizaram em Medina e em Meca e a acabar com a decapitação de centenas de “infiéis” em vários assaltos e batalhas. Na sua “Declaração de Guerra contra os Americanos que Ocupam a Terra dos Dois Lugares Sagrados”, de 1996, Osama bin Laden justifica a sua Fatwa para matar americanos citando os versículos 3,145; 47,4-6; 2,154; 9,14; 8,72 e 9,5 (o “versículo da espada”). O terrorismo é especificamente justificado nos versículos 8,12 e 3,151 e num hadite de Bukhari 52,256. E a conversão do Islão para outra religião é punida com execução, de acordo com Bukhari 9.84.57, “[Mohammad ordenou] ‘Quem mudar a sua religião islâmica, matai-o’.”

§  6º Mandamento, contra o adultério: Em linguagem comum, “adultério” significa infidelidade para com o esposo ou esposa. Mas para homens muçulmanos, que podem ter até quatro mulheres, divórcio fácil e escravas (4,3), seria extremamente desleixado cometer adultério. O próprio profeta ofereceu exemplos de como “evitar o adultério”, tendo treze mulheres, concubinas e escravas, tudo permitido por Allah (Sura 33,50). Para mulheres e homens solteiros, contudo, o adultério é possível e é severamente punido.

§  7º Mandamento, não roubar: Ali Dashti, na sua biografia de Maomé, Twenty-Three Years, mostra como, ao juntarem-se numa única grande força, os muçulmanos foram capazes de tirar partido do hábito já existente nas tribos árabes de “alimentar a sua ganância ao roubar duzentos ou trezentos camelos num assalto a uma tribo mais fraca” e assim “puderam capturar muito mais despojos” e “conquistar terras ricas e férteis”. A Sura 8 do Alcorão deixa indicações claras sobre o que fazer com despojos de guerra, incluindo a revelação especial (8,41) de que “Deus e o seu apóstolo” deviam receber 1/5 dos despojos.

§  8º Mandamento, não mentir: Ao contrário dos mártires cristãos, que estavam dispostos a dar a vida para não negarem a sua religião, os muçulmanos estão autorizados, pela taqiyya, a mentir sobre as suas crenças religiosas desde que isso contribua para o avanço do Islão. Nonie Darwish, no livro The Devil We Don’t Know, descreve como a Sharia incorpora a taqiyya: “A própria Sharia permite mentiras não só para com infiéis, mas também para resolver disputas entre muçulmanos e nas relações conjugais, cobrindo assim praticamente todas as relações… O muçulmano aprende que a protecção do Islão e uma obrigação comunitária que é mais importante do que a família, a vida ou a felicidade.”

§  9º Mandamento, não cobiçar a mulher alheia; O próprio Maomé, modelo de virtude Islâmica, oferece o melhor exemplo de negação deste mandamento. Tendo-se apaixonado por Zeinab, a mulher do seu filho adoptivo, Zeid, recebeu a aprovação de Allah (33,37) para a tomar por sua mulher. Aconteceu uma coisa semelhante com Aisha, que mais tarde viria a ser a sua mulher favorita, quando ela tinha apenas seis anos, e também com Reihana, uma judia acabada de enviuvar, com quem se deitou na mesma noite em que executou o seu marido.

§  10º Mandamento, não cobiçar os bens alheios: Wafa Sultan, no livro A God Who Hates, refere as condições históricas e culturais que acentuam e continuam a alimentar a importância da inveja no Islão: “Os beduínos temiam os assaltos, por um lado, mas dependiam deles para se sustentarem, por outro. Depois surgiu o Islão que canonizou a prática. Os muçulmanos no Século XXI continuam a temer serem assaltados e vivem cada segundo das suas vidas a preparar-se para assaltar outros”.

Tal como sugeri num artigo anterior, o Islão deve ser compreendido como uma seita de dimensão mundial. Reforça a ideia de honestidade e justiça entre crentes, mas não obriga a qualquer respeito pelos cânones éticos dos “infiéis”, o que inclui a Regra de Ouro e os Dez Mandamentos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 23 de Julho de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os Primeiros Anos da Madre Teresa na Periferia

Ines A. Murzaku
A Madre Teresa é conhecida em todo o mundo. Mas são poucos os que sabem da importância dos seus primeiros anos nos Balcãs para a sua vida posterior. O dia 4 de Setembro de 2016, da sua canonização, será também, apropriadamente, o Jubileu dos Trabalhadores e dos Voluntários da Misericórdia. É uma feliz coincidência porque tudo indica que ela se tornará padroeira de todos os que trabalham e sofrem em nome do amor e da misericórdia de Deus.

O sofrimento é um factor inevitável da existência humana. Transcende países e nações, ricos e pobres. O sofrimento humano clama insistentemente para o mundo do amor humano. E de certa forma o homem deve a esse sofrimento o amor desinteressado que vive no seu coração e nos seus actos, como escreveu São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984.

Madre Teresa vinha daquilo a que o Papa Francisco chama as periferias e partiu de lá para outras periferias, para uma missão que durou a vida inteira. Ela compreendia as periferias porque nasceu numa periferia e familiarizou-se com a realidade e a experiência de vida das pessoas da periferia de Skopje. É nas periferias, como explicou Yves Congar, que as ideias e as iniciativas para os grandes movimentos começam.

Não há muito escrito sobre os seus primeiros anos. Agnes “Gonxhe” Bojaxhiu nasceu em Skopje, actualmente capital da República da Macedónia, no dia 26 de Agosto de 1910. Gonxhe (uma alcunha que significa “botão de rosa”) era filha de pais albaneses, Drane e Nikola Bojaxhiu, de Prizren, no Kosovo. Os católicos albaneses eram uma minoria naquele tempo na Macedónia, onde a maioria eram ortodoxos ou muçulmanos.

Tinha muito orgulho nas suas raízes albanesas: “De sangue e de origem, sou albanesa”, disse à imprensa quando recebeu o Nobel da Paz em 1979. As influências familiares tiveram grande importância para a jovem Agnes. A sua família feliz e próxima, que incluía, para além dos pais, um irmão (Lazer) e uma irmã (Age), deixou marcas indeléveis no carácter da futura santa.

Nikola era um comerciante bem-sucedido, familiarizado com a situação política e com as tendências dos Balcãs e do estrangeiro nos anos entre as duas guerras (ele próprio era nacionalista). A família Bojaxhiu vivia numa casa grande na praça principal de Skopje. Mas ajudavam os doentes, as viúvas e as crianças que lhes apareciam à porta. “Egoísmo e o auto-centrismo são uma doença espiritual”, dizia Nikola. O lema dos Bojaxhius era hospitalidade: A sua casa estava aberta a Deus bem como às visitas e aos necessitados.  

Drane era dona de casa, tinha uma personalidade forte e era inteiramente dedicada aos filhos, ao marido e à sua fé. Depois da morte inesperada do seu marido, sob circunstâncias suspeitas (provavelmente envenenado por razões políticas), Drane trabalhou para sustentar a família. Agnes dizia que a mãe não falava muito, mas agia imenso.

