quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um Baptismo Natalício no Exílio

Casey Chalk
Durante a última semana do Advento, uma linda menina de sete semanas foi baptizada na paróquia redentorista na baixa de Banguecoque, Tailândia. Não foi um baptizado qualquer. Os pais da menina – que permaneceu miraculosamente tranquila durante a cerimónia – são católicos paquistaneses, requerentes de asilo em fuga de extremistas muçulmanos e obrigados a viver ilegalmente na Tailândia. A sua situação difícil, e este baptizado, são uma manifestação cativante do verdadeiro sentido do Natal.  

A família alargada é composta agora por 17 pessoas, desde bisavós até esta mais recente adição. Vivem em dois apartamentos minúsculos, de um só quarto, a pouca distância da paróquia católica, encaixados como sardinhas em lata à noite. Vieram para Banguecoque há quatro adventos, poucos dias antes do Natal, depois de uma série de ataques violentos na sua cidade natal de Karachi.   

Um membro da família, um jovem médico, foi falsamente acusado por fundamentalistas de ter rasgado intencionalmente uma página do Alcorão – uma ofensa que no Paquistão é considerada blasfémia e punida como tal. A sua cunhada, enfermeira num hospital de Karachi, foi acusada de ter tentado forçar um doente muçulmano a quebrar o seu jejum de Ramadão e de o ter tentado converter. Parentes do doente dispararam sobre ela e sobre o seu marido enquanto tentavam fugir do hospital. Duas adolescentes da família foram apanhadas e queimadas vivas em público. Foram emitidos fatwas e mandatos de captura contra eles. Sabendo que as únicas opções eram a morte ou a conversão forçada, fugiram.

Vivendo em Banguecoque desde Dezembro de 2012, tornaram-se uma família de “faz-tudo” para a paróquia, fazendo biscates para a igreja, distribuindo panfletos, ajudando com o ofertório, preparando a Igreja antes de casamentos e funerais e limpando de seguida. Esta é uma família que desafia as ideias feitas dos requerentes de asilo como pobres, fracos e desamparados, à mercê da beneficência de doadores ocidentais. Pelo contrário, eles são um grupo teso, resistente e com uma ética de trabalho incansável.

O pai da menina baptizada também não encaixa no estereótipo de refugiado. Com estatura de culturista e bem-parecido, dá ares de estrela de Bollywood e não de alguém que se esconde com medo dos seus algozes. Se os jihadistas estivessem dispostos a lutar de forma justa, ele dava-lhes uma tareia. Agora passa os seus dias a dirigir o trânsito junto à paróquia.

De certas formas a história desta família espelha o paradoxo da Sagrada Família no Natal. Parecem-nos, à primeira vista, pobres e modestos: José, o patrono simpático e mais velho da jovem virgem, Maria. Ela, a camponesa judia, silenciosa e humilde. Mas à medida que a sua história desenrola, com mensagens do Arcanjo Gabriel e as hostes celestes a proclamar a glória de Deus na pequena Belém, reconhecemos que não se trata de uma família normal. Rodeados de uma fortaleza angélica impenetrável, que recorda Eliseu, Maria e José erguem-se em desafio aberto aos poderes do mundo. Eles não serão intimidados, nem por todos os soldados ou todas as espadas do mundo.

E assim foi com o baptismo desta criança paquistanesa. Um “sinal de contradição” semelhante à do menino Jesus. Tal como a apresentação de Cristo no Templo, o seu baptismo é um verdadeiro sinal da fé e fidelidade da sua família a Cristo. Estão em Banguecoque, a milhares de quilómetros de casa, porque se recusaram submeter às exigências de extremistas muçulmanos que os ameaçaram com conversão ou subjugação.

