sexta-feira, 31 de março de 2017

Bispos contra o Governo, de A a V

Judeus na Flandres: "Eles que comam bolo"
Os bispos de Angola publicaram uma nota pastoral em que dizem que o país precisa de um governo que se preocupe com todos e não apenas com uma elite privilegiada.

Na Venezuela os bispos também têm coisas a dizer ao Governo, nomeadamente que o país está a cair na ditadura

Na Bélgica não sei se os bispos falaram, mas espero que o façam, porque a Flandres quer proibir o abate de animais para consumo de acordo com regras religiosas. Por outras palavras, o Governo da Flandres quer que judeus e muçulmanos deixem de poder comer carne produzida localmente.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre fez um estudo e apurou que foram destruídas cerca de 12 mil casas de cristãos pelo Estado Islâmico, só na zona da Planície de Nínive. Mas o Estado Islâmico tem os dias contados na região. Em Mossul estão quase a ser derrotados, mas prometem vender cara a derrota.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Corrente de oração pelo Papa que reza por Mossul

R. R. Reno
O Papa recordou esta quarta-feira os civis que se encontram sitiados em Mossul.

Um padre de Évora teve a bonita ideia de criar uma “corrente de oração” pelo Papa Francisco. Conheçam aqui a iniciativa.

A conferência que moderei na sexta-feira passada no Meeting de Lisboa correu muito bem e agora os que não puderam estar presentes podem assistir a tudo, com calma, aqui. Divirtam-se!

Hoje temos um novo artigo do The Catholic Thing. O sempre divertido Randall Smith aponta duas falhas comuns nas escolas católicas. Há aquelas que são iguais às seculares, mas têm missa de vez em quando e há aquelas que são muito “ortodoxas” mas não ligam à qualidade do ensino. Há um caminho melhor, argumenta o autor. Um problema que preocupa também os pais católicos portugueses…

Recordo ainda a conferência amanhã de R. R. Reno na Faculdade de Direito da Universidade Nova, sala 007, às 18h30. Não percam!

Filipe Durão e Fúria

Podem assistir aqui à interessante conferência que moderei na sexta-feira dia 24 de Março, no Meeting de Lisboa, no Campo Pequeno.



E porque o Manuel Fúria estava doente e não cantou, podem ouvir aqui um dos seus mais recentes singles.



E como não podia deixar de ser... Bonus track!

A Importância da Educação Católica

Randall Smith
“Toma, pois, cuidado contigo! Guarda-te bem de esquecer os factos que os teus olhos viram; que eles nunca se afastem do teu coração em todos os dias da tua vida. Ensina-os aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos.” (Deuteronómio 5,9)

Há dois erros contrários, mas de igual gravidade, que são cometidos em relação à educação secundária católica. Ambos são bem-intencionados, mas são fatais para o futuro da Igreja.

O primeiro erro é tratar o colégio católico como se fosse uma escola pública mas com missa e depois começara a pensar nela como a maior parte das pessoas pensam sobre as escolas secundárias, como um meio para entrar numa “boa universidade”. Importa manter as notas altas, mas frequentemente essas notas estão dissociadas de qualquer capacidade real de fazer coisas como ler livros complexos, escrever prosa literária ou conseguir edificar um argumento consistente. “Manter as notas altas”, para quem pensa assim, tem mais a ver com pais e directores a dar na cabeça dos professores para aumentarem as notas e baixarem as expectativas do que com a aprendizagem real de matéria por parte dos alunos.

Algumas pessoas parecem acreditar que na universidade se dá uma espécie de transformação mágica. Que alunos aborrecidos por anos de educação de segunda categoria vão desabrochar miraculosamente no espaço de quatro anos. Eu sou professor universitário… Não vou dizer que isso nunca acontece, mas é um pouco como enviar o seu filho para a universidade na esperança de que aprenda a ser um jogador profissional de basquete. A maior parte dos jogadores, mesmo os que são mesmo muito bons, nunca passam das camadas universitárias e se não são verdadeiramente bons quando entram, é pouco provável que consigam melhorar num ambiente de mata ou morre. Os alunos que conseguem 12 no liceu raramente conseguem 20 na universidade.

Embora os defensores deste ponto de vista tendam a pensar que é bom os alunos irem à missa e confessar-se, raramente acreditam que as cadeiras de estudos religiosos valham muito tempo ou esforço. A substância da teologia, séculos de esforço intelectual de alto nível e profunda reflexão, conta para pouco, ao que parece. O que é mesmo importante é que o professor dessas matérias vá aos jogos e aos teatros, que apoie e que mostre que a teologia (Deus, a Igreja) se interessam.

Mas Deus livre esse mesmo professor de dar uma nota baixa que ameace as perspectivas de um filho ou de uma filha entrar numa “universidade de topo”. Não há fúria como a de um progenitor cujas esperanças de uma bolsa são prejudicadas por uma nota baixa em… teologia. É como não entrar em Harvard por causa de uma nota baixa em tricot. A indignidade! O absurdo!

Um erro menos comum (e contrário ao primeiro, mas de uma forma que o reforça) é cometido pelas pessoas que não querem saber da formação intelectual dos alunos, desde que a escola os “conduza ao Céu”. Desde que haja missa e confissões e o padre lhes pareça ortodoxo, tudo está bem. Raramente perguntam se os alunos estão de facto a aprender alguma coisa, se alguém está a conseguir ultrapassar as barreiras de cinismo adolescente e o barulho ensurdecedor da cultura, se estão a aprender a viver como cristãos católicos por desejo e desígnio, e não apenas por defeito. Se a escola se anuncia como “ortodoxa”, então está tudo bem.

