sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pedro diz a Marco que "os teus sofrimentos são os meus"

Hoje foi um dia histórico, com os líderes das três maiores comunhões cristãs a encontrarem-se no Cairo. O Papa Francisco teve um dia pleno de eventos, começando com um discurso na Universidade Al-Azhar, onde sublinhou que perante a violência e as crises no mundo, a religião não é o problema, mas parte da solução.

Depois Francisco fez um discurso diante do Presidente do Egipto, fazendo os maiores elogios ao país mas referindo muitas vezes os cristãos, o que deve ter sido muito consolador para eles.

Finalmente, encontrou-se com o Papa Tawadros dos coptas, tendo falado com grande emoção e intensidade sobre as ligações entre os dois, que datam até São Pedro e São Marcos e que hoje são fortalecidos pelo comum testemunho dos mártires.

Amanhã Francisco continua com a sua agenda, celebrando missa para a comunidade católica e encontrando-se com bispos e clero. Tudo acompanhado pela Renascença, tanto em antena como no liveblog criado para o efeito.

Morreu esta sexta-feira o padre Joaquim Carreira das Neves. O franciscano padre Albertino da Silva acompanhou-o de perto e o padre Tolentino conhecia-o bem e partilham as suas memórias, mas o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa também não quis deixar de lhe prestar homenagem.

De ontem temos a notícia de que o Governo vai conceder tolerância de ponto para a visita do Papa a Fátima em Maio. António Costa diz que seria insensível não o fazer.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Patriarca reeleito e encontro histórico no Egipto

Alvin Plantinga
D. Manuel Clemente foi hoje reeleito presidente da Conferência Episcopal. Houve muitas mexidas nas comissões episcopais, e D. Manuel diz que a sua prioridade será os jovens. Há ainda uma polémica em Beja, onde foi extinto o departamento de Património Histórico e Artístico da diocese…

O Papa Francisco viaja para o Egipto na sexta-feira. Ontem enviou uma mensagem vídeo para os egípcios e hoje temos dois artigos de análise da importância desta viagem:
E saiba também qual é a importância, e o difícil papel que desempenha, a Universidade de Al-Azhar, onde o Papa irá discursar.


Ontem foi anunciado o vencedor do prestigiado Prémio Templeton. Este ano o galardoado foi o filósofo Alvin Plantinga. Se não conhece, está em falta

Recentemente esteve em Portugal o influente católico americano R. R. Reno, editor do First Things, que me confessou achar que o Papa Francisco tem deixado a confusão “mais à vista” na Igreja Católica. Em breve terei a transcrição completa.

E para hoje, porque é quarta-feira, tenho o artigo do The Catholic Thing em que Randall Smith explica porque é que não faz sentido interpretar a passagem de São Mateus do “que o seu sangue caia sobre nós” como uma maldição sobre os judeus. Um excelente argumento que ecoa os feitos por Bento XVI na sua trilogia sobre Jesus de Nazaré.

“Que o seu sangue caia sobre nós!”

Randall Smith
De todas as leituras do tempo pascal, o que mais me perturba é a passagem de Mateus 25,27, quando a multidão clama “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Talvez valha a pena recordar que esta passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, que era judeu. Estará ele a invocar sobre o seu próprio povo uma maldição multisecular? Não me parece o caso. Este é um mal-entendido frequente, com consequências particularmente trágicas neste caso, mas que corresponde a um padrão comum.

Este “padrão” envolve pegar numa passagem que tem a ver com o sacrifício desinteresseiro de Cristo por toda a humanidade e interpretá-la de uma forma essencialmente pagã, como se Cristo fosse Zeus, ou Apolo.

Um exemplo clássico disto mesmo tem a ver com a forma como algumas pessoas interpretam Efésios 5,22-25, em que São Paulo estabelece uma analogia entre maridos e mulheres e Cristo e a Igreja. As mulheres estão para os seus maridos como a Igreja está para Cristo, e os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a Igreja.

Por alguma razão – e penso que isto tem tanto a ver com a nossa natureza pecaminosa como com maus hábitos de interpretação bíblica – algumas pessoas, sobretudo homens, pensam que isto significa que os maridos podem dominar as suas mulheres. Mas quando é que Cristo dominou a Igreja, se entendermos o domínio como é praticado por um Rei pagão? Cristo lavou os pés aos seus discípulos e disse que “quem quiser ser o primeiro deve servir os outros”. Por isso, no meu entender, quando um marido diz à sua mulher “eu sou como Cristo para ti” ela devia imediatamente tirar as meias e esticar o pé para que ele o lave.

Os deuses pagãos como Zeus e Apolo exigiam que os humanos lhes fizessem sacrifícios. O Deus cristão sacrifica-se inteiramente por nós e morre para perdoar os pecados até daqueles que o crucificam. O que é que pode levar alguém a virar isto ao contrário e, em vez de ver o comentário de São Paulo como um convite ao serviço, interpretá-lo como uma exigência de ser servido?

Seja o que for, não é saudável. E não tem nada a ver com a forma como Cristo se revelou nas Escrituras.

O que nos traz de volta ao comentário perturbador: “Que o seu sangue caia sobre nós”. Enquanto cristãos, em que é que acreditamos? Acreditamos que no sangue de Cristo somos curados e os nossos pecados perdoados. Na Eucaristia, o sangue e o corpo de Cristo são-nos oferecidos tal como foram aos primeiros apóstolos.

A recepção do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia é uma das formas mais poderosas que temos de participar na morte e ressurreição salvífica de Cristo e de receber os seus dons de graça divina. O que nos leva a virar esta bênção de pernas para o ar e entendê-la como uma maldição, quando a intenção de Mateus ao contar esta história é obviamente de dizer que aquilo que se pensava ser uma maldição se tinha tornado, no caso do sacrifício de Cristo, uma bênção?

Jesus era judeu. Maria e todos os primeiros apóstolos também. Nós lemos a Nova Aliança à luz da Antiga, razão pela qual temos tantas leituras do Antigo Testamento na vigília de Páscoa. A única leitura que não deve nunca ser omitida durante a vigília, segundo as normas do Missal Romano, é a do Êxodo, sobre o resgate de Israel do Egipto: o evento que está no cerne da Páscoa do Antigo Testamento. Não podemos verdadeiramente compreender a Última Ceia e a celebração pascal do novo testamento sem este contexto. Como o próprio Cristo diz: “A salvação vem dos judeus” (Jo. 4,22).