Estas foram as primeiras lições – de amar de forma activa e misericordiosa – que a madre Teresa aprenderia da “sua” Skopje, como se costumava referir à cidade onde nasceu. O Arcebispo de Skopje, Lazer Mjeda, era um amigo próximo da família e influenciou Agnes de muitas formas. O Arcebispo levava e partilhava poesia com a família Bojaxhiu. O seu irmão, o padre Ndre Mjeda, era um poeta albanês proeminente e Agnes ouviu a sua poesia desde muito cedo.

Os jesuítas que passaram pela comunidade também impressionaram muito Agnes com o seu zelo pela missão. Os Bojaxhius peregrinavam anualmente à Nossa Senhora de Letnica, perto de Skopje, no 15 de Agosto. Foi aos 17 anos, durante uma dessas peregrinações, diante de Nossa Senhora, que Agnes recebeu o chamamento para ser missionária.


Skopje, na encruzilhada entre os Balcãs e as civilizações, expôs a futura madre Teresa a pessoas de diferentes religiões, etnias, culturas e línguas.

Quando ela nasceu Skopje fazia parte do Império Otomano. A Albânia, Bósnia, Sérvia etc., que atualmente são Estados independentes, não existiam. Kosovo era uma divisão administrativa de primeiro nível (yilayet) do Império Otomano e Skopje fazia parte da província administrativa de Kosovo.

Agnes tinha apenas dois anos quando começaram as guerras dos Balcãs (1912-1913). As guerras assinalaram o fim do domínio Otomano nos Balcãs e a divisão da região pela Bulgária, Sérvia e Grécia. A divisão causou muitos mortos e grande sofrimento humano, incluindo migrações forçadas, expulsões, limpeza étnica e a deslocação forçada de aldeias, vilas e famílias inteiras.

Mas o pior ainda estava para vir, durante a I Guerra Mundial a Macedónia tornou-se um ponto de discórdia entre a Sérvia e a Bulgária. Agnes testemunhou todo este sofrimento e guerra em primeira mão e muito cedo. Nos dois anos antes de receber o seu chamamento, passou longos períodos em retiro e oração profunda, fazendo perguntas existenciais sobre o sofrimento humano. Foi neste profundo abismo de agonia humana que Agnes testemunhou Jesus, pela primeira vez, no sofrimento humano.

Nessa periferia perturbada ela experimentou o “toque de Deus” que marcaria a sua vocação religiosa e a levou a jurar saciar a sede de Jesus prestando serviço incondicional aos indesejados. Para Agnes, a sede de Jesus deve ser unida ao desejo infinito de Deus por comunhão com aqueles que foram criados para amar a Deus.

Foram a sua Skopje e os valores de família albaneses – o microcosmos dos Balcãs – que prepararam a Madre Teresa para a sua missão na Índia. Foram estes primeiros anos da sua vida naquela periferia que a prepararam para ser uma construtora de pontes entre continentes e povos inteiros.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 15 de julho de 2016

França, outra vez

Mais uma noite trágica em França. Um atentado que ainda não foi reivindicado mas que tem todos os indícios de ser um acto de terrorismo islâmico.

São mais de 80 mortos, centenas de feridos, um criminoso.


É neste nota triste que me despeço de vocês para férias. Ainda trabalho umas semanas em Agosto, mas só devo mandar mails se houver assuntos urgentes.

Entretanto podem seguir novidades no Twitter e no Facebook.

No blog continuarei a publicar artigos e os textos em português do The Catholic Thing, todas as quartas-feiras.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Barrigas maquilhadas, fé e futebol

Omar o Checheno
O Bloco de Esquerda apresentou hoje as alterações à lei das barrigas de aluguer que foi vetada por Marcelo Rebelo de Sousa. Uma das principais objecções que levou ao veto foi o facto de não estar previsto a mulher gestante poder mudar de ideias até ao momento do parto, mas com as alterações de hoje isso continua a ser o caso.

O Porta-voz da conferência episcopal diz que as mudanças não satisfazem,e que de qualquer maneira a Igreja seria contra.

Já a Federação Portuguesa pela Vida diz que tudo não passa de uma operação de maquilhagem e dá exemplos de questões complicadas que ficam por responder…

Foi dado como morto um dos mais influentes membros do Estado Islâmico. Omar o Checheno era conhecido como o ministro da Guerra do grupo terrorista.

Para quem ainda não se cansou de ouvir falar da vitória de Portugal no Euro, aqui podem ouvir na íntegra a edição de ontem do debate religioso das quartas-feiras, que versou precisamente o tema da fé e do futebol.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Pokémons, freiras e submarinos

Koffing, o Pokémon que o museu do Holocausto não quer ver
Se ainda não ouviu falar do jogo “Pokémon Go”, esse privilégio não vai durar muito mais. O jogo está a ser um fenómeno incrível e a pôr muita gente a fazer figuras parvas. No topo dessa lista estão os que acham giro jogar em pleno Museu do Holocausto

D. Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, foi nomeado para um cargo no Vaticano, ligado às comunicações sociais, mas que não implicará deixar o Patriarcado de Lisboa.

Esta quarta-feira foi feita uma bela e muito justa homenagem da Renascença ao padre Dâmaso Lambers. Eu tive a honra de estar presente, mas vocês também podem ver as imagens do que se passou.

Imagine que os sermões dominicais das igrejas eram todos escritos por um secretário-de-estado qualquer, com a ajuda de um padre amigo do Governo. Ridículo, certo? Mas é mais ou menos isso que vai acontecer nas mesquitas do Egipto, à imagem do que já se passa na Turquia.

Hoje é quarta-feira e temos um novo artigo do The Catholic Thing. Michael Baruzzini conta-nos o episódio da freira que salvou a tripulação de um submarino… Vale muito a pena conhecer!

A Freira e o Submarino

Michael Baruzzini
Numa noite de verão o Kiowa Maru, um pesqueiro japonês, navegava ao largo da costa do Peru. No lusco-fusco, a tripulação do navio de repente sentiu um embate. Sem luz, não lhes pareceu ver nada de estranho, mas em todo o caso relataram um possível embate e seguiram caminho.

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Em Dezembro de 1892 uma menina, Marija, nasceu na ilha de Korčula. A sexta filha de Marija e Antun Petković revelou uma devoção precoce a Deus e pelos actos de caridade e em 1906 tinha já feito um voto de castidade e trabalhava com as Filhas de Maria, chegando rapidamente à presidência deste e de outros movimentos nos anos seguintes. Em 1919 Marija entrou para um convento das Servas da Caridade.

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O submarino USS Atule (que como outros daquela era foi baptizado com o nome de um peixe) foi inaugurado em Março de 1944. Em Outubro estava pronto para acção e já tinha chegado a Pearl Harbour; pouco depois rumava a alto mar para combater as forças navais do Japão. Participou na busca por navios inimigos que fugiam à Batalha do Golfo de Leyte e depois seguiu para o Mar da China. No dia 1 de Novembro o Atule afundou o Asama Maru. Continuou em serviço até ao fim da guerra e anos mais tarde.