O baptismo em público desta menina recém-nascida, com polícias tailandeses a poucos quarteirões, é um acto confiante e rebelde de piedade cristã. Que proclama a todos os que procuram extinguir o Evangelho e os seus aderentes: “Não terão os nossos corpos, nem as nossas almas”. Esta menina, dizem eles, com uma santa arrogância, pertence a Cristo. Agora, revestida de rectidão e cheia do Espírito Santo, ela carrega mais poder do que todas as autoridades da terra. É, à sua própria maneira, “uma luz de revelação aos gentios”, tal como foi o Cristo menino.

Católicos paquistaneses na Tailândia
Não é que estas sejam circunstâncias que alguém deseja para si mesmo. Os pais de Jesus provavelmente não queriam ir até Belém, com Maria grávida de nove meses já antes da partida de Nazaré. Certamente teriam preferido não ter de fugir de Herodes, deixando as suas terras por um Egipto desconhecido. Mas uma vez e outra Deus utilizou o seu sofrimento como um meio para um fim muito maior e inesperado: “Do Egipto chamei o meu filho”.

Tal e qual com os meus amigos paquistaneses: Eles preferiam não ter de abandonar Karachi. Têm pouco interesse em fazer de Banguecoque a sua casa permanente. Mas aqui estão eles, pela Graça de Deus. O que torna a sua experiência tão espiritualmente potente é a sua fé inabalável de que Deus está com eles, que não os abandonará e de que está a cumprir os seus propósitos no meio daquilo que parecem ser as piores circunstâncias. Esta é, parece-me, a chave para compreender o Advento e o verdadeiro peso do Natal.

Mas não estamos perante super-heróis de outro munto, existindo numa qualquer realidade etérea, acima da nossa. As suas alegrias e os seus desafios diários são os mesmos que os nossos. Depois do baptizado, um membro da família com cinco anos arranca a correr pelo corredor central da Igreja, até que o seu pai o apanha e puxa para junto dele com uma fúria parental tão familiar: “Não corras aqui dentro! Seu mal-educado!”

A sua coragem pode ser transcendental, as suas dificuldades particulares excepcionalmente amargas, mas a sua história mais geral de sofrimento e de esperança é a nossa, tal como a história de Natal é nossa. Todos esperamos um fim para a nossa caminhada, um lugar preparado por Deus onde seremos acolhidos pelo nosso Salvador para sempre.

Mas mesmo agora, aqui mesmo, temos motivo para celebrar. Todos nós cujo testemunho declara que por amor a Deus desprezámos até a própria vida, “mesmo até à morte”.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 27 de Dezembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Papa e Hitler: Notícias Falsas e Mentiras

George J. Marlin
Na sua mensagem de Natal “Urbi et Orbi”, no dia 24 de Dezembro de 1940, o Papa Pio XII condenou a Alemanha Nazi pelo seu “uso ilegal de forças destrutivas contra não-combatentes, fugitivos, idosos e crianças; um desprezo pela dignidade, liberdade e vida humana que dá lugar a actos que clamam a Deus por vingança…”

No dia de Natal, um editorial do New York Times reconheceu que “a ordem moral do Papa, numa palavra, está em total contradição com a de Hitler”.

Um ano mais tarde, o discurso de Natal do Santo Padre para o Colégio de Cardeais denunciou os nazis pela violação dos direitos das minorias. Não podia haver lugar, disse, para “(1) opressão aberta ou subtil das características culturais e linguísticas de minorias nacionais; (2) contradição das suas capacidades económicas; (3) limitação ou abolição da sua fecundidade natural”.

Mais uma vez o editorial do dia de Natal do New York Times não só aplaudiu as afirmações do Papa, mas declarou que “a voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolvem a Europa neste Natal… Ele é dos únicos líderes no continente europeu que ainda se atreve a erguer a voz sequer… Não deixou qualquer dúvida de que os objectivos dos nazis são também irreconciliáveis com a sua própria concepção de uma paz cristã”.