Os romanos crucificaram Cristo. Qual o significado então de os judeus gritarem pela sua crucificação? De acordo com João 1,11: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Foi rejeitado não só pelos romanos “estrangeiros” mas pelo seu próprio povo. E quem é o “seu próprio” povo? Quem é que os judeus representam? Todos nós: toda a humanidade, marcada pelo pecado, que rejeitou Deus.

Não é por nada que na liturgia de Domingo de Ramos toda a Assembleia clama “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não são apenas os judeus, somos nós. E com eles dizemos: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” E cai mesmo sobre nós, porque é o sangue da Cruz que nos torna inteiros, o sangue da nova e eterna aliança, o sangue de Cristo derramado através do qual somos salvos.

Podemos pedir maior bênção para uma multidão do que esta, que o sangue de Cristo caia sobre ela e sobre os seus filhos?

Vêem como o sacrifício de Cristo transformou aquilo que era entendido como uma maldição numa bênção, não só para os que estavam presentes, mas para todos nós? Aqueles que usam esta passagem como desculpa para odiar ou perseguir judeus estão a passar ao lado da questão. Pior, estão a tornar a bênção de Cristo, comprada a alto preço com o seu próprio sangue, numa maldição novamente. Se esse não for o pior crime que se pode cometer contra o sacrifício salvífico de Cristo, então não sei qual é.

Ah, Santo Jesus, que ofensa cometestes
Que o homem, para vos julgar enveredou pelo ódio?
Desprezado pelos inimigos, rejeitado pelos seus próprios, oh, mais atormentado .

Não se iludam. Quando cantamos este hino, o inimigo somos nós; somos nós quem o rejeita; somos nós que traficámos ódio, disfarçado de rectidão. Somos nós quem o atormenta. Mas apesar de tudo, ele continua a amar-nos – um amor que Ele revela na plenitude derramando o seu sangue por nós na Cruz.

Por isso que o seu Sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos, pois é no seu sangue que somos redimidos e temos a vida eterna.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Abril de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A festa vai ser em casa

Confirma-se então que a canonização de Francisco e Jacinta irá ser em Fátima e no dia 13 de Maio, durante a visita do Papa. E como avisei, foi a Renascença a dar a notícia em primeiro lugar!

O bispo de Leiria-Fátima reagiu de imediato, expressando a sua alegria, e o reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas diz que a decisão do Papa confirma Fátima como uma “escola de santidade”.

D. Manuel Clemente diz que esta canonização compromete os portugueses com a mensagem de Fátima e o capelão do hospital D. Estefânia, onde Jacinta morreu, fala da importância dos pastorinhos como exemplo para as crianças que sofrem actualmente.

Neste artigo encontram-se coligidas muitas outras opiniões e reacções, sempre em actualização.

Este foi um processo longo, com final feliz. Pode conhecer os detalhes aqui.

Entre o entusiasmo sobre a canonização de Francisco e Jacinta, fica ligeiramente esquecido outro português que foi mártir no Brasil e vai ser canonizado também este ano.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Críquete por amor a Maria

St. Peter's Cricket Club
Se está a pensar peregrinar a Fátima, não deixe de seguir os conselhos que a Renascença vai dando. Hoje, a importância de ter sempre identificação pessoal e de grupo.

Com a aproximação do centenário das aparições, não há falta de iniciativas comemorativas. Mas nenhuma será mais bizarra que o torneio inter-religioso de críquete em Miranda do Corvo, que conta com a selecção do Vaticano…

Amanhã há consistório em Roma e deverá ser decidida a data da canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta. A Renascença vai estar em cima do acontecimento, sigam online e em antena para serem os primeiros a saber!

E eu sei que isto não tem nada de religioso, mas porque sou pai e já vi tanta gente a crucificar os pais da rapariga que morreu de sarampo, esta manhã, leiam esta notícia para terem acesso a uma versão mais correcta dos factos…

Termino chamando atenção para o artigo desta semana do The Catholic Thing. Voltamos a ter a sorte de poder ler o padre Paul Scalia, desta vez a falar sobre o carácter nupcial da Paixão de Cristo. É fascinante… não percam!

O Esposo

Pe. Paul Scalia
Jesus saiu com os seus discípulos e atravessou o vale de Cédron, até ao ponto onde havia um jardim (Jo. 18,1). Cristo, o Novo Adão, vai até um jardim para desfazer aquilo que num jardim foi feito. O primeiro Adão vivia num jardim e recebeu uma mulher. Foi lá que se revoltou contra o Pai e falhou em relação à sua mulher. Agora, o Novo Adão vai para um jardim para obedecer ao seu Pai e oferecer-se à sua Esposa. Toda a narrativa da Paixão – desde a agonia de Cristo no horto até às suas palavras finais na Cruz – é nupcial. Nela compreendemos que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef. 5,25).

As núpcias de um noivo e de uma noiva requerem votos – palavras através das quais doam a vida um ao outro, para o bem de um e de outro. Por isso o casamento de nosso Senhor começa com palavras de doação – para todos os efeitos, com um voto. Mas neste caso as palavras são dirigidas ao Seu Pai, para o benefício da Esposa: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc. 14,36). Deste modo oferece-se eternamente à sua esposa. É neste momento que se submete definitivamente à vontade do Pai. O primeiro Adão falhou a sua mulher através da desobediência. O Novo Adão conquista a sua esposa obedecendo: Seja feita a vossa vontade.

Jesus tinha antecipado este momento na Última Ceia: “Este é o meu corpo, que será entregue por vós” (Lc. 22,19). O dom de si próprio no casamento não é uma questão apenas de palavras, mas de corpo. O corpo é parte daquilo que somos e, por isso, é essencial no dom de si mesmo. O casamento não tem a ver apenas com bonitos pensamentos e palavras, mas com o dom de corpos, um ao outro; na geração de nova vida através desses corpos; no cuidar do corpo do outro quando o fim se aproxima. Agora, no horto, Jesus oferece definitivamente o seu corpo. O voto tem um efeito corporal. “Cheio de angústia, pôs-se a orar mais instantemente, e o suor tornou-se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra” (Lc. 22,44).