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Pouco depois de Marija Petković ter entrado no convento, a madre superiora morreu e as restantes freiras regressaram à Itália. Marija ficou na Croácia e, em 1920, estabeleceu uma nova ordem religiosa, a Congregação das Filhas da Misericórdia. Marija foi escolhida como a primeira Madre Superiora. Ao longo dos anos seguintes as obras de misericórdia da ordem multiplicaram-se, primeiro pela Croácia e depois nas regiões circundantes – e finalmente para a América do Sul, onde a própria Marija viveu durante 12 anos e onde a ordem e a sua fundadora ganharam fama pelo seu serviço aos pobres.

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Em 1970 o já antigo submarino Atule foi desactivado. Foi vendido ao Peru quatro anos mais tarde e activado novamente como BAP Pacocha, em homenagem a um conhecido conflito entre rebeldes peruanos e a Marinha Britânica.

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Marija Petković foi da América do Sul para Roma em 1952. Em 1954 ficou paralisada devido a um AVC, mas continuou como superiora da sua ordem. Sete anos mais tarde resignou e dedicou-se a uma vida de oração e silêncio. Morreu no dia 10 de Julho de 1966, aos 74 anos.

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No dia 26 de Agosto de 1988 o BAP Pacocha navegava à superfície, a caminho da base, com 49 almas a bordo. Ao cair da noite foi atingido pelo navio de pesca Kiowa Maru. As escotilhas exteriores estavam abertas e, afundando-se, começou a meter água. O comandante do submarino, capitão Daniel Neva Rodriguez, morreu ao fechar a escotilha na ponte da torre. Outros três marinheiros morreram com o impacto inicial. Vinte e três conseguiram abandonar o navio antes de se afundar e, destes, três morreram nas águas geladas. Os restantes ficaram presos no interior.

Na sala dos torpedos dianteira, o tenente Roger Cotrina Alvarado estava a fechar as escotilhas e as portas estanques. Quando tentava fechar a escotilha da sala dos torpedos entrou água com uma força irresistível, entalando a perna de um marinheiro. A água salgada jorrava para dentro da sala. Cotrina não tinha força para contrariar o fluxo e mover a escotilha para libertar a perna do marinheiro e selar a sala.

Beatificação de Marija Petkovic
Foi então que o tenente começou a rezar, por intercessão de Marija Petković.

Um relatório da Marinha Americana sobre o incidente, feito em 1989, explica o que se passou a seguir: “Com a Pacocha a descer até ao fundo do mar, a água jorrou pela escotilha dianteira, atirando com o tenente Cotrina pela escada abaixo mas, felizmente, pouco depois, a água fechou a escotilha”.

O relatório continua: “O tenente Cotrina considera que se tratou de um milagre”.

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No espaço de cinco minutos o Pacocha, gravemente danificado, tinha assentado no fundo, debaixo de 40 metros de água. Com as escotilhas essenciais fechadas, de forma a evitar a entrada de mais água, vinte e dois homens continuavam encurralados lá dentro. O tenente Cotrina era o oficial mais graduado a bordo. Quando o Pacocha não chegou ao porto, e tendo em conta o relato de uma possível colisão por parte do Kiowa Maru, foi rapidamente lançada uma missão de resgate. A tripulação encurralada lançou foguetes de iluminação e foram enviados mergulhadores. Estabeleceu-se comunicação com os sobreviventes dentro do navio afundado e quando chegou a manhã a tripulação dividiu-se em grupos e começou a usar, à vez, os sistemas de evacuação de emergência.

Por terem estado encurralados a tal profundidade há tanto tempo, alguns dos tripulantes começaram a exibir sintomas de doença de descompressão quando chegaram à superfície. Usou-se uma câmara de pressão para os tratar, mas apesar dos esforços um dos tripulantes morreu. Ainda assim, dos 49 tripulantes originais do Pacocha, 41 sobreviveram.

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Investigações levadas a cabo tanto pela Marinha peruana como pelo Vaticano concluíram que o fechar da escotilha da sala dos torpedos era humanamente inexplicável. Em Roma, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu o evento à intervenção de Marija Petković. No dia 6 de Junho de 2003, o Papa João Paulo II celebrou a sua missa de beatificação em Dubrovnik. Entre os presentes encontrava-se o tenente Cotrina.

No passado domingo cumpriram-se 50 anos da sua morte.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Futebol e fé, Fernando Santos mostra o caminho

Estão todos recuperados da festa de ontem? Foi uma noite histórica para Portugal, como reconheceu o Patriarca de Lisboa, e culminou com uma declaração de fé absolutamente épica de Fernando Santos na conferência de imprensa.

Mas no mundo da religião passaram-se ainda outras coisas que não têm a ver com futebol… Foram ordenados novos padres em Bragança e no Porto, por exemplo, e um padre de Lamego defendeu a criação de uma pastoral inter-geracional, devido ao facto de nalgumas paróquias estarem a nascer cada vez menos crianças.

No Vaticano chegou ao fim o julgamento do caso Vatileaks II, com jornalistas ilibados e um padre condenado e foi anunciada uma substituição na Sala de Imprensa da Santa Sé. Lombardi parte para novas aventuras e o jornalista de carreira Greg Burke ocupar-se-á do cargo.

Por fim, a Igreja de Santa Isabel tem finalmente um “novo tecto”, que será inaugurado no dia 19 de Julho.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Objecção de consciência eutanasiada na Bélgica

Arcebispo emérito de Paraíba, D. Aldo Pagotto
O Papa Francisco aceitou esta quarta-feira a renúncia de um bispo brasileiro que aceitava na sua diocese candidatos ao sacerdócio que tinham sido expulsos de outras. Alguns revelaram-se abusadores sexuais.

Um lar de idosos na Bélgica foi multado por se recusar a permitir que uma utente fosse eutanasiada por médicos. A família mudou-a para outro lugar, organizou a sua morte e depois processou o lar, que vai ter de pagar seis mil euros de indemnização.


Em Ano da Misericórdia, o artigo desta semana do The Catholic Thing contempla a questão da retenção dos pecados, um poder que Cristo legou à Igreja mas que é menos falado e compreendido. 

"Christians need a safe zone under UN protection for at least 10 years"

The Patriarch in Fátima
This is a full transcript, in the original English, of my interview with His Beatitude Patriarch Ignatius Joseph III, of the Syriac Catholic Church. News story (in Portuguese) can be read here.

Esta é uma transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista ao Patriarca da Igreja Católica Siríaca. A reportagem pode ser lida aqui.

What brings you to Portugal?
This is my first visit to Portugal. I have wanted to make such a pilgrimage to Our Lady of Fátima for several years. We organised this trip for prayer, to pray to her for peace in the Middle East. I did the same thing three years ago when I organised another pilgrimage to Lourdes, in France. So it is a trip of hope, of renewed veneration to the Mother of the Lord, the Virgin Mary, whom we venerate very much in the East.