Nem uns nem outros parecem interessar-se particularmente por uma educação distintivamente católica: a busca sistemática e profunda por uma compreensão da fé que inspirou séculos de grandes mentes, desde Justino Mártir a Agostinho, João Crisóstomo, Tomás de Aquino, Boaventura, Dante, Teresa de Ávila, Newman, Pieper, Chesterton e o Papa São João Paulo Magno. Foi a fé na unidade última da verdade que levou à criação, na Idade Média, dessa venerável instituição, a universidade. Séculos das mais profundas reflexões sobre a condição humana, na maior parte relegadas a prateleiras empoeiradas em troca de abraços, equipas desportivas, ciência, tecnologia, engenharia e matemática e mais uma assembleia sobre a ética sexual.

Claro que nenhuma destas coisas tem mal em si, mas quando levamos com miúdos na universidade que lêem e escrevem ao nível de miúdos do sexto ou do sétimo ano (não mais do que cinco páginas de leitura para trabalhos de casa e não mais do que duas ou três frases interligadas numa redacção); que sabem pouco mais sobre a sua religião do que o facto de que a Igreja Católica é contra o aborto e o sexo antes do casamento; que não sabem o que é o Pentecostes ou quem foram Abraão, Isaac e Jacob (isto é frequente); e que não só nunca leram Dante, Chesterton ou Newman como não fazem a menor ideia quem eles são, então desconfiamos que talvez alguém tenha as prioridades erradas.

O arcebispo Fulton Sheen foi uma das grandes luzes da última geração. Ele tentou partilhar com os leigos fiéis a riqueza da tradição intelectual católica, com discussões frequentes sobre Descartes, Pascal, Agostinho, Tomás de Aquino e muitos outros, para poder instruir os simples operários católicos e donas de casa que viam o seu programa de televisão. Acreditava claramente que esta era a melhor forma de ajudar os católicos a tornar a sua fé uma realidade viva por entre as complexidades do mundo moderno.

As pessoas que beneficiam de altos níveis de educação secular e enfrentam os desafios de uma cultura social e política complexa precisam de ter uma boa compreensão da sua fé. Caso contrário essa fé vai parecer-lhes infantil e tornar-se letra morta, uma casca vazia. Catolicismo sem convicção.

Quando é que as escolas católicas voltam a confiar, como o arcebispo Fulton Sheen, na inteligência dos fiéis leigos, ao ponto de poder deitar fora o lixo aborrecedor que actualmente traficam e dar aos jovens uma formação a sério? Nem cem páginas de um manual de teologia moderno valerão alguma vez uma única página das “Confissões” de Agostinho, da “Noite Escura da Alma” de São João da Cruz ou do Evangelho de João.

Esta educação é a herança dos nossos filhos. Só um tolo a trocaria por um prato de lentilhas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 29 de Março de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Reno em Portugal e traidores mexicanos

Clicar para aumentar
Começo com um convite. Vem a Portugal o fundador da revista e site First Things. R.R. Reno é uma figura de renome nos EUA, sobretudo no que diz respeito ao papel da religião na vida pública e política. Vai proferir uma conferência na quinta-feira, às 18h30 na Nova de Campolide. O convite está na imagem, não percam!


Portugal vai-se preparando para a vinda do Papa a Fátima. Já está feito o plano de contingência de saúde e de “situações de excepção”.

É possível conciliar a vida profissional e pessoal? Jovens empresários cristãos querem saber…

O Patriarcado tem uma aplicação para potenciar o turismo religioso.

As missões universitárias são um exemplo que pode ser seguido na Europa, considera o padre Duarte da Cunha. Caso será apresentado nestes dias em Barcelona.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Martos ao altar e Santo Sepulcro instável

A notícia do dia é, claro, o facto de o Papa ter aprovado o milagre que permite a canonização de Francisco e Jacinta, os pastorinhos de Fátima. A irmã Ângela Coelho, postuladora da causa, está naturalmente satisfeita, mas diz que cabe agora ao Papa decidir a data e o local da cerimónia oficial.

Já o bispo de Fátima, D. António Marto, diz que foi apanhado de surpresa pelo anúncio oficial hoje e D. Manuel Clemente diz que este milagre é “um grande sinal que Deus nos dá”.

Podem ver aqui uma fantástica fotogaleria com imagens raras dos pastorinhos.

Ontem foi revelado o restauro do túmulo de Jesus Cristo, mas soube-se também que toda a estrutura da Igreja do Santo Sepulcro precisa de uma intervenção. O relatório dos especialistas é preocupante.

O atentado de ontem em Londres foi reivindicado pelo Estado Islâmico e o autor foi finalmente identificado oficialmente, bem como os nomes e as idades das suas vítimas. Hoje houve outro incidente em Antuérpia, mas não é 100% claro que tenha sido atentado.


E não se esqueçam que amanhã temos programa no Campo Pequeno, com café concerto de Maria Durão e Manuel Fúria, moderado por mim. É às 22h, entrada livre.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Atentado em Londres e multi quê?

Houve um atentado terrorista esta tarde em Londres. O incidente já acabou mas ainda se estão a juntar as peças para perceber exactamente o que é que aconteceu. Aqui temos toda a informação e aqui o acompanhamento ao minuto.

O Papa disse esta quarta-feira que a crise dos refugiados é a pior tragédia desde a II Guerra Mundial. Ontem recordou que a experiência da Igreja não é igual a um “flashmob”.


A minha colega Ângela Roque tem aqui uma entrevista interessante com duas médicas que estão na Guiné com os missionários da Consolata. Uma delas é agnóstica mas com os missionários aprendeu que a Igreja é “bem mais do que um lugar de culto”.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é de Anthony Esolen, que se orgulha em pertencer à instituição mais multicultural do mundo, a Igreja, mas se envergonha de pertencer à instituição que mais luta contra a cultura, a comunidade académica. Leiam que vale a pena.