Na sua mensagem de Natal de 1942, afirmou: “A Igreja não seria verdadeira consigo mesma, deixaria de ser mãe, se fosse surda ao choro das crianças sofredoras, de todas as classes da família humana, que lhe chega aos ouvidos”. Exigiu que os opositores dos nazis jurassem solenemente “nunca descansar até que as legiões das almas corajosas de todos os povos e todas as nações se ergam, resolvidas a trazer a sociedade de volta para o seu centro de gravidade amovível na Lei Divina e se dediquem ao serviço da pessoa humana e de uma sociedade humana nobre e divina.” Este juramento, concluiu, devia ser feito em nome das vítimas da guerra, “as centenas de milhares que, sem qualquer culpa, mas apenas por causa da sua nação ou raça, foram condenadas à morte ou à extinção progressiva”.

Mais uma vez a direcção editorial do Times louvou o Papa: “Nenhuma homilia de Natal chega a mais gente que a mensagem que o Papa Pio XII endereça a um mundo devastado pela guerra nesta época. Este Natal, mais do que nunca, ele é uma voz solitária a clamar do silêncio de um continente. O púlpito de onde fala assemelha-se mais do que nunca à rocha sobre a qual a Igreja foi fundada, uma ilha minúscula fustigada e cercada por um mar em guerra”.

O editorial referiu ainda que o Papa não é um líder político, mas um “pregador, destinado a erguer-se acima da batalha, imparcialmente ligado… a todas as pessoas prontas a colaborar numa nova ordem que traga uma paz justa”. E concluiu, “o Papa Pio expressa com tanta paixão como qualquer outro líder do nosso lado os objectivos de guerra desta luta pela liberdade, quando diz que todos os que trabalham para construir um novo mundo devem lutar pela liberdade de escolha de Governo e de religião.”

Aquilo que acaba de ler não são “notícias falsas”. A verdade é que a Igreja foi uma opositora incansável de Hitler. O que é falso é a propaganda anticatólica que chegou primeiro dos soviéticos e mais recentemente de intelectuais.

Se mais provas fossem necessárias, o novo livro de Peter Bartley, “Catholics Confronting Hitler”, que é de muito fácil e agradável leitura, descreve os movimentos de resistência católicos e as operações de salvamento levados a cabo no Vaticano e em toda a Europa ocupada pelos nazis. Muitas vezes este trabalho foi feito em colaboração com judeus e protestantes.

Os católicos pagaram o preço pela sua resistência. Bispos foram exilados ou assassinados, padres e leigos detidos ou executados em campos de morte. Com a bênção do Papa, a hierarquia católica alemã denunciou repetidamente dos púlpitos o programa de eutanásia nazi, bem como o seu neopaganismo e anti-semitismo. Ajudaram e esconderam judeus e, em 1943, os bispos “emitiram uma declaração conjunta a lamentar o despejo e assassinato de judeus”.

Em França os jornais clandestinos escritos por jesuítas e aprovados pelo Papa expuseram os males dos nazis, em particular as teorias raciais, e encorajaram a resistência, inclusivamente contra o Governo fantoche de Vichy. Os núncios papais na Eslováquia, Hungria, Balcãs e países ocupados da Europa ocidental, fiéis às ordens do Papa, protestaram publicamente cada vez que os judeus eram detidos ou arrebanhados para serem deportados. Os seus actos causavam frequentemente atrasos e suspensão de ordens de deportação, permitindo a dezenas de milhares de judeus encontrar refúgio nas casas e edifícios da Igreja.

O futuro Papa São João XXIII era delegado apostólico na Turquia e na Grécia durante a guerra e salvou a vida a incontáveis judeus na Hungria, Eslováquia, Bulgária e Roménia. Salvou pelo menos 50 mil judeus, emitindo certificados de baptismo.