Is devotion to Our Lady of Fátima widespread among the faithful in your church?
Not really, not as much as to Our Lady of Lourdes, but we will work on it. We are finishing the first church dedicated to Our Lady of Fátima in Lebanon. Actually we, the Syriac Catholic Church, have also the first church dedicated to Our Lady of Fátima in Syria, which is in Damascus. It was dedicated forty years ago. So we try surely to spread the devotion to Our Lady of Fátima since hers was especially a message of peace, hope, penance and return to the Lord, which we very much appreciate in these times of darkness which surrounds all aspects of life in the Middle East, in particular Syria, Iraq and Lebanon.

Five years after the beginning of the war in Syria, how do you assess the current situation?
We are all devastated, especially by this hypocritical agenda of the Western politicians. They don't care for anything besides their own interests. I just read about the visit of the second ranking person in Saudi Arabia, the son of the present King, to France. He was welcomed with tremendous respect by the French President and everybody knows that these kind of relations are based on – it’s very sad to say – a Machiavellian agenda, for the interests of both countries, without thinking about the many infractions and retrograde regime which is not even accepted by the family of civilised nations because of the lack of respect for Human Rights.

We are so sad to see that we have been forgotten. Christian minorities have been living in the region for Millennia and we have been forgotten by the so called civilised Western nations. The same ones which pretend to protect the charter of human rights and democracy, equality and religious and civil liberties.

How often do you travel to Syria?
I was born in Syria. As you know, unlike his eminence Manuel III [Patriarch of Lisbon] who is a Patriarch merely in title, we as patriarchs of Eastern Churches are the heads of Churches sui iuris, so the Patriarch is a spiritual head and has to visit his flock, his church, wherever they exist.

So I was recently in Sweden for two weeks, to inquire about the situation of our emigrants, especially those who were forced to flee Syria and Iraq. It's not easy for us.

I usually travel at least once a month to Syria, but not to every spot in Syria. I am tied to Damascus, Homs and the Coast. The other regions, like the North-eastern region, Aleppo, Hassakeh, it is not possible for me to travel.

Your brother Patriarch of the Syriac Orthodox Church survived an assassination attempt just one week ago. Are you constantly under threat?
I think we all, in the Middle East, live a kind of threat and we can't just say that we have to avoid those threats, or we won't fulfil our spiritual and pastoral duties. Of course, we were so sad to hear about that attempt, and I did call him, we spoke right after it, and we keep always in touch, we encourage each other, we try to do our best to fulfil our responsibilities.

In this occasion, his life was saved by the intervention of members of Sutoro, a Christian militia which works closely with the Kurds. Is there a place for Christian militias in Syria?
I do not agree with this terminology, saying that there are militias. There are Christian groups which want to defend their villages, their towns, because they did endure attacks by the Islamic State and those terrorists and many were killed or kidnapped or forced into Exodus. So we encourage our people to defend themselves within the legal army or security forces. We don't speak about militias which go out and fight others, like their neighbours, or take part in conflicts outside the areas where they live.

But in Iraq or in Syria, for example, it is not possible for the government or army to be everywhere, because the sectarian war has been going on and on for years, so the people have a duty to defend themselves. Both the Syriac Orthodox Patriarch and myself agree that we have to stand up to defend lives, families, women, children from being slaughtered like sheep in these savage attacks.

Therefore I am not talking about militias as they are usually described. We don't have militias, we have people who want to defend themselves, their houses and their villages.

Some Christian groups advocate for autonomy in majority Christian areas in Iraq and Syria, mainly in the Nineveh plains. What is your opinion on this?
Let's take each country separately. In Iraq there is no longer anywhere where our people can exist in dignity and liberty other than in a safe zone. There is no one description of what that safe zone would be. Usually one speaks about a kind of province, where Christians and minorities, in the Plain of Nineveh, could live together.

Still now, in Iraq, we have the Plain of Nineveh, where the majority are Sunni Arabs and minorities like Christians, Yazidis, Shabaks and Kurds are not accepted as citizens with full rights. They have been tolerated, so we have been talking about a kind of safe zone, like a province, or a zone which would be decentralized, that is, under the protection of the United Nations for at least about 10 years, until we find a way for real coexistence between various ethnic, confessional and religious groups.

So we are not talking about an autonomous region, this would be unrealistic. We are talking about a kind of safe zone either dependant on the central government in Baghdad, or on Kurdistan. Until now we don't know which of these will control the plain of Nineveh. But for humanitarian reasons we do need some kind of international protection, otherwise the Plain of Nineveh, which is the cradle of Christianity in Mesopotamia, will be empty and when it is empty it will not be for a period of time, but forever, because usually Christians and others don't feel safe when they are not accepted as full rights citizens by a majority which mixes religion and state. That is why we need this kind of international supervision or protection.

Patriarch Ignatius Joseph celebrates
mass in Fátima, with Syriac pilgrims
When ISIS really rose up and took Mosul and much of the Nineveh Plain, Kurds were the only ones who immediately resisted the jihadists and gave protection to the Christians. But since then I have also heard grumblings from some local Christians that the Kurds are really more interested in consolidating power than sharing it with Christians, Yazidis and other minorities. Your thoughts?
As you just said, Christians and other minorities had no other safe option than to get to Kurdistan, because Kurdistan was a nearby region where they could find refuge. The Islamic State fighters and others used to control all other areas.

Now, of course we all know that the Kurds want their own autonomous country, or territory. We will have to recognise that they have the right to have their own autonomous and independent region, or state. The problem is that many of those who are talking about this very delicate issue think that Kurds had to sacrifice themselves for others. It wasn't so simple. They were on the front line with the Islamic State fighters and they had to defend their own autonomous region, with a long front, about 800 kilometres, so it wasn't easy.

Now we don't know what will happen in the future, because we are talking about minority groups like Christians which, it is very sad to say, are not drawing the interest of the super powers or nations, especially of the Western World. So we have been left alone. Where to go? Baghdad has been almost half-emptied of its Christians, and we have no other option than the plain of Nineveh or Kurdistan. We need to go back to our motherland, the Plain of Nineveh, and to live peacefully with others.

So who is going to give us the assurance that we can live in equal rights with the majority? We need the help of the international community to tell the central government of Baghdad and the Kurdish government that these small communities, the minorities, have the right to live in their own land, with the dignity of human beings and they have to provide them with the conditions for a right to live in dignity.

This is in Iraq. In Syria we can't talk about an autonomous region, because Christians are, or were, spread in almost every spot in the country and we didn't have these kind of attacks against Christians as such, but because we have been left, in some areas, alone, and the army of the country could not help to defend everywhere, not only Christians, but also people from other religions or confessions who have been attacked.

Christians mostly feel that they have to be with their compatriots of other religions, and just focus on civil rights issues to build again a nation with equal citizenship amongst all, to build a civilised country for the future. So we try especially to explain to the international families, the tragedies of our people, especially the Christians, in Iraq, to help us stay in our land, and the first condition for that is to be given international protection.

