quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O silêncio dos leões, do Scorcese e da Chapecoense

Corcovado "equipado" de verde pela Chapecoense
A discussão parlamentar da eutanásia vem aí. Não é surpresa, é apenas a confirmação.

Começou hoje a assembleia sinodal do sínodo de Lisboa. É uma boa oportunidade de rezar pelos (muitos) padres e (poucos) leigos que se encontram a discutir o futuro da evangelização no Patriarcado.

O Papa recebeu esta manhã o realizador Martin Scorsese, que esteve em Roma para uma antestreia do seu filme “Silêncio”.

Silêncio é o que pede a tragédia que se abateu sobre os passageiros do avião que se despenhou ontem na Colômbia, onde seguia a equipa da Chapecoense. Silêncio e oração. O Papa reza por isso, mas também pelas vítimas da sida.

O mais recente sismo em Itália destruiu por completo a cidade de Nórcia – antiga Núrsia – incluindo o mosteiro beneditino. Mas não se preocupem com os monges, têm cerveja, por isso está tudo bem.

Voltando à Eutanásia, o que se pede agora é a coragem que teve o bispo de Münster durante o regime nazi, que gritou bem alto contra o regime e sobretudo contra os seus programas de eutanásia. No artigo desta semana do The Catholic Thing, David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse governada por pessoas desse calibre.

O Silêncio dos Leões

David Warren
Para que servem os bispos? É uma pergunta que muitos fiéis católicos fazem, pelo que fui percebendo através de conversas durante a minha vida adulta. Muitas vezes a pergunta é feita de forma sarcástica, sobre um qualquer bispo que tenha falhado de forma significativa na defesa dos ensinamentos católicos aquando de um acontecimento que teria exigido resposta. O galo canta três vezes e depois… a oportunidade esvanece.

O que este silêncio – ou muitas vezes murmúrio incoerente – diz aos fiéis é que quando toca a testemunhar Cristo e os seus ensinamentos, eles estão por sua conta. Podem ter o Catecismo para lhes recordar do que consiste a fé, mas se tomarem posição sobre o assunto não podem esperar o apoio dos seus líderes. 

O mais provável, até, é que sejam discretamente desacreditados como “fanáticos” e abandonados à sua sorte. Porque agora são vistos como falando unicamente em nome próprio, numa altura em que tudo o que é dito com clareza e precisão pode ser descartado como sendo o mero expelir de “sentimentos” que depois são classificados como “incitamento ao ódio”.

Vivemos em tempos difíceis, em que regulamentos de expressão avançam em todas as frentes: Académica, jurídica, social e política, e a ditadura do relativismo se vai consolidando. Tudo o que se diz pode, potencialmente, ser alvo de acção judicial pelo facto de poder, eventualmente, ferir os sentimentos de membros desconhecidos de algum grupo politicamente favorecido mas vagamente definido. O dissidente perde o seu ganha-pão, ou se espera mantê-lo deve submeter-se à humilhação pública e a um qualquer curso de “aconselhamento” ou de “treino de sensibilidade”, ou “reeducação”.

Eis que o maoismo está vivo e de boa saúde nas universidades, e a espalhar-se. Ou, se o leitor preferir, o Estalinismo, ou o Hitlerismo. Ou até o McCarthyismo, na medida em que também envolvia julgamentos de fachada.

O McCarthyismo foi derrotado bastante depressa – no espaço de três meses – depois de várias figuras proeminentes do aparelho de Estado terem confrontado o senador de Wisconsin, dizendo que estavam fartos. O próprio McCarthy foi apelidado de parasita e o seu caso tornou-se um aviso para quem o quisesse imitar.

Na verdade, um McCarthyismo mais formidável, de esquerda, ganhou raízes no cadáver do político, cujo nome se tornou um slogan de propaganda. Mas penso que no início houve genuína revolta para com a irresponsabilidade das audições de McCarthy no Senado e foi preciso genuína coragem por parte dos primeiros a tomar posição contra ele.

A mesma coragem que é necessária para todos aqueles – em todos os tempos, de qualquer nação – que se opõem à injustiça.

Temos já, nesta altura, um legado de bispos corajosos e dignos inscritos nos anais dos santos e dos mártires da Igreja Católica. Na prática correspondem a um terceiro testamento, uma crónica exemplar de vinte séculos em que, através das vidas de grandes homens e de grandes mulheres, a vida de Cristo persistiu neste mundo.

O Leão de Münster
De forma alguma devemos dizer que os bispos nos falham sempre, nem que sempre que se quedam calados nos encontramos apenas por nossa conta. Deus encontra outros que se chegam à frente para dar o exemplo. Também se deve dizer que nós temos o direito, pela graça do nosso baptismo, de dar um passo em frente, para defender o bem e a verdade e para condenar os seus opostos. Mas estes gestos são pouco frequentes.