Recordo que na sexta-feira haverá um café concerto no “Meeting de Lisboa”, no Campo Pequeno. Eu modero, os músicos Manuel Fúria e Maria Durão cantam e falam. Vai valer muito a pena, ambos são do maior interesse. Apareçam!

Que “multi”? Que “cultura”?

Anthony Esolen
É com orgulho que pertenço à instituição mais multicultural da história do mundo, de longe: Sou católico romano. E é com vergonha que pertenço a uma instituição que parece determinada a destruir aquilo que existe de verdadeiramente cultural na vida moderna: Sou professor universitário. A combinação dota-me de uma série infindável de perguntas que mais ninguém se preocupa em fazer.

Comecemos com o termo “multicultural”. A Igreja tem-no sido desde a sua criação. Lemos nos Actos dos Apóstolos que os seguidores de Jesus que vinham da diáspora judaica – os judeus helénicos, de língua grega – nem sempre eram bem acolhidos pelos que tinham vivido toda a vida na Palestina e que, presumivelmente, falavam aramaico. Foi preciso resolver esse conflito, mas reacendeu-se de forma ainda mais dramática quando São Paulo foi para Jerusalém para interceder não pelos judeus helénicos, mas pelos gregos helénicos, isto é gregos que tinham chegado a Cristo mas que nunca tinham sido judeus, e por isso não tinham seguido os preceitos litúrgicos e civis da Lei de Moisés.

A longa história da actividade missionária da Igreja seguiu o caminho aberto por São Paulo, que sabia que sem Cristo o homem estava perdido, mas também teve o cuidado de não transmitir a fé como se fosse uma série de hábitos culturais. A revelação de Deus, embora insuficiente para a salvação, é dada a todas as pessoas; por isso Paulo podia ser grego entre os gregos, tal como Matteo Ricci podia tornar-se mandarim para pregar aos mandarins na China.

Não pretendo com isto dizer que toda a gente devia ser multicultural. A principal mensagem cultural de Deus para os hebreus do Antigo Testamento é precisamente de que não devem ser como os seus vizinhos. Não deviam obrigar os seus filhos a passar pelo fogo de Moloch. Não deviam frequentar as bancas de Aserá nem participar na prostituição ritual com mulheres e rapazes. Não deviam chorar a morte anual do deus da fertilidade Tamuz.

Os judeus deviam ser judeus, e não pagãos que cantam um salmo de vez em quando. A festa das Luzes, o Hanucá, celebra a purificação e re-dedicação do Templo depois de os ocupadores gregos terem colocado uma estátua de Zeus – a abominação da desolação – no Santo dos Santos, e contra os colaboracionistas judaicos que encontravam formas de conviver com os esses cosmopolitas sofisticados.

Judas “o Martelo”, estava bem dentro da longa tradição de profetas intransigentes. Ele e Ezequiel haveriam de se ter entendido bem. Só na fidelidade a Deus é que os judeus, o povo escolhido, podiam cumprir o seu papel de levar a palavra de Deus às nações.

Uma pessoa sozinha pode ser multicultural, mas não é fácil e é menos comum hoje em dia do que era na Idade Média, quando um rapaz chamado Tomás, cuja língua mãe era italiano napolitano, podia viajar para Colónia para ter aulas de Latim com um mestre chamado Alberto, cuja língua mãe era alemão, e depois partir para Paris, para dar aulas numa cidade onde as pessoas falavam francês, convivendo com estudantes e mestres que vinham de toda a Europa, professando um Cristianismo carregado de aspectos de culturas locais, desde Trondheim a Messina.

Para se ser multicultural é preciso estar inteiramente à vontade com mais do que uma cultura e isso implica, normalmente, que é preciso falar fluentemente mais do que uma língua. Para além disso, deve-se possuir pelo menos duas arcas de tesouro de histórias e cantigas imemoriais; deve poder cantar sobre Davy Crocket e Simon Bolivar; terá entre os seus amigos os amantes de Manzoni e os Cavaleiros da Távola Redonda dos romances franceses; estará familiarizado com Bach e com as melodias tradicionais pentatónicas dos chineses. Não são coisas nas quais consegue meter um dedo, como um turista que se banha no Mediterrâneo. Serão a sua herança.

Posto nestes termos, poderá ver que nem um aluno em cem, talvez nem um em mil, pode dizer que possui sequer algumas das riquezas de mais do que uma cultura. Não é por qualquer falha pessoal. É porque a própria cultura, aquela coisa sobre a qual estamos supostamente a falar, está a desaparecer da face da terra e a ser substituída por uma coisa nova na história da humanidade, a que Gabriel Marcel chamou “Sociedade de Massas”, uma sociedade manufacturada pela educação massificada, inflamada pela política massificada e entretida pelo entretenimento em massa.

Por isso o estudante americano típico vem para a universidade e nem reconhece o nome de Alfred Tennyson (pense nisso um bocadinho); e o típico aluno hispano-americano vem para a universidade e não reconhece o nome de Tennyson nem de Lope de Veja. Não se pode ser multicultural quando não se pertence a cultura nenhuma.

Nesta fase, com os bárbaros de Wall Street, Hollywood, Washington e Bruxelas às portas de cada reduto de cultura local, linguística e nacional, o que é que a comunidade académica faz? Bem, faz aquilo que sempre fez, desde que me conheço: Rende-se.