Many people expected the conflict to spill over into Lebanon, but until now, things have been relatively peaceful. To what can we attribute this?
Lebanon, as you well know, has had its share of suffering and civil war in the 70's, late 80's and early 90's. So I think because the Lebanese learned that internal conflict is not going to help anyone and, therefore, they learned that they have to find a way to live together in a kind of peaceful manner and trying to stay far away from the regional conflicts, especially in Syria.

But, as you well know, the confessionalism and sectarianism, the hidden animosity between Sunnis and Shia, didn't help to keep Lebanon out of those regional conflicts. And in my opinion that is because you have a fear that if the Lebanese get involved in this kind of sectarian war it is not going to profit anyone, it will be very bad for everybody and, therefore, with the help of the international nations, either in the West or in the East – that means Europe, America and Russia – Lebanon was somehow spared this kind of conflict. But we still live in a kind of very tense situation, because of the interference from outside.

Most Western countries have grown suspicious of Russia and their interference in other countries, such as in Syria or in the Ukraine. But how do Christians in Syria and other regions, in your experience, see the intervention of Russia in the civil war? Do they see the Russians as liberators or aggressors?
I think most Christians, either in or outside of Syria, see in the military intervention by Russia a kind of deliverance, not only for Christian communities but also for the whole Syrian people, of all religions and confessions, because for the first three years, at least, there was no such intervention from Russia in Syria, we had mostly Western intervention, through the regional countries, Turkey and the Gulf States, supporting, financing and arming the so called opposition – and we still remember what Obama said about that opposition, that there was no moderate opposition – but for Machiavellian interests they kept hammering Syria and calling the Government illegitimate, while we see that it is recognised by the international community and the United Nations.

Until now, the agglomerate media of the West keep hammering on Syria and want to destroy the country, pretending that the cause of all evils is Bashar al-Assad, which is not true, and therefore, Christians saw, in the Russian intervention, a kind of salvation of Syria, because already Syria was half destroyed before the intervention of the Russian army. And although Russia, of course, have their own geopolitical interests, they have been more clear and transparent in helping the Syrian government and the Syrian people, because otherwise there would have been a hecatomb and who knows when it would have ended, because the whole conflict in Syria was based on confessionalism. It is a lie, what they used to say in the West, either in France, the USA or England, that it was a kind of popular rebellion against the dictatorship.

We know that there was a dictatorship, but what kind of alternative did we have in Syria? We had the alternative of the Islamic State. And there were lies spread that the Government created the Islamic State. It is a surreal lie, but this is the agglomerate media, they can very much manipulate the public opinion.

The group of Syriac pilgrims after mass in Fátima
The Pope was just in Armenia where he once again described the massacres of Armenians as genocide. But the victims were not only Armenians, were they?
We feel very close to the Armenian brothers and sisters, the Armenian people and Church, because we have been persecuted and killed and exposed to genocide like them, 100 years ago and many times before and after that.

You well know that what used to be called Asia Minor, present day Turkey, was well populated by Christian communities, either Greek, Armenian, Syriac, Assyrian... And now we can't anymore speak about a Christian presence, it is a very, very tiny minority left.

So we are the same, we feel the same as our Armenian brothers and sisters, because we have been not only decimated, we have been exposed to genocide. We don't exist anymore in Turkey... We have 10 to 20 thousand Syriacs, especially in the South and South Eastern region of Turkey. We had existed with important numbers, churches, monasteries, villages, and they don't exist anymore.

So we are very grateful to Pope Francis for having made this trip to be close to these people. We don't have a Syriac country, we don't have the huge numbers which lobby Western nations to think about us, but we still live in hope that the time will come when the international family will be closer to us and think about our survival, because we are left as the only communities which were very close to the primitive Church. Jesus, the blessed Mother, the apostles, they didn't speak Latin or Greek, they spoke Aramaic.

And I told the bishop of Leiria and Fátima that I would like to have also that verse of the gospel engraved in the new Basilica in Aramaic/Syriac, the language of Jesus and the Blessed Mother. I told him I'd send him the text. [A glass panel by Canadian artist Kerry Joe Kelly, in the Basilica of the Most Holy Trinity, in Fátima, is engraved with four biblical sentences in about 25 languages]

So this is our destiny, rather, it is our vocation, to be real martyrs, that is, witnesses to the gospel and also to shed our blood for Jesus.

Christians in the Middle East are divided into many different churches. Does this division weaken the Christian witness and voice, or is the diversity something to be valued?
I think we have to take it both ways.

Does it weaken? Surely it weakens. Because it is very sad to recall that in those regions where a Muslim majority has the rule, numbers are very important. The kind of rights of minorities are not the same as in civilised nations. Whatever they say, the best they can do is tolerate the existence of non-Muslim minorities. Therefore, when we are, let’s say, divided into more than one church, it is not seen as a richness for the majority.

For us, we say it is a richness, because of those traditions and the patrimony which go back to early Christianity and which enriches the Universal Church and even humanity. But therefore, especially in these times when we have this kind of fanaticism – not only attributed to the majority but it is a fact that the Muslim majority rely mostly on numbers, and as you know they have the notion of the Umma, the Islamic nation, from the Far East to the Far West they are all considered one nation, and this way they can, I think, blackmail the Western civilised countries and spread fear wherever they are, because of their numbers. Besides that you have also the oil resources and now the third element is the terrorism factor, they spread that fear among the civilised world.

So, again, being various churches, would be a richness if we were living in times where every human being would be respected, no matter the numbers or religion. But these times, where the majority wants to impose itself, it is a weakness.

How do you see Europe's response to the refugee crisis?
Since the beginning we have opposed the forced emigration for people or individuals. Especially for us it is a big threat to our survival, because the ones who emigrate do not return. Therefore, for us, migration is a very dangerous phenomenon.

The way European countries have handled this kind of migration was not the right way, because they didn't look at the roots of this migration, they instigated violence in Syria for the past five years, or more, and in Iraq they kept silent about the way the US handled the Iraqi question.

There we also see manifest hypocrisy and Machiavellianism in the way the European politicians handled that question. Because until the tragic death of Aylan, the little child, back in early September, they didn't care and they could find a way to keep the Syrian refugees, around two million of them, mostly in Turkey, with a kind of agreement between European countries and Turkey.

But after that tragic death, the media did talk about it and the European countries were kind of lost, they didn't have the right policies. We don't want that kind of migration based on forced and on sectarian wars. They should have done more to bring more peace to Syria and find a way for the Government of Syria and the opposition to find the best solution for the future. But we know the immediate geopolitical interests and now they have to face that kind of hundreds of thousands of migrants and they don't know how to handle this.

Patriarch Ignatius Joseph III and
D. António Marto, bishop of Leiria-Fátima
I think this is a kind of very wrong policies they followed. And we have said, since the beginning... It's not just the Patriarch being idealistic... We have said, since the beginning, please do not compare the situation in Syria to that in Egypt and Tunisia. In Syria the situation is much more complex, because we have ethnic, religious and confessional diversity, many minorities, and we have to find a way to stop the fighting, and whatever solution would be better than instigating that conflict.

But they have their own agenda. Since the beginning we have said that and now we are harvesting the results of these policies.