Que são pouco frequentes deve-se ao facto de sermos pecadores. Estamos de tal forma ligados aos nossos confortos mundanos, às nossas imaginações mundanas, que mesmo diante da mais flagrante diferença entre o bem e o mal acabamos por optar pela vida tranquila. E como se torna evidente para quem lê os Evangelhos, o homem bem alimentado e com boa casa, com muitos amigos e honras (tal como um bispo), tem mais a perder do que a maioria. Porquê arriscar tudo em troca de perseguição pública e o risco de abandono por parte dos seus próprios apoiantes? Por recompensas que não são deste mundo, invisíveis salvo aos olhos da fé?

Ontem à noite fui ao lançamento de um excelente livro no Oratório de Toronto. É escrito pelo padre Daniel Utrecht e é a melhor biografia que temos actualmente em inglês do “Leão de Münster: O Bispo que Rugiu Contra os Nazis”. O seu nome era Clemens August Conde von Galen e ainda há pouco tempo escreveu-se sobre ele uma crónica no The Catholic Thing. [E outra há ainda mais tempo, que pode ser lida aqui].

Ele fustigou o regime Nazi, especialmente as suas políticas de extermínio (“eutanásia”), da forma como o deveriam ter feito todos os bispos alemães entre 1933-45, embora a maioria tenha optado por um silêncio discreto, ou na melhor das hipóteses uns murmúrios discretos.

Von Galen não esperou por autorização para falar, porque ele tinha a autoridade. E isso era tão evidente para os seus fiéis na diocese de Münster, e para católicos em toda a Alemanha, que os Nazis não se atreveram a matá-lo, guardando esse acto delicioso até para depois de ganhar a guerra, como confidenciou Hitler ao seu círculo mais próximo. Que esta não tenha sido ganha deve-se, ao menos em parte, à coragem do bispo.

Gosto de imaginar como é que a história poderia ter sido diferente. E se? E se todos os bispos se tivessem oposto ao regime da mesma forma que von Galen? Então talvez o regime tivesse perseguido os católicos por toda a Alemanha, repetindo o que fez a Kulturkampf de Bismarck, ou pior. Assim teriam absorvido aquilo que os aliados fizeram quando finalmente derrubaram os nazis e pelo caminho talvez tivessem resgatado para a Alemanha a sua herança cristã esquecida.

Ou outro cenário. E se em vez de apenas um (São João Fisher), todos os bispos britânicos se tivessem oposto a Henrique VIII? E se todos estivessem dispostos a serem mártires, com todo o clero a seguir-lhes o exemplo, levando os católicos a erguer-se por todo o país e não apenas em pequenas revoltas isoladas? Não em violência, mas num acto de santa teimosia para dizer “Isto não passará!”


No fundo, estas coisas são imponderáveis, mas gosto de pensar nelas porque dão alguma ideia sobre o extraordinário poder que a Igreja teria, fosse governada por leões.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 26 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sínodo de Lisboa e a vida de Kollithanathumalayil

Novos missionários
O Papa Francisco pode tornar-se o primeiro da história a visitar a Irlanda do Norte, isto a confirmar-se uma visita à República da Irlanda em 2018.

O Sínodo de Lisboa entra na fase final esta semana. D. Manuel Clemente deu uma entrevista à Renascença sobre este assunto. A ideia é despertar de novo o “sonho missionário de chegar a todos”, mas a realidade actual é que onde ontem iam missionários portugueses, hoje saem missionários para vir para Portugal. É o caso do padre Paul Kollithanathumalayil, que também falou com a Renascença sobre esta sua experiência missionária.

O Papa Francisco reuniu com a Academia Pontifícia para as Ciências numa sessão plenária, no Vaticano, voltando a apelar a uma “conversão ecológica”, que apoie “o desenvolvimento sustentável”.


Os imãs portugueses estão desafiados a participar num curso de prevenção da radicalização, promovido pela Universidade de Al-Azhar, no Egipto.

Tudo isto nos dias depois de ter morrido Fidel Castro. Para uma boa análise da sua ligação ao mundo religioso, vejam este interessante artigo de Austen Ivereigh.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crianças com trissomia na TV? Non, merci...

Longe da TV francesa! Longe...
O Papa voltou a criticar duramente o clericalismo. Foi numa conversa informal com jesuítas que foi agora publicada na íntegra numa revista daquela ordem.

Foi detido em França o homem que ontem tomou de assalto uma casa de missionários reformados, matando uma funcionária. Ao que parece o caso nada tem a ver com terrorismo islâmico.

O que tem a ver com terrorismo islâmico é o caso do marroquino detido em França e que tinha autorização de residência em Portugal. Ao que parece ele e a sua “trupe” tinham ordens do Estado Islâmico para fazer um atentado no dia 1 de Dezembro.