Todos os casamentos têm as suas dificuldades. O primeiro Adão foi testado pelo malévolo, que o desviou da confiança no Pai e, por isso, do amor pela sua mulher. O Novo Adão também é posto à prova – através de Judas, em quem o demónio entrara: “Apareceu Judas, um dos Doze, e com ele muita gente, com espadas e varapaus” (Mt. 26,47). O demónio, cujas anteriores tentações tinham sido mal sucedidas, encontra aqui o seu “tempo oportuno”. Ao infligir dor, humilhação ridicularização e morte, procura separar Jesus da vontade do Pai e da sua Esposa. Mas será novamente derrotado através da simples confiança e obediência: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 24,46).

Todos os casamentos exigem sacrifício – a vivência dos votos na vida real. As palavras pronunciadas no altar, no dia do casamento, são vividas diariamente através de actos de amor sacrificial, pequenos e grandes. Por isso, a Paixão de nosso Senhor, não é mais do que o vivenciar do seu voto no jardim. Os espancamentos, interrogações, ridicularizações… a flagelação e a coroação de espinhos… o carregar da Cruz e a crucificação. Que são estas coisas se não o viver dos votos? Estão todas implícitas no dom de si mesmo. Assim, no cume do seu sacrifício ele grita que o voto está completo, cumprido, vivido ao máximo. O termo usado é perfeitamente nupcial: “Consummatum est – Está consumado” (Jo. 19,30).

O sacrifício de Cristo, que hoje recordamos [este artigo foi publicado originalmente na Sexta-feira Santa] é a cura de todos os nossos pecados e ilumina toda a nossa escuridão. Dada a confusão que actualmente reina sobre o casamento, porém, devemos compreender o sacrifício como sendo particularmente de Jesus, esposo da Igreja, quem restaura o sentido original do casamento e, através da sua graça, permite aos casais viverem-no (Catecismo da Igreja Católica #1614).

Dito de forma mais simples, a morte do Senhor revela como o casamento deve ser vivido. O seu voto e sacrifício são o padrão para a vida de casado. Os votos que a noiva e o noivo fazem no dia do casamento formam o compromisso de darem as suas vidas – tal como nosso Senhor se comprometeu a dar a sua. As suas vidas de casados devem ser a vivência desse dom – tal como o sacrifício do Senhor foi a vivência do seu voto. Que são todos os pequenos sacrifícios e dificuldades se não o viver dos votos? Os casamentos prosperam e trazem felicidade unicamente na medida em que têm a Cruz do Senhor por modelo.

O dom do seu corpo – na sala da Última Ceia, no horto e na Cruz – recordam-nos aquilo que a nossa cultura preferiria esquecer: A verdade do corpo humano. A contracepção e a esterilização deram início à rejeição do sentido do corpo. Agora, vemos os frutos maduros na “ideologia do género”, que afirma que o meu corpo não sou eu e não tem qualquer significado. Que a nossa adoração do seu corpo crucificado ajude a curar esta maleita.

Na sua Paixão o Senhor mostra ainda a forma simples de ultrapassar as dificuldades do casamento: Obediência à vontade do Pai. Essa simples virtude não lhe permite evitar os desafios, mas triunfar neles. Talvez tenhamos o hábito de complicar demasiado as coisas. Uma obediência confiante na verdade do casamento – permanente, fiel, geradora de vida – permite a um casal não só ir ultrapassando as dificuldades, mas triunfar nelas. É um caminho simples – mas não fácil – que demasiadas pessoas ignoram.

Isto não é apenas para casais casados, mas para todos os fiéis: “Toda a vida cristã é marcada pelo amor esponsal de Cristo e da Igreja” (CCC 1617). Todos os fiéis beneficiam de casamentos bem vividos – casamentos que obtêm um aumento de graças para a Igreja e que apontam para além deste mundo, para as núpcias do Cordeiro. Nisto, como em tudo, Cristo o Noivo revela a Cruz como spes unica – a nossa única esperança.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 14 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Terror no Egipto e miliatares a caminho de Fátima

Militares a caminho de Fátima, fingindo ser servitas...
Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Dificilmente terá sido pior que a de tantos coptas que no Egipto foram vítimas de um brutal duplo atentado no Domingo de Ramos. A Páscoa é uma época em que os terroristas gostam de vitimar cristãos, como aconteceu no ano passado no Paquistão, mas este ano as autoridades paquistanesas e egípcias dizem que impediram vários ataques novos.

São cerca de 100 os militares e familiares que este ano vão peregrinar a Fátima. Conheça mais sobre esta peregrinação muito especial.

Houve uma polémica durante a semana passada sobre as renúncias quaresmais no Patriarcado de Lisboa. Os serviços do patriarcado negam qualquer problema ou mau uso de fundos e dizem onde e como foi gasto o dinheiro desde 2011.

O Patriarca de Lisboa alertou na Quinta-feira Santa para os riscos da manipulação da natureza humana. D. Manuel deu também uma entrevista à Renascença, a propósito dos 80 anos da Rádio, que pode ver aqui.

Veja também a minha entrevista a Santiago, um seminarista Chinês que explica como mesmo antes de nascer os cristãos já são perseguidos naquele país… A transcrição integral da entrevista pode ser lida aqui.

Na quarta-feira passada publiquei um interessantíssimo artigo do Pe. Paul Scalia no The Catholic Thing que, em plena Semana Santa, nos convida a olhar para Judas e vermos até que ponto não temos muito em comum comele. Não deixem de ler, pois é intemporal. 

"Quem é bom: Deus ou o Governo?" O meu avô respondeu Deus

Transcrição integral da minha entrevista ao seminarista "Santiago" de nacionalidade chinesa. A identidade verdadeira é mantida em segredo por questões de segurança. As fotos usadas para ilustrar a entrevista são genéricas de católicos chineses e nada têm a ver directamente com ele. A reportagem pode ser lida aqui.


Nasceu numa família católica? Ou converteu-se?
Sim, nasci numa família católica, eramos cinco irmãos.

Disse cinco irmãos?
Sim, cinco irmãos.

Como é que isso foi possível? Na China não havia a lei do filho único?
Sim. Para nós foi uma experiência de fé. Porque a lei começou nos anos 80, mais ou menos quando eu nasci, e então, segundo esta lei os pais católicos sofriam muito para poderem ter mais filhos, porque para nós o aborto é impensável, é matar uma criança com alma e corpo, por isso, para os pais católicos, os filhos não nascidos também são vida. Por isso os meus pais, para evitar isso, tiveram muitas vezes que viver escondidos, separados de nós, deixando-nos sozinhos em casa, viviam escondidos para fugir à polícia.