In regard to Eastern Catholic Churches, some complained that the Eastern Catholics were treated almost as second class citizens, due to issues such as the authority of Patriarchs outside of their traditional homelands, ordination of married clergy abroad, etc. Are things different with Francis?
There is no doubt that things have been changed, and they have to be changed gradually in a better understanding of the nature of Eastern traditions and the authority of Patriarchs. We keep telling the Holy See that Patriarchs are the head of their Churches and as such they have the right to take care and minister to their church communities wherever they are, be it in the Middle East or in the Western countries.

I think Pope Francis understands our grief and our needs very well, especially in these times where we have been threatened in our own survival in some of the countries in the Middle East, like Syria and Iraq, and we don't have any alternative but to follow our people and to give them the spiritual and pastoral ministry they need. Surely it is not going to be easy, but we keep fighting for this goal, because we think it is quintessential for our survival.

“Aqueles a quem os retiverdes…”

James V. Schall S.J.
Ultimamente tem-se falado muito de perdão e de misericórdia. A misericórdia de Deus pode, como bem sabemos, perdoar qualquer pecado, excepto aquele contra o Espírito Santo (Mt. 12,32). Este tem mais a ver com o pecador do que com a capacidade de Deus de perdoar. Se alguém verdadeiramente “desejar” não ser perdoado, então não pode ser perdoado. Ou melhor, não pode beneficiar das consequências do perdão de Deus. Se pudesse ser perdoado mas ao mesmo tempo desejar o pecado, então seria ele mesmo um Deus, todavia um deus voluntarista, que transforma o bem no mal. Tal deus não é Deus. Só porque Deus tem o poder de perdoar todos os pecados, não segue que todos os pecados serão perdoados. Tudo depende do pecador.

A misericórdia é uma questão secundária. Não é necessária a não ser que algo corra mal no mundo. Cristo veio para os pecadores, não para os justos (Lc. 5,32). Num mundo impecável, ninguém precisa de misericórdia. Mas o nosso mundo não é impecável, por mais que neguemos, em privado ou em público, que certos pecados são pecados.

Antes de haver quem precisasse de ser perdoado, São Tomás de Aquino já tinha defendido que o Universo foi criado num acto de misericórdia, não de justiça. Deus não precisava de criar nada. A criação não aconteceu porque Deus “devia” algo a alguém por uma questão de justiça. Ao criar criaturas livres, Deus compreendia bem que estas poderiam precisar de misericórdia para além de justiça. Sabendo-o, prosseguiu com o seu plano.

A misericórdia não se “opõe” à justiça, como se diluísse a justiça de Deus e do homem. Não é preciso escolher entre misericórdia e justiça, podemos ter as duas coisas. A misericórdia só entra em acção quando a justiça é vingada.

No Evangelho de São João (20,23), os discípulos recebem o Espírito Santo. Depois é-lhes dito: “Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos.” Ouvimos falar muito da primeira parte dessa frase, mas pouco da segunda. “A quem os retiverdes”.

Do ponto de vista da lógica, há coisas que são evidentes. As coisas que não são pecado não precisam de ser perdoadas. A maior parte das coisas que fazemos não são “pecados”. Mesmo para quem nega que o pecado existe (e ao que parece existem tais pessoas), a lógica parece evidente. Algumas das coisas que fazemos, ou pensamos, são pecados; outras não. É-nos possível identificar tanto o que é pecado como se decidimos agir sobre ele. Se alguém pensa que escovar os dentes de manhã é pecado então não precisa de perdão, mas sim de informação, embora mesmo uma consciência desinformada seja vinculativa.

Como vemos, o poder de perdoar pecados está ligado à retenção dos pecados. Quais devem ser perdoados? Quais retidos? Um confessor não tem a liberdade de perdoar aquilo que deve ser retido. Por outras palavras, quais são os princípios que guiam a retenção dos pecados?

Parece-me que os Evangelhos não deixam espaço para dúvida de que alguns pecados devem ser “retidos”. Com o devido respeito para com as teorias que defendem que o inferno está vazio e que todos são salvos, parece-me que, caso sejam verdade, então ninguém precisa de se preocupar com os pecados, pois serão perdoados em todo o caso. Mas isto não é possível. Se não houver qualquer acto da nossa parte que indique que sabemos o que é um pecado e que o cometemos, então não podemos estar no ramo do perdão.

O perdão exige algo que se possa perdoar e alguma indicação de que queremos ser perdoados. Reconhecemos que com o nosso pecado destruímos a ordem da bondade. No que me diz respeito, não quero nada com um Deus que se limita a “perdoar” sem fazer perguntas, sem qualquer exigência.

Que pecados são “retidos”? Só aqueles que não apresentamos, juntamente com a nossa participação na sua realização, para serem julgados. O acto de “retenção” cabe ao mesmo a quem é dado o poder de perdoar. Os fundamentos podem ser vários – negar que os pecados são pecados, negar que sabíamos o que estávamos a fazer, negar que existe o poder de perdoar ou reter os pecados.

A “retenção” é um acto tão solene quanto o perdão, talvez até mais. Se aqueles que são responsáveis pelo perdão e pela retenção esconderem ou obliterarem a diferença entre os dois, para que tudo seja perdoado, independentemente das circunstâncias, então a própria delegação de Jesus esvazia-se de sentido. A retenção dos pecados significa que não são perdoados.

Paradoxalmente, essa retenção é um acto de misericórdia. É a misericórdia da verdade que vai ao encontro do pecador. Fica a saber que não está de bem com Deus e consigo mesmo. Só sabendo a verdade sobre si mesmo é que se apercebe que precisa de reconhecer e arrepender-se.

Chamar o pecado pelo nome é simultaneamente um acto de coragem, justiça e misericórdia.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Fim de Ramadão para esquecer

Elie Wiesel
Os portugueses são generosos e deram provas disso novamente em 2015, ano em que a fundação Ajuda à Igreja que Sofre bateu recordes de donativos. Saiba aqui para que serve esse dinheiro.

O Bloco de Esquerda promete ter uma proposta de lei revista das “barrigas de aluguer” até ao dia 15 de Julho, que satisfaça as dúvidas do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Sexta-feira houve um ataque jihadista no Bangladesh que fez 20 mortos entre reféns ocidentais. Durante o fim-de-semana um atentado terrível em Bagdad. O Papa rezou pelas vítimas em ambas as situações. Agora soube-se de uma vaga de atentados na Arábia Saudita… Um fim de Ramadão para esquecer.

O Papa entretanto pede à Europa que não se esqueça das suas raízes cristãs.


Há meses entrevistei o fascinante padre Tomás Halík. Agora, para quem gostou da reportagem, fica aqui a transcrição completa, que inclui mais informação.

"Traditionalists and Progressives share the same mistake"

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Czech priest and theologian Tomás Halík. The news item can be found here.

Esta é uma transcrição completa, no inglês original, da minha conversa com o padre e teólogo checo Tomás Halík. A reportagem pode ser vista aqui.