Ainda de França chega a notícia incrível da proibição de um anúncio que pretende encorajar as mulheres grávidas de crianças com trissomia 21. As autoridades francesas consideram que pode perturbar a consciência de quem abortou. Actualmente, nos países em que existem estatísticas, sabe-se que cerca de 9 em cada 10 bebés diagnosticados com trissomia são abortados. Há uma palavra para isto: Genocídio.

Arranca no domingo o programa do centenário das aparições de Fátima, mas esta sexta-feira já abriu a exposição Mater Dei, com 25 representações de Maria na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, em Lisboa, que foi toda restaurada recentemente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trump rebentou a bolha

Ficaram com uma cabeça deste tamanho...
Estou de regresso, depois de três semanas de licença de paternidade.

Muita coisa se passou durante a minha ausência! O Papa criou novos cardeais; alargou a todos os padres a faculdade de absolver o pecado do aborto; confirmou que vem a Fátima, mas só a Fátima e anunciou o tema para as próximas jornadas mundiais da Juventude.

Veio a Portugal um bispo iraquiano e uma freira argentina que se encontra na Síria, no âmbito da apresentação do relatório sobre liberdade religiosa no mundo, da Ajuda à Igreja que Sofre.

Chegou ao fim o Ano da Misericórdia, que eu fui acompanhando com várias reportagens que foram coligidas aqui.

E depois houve aquela coisa de Donald Trump ter sido eleito presidente dos Estados Unidos… Esse é, aliás, o tema de um dos artigos que fui publicando do The Catholic Thing em português. Francis Beckwith, que sempre se opôs a Trump, explica porque é que ele ganhou.

Outro dos artigos é sobre a Eutanásia e as terríveis portas que a sua legalização abre na sociedade, tal como refere, por cá, a jurista Teresa Quintela de Brito.

Já o artigo mais recente trata um mistério, que Howard Kainz procura desmistificar em “Personalidades na Trindade”, que foi publicado ontem. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Personalidades na Trindade

Howard Kainz
O termo “personalidade” tem vários significados, tanto positivos como negativos. Mas o mais comum, e neutro, é este do Oxford English Dictionary: “A qualidade, ou conjunto de qualidades, que torna uma pessoa um indivíduo distinto; o carácter pessoal ou individual distinto de uma pessoa, especialmente de tipo marcado ou fora do comum”.

Como cristãos, acreditamos que existem três pessoas em Deus. Trata-se de uma união na distinção. O Filho é diferente do Pai, o Espírito é diferente do Pai e do Filho, etc.

Pode soar a politeísmo e os muçulmanos, e outros que advogam um monoteísmo rigoroso, consideram-no chocante. Mas como diz São Tomás, em relação à acusação muçulmana de politeísmo, esta incompreensão deve-se ao enfoque míope na geração física e na incapacidade de compreender a possibilidade de uma geração puramente espiritual.

Logo, a elaboração por parte dos cristãos da única natureza divina, enquanto puro espírito, em Pai, Filho e Espírito Santo não é contraditória nem deve ser entendida como referente a “três deuses”. Estas três Pessoas não são, por isso, personalidades idênticas, como se fossem clones, e não devemos surpreender-nos pelo facto de terem características de personalidade distintas entre si. O que podemos dizer sobre estas características?

O Filho: Nós cristãos, imbuídos pela religião do Filho, naturalmente sabemos mais sobre a personalidade de Jesus Cristo, que veio viver entre nós e, por vezes, até nos iluminou sobre as suas qualidades pessoais. Convenientemente, descreveu-nos aquilo que é e como aparece aos outros: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt. 11,29).

Por vezes, nos Evangelhos, Jesus permite que brilhe diante dos homens a prova do seu poder e da sua natureza divina, como na Transfiguração (Mc. 9,1), ou quando os guardas que o iam prender caiem por terra quando Ele se identifica (Jo. 18,6), ou nos seus múltiplos exorcismos, em que os demónios sentem um poder que emana dele.

Mas a maioria dos seus contemporâneos, embora maravilhados com as suas curas e os seus exorcismos, quando estavam na sua presença provavelmente não repararam em nada mais do que um pregador calmo e modesto. Os seus vizinhos estranharam onde é que um carpinteiro teria ido buscar tanta sabedoria, pois conheciam-no e à sua família e não compreendiam o que se estava a passar. E até os seus primos não reconheceram nada de especial nele e só creram depois da Ressurreição (Mt. 13,55-56)

Jesus também nos fala dos seus interesses pessoais na vida: não julgar os pecadores, mas salvá-los (Mt. 9,13), embora no final dos tempos Deus Pai o encarregue do poder último de julgar (Jo. 5,22)

O Pai: O Novo Testamento está repleto de referências a Deus Pai, mas este conceito de Deus enquanto “Pai” também existe no Antigo Testamento: Nos profetas (Is. 63,16, 6,8; Jer. 3,4, 3,19), no Salmo 89 e sobretudo no Livro da Sabedoria, em que Deus é descrito como o “pai do mundo”, que formou o primeiro homem (10,1), trata os justos de forma paternal (2,16, 11,11), e governa todas as coisas de forma providencial (14,3).