Para além destes esforços clandestinos, a Pontifícia Comissão de Assistência, criada pelo Papa Pio XII, distribuía comida, artigos médicos e roupa a centenas de milhares de pessoas desalojadas. O Gabinete de Informação do Vaticano, segundo Bartley, “permitiu a dois milhões de pessoas manterem-se em contacto com entes queridos, pessoas que se julgavam desaparecidas, presos de guerra e pessoas em campos de concentração”. Países amigos “tinham de exceder as suas quotas de refugiados judeus quando estes chegavam às suas fronteiras munidos de documentos assinados por oficiais do Vaticano”.

Estas respostas à opressão nazi levaram Albert Einstein a reconhecer que “só a Igreja Católica se opôs ao ataque hitleriano contra a liberdade”.

E em Setembro de 2008, numa conferência internacional, académicos judeus e rabinos disseram ao Papa Bento XVI que o Papa Pio XII tinha ajudado a salvar perto de um milhão de vidas judaicas.

Então porque é que persiste este mito sobre o “silêncio” da Igreja? Pela mesma razão que outros mitos anticatólicos se alojaram na nossa cultura. Neste caso não se trata apenas de “notícias falsas”. Porque quando os esforços heroicos de salvamento da Igreja são ignorados ou até mesmo transformados no seu contrário, estamos perante mentiras claras, motivadas pelo Pai da Mentira.  



George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016)

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Concerto de Natal e Fátima actual

Luz da Paz
A presidência da República e o Vaticano já confirmaram oficialmente a vinda do Papa Francisco a Portugal em Maio. Vem a 12 pela Alitália, parte a 13 pela TAP.

A propósito do centenário das aparições, os bispos portugueses emitiram esta sexta-feira um documento sobre a actualidade da mensagem de Fátima nos nossos dias.

Começa a época das mensagens de Natal dos bispos. Da Guarda vem uma condenação da eutanásia e de Évora um apelo aos bons exemplos. Em Évora encontra-se também a Luz da Paz, que agora viaja para Lisboa, onde será recebida por uma vigília pela paz, no Sábado.

Realiza-se amanhã e domingo o concerto de Natal dos movimentos de jovens católicos. É uma iniciativa que leva 11 anos seguidos, sempre com os fundos a reverter para instituições solidárias. Um exemplo a seguir e a apoiar.


Termino com um aviso. Amanhã celebra-se missa nos Jerónimos, às 12h, por alma do prelado do Opus Dei, Mons. Echevarria, que morreu na passada segunda-feira à noite.

Na próxima semana estou fora, e salvo alguma urgência apenas voltarei depois do Natal, pelo que me despeço com votos de um santo Natal para todos!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A Revolta dos Informáticos

"No, Trump! No!"
O Papa Francisco faz anos no sábado, hoje cantaram-lhe os parabéns antecipados e ele lembrou, na brincadeira, que na terra dele isso dá azar. Há um email para darem os parabéns a Francisco, e um hashtag. É só modernices!


Centenas de informáticos americanos estão a assinar uma carta aberta a recusar colaborar com a administração de Donald Trump no eventual registo de muçulmanos, ou expulsão em massa de “indesejáveis”.

Hoje é dia de Catholic Thing. Francis J. Beckwith escreve sobre a teoria que postula que a lei moral na realidade não existe, é só uma ilusão criada pelos nossos genes para facilitar a sua propagação… O que custa acreditar nisto? Demais, considera o autor.

Deixo-vos com duas recomendações. Corre uma petição para pedir que o aborto não seja um tema dado na educação sexual no segundo ciclo (crianças de 10 anos), que podem ler e assinar aqui, se assim entenderem.

E a paróquia da Estrela está a organizar uma série de catequeses para adultos. Três já foram, mas a quarta, intitulada “Deus ao Encontro do Homem”, decorre amanhã. Começa às 21h30 e dura uma hora. Estão todos desafiados! 