Your book is about love, yet you confess that you had some difficulty deciding to approach this topic. Why?
My books are theological essays, and I think it is important to reinterpret the great Christian values: Love, Hope and Faith. I wrote a book about Faith, about Hope and when I was asked if it was time to write a book about love, I said "oh, there are so many books about love". It sounded a bit too sweet for me. What could I say theologically about love?

I think it is important to speak about love of God, about love of our enemies, something that is special for the Christian understanding of Love. I think there is a connection between the love of God and love of people. The gospels say that if you don't love your brother who you can see, you can't say you love God whom you have not seen. I think this connection between love of people and love of God is very typical for Christianity.

My provocative sentence is that God perhaps is not so interested if we believe in him, but if we love him. People say you must first believe in God and then you can love him. I don't think so. I think that it is not so important what we believe, in the sense of our reflections, our views, that if we have the experience of love, love of people, love of man, nature, the world... love is not just an emotion, love is the self-transcendence. You love somebody, or something, if it is more important for you than you are yourself. It is a self-transcendence and in this experience of self-transcendence in love, you can understand what the word God means.

We seem to be going through a crisis of faith in the Western World. Some find this alarming, but you read the situation in a different way…
If a non-believer says to me that he doesn't believe in God I always ask what this God he doesn't believe in looks like. He has to have some image of God, some concept, in which he doesn't believe. If he explains his image of God I have to answer "thank God you don't believe in such a God, I don't believe in such a God either".

Then he replies that he is not a stupid materialist, he knows that something is above us. And this "somethingness" I believe, is the most widespread religion in our age.

So people have problems with faith, because they are not prepared to believe in a special concept of God, and I think this concept of God is in crisis, but it is a challenge, and an opportunity for theologians, to reflect deeper the concept of God. I think that the XXth Century was a sort of dark night of the soul, a dark night of religion, a collective dark night. The mystics spoke about the dark night of the soul at an individual level, but I think there are also some collective dark nights of the soul. Some collective crises in the trust of God, and I think that the hard experiences of the XXth Century, with the Gulags, Auschwitz, the Holocaust,  the to World Wars, they were great tests, and after them we cannot just return to the good old type of religion.

I think Christianity is in its Easter phase and Easter means the Cross, Death and Resurrection. I think it is good that sometimes our concept of God is dying, but then it is an opportunity for a resurrection of our Faith which must be deeper and when I am reading the Gospel about the resurrected Christ, he is coming to his disciples and they are not able to recognize him. He is like a foreigner, and he legitimizes himself with his wounds. I think we should also seek the wounds of Christ in our world.

For me this is very important, the theme of the meeting of Thomas with the Resurrected Christ and it is the only part of the Gospel where Christ is called God. Thomas is touching the wounds of Christ and he says "My Lord and my God".

When I was in [place of the martyr Thomas] in India, I celebrated mass, I read the Gospel of Thomas and his meeting with Christ. And then, in the afternoon I visited the hospital for poor children there. And it was like a hell. These poor children and sick children... I remembered the sentence of Karamazov "I return the ticket to the world in which children are suffering", and then I realized, they are the wounds of Christ in our World, and if we ignore the wounds of Christ in our World, the wounds of our World, we have no right to say "My Lord and my God".

This brings us to another point… In “Touch the Wounds” you tell a story about Pascale, at a time when he was not allowed to receive communion, having taken a sick man into his home so as to be able to receive the body of Christ. In a footnote you even say this sort of approach might be a solution for people who are not allowed to receive communion. Meanwhile, ironically also in a footnote, Pope Francis has cleared the way for some people who are in irregular situations to receive communion. In light of that example of Pascal, was this a missed opportunity to emphasize different ways of being united to Christ? What is your view of this section of the Apostolic Exhortation?
Yes, I think it is a great inspiration for us Christians to find other ways to be in connection with Christ. It is not only the sacraments, it is not only in the Milieu of the Church, there are many suffering people, bodily suffering and many other ways of suffering, and in this connection with the suffering people, and also with people who are in spiritual need, they live in this experience of the hiddenness of God. It is an opportunity for us.

I think the great Patron Saint of our age is Mother Teresa of Calcutta. She served the poor and sick during her days, but when, after her death, her diary was published, it was a shock for many people, because she suffered great doubts and this dark night of the soul. And I think that she, during her days, showed a solidarity with the people suffering through sickness and poverty, but during her nights, she felt a solidarity with people in the dark night of the faith. I think these two types of solidarity are very important for inspiration for our Christian witness in our world. There are people who suffer social misery, but also many who suffer a spiritual crisis, through this darkness of faith and this hiddenness of God. I think we should also understand them and show solidarity with them.

You quote Pascal saying that faith is a choice, but in church parlance we hear that faith is a gift…
I think it is both. Of course, faith is a gift... Faith is a mixture God's activity and human freedom. I think it is typical for Christianity, this meeting of God and man. The meeting of God and man in Jesus Christ, the meeting of this divine and human dimension in the Church, and the meeting and the unity of God's inspiration and Human culture in the scripture. I think there is something very similar in the virtues, they are God's inspiration, a gift of grace, but also, from our side, they are an act of our freedom, to accept this gift and to cooperate with the Grace. So this meeting of Grace and human freedom is, I think, the fascinating substance of faith, hope and love.

It is not belief in God that makes a Christian, but belief that God is Love. Are there many who claim to be Christians but do not reflect a God who is love? And are they dangerous?
Yes they are. In the New Testament we read that even the demons believe, but they are afraid. And I think that belief with fear is something demonic. Our belief should be connected with joy and with freedom and gratitude, so there are a sort of belief and religion which are connected to our human projection of God, our human images of God which are full of our anxiety, our desires, and thanks to the great atheists, like Freud, Nietzsche and Marx, they discovered that many images of God are too human, they are the projections of human fears, anxiety and desires. And we need the correction of this all too human image of God, and to discover the image of God which is in the Gospel, and, I think, Pope Francis is the teacher of this reinterpretation of this new, deeper understanding of the Gospel.

Traditionalists are up in arms at the moment with Pope Francis’ papacy. You claim in your book that the Christianity envisioned by traditionalists is relatively modern and very limited. Why is that?
I think this traditionalism and fundamentalism is really a modern phenomenon, it is the reaction to modernity, but tradition, real Christian tradition, is something deeper, something dynamic. Tradition is not just a treasure, it is like a river, it is dynamic, it is the historical dialogue between God's inspiration, scripture, and the signs of the time. So it is the reason why theology and the Church are here, to interpret again and again the message of the Gospel, in the context of the special time and culture.

Blessed cardinal John Henry Newman said "when we repeat the same thing our grandfathers said we are saying something different", because the whole context, our language, is changing. So if we should be faithful, and truthful, and have responsibility for our tradition and for the authenticity of our tradition we must reinterpret it, we should recognize the signs of the time and try to interpret the message of the Gospel in the way which is understandable for people in our time. So it is not just conformism with the spirit of the time, no, it was said that those who are married to the spirit of the time will quickly become a widower, so it is not conformity, but we should make our message understandable.

Sometimes it is a provocation towards the mentality of a certain age. So tradition is nothing bad, it is a living movement.