Claro que reveste a sua traição com o vocabulário da respeitabilidade intelectual, mas quem não está interessado em Chretien de Troyes também não terá interesse na Senhora Murosaki. As pessoas que não ficam escandalizadas quando um anglófono com formação universitária não sabe nada sobre Milton – porque eles próprios, os professores, não sabem nada de Milton – não se vão escandalizar quando um francófono com formação universitária admite que não sabe nada de Racine.

A única instituição que ainda existe que pode defender a beleza e bondade da cultura é a Igreja. É nela que as culturas do mundo têm alguma hipótese de sobrevivência. Talvez isso explique porque é que a comunidade académica é tão hostil para com a Igreja. Os profissionais não gostam de ser ultrapassados pelo “amador”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Março de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Papa com costa e consolo sul-sudanês

Neil Gorsuch
Já se sabe o programa completo da visita do Papa a Fátima. Vai haver encontro com António Costa.

Daqui a uns meses Francisco vai fazer outra viagem, para o Sudão do Sul. Uma viagem de risco mas que tem de fazer “nem que seja para consolar o povo”, diz um missionário português que esteve sete anos naquele país. Uma entrevista mesmo interessante que não devem perder.

E ainda o Papa, e ainda África… Francisco recebeu hoje o presidente do Ruanda, tendo lamentado a participação de líderes católicos no genocídio.

Qual é o miúdo que não gosta de fazer directas? Estes não são excepção, mas fazem-na por razões diferentes.

Nos Estados Unidos já começou um dos momentos mais importantes da presidência de Trump, as audições ao candidato a juiz do Supremo Tribunal. Clique e leia para saber como isto pode mesmo ser fundamental.

Tirem as agendas e marquem a próxima sexta-feira. Nessa noite, a partir das 22h, estarei no Meeting de Lisboa, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação, a moderar uma conversa sobre música com Manuel Fúria e com Maria Durão. Vou mandando mais lembranças ao longo da semana. Apareçam!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Elder Jackie Chan? Temos pena

É só sorrisos até que alguém saca de uma arma...
Começo por vos convidar a ver esta notícia de um assalto que correu muito mal – para os assaltantes. Da próxima vez que virem um missionário mórmon na rua sorriam, mas não o provoquem!

O bispo da Guarda esteve de visita a Angola, onde uma missão por ele iniciada educa 350 crianças. Em breve serão 400.

Duas notícias de abusos de menores. A Igreja Anglicana da Austrália recebeu mais de 1.100 queixas de abusos no espaço de 35 anos, revela a mesma comissão que já analisou a Igreja Católica no mesmo âmbito. Já em Portugal, o padre do Fundão que foi condenado por abusos viu a sua pena confirmada peloSupremo Tribunal.

Os seguidores do Estado Islâmico na Índia têm um novo alvo. É o Taj Mahal, ironicamente considerada uma das jóias da arte islâmica naquele país.

Por falar em Islão, o artigo desta semana do The Catholic Thing tem palavras duras sobre esta religião. Escolhi e traduzi-o para esta semana não porque concordo com tudo o que o autor diz, mas porque concordo com a sua mensagem central. Há que olhar de frente o problema e assumir que há um problema com o Islão que os muçulmanos precisam de abordar.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Marcelo omnipresente e Nossa Senhora de Fátima dos chineses

A Europa está a caminho de uma guerra religiosa. Quem o diz é o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia. Como eles adoraram meter-se na guerra da Síria, deve saber alguma coisa sobre o assunto.

O Papa diz que é um pecado “gravíssimo” tirar trabalho às pessoas. Fê-lo ontem, no mesmo dia em que foi saudado, com grande emoção, por um grupo de peregrinos chineses com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.

O dinheiro que Francisco ofereceu a Alepo a semana passada vai ser usado para ajudar jovens que optam por constituir família, apesar da crise que a região atravessa.

Ontem foi o lançamento do novo livro de Aura Miguel “Conversas em Altos Voos” com o Papa Francisco. É uma obra que todos farão bem em ler! O Presidente da República, Marcelo “omnipresente” Rebelo de Sousa, apareceu inesperadamente e ainda interveio, agradecendo à jornalista este seu trabalho.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Deixemos de Brincar ao “Faz de Conta” com o Islão

Nota prévia: Nem sempre concordo a 100% com os artigos que aqui publico. Neste em particular, discordo de algumas das conclusões do autor. Contudo, o seu ponto principal, de que é preciso enfrentar o problema que existe no islão e deixar de fingir que este não existe, parece-me fundamental e é algo que também digo há muito tempo. Daí ter traduzido e publicado para esta semana.
Filipe d'Avillez

William Kilpatrick
É lamentável que o tenente-general William McMaster, o novo Conselheiro do Presidente Trump para assuntos de Segurança Nacional, tenha dito que o Estado Islâmico é “não islâmico”. Insistiu também que organizações como o Estado Islâmico “utilizam cinicamente interpretações perversas da religião para incitar ao ódio e justificar crueldade horrenda contra inocentes”. Em suma, ao que parece, o general considera que o terrorismo não tem nada a ver com o islão.

Este era o pensamento dominante durante a administração de Obama. E ao longo desses oito anos a ameaça islâmica aumentou exponencialmente. Seria uma pena se uma figura chave da nova equipa de Segurança Nacional perpetuasse tais visões simplistas do terrorismo islâmico.

Muitos dos líderes eclesiais têm visões semelhantes. Ao longo dos últimos quatro anos temos ouvido uma série de pronunciamentos que indicam que existe um sólido muro que separa o islão da violência.

Aparentemente há quem acredite nestas balelas. Outros talvez as vejam como uma boa estratégia, uma forma de fortalecer o “islão moderado”. Os estrategas gostam de afirmar que a crítica do islão acaba por conduzir os moderados para o campo dos radicais. Deste ponto de vista, a única forma de promover a mudança no islão é elogiando-o, na esperança de que isso leve a bom porto.  