Deus, a Lei Moral e Perder o Juízo

Francis J. Beckwith
Este ano lectivo estou integrado no corpo docente da Universidade de Colorado, em Boulder, como professor convidado para 2016-2017 na cadeira de Pensamento e Política Conservadora. Uma das aulas que lecciono, “Filosofia e Religião”, aborda uma série de questões sobre a avaliação filosófica da crença religiosa, que normalmente são alvo de debate, incluindo sobre se a moralidade requer um Deus.

A leitura obrigatória para esta secção do curso inclui não só um capítulo do manual, mas também dois ensaios, um de C.S. Lewis (um excerto de “Mero Cristianismo”) e outro do filósofo Michael Ruse e do biólogo E. O. Wilson. Chama-se “A Evolução da Ética” e é um ensaio já bastante conhecido e usado frequentemente, que apareceu pela primeira vez na revista New Scientist, em 1985.

Ruse e Wilson defendem que o nosso sentido de moralidade, ou aquilo a que Lewis chama “a lei da natureza humana” pode ser inteiramente justificado pela evolução biológica e, por isso, é desnecessário afirmar que este está enraizado em Deus. Eles argumentam que a natureza nos equipou de certas disposições (ou “regras epigenéticas”) que nos predispõem a favorecer algumas acções em relação a outras, para poderemos passar mais eficientemente os nossos genes.

Assim, por exemplo, estamos predispostos a temer leões, a não gostar de incesto e a sermos altruístas. Dito de outra forma, ser a refeição de um animal, contribuir para a limitação do património genético ou não ajudar aqueles que nos são mais próximos, diminui a utilidade da busca dos nossos genes pela vida eterna.

Para Ruse e Wilson existe uma espécie de paradoxo nesta realidade: Para que o nosso “gene egoísta” possa chegar onde quer chegar deve residir dentro de um organismo que tenha desenvolvido disposições que o inclinam no sentido de fazer certas coisas e de não fazer outras – como por exemplo agir de forma altruísta ou resistir ao encanto de um safari – que à primeira vista não parecem ter nada de egoístas. Isto é, as nossas normas sociais derivam de um sentido partilhado de moralidade, que é ágil na sua habilidade de traçar um rumo entre os interesses comunitários e individuais, que todavia tem na sua raiz mecanismos puramente materiais e biológicos, ferozmente eficientes, e que são essencialmente “egoístas”.

Mas então porque é que parece, como argumenta C.S. Lewis, que de facto existe uma lei moral a que temos a obrigação de obedecer e que não foi por nós inventada? E uma vez que a ideia de uma lei moral implica a noção de um legislador, não devemos concluir que mesmo que a versão evolutiva nos conte a história biológica completa, há coisas que ficam por explicar?

Edward Wilson
Afinal de contas, mesmo que seja possível fazer um relato completo do cérebro humano do ponto de vista da evolução, porque é que devemos concluir que esse relato pode explicar tudo aquilo que o intelecto pensa que sabe e que não se pode reduzir meramente a matéria em movimento? Como por exemplo que isto não é um cérebro, ou que a beleza, os objectos abstractos e uma primeira causa para toda a existência são coisas que de facto existem?

Acreditamos verdadeiramente que ao explicar a torradeira também explicámos as torradas? (Claro que algumas pessoas, tais como Wilson e Ruse, negam a existência de coisas imateriais. Mas o que estou a tentar dizer é que não há nada na teoria evolutiva, per se, que sustente essa negação).

Para Ruse e Wilson existe uma resposta: “A moralidade, ou mais rigorosamente, a nossa crença na moralidade, é meramente uma adaptação criada para facilitar os nossos fins reprodutivos. Logo, a base da ética não assenta na vontade de Deus… Num sentido importante, a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar. Não está enraizada em nada exterior a nós. A ética é produzida pela evolução, mas não justificada por ela, porque, tal como a adaga de Macbeth, serve um propósito importante sem todavia existir em substância”.