Yet for somebody who is critical of traditionalism, you hold liturgical beauty in high esteem, which some might find surprising…
I don't identify with traditionalists or with so called progressives, because I think they both share a mistake. They are too concentrated on the outward things, the institutions, the formulae... The traditionalists want to keep it the same all the time, and some progressives see the solution as the changing of the institutions and forms. But I think the real solution is to go deeper in a refreshment of our language and in a deepening of our spirituality, so it is a third way between traditionalism and progressivism. I think the right way is to go deeper.

I am thinking about the afternoon of Christianity and I am preparing my next book with this title, the afternoon of Christianity. I use the metaphor of Karl Gustav Jung, the founder of depth and analytical psychology. He said that human life is like a day, the youth is like a morning. Youth is the time for developing our outward structures of our life and personality, our social role and so on, then came the noonday crisis. It could be a crisis in marriage, in our job, in our health... the symptom of burning out, of depression, it is this noonday crisis. But afterwards, the afternoon of life, is a challenge to go deeper, not just to develop the outside structures of our life.

And I think that something similar happens in the history of Christianity. These two thousand years were the morning and then came, with modernity, the noonday crisis: secularisation, death of God, and such things. But now, perhaps, is the time for the afternoon of Christianity, it is the challenge to go deeper, and I think these conservatives and progressivists are always thinking in the categories of the morning, they are concentrated about the institutional structures, but I think it is a time to go deeper.

The Christian faith is the Easter faith, and Easter is death and resurrection, and I think that after this so called death of God, which was the crisis of our banal, old and too naive concept of God and religion, we should go deeper.

You complain that the phrase “nobody reaches the Father except through me” is widely misunderstood. In a previous book you make the same point. So what do these expressions actually mean? Does this reasoning also apply to the expression “No salvation outside the Church”?
I think that this sentence of Cyprianus was said in another context. It was said during a polemic with some very demanding Christians, who were not prepared to accept the cristiani lapsi, and so Cyprianus said we should also open the church to these people, because there is no salvation outside the Church. It was not an attempt to close the door, but to open the door of the church to the failed Christians.

I think also the sentence of Jesus, "nobody can go to the father except through me"... What does this mean? Who is the "me" of Christ. Christ identifies with the least, with the poor, in this parable about the last judgement. Jesus says that if you served his poor brothers and sisters you served him. He was they. He identified himself with the poor, with the sick, with the people, and they are in need, and they are also Christ and open doors. So if we serve the poor, if we have solidarity with the seekers, they also represent Christ, and with them we can go to God, through Christ.

So it is not just the historical figure of Christ, but the Christ who identified himself with these, the least ones.

Buddhism and Christianity have very different starting points. One holds that reality is suffering and the other that creation is fundamentally good. It follows that Buddhist and Christian meditation also have very different foundations. Is it possible to bridge this gap, and what does that mean for inter-religious dialogue with Eastern religions?
I don't believe in the possibility of creating some sort of religious Esperanto, a religion for all people. I think the plurality of religions were there always and will be there always, and we should also discover, recognize and respect the differences. But at the time, in our dialogue, we can discover things that are good experiences also for us. We can exchange our experiences and I think there is something in Zen meditation, in the inner-liberation, in how to find inner-freedom, and how to recognize the importance of the special moments and how to be free of our dependence. It is something that could also be an inspiration for us.

Also, for example, the role of the body in meditation, that meditation in spiritual life is something that involves the whole personality, not just the mind, but also our breath and our body, and these are the things which are forgotten in Christianity and which we can discover again in this dialogue with other people. So there are many people in our country and other countries, who started there interest in spirituality and religion by seeking the Eastern tradition, but after a while they recognized it is not so easy to be a Buddhist in Prague or Lisbon, and sometimes they then discovered also Christian mysticism.

Over the last 25 years, after the fall of communism, I baptized more than 1000 young adults, mostly university students. We have the two year catechumenate, and I spoke to the all and their paths to Christianity were sometimes very complicated and many of them started with Buddhism, Hinduism, yoga, and then realised that it is not so easy to be a Buddhist in Prague, and there is something similar in the Christian mysticism, and many of these people are well prepared for the spiritual life. They have a certain discipline in meditation, they know that the spiritual life demands also asceticism, and it could also be a preparation for the Christian spiritual life.

One chapter of Touch the Wounds struck me particularly… Your criticism of the Bodies exhibition. Does our society have a difficulty in dealing with death, and what does this mean?
From my experience, during the communist time, speaking of death was a taboo. Because death provoked spiritual questions, and communist materialism had no answers to these questions, so death was taboo.

Now, people are fascinated with death. If we look at the television at night, you can see so many deaths, on the news, in films, horror movies. But it is not real death, it is artificial death. And I think this is also a an escape from the question. Death is a question, a provocation for deeper thinking, and sometimes people are fascinated by this virtual death.

This exhibition of the bodies is like the narcotization to look at it, but it is virtual death, it is not real death.

Birth and death are very important moments in life and when we witness birth and death we are witnesses of something connected with the transcendence of our life.

The death of many people nowadays takes place in hospitals and people are not confronted with these deaths. And I think sometimes if we are close to our dying parents and friends, the experience could be a great gift to us, it was a great gift for me! I was the son of very old parents and I spent many years with anxiety that one day they would die, and then, when I was there it was a very peaceful and very deep spiritual experience, this transition from this World... Yes... The eschatological dimension of our life, what will be after death... the traditional images are in crisis, because I think the experience of the the XXth Century overshadow the traditional image of hell and paradise. Because the concentration camps, the holocaust and all the tragedies of the XXth Century was something more real than our image of hell.

And the attractive polarity of our world is, to many people, more attractive than our images of heaven. So we should say that we don't know what it life after death will look like, it is a great mystery, but we could live with the mystery.

I think faith is not here just to answer all our questions. There are some questions which are so good, we shouldn't spoil them with answers. Faith is also the courage to live with the mystery, to enter the cloak of the mystery, to live with some open questions. I think we are confronted with the hiddenness of God, with the mystery of God, and our faith, our hope, our love are three ways to live with this silence of God. So there are some impatient answers, short-term answers, in front of this silence of God, which is the experience of many people of our age.

Atheists interpret this silence of God as the non-existence of God, death of God; There are the fundamentalists, repeating all the old formulas and are unable to listen to the silent music of the hiddenness of God. There is emotional religiosity, with all its "hallelujahs" but I think a mature faith must withstand this, and contemplate this and see God's signs and language in the events of our life. God is always speaking to us in the events of our life, of our world. The signs of the times are also the language of God, but we need the inner silence, patience, intelligence of faith, the art of interpreting these events in the light of God, in the light of faith, because the answers are not superficial, they are in the depths, and then to contemplate our own life, our own experiences, our own World, and then to discover, and to interpret and accept the challenge of God, the inspiration of God, the provocations of God and to answer in the life of faith and dialogue. And part of this dialogue is this listening, this attempt to understand and to answer, to respond, to live in responsibility.

The real life of faith is life as a dialogue.

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