No Evangelho de João aprendemos que Jesus experimentava a presença constante do Pai (Jo. 5,19), que fala sobre aquilo que aprende na sua presença (8,38, 12,50) e acrescenta que, de facto, o Pai trabalha através dele (14,10). Jesus, que habitualmente põe em prática aquilo que vê no Pai, pode dizer a Filipe “aquele que me vê, vê o Pai” (Jo. 14,9).

Fresco da Santíssima Trindade em Urschalling, Alemanha
As principais descrições que Jesus faz do Pai dizem respeito a um Criador beneficente, que distribui e mantém toda a natureza de bens no mundo, para serem usados, bem ou mal; que é quem providencia de forma mais solícita, olhando até pelos pássaros do ar e pelos lírios do campo, satisfazendo as necessidades mais íntimas de todos, bons e maus (Mt. 5,45, 6,8) e que, como um arquitecto nos bastidores, prepara continuamente mansões para os fiéis (Jo. 14,2, 20,23).

O Espírito Santo: Embora Miguel Ângelo tenha feito um belo trabalho a representar Deus Pai na Capela Sistina, nos Evangelhos o Pai aparece apenas como uma nuvem (Mt. 17,5, Mc. 9,6, Lc. 9,35). O Espírito Santo, que aparece apenas como uma pomba (Mt. 3,16, Mc. 1,10, Lc. 3,22, Jo. 1,32) ou como línguas de fogo (Act. 2,3) seria um desafio ainda maior à capacidade artística do pintor. (Tenho uma vaga memória de ter visto uma representação feminina do Espírito Santo numa Igreja na Europa há várias décadas).

No Novo Testamento o Espírito Santo é comparado ao vento, soprando onde quer, fora do controlo dos homens (Jo. 3,8), distribuindo graças especiais (Gal. 5,2), incluindo dons extraordinários como a profecia ou a cura (Act. 2,17, 1Cor. 12,8-9) e por vezes a inspirar as palavras dos seguidores de Jesus, sobretudo em circunstâncias difíceis e quando desafiados pelas autoridades (Lc. 12,11).

O místico luterano alemão, Jacob Boehme (1575-1624), autor de “Os Três Princípios da Essência Divina” e “A Tripla Vida do Homem”, passou a maior parte da sua vida fascinado pela doutrina da Trindade. Escreveu imenso sobre as várias operações e reflexos do Pai, Filho e Espírito Santo no Universo e argumentou contra muçulmanos e outros que negaram a Trindade.

O filósofo alemão G.W.F. Hegel (1700-1831) considerava a visão trinitária do mundo de Boehme fascinante, mas criticava os seus entusiasmos místicos que “punham a cabeça em água” e por isso desenvolveu uma mundovisão filosófica mais “científica”, caracterizada por tríades.

Hegel também se juntou a Boehme na defesa do Cristianismo Trinitário. Falando sobre o surgimento do Deísmo durante a Revolução Francesa, Hegel escreveu que o Ser Supremo do Deísmo, elogiado por Voltaire e outras figuras do Iluminismo, não passava de um “Além” nebuloso, comparável à “exalação de gás estagnado” e de seguida oferece a sua própria “fenomenologia”, analisando a emergência final de uma “religião revelada” trinitária.

É comum ouvirmos dizer que a família nuclear cristã é um reflexo da Trindade, e assim é. Mas claro que existe uma variedade enorme e diversificada de outros reflexos no nosso mundo, mais até do que os milhares imaginados por grandes místicos como Boehme.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 22 de Novembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Vingança dos Apegados Amargos

Francis J. Beckwith
Devíamos ter desconfiado que alguma coisa se iria passar. Os Cavaliers venceram o NBA, os Cubs foram campeões de Basebol, o Reino Unido votou para abandonar a União Europeia e Bob Dylan venceu o prémio Nobel da Literatura. Este não é um ano normal.

Quando a comunicação social declarou, na manhã de Quarta-feira, que Donald J. Trump vai ser o 45º Presidente dos EUA, vieram-me à cabeça as palavras do mais recente Nobel da literatura: “Something’s happening here, and you don’t know what it is, do you, Mr. Jones?”