Mas não é uma grande estratégia. Na realidade, dá vantagem aos radicais. É que se toda a gente, desde os conselheiros para a segurança nacional até ao Papa, diz que o islão está lindamente como está, então não há qualquer incentivo para mudar. Se não existe qualquer problema com o islão, mas apenas com grupos extremistas “não islâmicos”, estamos a cortar as pernas aos reformadores muçulmanos. Ser um muçulmano moderado já é difícil, porque é que os reformadores hão-de arriscar a pele, sabendo que não terão qualquer apoio de não muçulmanos proeminentes? E porque é que os restantes muçulmanos os hão-de escutar, se tudo está bem como está? Esta estratégia é que afasta os muçulmanos dos moderados e dos reformadores e os conduz para os braços dos imãs radicais.

Partimos do princípio que as mesquitas, as escolas islâmicas e os imãs terão um efeito moderador sobre os muçulmanos, mas a verdade é outra. Cinco estudos independentes (quatro nos Estados Unidos e um no Canadá) revelam que cerca de 80% das mesquitas promovem posições extremistas. A maioria mal pode ser considerada moderada. Por exemplo, quando o Movimento de Reforma Muçulmana enviou uma carta a mais de três mil mesquitas americanas em busca de apoio, receberam apenas quarenta respostas e dessas apenas nove eram positivas, segundo o seu líder Zuhdi Jasser. Talvez tenham visto Jasser na televisão, é a encarnação da moderação e da razoabilidade. Mas a maioria dos líderes muçulmanos não quer ter nada com ele. Aparentemente, eles não acham que exista qualquer razão para reforma.

Noutros países, como já sabemos, as mesquitas são frequentemente locais de recrutamento e radicalização. Às vezes até servem como depósitos de armas. Quando acontece um ataque terrorista em solo islâmico as autoridades respondem fazendo rusgas e fechando mesquitas. Até alguns países ocidentais “iluminados” adoptaram a política de “cherchez la mosquée”. Depois de ataques terroristas tanto França como a Alemanha têm levado a cabo numerosas rusgas a mesquitas.

Por isso quando os líderes católicos afirmam existir uma equivalência entre o cristianismo e o islão – como fazem frequentemente – estão a encorajar os muçulmanos a buscar sentido numa fé que encontra o seu sentido na jihad. O Papa Francisco chegou a dizer a um grupo de migrantes que poderiam encontrar orientações nos seus textos sagrados – a Bíblia para os cristãos e o Alcorão para os muçulmanos. Mas este tipo de conselhos apenas empurra os muçulmanos para os braços de um fundamentalismo que o Papa acredita que é defendido por poucos.

De acordo com a definição ocidental de “fundamentalismo”, o islão é uma religião fundamentalista. A maioria dos muçulmanos lê o Alcorão de forma literal e é assim mesmo que os seus imãs dizem que deve ser feito.

Mas se estamos verdadeiramente interessados em ver o islão virar-se para um caminho moderado, então temos de deixar de o mimar e começar a criticar. Como escreve a ex-muçulmana Nonie Darwish, “o Ocidente não está a fazer favor algum aos muçulmanos, tratando-os como crianças que devem ser escudadas da realidade.”

A realidade é que há mesmo algo de errado com as duríssimas leis islâmicas contra a blasfémia e a apostasia, o tratamento das mulheres, crianças e minorias, entre muitas outras coisas, incluindo o apelo à jihad.

Chegou a hora de deixar de brincar ao “faz de conta”. As nações islâmicas não vão resolver estes problemas enquanto as nações não-islâmicas e os líderes das igrejas não as pressionarem. A Arábia Saudita só aboliu formalmente a escravatura em 1962 por causa da intensa pressão ocidental.

Porquê? Porque, como muitos observadores já afirmaram, as sociedades islâmicas não são dadas à introspecção. Raphael Patai, autor do livro “A Mente Árabe”, sugere que a crença islâmica no destino ou na predestinação leva a uma “desinclinação para fazer esforços para mudar ou melhorar as coisas”.

Quando os líderes ocidentais dizem aos muçulmanos que a sua religião merece muito respeito isso pode ser bom para a auto-estima e fazer com que os ocidentais se sintam tolerantes, mas não os encoraja a ver que há algo de errado. Em vez disso devíamos estar a dizer aos muçulmanos, da forma mais diplomática possível, que muitos dos aspectos da sua fé são profundamente perturbadores e que enquanto não fizerem nada sobre o assunto teremos de considerar medidas severas, como interromper o diálogo (no que diz respeito à Igreja) ou retirar ajuda externa, aplicar sanções ou desinvestir (no que diz respeito a governos e empresas).

No mínimo, devíamos fechar as nossas portas à imigração dos estados islâmicos mais problemáticos. Algumas pessoas advertem que tal proibição apenas aumentará o ódio dos muçulmanos pelo Ocidente. Talvez isso aconteça com alguns muçulmanos. Mas uma posição firme e decisiva poderá também levar muitos a pensar duas vezes sobre o islão.

O menino mimado só começa a questionar-se quando os outros meninos deixam de brincar com ele. Depois do 11 de Setembro muitos americanos perguntaram “Porque é que nos odeiam?”. Por outras palavras, “O que é que fizemos de errado?”. Chegou a altura de o mundo muçulmano começar a fazer a mesma pergunta. Mas nunca o fará enquanto o Ocidente mantiver a sua posição de que está tudo bem com o islão.