Porque durante muitos anos, se a polícia os encontrasse podia cobrar uma multa ou, se a mulher ainda estivesse grávida, podia levá-la a uma clínica e obrigá-la a abortar. Ou tirar-nos tudo o que temos em casa, destruir a casa. Foram situações difíceis, mas a fé ajudou-nos e sustentou-nos sempre para viver firmes.

Há quantas gerações é que a sua família é católica?
Isso não se sabe. Como não temos um livro das gerações da família, mas segundo o que sei os meus pais, os meus avós, todos são católicos.

Pelo menos terceira geração, possivelmente mais...
Sim.

Como é actualmente ser católico na China?
Há muito tempo que a Igreja não tem a liberdade de viver a fé, por isso hoje em dia não é fácil ser católico. Sobretudo ser padre ou bispo é muito complicado, porque o Governo tenta sempre convencê-los a juntarem-se à Igreja Patriótica, então se não o querem fazer podem sofrer muitas dificuldades.

No seu caso, qual é a relação com a Associação Patriótica Católica?
Creio que a primeira coisa a fazer é evitar isso, ter cuidado quando vou a algum lado, porque se não, muitas vezes podem-nos complicar a vida. Eu, pessoalmente, não quero ter relações nenhumas com eles, porque também sei por experiência que não é nada fácil ter uma relação com eles, porque temos de submeter-nos ao que eles dizem.

O seu bispo, por exemplo, é reconhecido?
Não. Até hoje ele tem-se mantido sempre firme na fé. Porque para ele, ser um bispo da Igreja Católica é ser fiel à doutrina da Igreja. Por exemplo, estar em plena comunhão com o Papa e exercer o seu ministério segundo a doutrina que a Igreja nos ensina, obedecer ao Papa e ter consciência da universalidade da Igreja.

Como é que veio parar à Europa?
Vim para receber formação, porque durante muitos anos, como todos os padres e bispos foram enviados para campos de trabalho, trabalhavam todos os dias, quase sem nada para comer... Foi assim durante trinta anos e não havia formação, nem para os fiéis nem para os padres.

Ao fim de 30 anos houve uma certa abertura e então os padres já podem receber uma certa formação. Mas como a formação é mínima, para receber uma boa formação é necessário um estudo sólido na doutrina, por isso fui enviado para a Europa para estudar um pouco. Fiz o seminário em Toledo, em Espanha, e agora estou a estudar em Roma. Quando terminar os estudos regressarei para servir a Igreja e ajudar um bocado, sobretudo na formação.

O que disseram às autoridades sobre a razão da vinda?
É complicado. O Governo dá-nos o passaporte, mas o visto é feito nas embaixadas. Foi muito difícil conseguir o passaporte porque quando fui à polícia pedir diziam que não me iam dar, porque era católico. Foi assim durante cerca de três meses.

Mas pela graça de Deus - e eu vejo aí uma clara intervenção de Deus - em 2008 houve os Jogos Olímpicos e durante algum tempo todos podiam receber o passaporte. Aí, o visto era o mais fácil.

Se o Governo soubesse que eu vinha estudar, seguramente não me deixaria vir. Mas graças a Deus estou aqui.

Quando chegaste à Europa não falavas espanhol, não conhecias a Europa, como foi a integração?
Quando cheguei a Espanha comecei imediatamente os estudos no seminário. Os primeiros anos, sobretudo, de Filosofia, foram muito difíceis porque até para um nativo as coisas são complicadas de entender. Mas eu estudava muito mais que os meus colegas... Muitas vezes nas aulas eu perguntava aos colegas se percebiam o que tinha dito o professor, e também respondiam que não.

Mas isso para mim também foi uma experiência, que quando fazemos a nossa parte o Senhor nos ajuda, seja como for. É difícil? Sim, mas pela Graça de Deus tudo é possível e o Senhor nos ajuda.

A perseguição aos católicos que não obedecem à APC existe em todo o país, ou é diferente de região para região?
Sim. China é um país muito grande. A lei é a mesma, mas a aplicação varia de zona para zona. Nalgumas zonas há mais católicos, se os bispos forem da Igreja Clandestina então a situação pode ser mais difícil... Depende das zonas.

Alguns bispos, como por exemplo em Hong Kong, defendem que não se deve negociar com a China, que é preciso ser duro e exigir apenas a liberdade total dos católicos. Outros, e parece ser essa a linha actual do Vaticano, parecem dispostos a negociar e a aceitar algumas das condições do Governo. Qual é a sua opinião?
Em primeiro lugar, temos a consciência de que o Vaticano quer dialogar com o Governo. Isso é seguramente para o bem das almas e da Igreja, para poder evangelizar os que não conhecem Cristo, porque actualmente os católicos são apenas 1%. Isso, sem dúvida alguma.

Este diálogo não é nada fácil, porque como temos um regime totalitário e não existe liberdade religiosa nem direitos humanos, e como diz o Cardeal Zen, temos de ser firmes, sem dúvida, porque temos alguns princípios na Igreja. A Igreja Católica é universal, logo respeitamos os direitos humanos e a liberdade religiosa. A Igreja não considera que sejam um privilégio, mas sim direitos naturais das pessoas. Sim, temos de ser firmes... Não podemos abandonar as nossas crenças.

Pessoalmente acho difícil, mas também confiamos no Senhor, porque Ele pode fazer grandes coisas. Pela minha experiência, e segundo o que vejo, não é fácil. O que o Vaticano está a tentar fazer é seguramente para o bem da Igreja. Na prática, como estão a dialogar há tantos anos e o resultado, segundo o que eu vejo, não tem sido praticamente nenhum. Conseguiram-se algumas coisas simples, mas isso não é o problema de fundo. O mais importante tem a ver com a nomeação dos bispos, quem decide as coisas da Igreja e isso está a ser negociado. É complicado...