Tal como a maioria dos membros da classe dos opinadores, fui apanhado completamente desprevenido pela vitória de Trump. Praticamente nenhum dos meus amigos – incluindo muitos que se identificam como conservadores – apoiava o Trump. Eles argumentavam – como eu fiz em vários lugares – que havia fortes razões práticas e morais para não votar em Trump (nem na Hillary, já agora).

Pensávamos que tendo em conta as indiscrições públicas e privadas de Trump, aliados à sua impulsividade e imprevisibilidade, para não falar nos seus comentários pouco delicados sobre imigrantes, a sua eleição seria catastrófica tanto para o Partido Republicano como para o país. Mas o facto é que praticamente nenhum de nós pensava que se teria de preocupar mesmo com o país, porque achávamos que era inelegível. Caramba, como nos enganámos!

Tal como o Mr. Jones do Bob Dylan, não fazíamos ideia do que é que se estava a passar aqui. Eu e os meus amigos existimos no equivalente cultural a um condomínio fechado: suburbanos, profissionais, com educação superior, de classe média, viajados e cosmopolitas. Temos posses e estamos em larga medida isolados do dia-a-dia das vidas da maioria dos americanos de classe operária, brancos, religiosos e sem formação universitária, ou seja, aqueles cujos votos deram a vitória a Trump na Pensilvânia, no Iowa, no Ohio, no Michigan e no Wisconsin.

Era destas pessoas que Barack Obama falava de forma tão condescendente em 2008 quando se dirigia em privado a um grupo de dadores em São Francisco:

Vamos a estas pequenas vilas na Pensilvânia e, como em muitas das vilas pequenas do Midwest, os empregos desapareceram há 25 anos e nada os substituiu. E passaram as administrações de Clinton e de Bush e cada uma delas disse que as comunidades se iam regenerar, mas isso não aconteceu.

Por isso não é de admirar que fiquem amargos, que se apeguem a armas ou à religião ou à antipatia para com pessoas que não são como elas, ou sentimentos contra os imigrantes ou contra o comércio livre como forma de explicar as suas frustrações.

Apesar destes comentários, Obama obteve o voto de uma boa parcela destes “amargos apegados”. Parece que estavam dispostos a suportar os insultos elitistas desde que isso levasse a melhores perspectivas para eles e para as suas famílias. Mas oito anos volvidos as coisas não correram assim. Não só estão piores agora, como as suas preocupações sobre a imigração, as políticas de comércio, segurança policial e nacional e liberdade religiosa passaram a ser descritas pelos seus “superiores” como meras expressões viscerais de xenofobia, fascismo, racismo, islamofobia e ódio. É claro que é sempre possível encontrar entre estas pessoas alguns cuja linguagem torna credíveis estas descrições, mas aquilo que eu sinto é que para a vasta maioria são preocupações que nascem de um amor profundo pelas suas famílias e a sua nação.

O único candidato que pareceu abordar estas preocupações e de as levar a sério foi Donald Trump. Certo, fê-lo de forma bombástica, por vezes desarticulada, e com uma linguagem muitas vezes desagradável, desnecessariamente agressiva ou chocantemente ofensiva. Mas para quem mais é que estes eleitores se podiam voltar? Hillary Clinton?

Foi ela quem descreveu os apoiantes de Trump, durante um comício LGBT em Setembro, da seguinte forma: “Sabem, generalizando bastante, podíamos meter metade dos apoiantes de Trump naquilo a que eu chamo o ‘cesto dos deploráveis’. Não é?... Os racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos – tudo isso.” Ao condenar publicamente os apegados amargos de Obama ao cesto de deploráveis, deliciando-se com os risos que se lhe seguiram, Clinton e a plateia embeiçada selaram o seu destino, sem sequer darem por isso.



Mas houve mais, graças ao Wikileaks, os “deploráveis” também puderam espreitar atrás da cortina. O que vieram foi as elites – que na maioria frequentaram as mesmas escolas, vivem nos mesmos bairros, auferem os mesmos ordenados e têm os mesmos amigos – a usar as suas ligações para dar a Clinton aquilo que a maioria das pessoas considera serem vantagens injustas. Quando se vê os autoproclamados defensores da justiça social e manipular o sistema em favor dos amigos ao mesmo tempo que lhe chamam a si e aos seus vizinhos “deploráveis” (isto sem falar sequer das críticas gratuitas ao Catolicismo), a indignação parece ser a resposta emocional mais apropriada.

Em breve veremos se Trump vai cumprir com algumas das coisas que devem interessar a qualquer católico sério: Nomeações para o Supremo Tribunal e defesa da liberdade religiosa, não só contra aspectos como os mandatos do Obamacare que afectam grupos como as Irmãzinhas dos Pobres, mas de forma mais geral na pressão do Governo federal sobre crentes tradicionais que resistem à promoção agressiva do aborto e de um entendimento da sexualidade humana que é intrinsecamente hostil à sua teologia moral.