William Kilpatrick é autor do livro “Christianity, Islam and Atheism: The Struggle for the Soul of the West” e de “The Politically Incorrect Guide to Jihad”. Para mais informação sobre a sua obra visitem o site The Turning Point Project.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 9 de Março de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

terça-feira, 14 de março de 2017

Véus, Wilders e elefantes

Geert Wilders
O Tribunal de Justiça da União Europeia decretou esta terça-feira que uma empresa pode, em alguns casos, proibir os seus funcionários de utilizar símbolos políticos, religiosos ou filosóficos. A sentença diz respeito a duas mulheres despedidas por usar véu islâmico, mas há diferenças entre as duas situações que vale a pena conhecer e temos aopinião de Paulo Nunes de Almeida, da Associação Empresarial de Portugal que merece atenção também.

Tudo isto acontece na véspera das eleições na Holanda, em que Geert Wilders, o “político 100% anti-islão” está em segundo lugar nas sondagens…

Vejam também a entrevista a Rui Ramos, o historiador que considera que Fátima é o “elefante na sala” que ainda não foi colocado na narrativa histórica da maneira que merece.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Quatro anos de Francisco, de Roma a Cintra

Faz hoje quatro anos que foi eleito o Papa Francisco.

Para assinalar a data a minha colega Matilde fez uma lista de 10 pessoas ou povos que foram afectados pelo seu pontificado, desde o jovem evangélico do Brasil ao Jeb Bush.

É já esta quarta-feira que é lançado o livro de Aura Miguel sobre as suas conversas com o Papa Francisco durante as viagens papais.


Os bispos do Canadá estão revoltados com o primeiro-ministro Trudeau por este ter prometido 450 milhões de euros para ajudar a abortar pessoas no mundo em desenvolvimento.

Durante os últimos dias falou-se muito da Cáritas de Lisboa. Ora D. Manuel Clemente saiu em defesa da instituição, o que é importante numa altura em que está prestes a começar o peditório anual.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Papa para a Colômbia, dinheiro para Alepo

Ainda não acabou a novela do apoio português à iniciativa “She Decides”. Depois de a secretária de Estado ter garantido que o apoio é só político, um movimento cívico quer ter acesso à documentação que o comprove.

O Papa deu uma entrevista ontem onde dá a entender que poderá ser possível, em alguns casos excepcionais, ordenar homens casados de virtude comprovada, ao mesmo tempo que diz que acabar com o celibato para a maioria dos padres não é solução para a crise de vocações.

Esta sexta-feira o Vaticano anunciou que o Papa vai visitar a Colômbia em Setembro e que em breve segue para Alepo um donativo de 100 mil euros para ajudar os mais pobres.

Atenção coleccionadores, os CTT anunciaram uma emissão filatélica alusiva aos cem anos das aparições e à visita do Papa Francisco a Fátima.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Vaticano quer dar voz às mulheres, e não por telemóvel

Não era bem isso que Francisco tinha em mente...
E se tratássemos a Bíblia como tratamos o telemóvel? A pergunta dá que pensar e é precisamente isso que o Papa quer que façamos.

Depois do enorme sucesso do movimento “Eu Acredito”, que reuniu jovens de várias organizações católicas na visita de Bento XVI em 2010, a iniciativa vai repetir-se com a visita de Francisco, em Maio. Saiba tudo aqui.

Por falar em visita do Papa, Francisco enviou esta semana uma mensagem para o Presidente Marcelo e para os portugueses. Conheça aqui.


Hoje é quarta-feira e por isso temos novo artigo do The Catholic Thing. Howard Kainz escreve – num estilo bem quaresmal – sobre os diferentes tipos de cruzes que existem e como podemos carregá-los.

Diferentes Tipos de Cruzes

Howard Kainz
Já várias vezes ouvi pessoas a falar das suas vidas e a dizer coisas do género “não mudaria nada, faria tudo igual”.

Fico sempre espantado com estas afirmações. Penso nas minhas experiências, nas listas e de prós e contras que fazia quando confrontado com grandes decisões (frequentemente com o mesmo número de prós e contras) e os arrependimentos que às vezes se seguiam aos meus erros e/ou pecados.

Quando rezo pelas Pobres Almas do Purgatório imagino-as a sofrer pelas consequências das suas más escolhas, talvez desejando poder voltar atrás para remediar esta ou aquela decisão. Mas infelizmente o tempo só flui para a frente, não se pode voltar atrás.

Sei que a minha forma de ver estes assuntos tem a ver com o meu temperamento. No livro “Variedades de Experiências Religiosas” William James explica que há dois tipos opostos de personalidade – os “nascidos uma vez” e os “nascidos segunda vez”. Os “nascidos uma vez” são os crentes que caminham ao longo daquilo que consideram ser um caminho recto, que estão geralmente satisfeitos com as suas vidas e não têm arrependimentos. Já os “nascidos duas vezes” são mais introvertidos, insatisfeitos com eles mesmos e/ou com o mundo, experimentando desejos conflituosos, chegando por vezes a uma experiência de conversão e “renascendo” para um estado de maior felicidade.

Em relação às cruzes – fardos nossos ou dos outros que temos de carregar – penso que existe uma divisão parecida:

1) Há muitos indivíduos que são inocentes mas que todavia são afectados por cruzes pesadas, como doenças genéticas, maus-tratos, rejeição devido a um desfiguramento ou impedimento de fala ou que são perseguidos por seguirem firmemente as suas consciências em vez da multidão.

2) No outro extremo há aqueles cujas cruzes são fruto das suas próprias acções: um recluso a cumprir uma longa pena por causa de uns breves momentos de paixão ou de vingança; uma mulher carrancuda, casada com um malandro alcoólico devido a uma paixoneta de juventude ou por ter dado o nó irreflectidamente; um homem ligado a um grupo de sócios corruptos por causa da ambição e da ganância da juventude; ou alguém de meia-idade a lidar com as debilidades de um corpo enfraquecido pelo abuso de drogas, álcool ou excesso de alimentação, etc.