Disse antes que os católicos são 1%, mas há muitos cristãos não católicos. Sabemos que as Igrejas domésticas estão a crescer muito... Vocês vêem esses cristãos como aliados ou adversários?
Eles também são cristãos, têm a sua fé! É uma coisa boa, porque eles também vivem a sua fé e tentam evangelizar os outros para que possam conhecer Cristo, é uma coisa positiva. E para nós, católicos, são um exemplo, porque eles estão a fazer muitos sacrifícios. Os protestantes também são perseguidos, quando não se querem submeter ao regime não podem viver a fé com liberdade, não podem anunciar o nome de Cristo com liberdade.

É o que se passa com os católicos também, mas temos esta dificuldade acrescida da Igreja Oficial e a Igreja Clandestina, todo o diálogo envolvido, tudo isso complica um bocado.

Mas creio que todos, com a graça de Deus, podemos ajudar os nossos irmãos para que eles também conheçam Cristo, porque Cristo é o único salvador do mundo.

Há muitas histórias de perseguição, mas há histórias mais próximas de si?
Sim. Por exemplo o meu avô - isto foi-nos contado, mas segundo a cultura chinesa, somos bastante fechados. Quando uma coisa já passou, não falamos sobre ela entre nós - mas segundo o que me foi contado do meu avô, quando era novo e o meu pai tinha uns 15 ou 16 anos, como a situação era muito difícil, sobretudo durante os dez anos da Revolução Cultural, como não se podia dizer que se era católico nem se podia rezar, porque se a polícia os visse a rezar podiam condená-los a passar muito tempo na prisão.

Naquela altura em cada povoação faziam reuniões em que perguntavam aos católicos se queriam deixar a fé ou não, ou então perguntavam "quem é bom? Deus, ou o Governo?" Quando chegou a sua vez, o meu avô disse "Deus é bom". Só por isto começaram a persegui-lo. Não só uma vez, mas todos os dias, porque ele tinha dito que Deus é bom, porque segundo a sua consciência era assim, e ele o declarou.

Então todos os dias faziam a reunião para o criticar, para insultá-lo e no final, como humanamente - todos somos seres humanos - ele, para não negar a fé, pegou no meu pai e disse-lhe que como agora estavam a fazer-lhes isto todos os dias, a persegui-los, e quem sabe se um dia, por fraqueza podemos negar a fé, então levava o meu pai e fugiram para não negar a fé. Disse: "Vamos para a montanha e levamos alguma comida. Quando acabar a comida morremos, mas não negamos a fé". Isso, para mim, é um exemplo, porque para manter a firmeza da fé, está disposto a dar a vida. É um exemplo, há muitos outros, mas isso para nós sempre nos deu força para viver mais firmemente a nossa fé.

Mas há também histórias de conversão?
Sim. Há histórias de conversões porque quando eles vêem a força que os católicos têm, dizem que tem de haver algo de sobrenatural, porque humanamente ninguém consegue aguentar aquilo. Pessoalmente não conheci conversões tão claras e fortes, mas seguramente na vida quotidiana há muitos que vendo os exemplos dos católicos, pelo menos no seu interior deixam-se impressionar e isso pode ajudá-los a perceber qual é o sentido da vida.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um dos Doze

Pe. Paul Scalia 
Durante a Semana Santa lemos o Evangelho da Paixão, incluindo o momento em que Jesus foi traído. Todos os evangelistas apontam para o facto de que o homem que traiu Jesus era um dos seus amigos mais próximos. No início da vida pública de Jesus, quando chama os Apóstolos, Judas já é descrito como o que o virá a trair (Lc. 6,16; Mt. 10,4; Mc. 3,19). No Evangelho de João é o próprio Senhor quem observa: “Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.” (Jo. 6,70)

Em certo sentido a frase muitas vezes repetida “um dos 12” relata um simples facto histórico. Jesus não foi apenas entregue por um dos seus inimigos, mas traído por um dos seus eleitos. Mas num sentido mais profundo serve também de aviso para todos os que seguem Cristo – mais até para os que lhe são mais próximos. Judas esteve com Jesus durante os mesmos três anos que os outros. Tal como eles ouviu os sermões, testemunhou os milagres e foi enviado por Cristo. Porém, traiu Nosso Senhor. Nunca devemos achar que estamos aquém da maldade de Judas. A proximidade a Jesus nem sempre significa intimidade com Ele.

Faz-nos bem, por isso, reflectir sobre o exemplo negativo de Judas. Não com o objectivo de o condenar novamente nem para nos sentirmos superiores. Pelo contrário, fazemo-lo com uma certa empatia, sabendo que lutamos contra as mesmas fraquezas humanas e que também nós somos capazes de um pecado grave – traição. Então o que é que encontramos no traidor que também possa estar em nós?

Em primeiro lugar, temos a falta de Judas em perseverar na sua conversão. Nosso Senhor escolheu-o com a mesma segurança com que escolheu Pedro e João. Não o fez contrariado nem por necessidade. Quando o Senhor se dirige a Judas como “amigo”, no Jardim das Oliveiras, não o diz por ironia ou sarcasmo. A dada altura a conversão de Judas parece ter falhado. Talvez tenha sido mera preguiça. Talvez um ensinamento que não foi capaz de aceitar. João dá a entender que foi o discurso sobre o Pão da Vida que levou ao afastamento de Judas – daí Jesus se ter referido a ele como “o diabo” no final do mesmo.

Ou talvez Judas se tenha sentido traído pelo Senhor. Poderá ter tido expectativas de um Messias que Jesus não satisfazia – expectativas de glória e de poder, difíceis de conciliar com as repetidas referências ao sofrimento, rejeição e morte do Filho do Homem. Durante três anos ele seguiu este rabino, mas a glória antecipada nunca chegou. Ficou impaciente com a conversa do Senhor sobre sofrimento. Romano Guardini observa, a este respeito, que: “O facto de ele não ter saído, mas ter permanecido como um dos doze, foi o começo da sua traição. Não sabemos porque ficou. Talvez esperasse ir avançando interiormente, ou quisesse saber pelo menos como é que as coisas iam passar-se – a não ser que já sonhasse lucrar com a situação.” (O Senhor).

O que nos leva ao ponto seguinte: A ganância de Judas. Quando Judas protestou com o facto de Maria ter ungido Jesus com um óleo caro, não o fez porque se preocupava com os pobres, mas “porque era ladrão e, como tinha a bolsa do dinheiro, tirava o que nela se deitava”. A ganância é uma questão de sofreguidão. Tem menos a ver com posse do que com controlo – ter os meios ao nosso dispor para não termos de depender dos outros, nem mesmo de Deus. É “prático” no pior sentido da palavra. E Judas era um homem sobretudo prático. Na verdade, uma das teorias é de que ele previu a derrota do Senhor e estava a procurar posicionar-se politica e financeiramente para lucrar com a traição. Uma consideração muitíssimo prática.