Inclino-me a pensar que vai.

Isto não significa que eu tenha mudado de opinião sobre Trump e sobre como o seu carácter pessoal e exemplo público podem afectar o carácter dos cidadãos desta nação bem como a trajectória do Partido Republicano, mas espero sinceramente que esteja enganado.

Talvez a noção que o Presidente eleito tem da gigantesca responsabilidade da Sala Oval, combinadas com a escolha de pessoas excelentes para ocupar posições de liderança e de aconselhamento na sua administração resultem num Presidente Trump menos dados ao exercício indisciplinado daquilo que São Tomás de Aquino chamou os apetites irascíveis e concupiscíveis.

Quem sabe? Mas num ano em que os Cubs foram campeões de basebol e Dylan venceu o Prémio Nobel, tudo pode acontecer. E porque em Deus tudo é possível o Sr. Trump, e a nação que ele vai servir, devem agora estar constantemente nas nossas orações. 


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Eutanásia: Vidas Que Não Contam

David Walsh
Numa altura em que “Black Lives Matter” [Vidas Negras Contam] se tornou um slogan tremendamente eficaz, não deixa de ser irónico que em Washington D.C., uma cidade com uma grande proporção de afro-americanos, a Câmara esteja a pensar em legalizar o suicídio medicamente assistido.

A contradição tornou-se palpável numa reportagem franca, publicada pelo “Washington Post” recentemente, com as reacções dos cidadãos que tendiam a ver a medida como direccionada a “idosos negros”. Num claro contraste com o tom positivo do editorial do mesmo jornal sobre o assunto, os residentes não hesitaram em manifestar as suas desconfianças. Intuitivamente, eles sabem que a opção do suicídio assistido, quando colocada, dificilmente se manteria dentro dos limites da liberdade de escolha.

A pressão, por vezes subtil, por vezes nem tanto, será inevitável. Não há seguranças legais que removam a suspeição de que a opção do suicídio se torne uma forma de remover os membros mais fracos e marginais da comunidade.

Tal como acontece com grande parte destas iniciativas paternalistas, não é preciso atribuir um propósito nefasto a quem defende esta medida. O mal pode ser feito sem que isso seja intenção de ninguém. Isso é particularmente verdade quando a intenção é o alívio, por compaixão, do sofrimento dos doentes terminais.

O perigo do suicídio medicamente induzido não se encontra na possibilidade de ser mal utilizado nem na forma como ameaça a relação entre médico e doente, mas sim no próprio conceito. Mesmo sem que ninguém tenha sido eutanasiado, o Estado, ou neste caso o Distrito, já declarou que há vidas que não contam.

Quando o sofrimento ou o fardo se tornam suficientes, estas pessoas e os seus médicos têm luz verde para se eliminarem. Os profissionais de medicina que estão na linha da frente deste encontro têm bem presente o abismo que se abre nesta situação.

Mas o mesmo se aplica a todos nós, familiares, amigos e concidadãos. Podemos nós julgar, como temos de fazer no caso de aceitar o seu pedido, que a vida do paciente já não vale a pena ser vivida?

É particularmente quando pensamos que estamos a agir com os mais nobres motivos que esses motivos devem ser alvo de maior escrutínio. Quando ajudamos alguém a matar-se, essa ajuda esconde uma reverência diminuída pelo doente? Não falo aqui do perigo de um caminho que leva inevitavelmente à expansão do suicídio assistido dos doentes terminais para os meramente doentes, digo apenas que essa desvalorização já aconteceu no preciso momento em que temos a presunção de julgar o valor de uma vida.

Mesmo que o doente terminal esteja disposto a encarar a sua vida como indigna de ser vivida, nós não podemos simplesmente aceitar esse desânimo como definitivo. A nossa responsabilidade é afirmar que, mesmo nos seus últimos dias, essa vida tornou-se para nós ainda mais preciosa.

A morte não é o fim da vida, mas sim o momento em que ela existe com maior profundidade. Toda uma vida pode ser dada a conhecer no apertar de uma mão. Mesmo na morte, estamos ligados. É por isso que não podemos simplesmente aceitar a morte como sendo o fim da pessoa, porque os mortos já nos falaram de além da fronteira que nos separa.

Só quando seguimos a lógica da eutanásia é que começamos a ver a fonte das confusões em que nos deixámos apanhar. Pensando agir com compaixão, ajudamos a executar a pessoa, aniquilando precisamente aquele que tencionávamos servir.

O suicídio nunca pode ser um meio de tratamento médico, uma vez que todo o tratamento pressupõe a existência de um doente a quem se serve. A prática da medicina sofre uma bizarra distorção se passar a incluir a eliminação dos seus pacientes.