Infelizmente os que encaixam neste grupo não podem propriamente perguntar “como é que Deus me fez isto?” ou “porque é que Deus me envia estas cruzes?”, porque sabem muito bem como é que chegaram a este ponto e que não podem voltar atrás para “dar o passo certo”.

Cruzes para todos os gostos
Mas tanto eles como nós podemos ter a certeza de que Deus está sempre disposto a ajudar-nos, seja pela reforma, pelo redireccionamento ou pela aceitação paciente. O simples reconhecimento do poço que cavámos para nós próprios pode ser um catalisador para a redenção e para a santidade. A lista de grandes santos que seguiram este caminho já vai longa.

Claro que a maior parte de nós encontra-se algures entre estes dois extremos.

Mas se nos fosse dado escolher as nossas cruzes, o melhor seria sempre optar pela que Jesus nos oferece: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt. 11,29). Mais especificamente, o tipo de cruz que o Senhor promete dar-nos, adequados às nossas fraquezas, que não se fazem acompanhar de ansiedade, ressentimento ou a sensação de futilidade, mas que dão descanso às nossas almas.

Carregar as cruzes pelas quais não somos responsáveis até pode traduzir-se em deleite, como quando os apóstolos regozijaram “por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus” (Actos 5,41); ou então na serenidade do “pequeno caminho” de Santa Teresa de Lisieux, aturando simplesmente as dores, doenças, irritações ou mesmo hostilidades do dia-a-dia, “oferecendo-as” a Deus.

Se não for assim tão inocente e estiver com vontade de fazer penitência pelos seus pecados, talvez a melhor abordagem seja aquela que foi dada por São João Baptista quando os pecadores lhe perguntaram o que deviam fazer, como lemos em Lucas 3, 12-14. Aos cobradores de impostos disse para cumprirem os seus deveres e não cobrarem demais; aos soldados disse para se satisfazerem com os seus ordenados, evitarem a extorsão e não acusar falsamente – por outras palavras, cumpram os vossos deveres, não utilizem força desnecessária e respeitem os outros. Não estamos perante actos dramáticos de penitência, mas apenas progressos diários e conscientes.

Estes conselhos foram repetidos à Irmã Lúcia dos Santos, a vidente de Fátima, que se tinha tornado freira e queria responder às questões que recebia sobre que género de penitência Deus estava a pedir para o Século XX. Em 1945 Nosso Senhor apareceu a Lúcia e clarificou: “O sacrifício que se pede a cada um é o cumprimento dos seus deveres na vida e a observância da Minha Lei. Esta é a penitência que procuro e quero”.

Não há como evitar as cruzes. Mas sejam elas o tipo que trazemos sobre nós mesmos ou os que não pedimos, o mais relevante para nós são os conselhos do Baptista e de Jesus, via Lúcia.

Se tivéssemos o privilégio de ver um panorama espiritual do mundo, provavelmente ficaríamos espantados com a quase infinita variedade de cruzes que existem, muitas merecidas, muitas imerecidas. Talvez compreendêssemos que as pessoas que estão em melhor posição para compreender as cruzes de outros são as que carregam cruzes semelhantes.

Talvez nos traga consolo ouvir um “eu compreendo” genérico, mas é diferente alguém dizer-nos “sim, já estive na mesma situação, nisso somos iguais”.

Também pode ser útil recordar que, na misteriosa economia da salvação cristã, os sofrimentos que suportamos podem, de alguma forma, assegurar a salvação de outros, provavelmente pessoas que nem conhecemos.

Seja como for, esperemos e esforcemo-nos durante esta Quaresma para que a maioria das nossas futuras cruzes sejam “feitas à medida” e não o género que criamos para nós mesmos por causa dos nossos erros.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 4 de Março de 2017)

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sexta-feira, 3 de março de 2017

She Decides e aborto? Nada a ver!!

Afinal o Governo português diz que não vai financiar organizações que praticam o aborto no estrangeiro. A secretária de Estado diz que o apoio ao programa “She Decides” é sobretudo político e nem percebe porque é que se parte do princípio que o She Decides é uma iniciativa pró-aborto… Leia e decida por si.

O Cardeal Sean O’Malley lamenta a demissão de Marie Collins da comissão sobre abusos de menores, elogia o seu trabalho e diz que a voz das vítimas de abusos vai continuar a ser escutada no Vaticano.


As Nações Unidas querem uma comissão de inquérito para investigar os atentados aos direitos humanos da minoria rohingya, na Birmânia.

Fica aqui um desafio a todos os que casaram em 2010 ou depois. Vai haver um retiro organizado pela pastoral da Família para casais novos, já nos dias 11 e 12 de Março. Mais informação aqui.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Cruzes carregadas a quatro braços

Entrámos novamente na Quaresma. Se não sabe o que é, ouça esta entrevista esclarecedora com o padre Vítor Gonçalves… Se souber, ouça na mesma.

Nesta época é tradicional os bispos divulgarem as causas às quais destinarão a renúncia quaresmal. Este ano o Sudão do Sul e os refugiados estão entre as principais prioridades. O Papa Francisco descreve a Quaresma como um “caminho de esperança” e D. Manuel Clemente fala da importância de “converter o olhar”.