Parece ainda haver uma superficialidade sobre Judas, uma tendência de ver apenas as coisas em termos naturais e mundanos (o que não é surpreendente para um homem prático). Na Última Ceia, o Senhor disse aos Seus Apóstolos, “Verdadeiramente, eu vos digo, um de vós me vai trair”. Eles perguntam, um após o outro, “serei eu, Senhor?”. Excepto Judas. Ele pergunta: “Serei eu, rabbi?” (Mt. 26,21-25). Os outros viam Jesus como Senhor. Judas via-o apenas como um rabbi, um professor.

Jesus é traído
Claro que um professor é importante. Mas não se adora um professor. As palavras de um professor podem ser poderosas, talvez até possam mudar a vida. Mas no final de contas não passa de um homem, limitado pela sabedoria do mundo e do tempo. As palavras de Jesus perdurarão. “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mt. 24,35). Judas não parece ter compreendido a profundidade das palavras Senhor nem de se ter confiado à sua autoridade. Talvez elas tenham sido interessantes e desafiantes para ele, mas careciam de autoridade. Quantas vezes não ouvimos dizer o mesmo sobre os seus ensinamentos nos nossos dias?

Finalmente, e tristemente, Judas não se arrepende. Sente remorsos por aquilo que fez, certamente. E isso em si não é coisa pouca. No emaranhado que era o seu coração, ainda sentia algum amor por Jesus. Mas reparem: Não é a Jesus que ele torna, mas aos sumos-sacerdotes, que com ele conspiraram. Diante deles é que ele reconhece o seu pecado. Judas não sente arrependimento, mas remorso. No arrependimento voltamo-nos para o bom Deus, para o Redentor, para aquele que é Misericórdia. À sua luz, rejeitamos o pecado. Com os remorsos olhamos para nós próprios, voltamo-nos cada vez mais para o nosso interior e fechamo-nos para a reconciliação e a cura que vêm apenas de Deus.

Durante a Semana Santa gostaríamos de ser mais como João, que permaneceu fielmente aos pés da Cruz, ou como Maria Madalena, que manteve uma triste vigília no Calvário. Mas isso seria presunção da nossa parte. Esta não é a hora de pensar nas nossas forças, mas nas nossas fraquezas. Não é tempo de olhar de soslaio para Judas, mas de compreender que caminhamos à sombra da mesma fraqueza humana que ele.

Como Judas, não perseveramos na nossa conversão. Satisfaz-nos a piedade em vez da santidade. Desviamo-nos quando o caminho se torna difícil e assim não aprofundamos a nossa devoção. Talvez até nos sintamos traídos pelo Senhor – se Ele não atendeu as nossas orações como queríamos, ou não correspondeu à imagem que tínhamos dele.

Como Judas, somos sôfregos – por dinheiro, posses, poder. Numa palavra, por controlo, para mantermos à distância a nossa dependência de Deus. Como ele, tendemos para a superficialidade, tornando a nossa fé um assunto meramente de sabedoria humana, intuições interessantes, conforto psicológico em vez de um encontro com a Palavra feita carne. Adoptamos uma visão mundana da religião em vez de tentarmos pensar como Cristo.

Logo, não nos confiamos às suas palavras como devíamos; A não ser que se tornem como crianças, não entrarão no Reino do Céu… Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, vive em mim, e eu nele… Pedi, e ser-vos-á dado; procurai, e encontrarás; batei se ser-vos-á aberto… Assim como fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim o fizestes.

E mais que tudo falhamos no aprofundamento do nosso arrependimento. Sentimos remorsos por nós mesmos, porque os nossos pecados nos deixam mal vistos. Por todos estes pecados e estas falhas, o Senhor concedeu-nos agora a oportunidade para o verdadeiro arrependimento: “É este o tempo favorável, é este o dia da salvação” (2 Cor 6,2)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 9 de Abril de 2017 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Terror em Estocolmo, Gorsuch nomeado

Suspeito de atentado em Estocolmo
Mais uma semana, mais um atentado. Desta vez foi em Estocolmo. Tudo aqui. Não se sabe a motivação, ainda… Não há prémio para quem adivinhar.

O candidato de Donald Trump para o Supremo Tribunal foi aprovado pelo Senado. Neil Gorsuch é o 9º juiz do tribunal e a sua nomeação é boa notícia para conservadores.

Trump decidiu ontem à noite bombardear uma base aérea na Síria. O bispo das Forças Armadas portuguesas teme as repercussões… Eu também.

O reitor do santuário de Fátima ainda tem esperança que a canonização dos pastorinhos seja durante a visita do Papa. O Governo garante que está tudo em ordem para receber Francisco. Aqui encontram informação útil sobre as formas de lá chegar. Foi lançado esta tarde, no auditório da Renascença, um livro sobre peregrinações a Fátima. As autoras em entrevista,aqui.

Morrem mais cristãos do que nascem, o que significa que, segundo as projecções da Pew Research Center, daqui a algumas décadas os muçulmanos ultrapassarão os cristãos no mundo. A culpa é da Europa.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Opção dominicana e capacidade de escuta

A tarde de ontem foi marcada pela tragédia da explosão na fábrica de pirotecnia em Avões, Lamego. São seis mortos confirmados, mas tudo indica que serão oito. O bispo de Lamego (na imagem) não se quer ficar pelas meras condolências

Outra tragédia aconteceu na Síria, como ontem partilhei. Hoje o Papa classificou-a como “inaceitável”.

O Papa recebeu esta quarta-feira em Roma uma delegação de líderes muçulmanos do Reino Unido a quem falou da importância de se dialogar com base na escuta, e não nos gritos.


Porque hoje é quarta-feira temos um artigo do The Catholic Thing em que David Warren argumenta que tanto ou mais que uma “opção beneditina”, como tem sido proposta pelo americano Rod Dreher, o mundo cristão precisa da inspiração de São Domingos.