De igual forma, a comunidade política tem como obrigação primária guardar a vida, liberdade e felicidade dos seus constituintes. Não pode simplesmente declarar que eles serão mais bem servidos pondo fim às suas vidas.

É por isso que não se pode instalar na nossa constituição um “direito à morte”. O cuidado pelos mortos não pode incluir a imposição deliberada da morte. Quando a Santa Teresa de Calcutá saía às ruas daquela cidade para trazer consigo os moribundos, nunca tinha por objectivo acelerar a sua morte. Pelo contrário, era para esbanjar neles a maior quantidade de amor possível nas horas e nos dias finais das suas vidas. 

Não podemos dizer às pessoas que elas têm um valor inesgotável e depois, enquanto as ajudamos a morrer, dizer-lhes que o seu valor se esgotou.

Tal como a compaixão não pode incluir a abolição do outro, a liberdade não pode incluir a eliminação da vida em que assenta. Não nos podemos vender para a escravidão, porque isso é literalmente impossível. Da mesma forma, não podemos encarar a destruição da nossa liberdade como um exercício legítimo da mesma liberdade.

Ao concluir que um certo tipo de vida já não conta, lançamos uma sombra sobre toda a vida humana. A partir deste momento todas as vidas se tornaram susceptíveis de serem avaliadas e por isso sujeitas àquela negociação da qual são sempre os mais fortes que saem vitoriosos.

O perigo de admitir o suicídio medicamente assistido não está só no facto de que alguns indivíduos possam ser despachados antes de tempo, mas no facto de deslocarmos a primazia do direito à vida em todo o nosso entendimento político.

Se a vida deixar de ser absoluta, então nenhum dos nossos direitos são invioláveis. Em vez de ver cada vida humana como sendo de valor inestimável, atribuímos a todas elas um preço.


David Walsh é professor de política na Catholic University of America e autor de muitos livros, entre os quais “Politics of the Person as the Politics of Being”.
(Publicado pela primeira vez no Sábado, 5 de Novembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Santos Suecos com cérebros microcósmicos

Holy Swedish Girl
Chegou ao fim ontem a viagem do Papa à Suécia. Francisco citou o exemplo de santos suecos – um termo que até soa estranho ao ouvido, mas existem! – isto precisamente na solenidade de Todos os Santos.

No avião de regresso a Roma, o Papa referiu-se novamente à questão da ordenação de mulheres, dizendo que essa porta está definitivamente fechada.

O Porto recebe, durante os próximos dias, o Fórum para o Futuro. O Cardeal Ravasi abriu o evento dizendo que “o cérebro é um microcosmo com uma arquitectura admirável”.

Hoje é quarta-feira e a dias das eleições americanas publico um artigo de David Warren que, apesar de ser um inglês a viver no Canadá, opina sobre os candidatos. Warren argumenta que a forma como alguns conservadores estão a colocar de lado os seus princípios para justificar o apoio a Donald Trump é uma ameaça às almas dos cristãos.

Deixo-vos com um desafio. Decorre no dia 5 o primeiro congresso das associações de profissionais católicos. Mesmo que não pertença a nenhuma, pode comparecer na Universidade Católica nesse dia. Mas nada como ver o convite na primeira pessoa, feita por D. Manuel Clemente, aqui.

Não Interessa Quem Ganha

David Warren
“Não se deve julgar os homens pelas suas opiniões, mas por aquilo que as suas opiniões fizeram deles.”

Esta, segundo Georg Christoph Lichtenberg, é uma regra de ouro. Tal como todas as regras de ouro, tem a habilidade misteriosa de ser instantaneamente esquecida. É mais fácil julgar os homens pelas suas opiniões, e elencá-los com base na semelhança com as nossas próprias. Tudo o resto requer alguma capacidade de discernimento espiritual.

O culto católico (e ortodoxo) dos santos desafia esta tendência para esquecer. Não respeitamos os santos pelas suas opiniões cristãs, damos essas por adquiridas e há muitos que partilham delas sem serem santos. Antes, apreciamos a forma como os santos dão vida a estas coisas inertes, porque o amor, sem aquilo que representa, não passa de uma opinião.

Não pretendo, com isto, menosprezar o Catecismo. É um manual de instruções daquilo em que acreditamos e explica como é que estas crenças se interligam. Sem ele facilmente nos perdemos, como se vê ao olhar para as pobres almas que se persuadiram de que podem fazer o seu próprio Cristianismo, improvisando. A sua sinceridade, partindo do princípio que é genuína, é rapidamente ultrapassada pela sua confusão.

“Eu sinto isto” e “eu penso aquilo” são expressões comuns na religião contemporânea, tanto dentro como fora da Igreja. Raramente ouço sequer uma referência decorativa à autoridade do magistério. Na verdade, o orador está a assumir o estatuto de profeta, com linha directa para Deus. Só que não fala em línguas, mas em clichés.