Logo, para Ruse e Wilson, a crença comum de que existe uma lei moral é o resultado de uma partida que nos é pregada pelos nossos genes, pois o acreditar na existência de uma lei moral, mesmo que ela não exista de facto, contribui da melhor forma para o sucesso reprodutivo da raça humana. 

Que conclusões devemos tirar de tudo isto? Em primeiro lugar devemos elogiar Ruse e Wilson pela simplicidade e limpeza do seu argumento, que não está desprovido de elegância. Se partirmos, como eles fazem, da crença de que o materialismo filosófico é a visão correcta da realidade, então a sua posição tem muita força.

Mas isso também se aplica a outros projectos filosóficos que dependem daquilo a que chamamos “uma grande ideia”. Marx consegue explicar tudo através do prisma da luta de classes. Para Heraclitus não existem substâncias estáveis e para Parmenides nada muda. Nos nossos dias, certos movimentos sociais classificam tudo o que se distancia da sua mundovisão como ódio. Mas em todos estes casos, aquela grande ideia que explica tanta coisa, fá-lo à custa da desvalorização de tudo o que mina a sua plausibilidade.

Michael Ruse
Qual o preço da teoria de Ruse e Wilson? Devo confessar que não sou capaz de o pagar, pois implica desistir de tudo aquilo em que acreditamos. Pense nisto: Se a crença na lei moral pode ser atribuída inteiramente a um truque genético, porque não aplicar a mesma análise a todas as outras crenças que existem na nossa mente? Afinal de contas, a mesma mente que crê na lei moral mantém crenças sobre arte, literatura, ciência, filosofia, matemática e a existência dos outros.

Talvez estas crenças também não digam respeito a nada que seja real. Se “a ética como nós a compreendemos é uma ilusão que nos é imposta pelos nossos genes para nos levar a colaborar”, então talvez a arte, a literatura, a ciência, a filosofia, a matemática e a existência de outras pessoas, como as entendemos, sejam ilusões impostas pelos nossos genes com o mesmo objectivo.

Só posso falar por mim, mas abandonar a crença de que existe uma verdadeira lei moral não compensa o custo de perder o juízo.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

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Um muçulmano, um cristão e um judeu entram numa escola... Quem fica mais tempo?

No mundo os cristãos tendem a ter mais anos de estudo formal do que os muçulmanos, embora ambos fiquem bem atrás dos judeus. Já em Portugal são os muçulmanos que estudam mais que os cristãos, mas sempre atrás dos judeus… São os resultados de um novo estudo feito pela Pew Research Forum, que tem outros dados interessantes sobre este assunto.

O terrível atentado do passado domingo, contra a comunidade copta no Egipto, foi reivindicado pelo Estado Islâmico. Quem estiver surpreendido que ponha a mão no ar…

Terminou definitivamente a batalha por Alepo. Depois de anos de divisão, a cidade está agora inteiramente controlada pelo regime. Agora temem-se eventuais atrocidades cometidas pelas milícias pró-regime. Entretanto em Beja saiu-se à rua em manifestação pela paz nesta e noutras partes do mundo.

Os padres de Bragança-Miranda vão aprender a “comunicar Deus”.

Devido à minha ausência poderão não ter dado pelo artigo do The Catholic Thing de há duas semanas, em que David Warren pergunta o que seria se a Igreja fosse dirigida apenas por homens do calibre do Leão de Münster. Saiba porquê aqui…

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Papa escreve a ditador e telefona a colega

Mons. Javier Echeverria
Depois de várias folgas e um feriado, estou de regresso, na noite em que se soube da morte de Mons. Javier Echeverria, prelado do Opus Dei, aos 85 anos de idade.

Isto depois de um fim-de-semana triste, com um novo atentado no Egipto a matar dezenas de cristãos coptas. O Papa Francisco telefonou esta segunda-feira para o Papa Tawadros, dos coptas, para mostrar a sua solidariedade.