A Opção Dominicana

David Warren
Nota prévia: Recentemente o autor americano Rod Dreher lançou um livro chamado “The Benedict Option” [A opção beneditina] que está a causar alguma discussão no meio cristão conservador nos EUA. Dreher argumenta que tal como São Bento contrariou a cultura da sua época, formando comunidades cristãs sólidas e de certa forma isoladas que depois desempenharam um papel crucial no renascimento da civilização cristã na Europa, hoje os cristãos têm o dever de fazer o mesmo. O livro explora e analisa essa possibilidade. É no contexto dessa discussão que surge este texto de David Warren. Espero que gostem.


Eram conhecidos como “cães de Deus” – por causa do trocadilho Domini canes, em latim – os monges de preto que começarem a deambular pela Europa há oito séculos. Eram mendicantes da Ordem dos Pregadores, fundada por Domingos de Caleruega, em Espanha, dedicados a uma vida de pobreza, oração, estudo e ensino; uma guerra contra a ignorância e a heterodoxia. Propunham-se retomar a tarefa dos Apóstolos.

Na maior parte eram um fenómeno urbano. Embora viessem dos lugares mais obscuros, o principal enfoque eram as vilas que iam crescendo à volta das catedrais e a reocupação de lugares antigos que no início do século XIII estavam abandonados.

Ao longo dos séculos anteriores a Europa ocidental tinha-se tornado uma paisagem desolada, totalmente descentralizada e sob governo de mosteiros e castelos, seus abades e senhores, unidos de forma imperfeita pela religião cristã. Havia pequenas cidades, ou protocidades, em Itália, mas para lá dos Alpes talvez a maior aglomeração urbana fosse Paris, com uma população de poucos milhares. Mas tudo isso estava a mudar.

Eram tempos revolucionários, na Igreja e à sua volta. Através dos tempos ainda reconhecemos os dominicanos e os franciscanos que surgiram nesse período, rompendo com a tradição monástica do afastamento, mas foram fundadas muitas outras ordens que hoje não existem.

Até então os monges e as freiras tinham sido contemplativos, mas também trabalhavam em explorações agrícolas, cujas inovações ultrapassavam os muros dos conventos e cujos bens viajavam. Mas não faziam parte de uma economia integrada.

Existiam grandes cidades nos reinos muçulmanos, e mais longe, que apareciam e desapareciam como cogumelos. Mas a Europa Ocidental tinha sido um local de silêncio extraordinário, que perdurava. A segurança alimentar, perante a ameaça dos invasores selvagens, tinha moldado o sistema feudal clássico, pelo qual os nossos ambientalistas ainda anseiam. Uma vida dura, ditada pelas estações; pessoas para quem a mudança era sinónimo de destruição. As artes e as tecnologias tinham de servir um propósito e não eram “sofisticados” – excepto nos mosteiros, onde a herança dos tempos passados eram zelosamente guardada.

O próprio São Domingos, nascido numa boa família na região de Velha Castela, perto da fronteira da Reconquista Cristã, foi treinado na tradição ermítica agostiniana, que remontava ao Norte de África mas com os olhos postos numa transformação do século XIII.

Dois livros antigos da minha colecção – “Saint Dominic and His Work”, de Pierre Mandonnet (1944) e “Saint Dominic and His Times”, de M.-H. Vicaire (1964) – fornecem relatos apaixonantes do seu tempo e da sua missão, que vão para além dos meros factos. Estes autores apresentam uma amplitude, profundidade e carácter que faltam aos académicos actuais.

Ao narrar a vida do fundador da sua ordem, estes autores sentem-se obrigados a descrever a era de transformação que Domingos veio servir. A famosa batalha contra os hereges albigenses cobre a nossa visão histórica como um véu. Os esforços heróicos de Domingos e dos seus primeiros seguidores – que debatiam os hereges no seu próprio terreno, arriscando a própria vida – é um bom prelúdio para essa história. Mas desde o início que as intenções eram mais fundamentais.

São Domingos
À medida que os jovens migravam para as novas universidades das vilas – que estavam para além do controlo dos seminários das antigas catedrais (Chartres atraía pessoas antes de Paris) – estava a emergir um uma nova ordem intelectual profana. Quando lemos sobre a vida estudantil de Paris no Século XIII damos conta de muitos aspectos que nunca mudaram: Arrogância juvenil e rebelião, bebedeiras e os pedidos constantes de empréstimos estudantis, o quanto os trabalhadores honestos das vilas detestavam e temiam estes jovens estudantes, que viam como delinquentes perigosamente inteligentes.

Os dominicanos elevaram a fasquia para a seriedade e o verdadeiro zelo intelectual. Eram obrigados a viver vidas exemplares sob clara disciplina. Também eram obrigados à busca da verdade e encontramos nos legados de Alberto Magno, Tomás de Aquino – Margarida da Hungria e Catarina de Sena – uma paciência destemida que dá corpo ao ideal da ordem. A luz da Fé estava, em todo o lugar, misturada com a luz da Razão, contra forças que eram potencialmente muito escuras.

Vemos o mesmo nas nossas universidades actuais, com a diferença de que agora prevalecem as forças da escuridão. A fé é desprezada e, como acontecia frequentemente com os primeiros dominicanos, abafada com palavras de ordem. Os dominicanos persistiram. Em vez de se retirarem quando confrontados com hostilidade, ouviam e refutavam. Os homens podem ser animais, sobretudo os mais novos, mas também podem ser chamados à conversão e um dos dados mais impressionantes do século XIII é a velocidade e a dimensão da expansão dominicana.

Veio responder a uma fome espiritual. Confrontou a dúvida apresentada de forma nova e potente, à medida que a Europa começava a recuperar o ensino pagão através de filósofos árabes e refugiados bizantinos. Tudo o que havia de bom em Aristóteles e nas ideias antigas era assimilado e cristianizado pelos dominicanos e outros que vieram inspirar. Eles perceberam que a “filosofia perene” era, pela sua natureza, compatível com os ensinamentos cristãos e ajudava-nos a compreendê-los melhor.

A abordagem dominicana era de se porem ao trabalho, uma força positiva de confronto intelectual. Cristo enviou os seus Apóstolos para a estrada aberta; não lhes disse que deviam esconder-se e esperar. Tornou-os professores, até à morte. O mundo precisa de conhecer a boa nova do nosso Salvador. Precisa de ser salvo, do demónio e de si mesmo. Precisa de saber quem é o seu Criador. Precisa de testar todas as coisas.