Mas o Catecismo, os Evangelhos (não modernizados), a Escritura como um todo, são o ponto de partida para a compreensão de algo que, no fim de contas, os ultrapassa. Cristo não se pode reduzir a um manual de instruções, nem veio à Terra para nos dar um. Foi a Igreja que reuniu estas coisas – incluindo o cânone das escrituras – para nos colocar no Seu caminho.

Temos nestas coisas, e na teologia católica que nelas assenta, um ponto de partida sólido para um destino que é inimaginável neste mundo. Os santos e os mártires guiam-nos para além dos horizontes que conseguimos manter em vista.

Foi a dimensão humana de Jesus que o tornou acessível a todos os homens. São as qualidades sobretudo humanas que fazem dos santos os seus companheiros de serviço – pois sabemos que estão a fazer coisas que estão ao alcance da capacidade humana.

Ou pelo menos devíamos saber: Que a fé pode mover montanhas; que a fé pode, no decurso de uma vida humana “normal” erguer-nos, ou antes, levitar-nos a um ponto de onde vemos que a santidade, com a Graça de Deus, é possível. (Como me disse uma vez um padre Anglicano, “Um primeiro passo rumo à santidade é compreender que a santidade é possível”).

Erguer-nos: erguer-nos de entre os mortos. É tudo o que se nos pede, e a ajuda divina é garantida. Mas não serão as nossas opiniões a elevar-nos. Pode-se dizer que essa elevação começa por seguir instruções, como tudo o que isso implica. Começamos com o esqueleto da crença cristã, mas para nos erguermos temos de lhe dar corpo.

Russell D. Moore
Por estranho que possa parecer, o meu objectivo com tudo isto é falar de política e Cristianismo, uma área em que as nossas opiniões nos pesam. Mas fui apanhado de surpresa ao ver que um pregador evangélico se tinha antecipado a mim. Refiro-me a Russel D. Moore, orador da “palestra Erasmus” deste ano do First Things. Na minha opinião vale bem a pena lê-lo ou escutá-lo durante umas horas.

Isto porque ele elabora sobre uma ideia parecida com aquela de Lichtenberg, que citei acima. Ele afirma, na sua palestra, e em resposta a questões colocadas depois, um fantástico paradoxo, que vale a pena interiorizar: Que Hillary Clinton, vista como inimiga por grande parte da Direita Evangélica, praticamente lhes pode fazer mal. Talvez, se for eleita, possa nomear o Anticristo para juiz do Supremo Tribunal, ou embarcar em aventuras militares no estrangeiro que apressem o Apocalipse; mas ainda assim não pode fazer mal à alma de um único evangélico, ou outro cristão qualquer.

Para isso ela não tem qualquer poder. Só poderia ter esse poder se exercesse sobre eles tamanha atracção que eles estivessem dispostos a defender os bens que ela está a vender. Só então é que ela estaria em posição de os poder corromper, e não quando eles não sonham sequer em votar nela.

Mas Moore sugere, contudo, que ao colocar a política acima da religião, para apoiar o incorrigível Donald Trump, que os campeões da Direita religiosa estão na verdade a colocar em perigo almas cristãs, pois estão dispostos a colocar de lado o seu apoio aos “valores da família” e ao que actualmente se chama “conservadorismo social” para conseguirem eleger o seu candidato. Com isso provaram ser puros “consequencialistas”, que é como quem diz, totalmente cínicos.

Embora se limite a criticar alguns anciãos da sua própria igreja – e, note-se, diante de um auditório sobretudo católico – Moore está a passar uma mensagem que atravessa as fronteiras das denominações. Para podermos ser de algum valor na política, ou para o nosso país, em primeiro lugar devemos ser cristãos. A partir do momento em que nos dispomos a fazer cedências – sobretudo cedências morais, para poder ganhar algum avanço – estamos perdidos e não servimos para ninguém.

“De nada serve ao homem trocar a sua alma pelo mundo, Ricardo. Mas por Gales?”, diz Thomas More no filme dos anos 60.

Ele é o santo padroeiro dos políticos precisamente porque apesar de estar sob tremenda pressão, pôs a fidelidade a Cristo e à sua Igreja acima não só do seu interesse pessoal, mas de qualquer objectivo político. Sejam quais tenham sido as suas opiniões, recordamos aquilo que fizeram dele: Um farol cuja luz atravessa as épocas.

Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, esta é a única forma cristã de agir. A questão de carácter vai directamente ao tutano, ao nosso tutano. Nunca nos devemos tornar tão mundanos que sacrificamos as nossas crenças cristãs para tentar alcançar o poder.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016 em The Catholic Thing)

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