Marie Collins demitiu-se da comissão que aconselha o Papa sobre como responder à crise de abusos sexuais na Igreja. Trata-se da única vítima de abusos que ainda restava na comissão e cita os constantes bloqueios por parte da Cúria Romana como razão para ter saído…

E voltando à Quaresma, temos esta semana um artigo de Randall Smith no The Catholic Thing em português. O autor recorda-nos que temos de pegar na nossa cruz e carregá-la, mas que ninguém nos diz que a temos de carregar sozinhos! Leia e inspire-se para esta caminhada quaresmal!

E este ano a Quaresma volta a coincidir com a campanha dos 40 dias de Oração pela Vida. Como sempre, são precisos voluntários para ir rezar. Só rezar, mais nada (como se fosse pouco). Toda a informação aqui.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Homem que Partilhou a Cruz

Randall Smith
Quando rezamos os mistérios dolorosos do terço, passamos imediatamente de “Jesus Carrega a Cruz” para a própria Crucifixão. Mas quando fazemos a Via Sacra, por exemplo, há vários passos intermédios, um dos quais é “Simão de Cirene carrega a Cruz de Jesus”. A história do cireneu aparece nos três evangelhos sinópticos – Mateus, Marcos e Lucas – mas não consta do Evangelho de João. Porquê?

Penso que podemos discernir aqui uma das razões pelas quais os Evangelhos nos dão, por vezes, narrativas diferentes de Jesus. Neste caso, obtemos duas perspectivas cruciais, que não são contraditórias, mas que nos ensinam, ambas, uma lição importante.

Vejamos o caso do Evangelho de João. João enfatiza que é unicamente através do Sacrifício de Jesus que somos salvos. É através da sua Crucifixão e Ressurreição que os nossos pecados são perdoados e temos acesso à vida eterna. Tudo isto bate certo com o que lemos em Isaías 53,5: “Mas foi ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas.” O enfoque aqui é aquilo que Deus feito homem fez por nós, a sua dádiva gratuita pela humanidade.

Quando estamos a atravessar períodos de dificuldade, podemos unir-nos a Cristo. Mesmo perante uma ameaça mortal, podemos dizer: “Tu, Senhor, conheces as minhas dificuldades e as minhas dores. Partilhaste delas. Tomaste-as sobre ti e carregaste-as, elevando-as acima de si mesmas. Aprendi contigo que estes tempos obscuros são as sementes da minha redenção. Posso ter fé nessa dura verdade porque tu não evitaste caminhar pelo caminho que agora me convidas a trilhar. Abraçaste inteiramente o sofrimento humano”. E assim o autor de Ben Sirá pode dizer-nos, com todo o seu ser:

Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a provação.
Endireita o teu coração e sê constante, não te perturbes no tempo do infortúnio.
Conserva-te unido a Ele e não te separes, para teres bom êxito no teu momento derradeiro.
Aceita tudo o que te acontecer e tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação, porque no fogo se prova o ouro e os eleitos de Deus, no cadinho da humilhação.
Nas doenças e na pobreza, confia nele.
Confia em Deus e Ele te salvará, endireita os teus caminhos e espera nele.
Confiança no Senhor Vós que temeis o Senhor, esperai na sua misericórdia, e não vos afasteis, para não cairdes. (Sir 2:1-7)

Tal como Cristo, devemos carregar a cruz. Mas temos de a carregar sozinhos? Quando nos unimos a Cristo e resolvemos carregar a cruz difícil e perigosa em “tempos de adversidade” e de “esmagador infortúnio”, devemos carregá-la sozinhos?

Esta é a importância da história de Simão de Cirene: Até Jesus teve ajuda a carregar a sua cruz. “Carregar a nossa cruz” não tem de ser entendido como um convite ao individualismo estoico. Embora seja verdade que ninguém pode carregar os nossos sofrimentos senão nós, a mensagem do Evangelho é de que não é necessário – aliás, nem deve – carregá-los sozinho. Em tempos de dificuldade, confiamos no amor e na fidelidade de Deus e dos outros: os médicos, advogados, conselheiros e amigos que podem tornar-se, como nós somos chamados a ser, instrumentos do amor de Deus e da sua graça salvífica.

Os católicos que aceitam a compreensão sacramental da Criação que a Igreja ensina não descartam a possibilidade de podermos colaborar com Deus. Olhamos para Deus como fonte de ajuda principal e sabemos que nada somos sem a sua Graça. E sabemos também que podemos olhar para os nossos próximos – amigos, vizinhos, conselheiros, especialistas – para ajudar a guiar-nos e a confortar-nos pelo caminho. Eles podem ajudar-nos a carregar a cruz naquelas alturas em que parece demasiado pesada, em que sentimos que simplesmente não podemos dar mais um passo.

Mas depois damos. De alguma maneira. Com alguém a apoiar-nos, alguém a carregar o nosso fardo e com Deus a segurar-nos aos dois nos seus amáveis braços.

Esta Quaresma peguemos na nossa cruz e carreguemo-la. Compreenderemos, ao fim de algum tempo, que não somos nós que carregamos a cruz; na verdade é ela que nos carrega a nós, purificando-nos dos nossos ídolos e das nossas ilusões, concedendo-nos maior sabedoria, tornando-nos verdadeiramente mais próximos de Cristo. Mas olhemos também para os outros cujos fardos podemos partilhar e com quem podemos partilhar os nossos. No final de contas, é isto que significa “Igreja” – sermos diferentes membros no Espírito do único Corpo de Cristo, crucificado e ressuscitado.

Unamo-nos a Cristo durante esta época bem-aventurada, para nos purificarmos e livrarmos de todos os ídolos impuros – a devoção à riqueza, ao poder, prazer, vaidade e incitamento ao pecado – e dêmo-nos mais inteiramente àquele que se deu a si mesmo em amor por nós, dando-nos em amor aos outros.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 1 de Março de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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