São Domingos era ele mesmo um homem de grande aprendizagem. O seu caminho não era estreito. Os métodos escolásticos de que os dominicanos foram pioneiros pegavam nas questões por inteiro e encontravam as respostas de forma metódica.

Longe de mim rejeitar os Padres do Deserto, ou tudo o que se seguiu à tradição beneditina; tudo o que alcançaram e preservaram. Uma vez que, devido ao Rod Dreher, a “Opção Beneditina” voltou a tornar-se uma ideia a debater, deixem-me acrescentar que aplaudo-a e aceito-a.

Mas eu acrescentaria, em contraste resplandecente, uma “Opção Dominicana”. Jamais podemos, como cristãos, virar as costas aos nossos vizinhos nas suas necessidades. E a Verdade é uma coisa necessária. Haverá sempre obstáculos ao seu ensino; devemos analisá-los e passar adiante.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 31 de Março de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Papa tira do tesouro coisas antigas e coisas novas

A saga da procura da reconciliação entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (vulgos lefebvrianos) continua. O Vaticano deu mais um passo, tomando medidas para que os casamentos celebrados no contexto da Fraternidade sejam considerados lícitos.

Neste mesmo dia o Papa sublinhou a importância do documento Populorum Progressio, de Paulo VI, um marco no campo da justiça social e do desenvolvimento.


António Costa esteve na Renascença esta terça-feira para ser entrevistado. Sobre a eutanásia diz que não sabe como votaria se fosse deputado. Da minha parte insurgi-me em artigo de opinião no blogue contra frases do género “é preciso um debate sério e sereno” ou “ainda não é tempo de discutir isto, há questões económicas mais importantes”, etc. Leiam e discutam.

Um convite, antes que se metam as férias da Páscoa, Thereza Ameal vai apresentar o seu livro “Querido Deus” no dia 19 de Abril às 17h30, na Obra Social Paulo VI, no Campo Grande. Apareçam e divulguem, que a autora certamente agradece!

Eutanásia, timings e democracia

Nos últimos tempos tem-se falado muito de eutanásia e muito mais se irá falar ainda.

Há uma série de coisas que ouvimos dizer repetidamente e que merecem reflexão e comentários.

“Precisamos de um debate sereno e profundo”
Toda a gente gosta de dizer isto, de um lado ou de outro da barricada. Mas permitam-me discordar… Havendo um debate, que seja sereno e profundo. Mas o ideal seria não haver debate nenhum. Esta questão não é sequer “debatível!”

Já escrevi aqui que a Eutanásia baseia-se em premissas absolutamente destrutivas. Nomeadamente na ideia de que a dignidade humana depende da nossa capacidade física e ou mental. Ou sequer que a dignidade depende da nossa vontade! A partir do momento em que aceitamos que a dignidade é algo volátil, algo que vai e vem, ou que pode ser diminuída por factores terceiros ou pela nossa vontade, estamos a dividir a humanidade em pessoas que têm dignidade e outras que não têm. O que se segue nunca é bom.

Por isso não. Precisamos tanto de um debate sereno e profundo sobre isto como eu preciso que alguém discuta profunda e serenamente o gaseamento de ciganos ou o afundamento de barcos cheios de refugiados no Mediterrâneo.

Agora, vai haver debate? Parece que sim, infelizmente. Então que seja sereno? Tudo bem. Mas precisamos disso? Mais rapidamente precisamos de memória histórica e uma chapada na cara para ver se ganhamos juízo…

“Agora não é a altura para discutir a eutanásia”
Esta também se ouve, normalmente dita por pessoas que são contra a eutanásia ou por pessoas que sendo favoráveis, não querem que o debate seja feito agora, talvez, sabe-se lá, porque o Papa visita o país em Maio e não é conveniente recebê-lo com estes projectos em cima da mesa…

Mas o problema desta frase é que dá a entender que existe uma altura em que, aí sim, será perfeitamente adequado discutir a matança de pessoas com a colaboração de pessoal de saúde.

Imaginam alguém na Alemanha nos anos 30 a dizer “Sim, temos de ter um debate sereno sobre o problema judaico, mas a economia está nas lonas e até resolvermos isso não é a altura certa para discutir a solução final.”?

Não. Não é altura para discutir a eutanásia porque nunca é altura para discutir a eutanásia. Tão simples como isso.

O referendo
Deve haver um referendo sobre a eutanásia? Muito bem, eis a minha opinião:

Se o referendo for a única forma de travar a eutanásia, deve haver referendo.

Se o referendo for a única forma de legalizar a eutanásia, não deve haver referendo.

Não é lá muito democrático? Temos pena.

A sacralidade da vida e a dignidade humana não estão ao serviço de instrumentos democráticos, sejam eles quais forem. Lamento, mas não estão.

É perfeitamente evidente que a vida não é referendável. Logo, a ideia de decidir em referendo se a eutanásia deve ser legal é horrenda. Só é aceitável se for como forma de a travar. Não porque a democracia tudo legitima, mas precisamente porque a vida e a dignidade da vida estão na raiz da legitimidade democrática. Mais nada.

E esta regra aplica-se tanto à eutanásia como a outras aberrações como a escravatura e o aborto. Referendos? Façam-nos à vontade! Servem unicamente na medida em que legitimam aquilo que está conforme o direito natural e uma visão digna da humanidade.


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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Papa Francisco, o despertador

"Só mais cinco minutos, Sua Santidade!"
Atentado em São Petersburgo. Não há reivindicação ainda, mas tudo aponta para os suspeitos do costume…

Fernando Santos, seleccionador de Portugal, esteve nas jornadas da juventude da diocese de Lisboa e considera que o Papa Francisco “acordou-nos a todos”.

O Papa, na sua missão de acordador-mor, alerta para a lógica inútil e inconsequente do medo”.

O Patriarca de Lisboa comentou o Amoris Laetitia. D. Manuel rejeita centrar a questão exclusivamente nos casos de divorciados e recasados, mas convida a descobrir a dimensão “essencial” do texto.

De cara lavada e com o elevador arranjado, já pode subir de novo ao Cristo Rei!

O Parlamento português vai debater a liberdade religiosa antes da chegada a Portugal do Papa Francisco.

E a Renascença falou esta semana com Maria Teresa Maia Gonzalez, que explora a sede de questões espirituais que as crianças têm.

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