Também hoje o Papa Francisco fez chegar uma carta a Bashar al-Assad. Nela pede respeito pelos direitos humanos, mas a simples existência da carta recorda o facto de o Vaticano nunca ter abandonado o reconhecimento da legitimidade de Assad. Tudo isto no dia em que Alepo foi reconquistada pelo regime…

Anda meio mundo em alvoroço porque saiu um documentário em que o Papa diz que pensa que o seu pontificado vai ser curto. Ora essa frase não é nova, e mesmo que fosse, tirar daí ilações sobre uma eventual resignação em Março de 2017 (como ouvi alguém a dizer hoje, ressalvando que antes o Papa vai a Fátima em Maio…) parece-me abusivo.

Saíram novas indicações para a formação nos seminários. Entre outras coisas os seminaristas vão ter de aprender sobre o aquecimento global. Não é novidade, mas acabou por ser o centro da notícia, que a homossexualidade continua a ser um impedimento para a ordenação.

A semana passada publiquei no blog mais um artigo do The Catholic Thing em português.Leiam para saber como uma universidade feminina nos EUA proibiu qualquer representação de “Os Monólogos da Vagina” no seu campus. Porquê? Porque discrimina contra “mulheres que não têm vagina”. Bem-vindos ao fantástico mundo da ideologia do género!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Os Monólogos da Vagina Silenciados

Randall Smith
Há alguns anos várias universidades confessionais estiveram envolvidas em discussões sobre se deviam permitir a encenação a peça “Monólogos da Vagina”. Muitas delas – algumas das quais católicas – foram coagidas a permitir a peça controversa, com o argumento de que seria contra a “liberdade académica” não o fazer.  

Agora, porém, pelo menos uma universidade tomou a decisão ousada de banir a peça, mas talvez não pelas razões que esperaria. Mount Holyoke College, que se descreve como uma “universidade de artes liberais para mulheres” decidiu agora que a peça “não é suficientemente inclusiva”.

Então? Não é uma peça só sobre mulheres? Ao que parece, não, não é.

A verdade é que o conselho de estudantes de Mount Holyoke baniu a peça porque, “no seu cerne, o espectáculo oferece uma perspectiva muito limitada do que significa ser mulher”.

Poderá estar a pensar “Viva! Mas porque é que as mulheres haviam de ser reduzidas a uma parte do seu corpo. Não é precisamente disso que muitas delas já se queixam?”

Claro que sim, mas o problema não é esse. Acontece que Mount Holyoke baniu a peça porque exclui “mulheres” que – e não, não estou a inventar – não têm vagina.

Ah... Calma... O quê?

Uma manchete louvou a decisão de Mount Holyoke, dizendo que “Algumas universidades estão a ultrapassar a peça ‘cisnormativa’ Monólogos da Vagina, de Eve Ensler”.

Eve Ensler, a autora da peça, defendeu-se dizendo “Penso que é importante que se saiba que a minha intenção nunca foi escrever uma peça sobre o que significa ser mulher. Esse nunca foi o objectivo de ‘Os Monólogos da Vagina’”.

Ainda bem que isso ficou esclarecido. Afinal ela e os manifestantes católicos estão de acordo nesse ponto. Mas afinal de contas sobre o que é a peça?

“É uma peça”, explica Ensler, “sobre o que significa ter uma vagina.” (Então afinal sempre é sobre uma parte do corpo). “Nunca se disse, por exemplo, que a definição de mulher é alguém que tem uma vagina… Penso que essa distinção é muito importante… Temos de ter muito cuidado com o que dizemos quando utilizamos linguagem”.

Pois claro que sim. Muito, muito cuidado. Porque é cada vez mais claro que toda a gente tem um alvo nas costas hoje em dia, enquanto a elite intelectual joga o seu jogo interminável de superioridade ideológica, que passa por ver quem consegue ser superior ao próximo quando toca a indignação moralista por alegadas falhas na defesa escrupulosa da “ideologia do género”. E como eu não consigo imaginar qualquer situação em que não estejamos a “utilizar linguagem” – uma vez que usamos palavras para pensar – suponho que a solução seja ter sempre “muito cuidado” com o que se pensa. A “liberdade” moderna, como George Orwell já tinha previsto, requer que as pessoas estejam sempre à procura de provas de “crime de pensamento”.

A verdade é que não me interessa muito o que a Mount Holyoke faz ou deixa de fazer, nem acho que a cultura de um campus universitário deve ser julgado com base na participação ou não dos seus alunos nos “Monólogos da Vagina”, mas tenho duas preocupações.

A primeira é que aquilo que se está a perder neste caos linguístico são as próprias mulheres – mulheres verdadeiras, reais, com as suas necessidades específicas, algumas das quais biológicas. Enquanto homem não me cabe a mim dizê-lo, mas penso que as mulheres o deviam fazer.

Claro que uma mulher não se reduz ao seu corpo, mas requer um gnosticismo radical afirmar que o ser mulher – ou humano, já agora – não tem absolutamente nada a ver com a corporeidade. As questões de saúde femininas não são apenas emocionais, psicológicas ou culturais. Há realidades biológicas e físicas sérias, também.

Bruce Jenner
Mais ninguém está preocupado com o facto de haver pessoas a ocupar o território que devia ser exclusivo das mulheres? Não me parece nada claro que alguém como Bruce/Caitlyn Jenner tenha procurado aprender com mulheres sobre o que é ser mulher; antes, foram os media que o elevaram a “mulher do ano” no preciso momento em que alterou algumas (mas não todas) as partes do seu corpo.

Rachel Dolezal, que era branca, não pôde reclamar para si ser “negra”, apesar de ser muito dedicada à causa da justiça racial; mas Bruce Jenner foi nomeado “mulher do ano” porque acrescentou um par de maminhas falsas? Se isto não é reduzir a mulher a partes do seu corpo, então não sei!

As mulheres perdem meio litro de sangue todos os meses, carregam filhos nos seus ventres durante nove meses, suportam horas dolorosas de trabalho de parto e Bruce Jenner é a mulher do ano? Admito que não sou a pessoa mais inteligente do mundo, mas não percebo.

Questiono-me o que é que se vai passar ao longo dos próximos anos em áreas tão importantes como o desporto feminino, literatura feminina, ou até escolas e universidades femininas (como a Mount Holyoke, para dar apenas um exemplo óbvio)? Será que vão desaparecer por causa dos desejos e dos planos de certos – como é que posso dizer isto de forma delicada – homens? As mulheres atletas já começam a notar o potencial do problema.

Desculpem lá, mas isto é uma coisa que me preocupa, mesmo que não tenha nada a ver com isso, por ser aquele tipo de homem que não é uma mulher.

Mas há outra coisa que me preocupa também. Quando os católicos se queixaram que “Os Monólogos da Vagina” violava os seus princípios fundamentais, foram classificados como trogloditas. A “liberdade académica” tinha de triunfar. Agora que um grupo conseguiu posicionar-se ainda mais à esquerda que qualquer outro, o que é que aconteceu a esse grito de “liberdade académica”? Era apenas uma arma de arremesso para utilizar contra os inimigos naquele momento?

Acontece que eu acredito verdadeiramente na “liberdade académica”. Mas se as pessoas se convencerem que ela se tornou apenas um instrumento ideológico e não uma posição de princípio, então vão tornar-se cínicas e, tal como aconteceu em “Pedro e o lobo”, deixarão de acudir quando for invocada.

E isso é o que me preocupa verdadeiramente, porque todos nos devemos preocupar com a existência de um diálogo livre e aberto.

Infelizmente, porém, há quem prefira monólogos – excepto quando até isso se torna ideologicamente suspeito.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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