quarta-feira, 31 de maio de 2017

Vida em Abundância

Pe. Jerry J. Pokorsky
No Evangelho Jesus promete: “Vim para que tenham vida e para que a tenham em abundância” (João: 10,10). Trata-se da garantia mais sublime e consoladora deste lado da eternidade.

Quando tudo corre bem e estamos a experimentar as bênçãos da felicidade e da boa sorte, aceitamos facilmente este ensinamento. Quando conjugada com a saúde e com uma família normal e feliz e uma situação profissional razoavelmente segura, a prática sincera da fé traz um sentido autêntico de gratidão que nos incentiva a maior devoção e generosidade.

Mas quando nos deparamos com dificuldades familiares ou maritais, insegurança laboral ou problemas de saúde crónicos, podemo-nos sentir tentados a duvidar desta promessa de Cristo. Como é que se pode viver uma vida de abundância em Cristo enquanto experimentamos grande tristeza ou privação? A maior parte de nós seria tentada a perder a fé e a pensar que a promessa de “vida em abundância” não passa de uma piada cruel. Precisamos de uma resposta inteligível.

Quando Saulo caiu por terra na estrada para Damasco, ouviu a voz de Jesus: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Actos: 9,4). Jesus reina na glória celeste, porém esta narrativa revela claramente que o próprio Jesus sofre quando os cristãos são perseguidos. São Paulo desenvolverá este ensinamento, deixando claro que Jesus não é um senhorio ausente. “Porque todos quantos fostes baptizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.” (Gal. 3,27). Cristo continua a viver entre nós na Sua Igreja. O Seu Corpo Místico.

São Pedro empurra-nos no sentido de reconciliar o sofrimento com uma vida abundante em Cristo. Em Cristo o sofrimento é elevado pela graça e ganha um novo sentido: “Se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus. Para isso vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no vosso lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos.” 1 Pedro 2: 20-21

Logo, o sofrimento dos membros do Corpo Místico de Cristo partilha do seu sofrimento redentor. Isto ajuda-nos a compreender a afirmação bastante surpreendente de São Paulo de que ele agora alegra-se nos seus sofrimentos: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja”. (Col. 1:24)

Quando sofremos, Cristo sofre connosco no seu Corpo Místico, e o nosso sofrimento participa no sentido que lhe foi dado por Cristo na Cruz. O nosso sofrimento em Cristo dá continuidade, de forma misteriosa, à obra da redenção.

O Pai não é um superintendente cruel. No livro da Sabedoria lemos: “Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma” (Sab. 1,13). Considerem a angústia de Abraão no Livro de Genesis quando leva o seu filho Isaac até à montanha para o sacrificar. Quando o anjo do Senhor segura a mão de Abraão, o Senhor revela que não se alegra a sua angústia, alegra-se com a sua obediência. Porém, a angústia de Abraão valida e magnifica a força da sua obediência na fé.

Isaac, como é evidente, representa a figura de Cristo o Filho e Abrãao é a figura do Pai. Por isso é razoável concluir que o Pai não se alegra no sofrimento redentor do seu Filho na Cruz, nem se alegra com o nosso sofrimento. O Pai “alegra-se” com a obediência do seu Filho, uma obediência que o sofrimento e a morte em nada diminuem. A coragem e o sofrimento de Cristo testemunham a suprema excelência da sua obediência ao Pai.

A excelência da sua obediência é aumentada pela sua liberdade. Durante a sua prova Ele diz a Pilates: “Acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt. 26,53). Jesus revela logo porque é que aceitou essa pena de morte: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” (Mt. 26,54). As escrituras cumprem-se quando Jesus aceita voluntariamente a sua morte em obediência pela nossa redenção e salvação.

Sofrimento pode ter sentido
Jesus convida-nos a entrar no mistério do amor sacrificial: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13). Começamos a sentir a mistério da grandeza de tal amor nas nossas experiências de vida. Em circunstâncias extremas, os bons pais arriscam as suas vidas pelos seus filhos; e há incontáveis relatos de soldados, polícias e outros que arriscam as suas vidas não só pelos seus camaradas, mas por estranhos. Mesmo uma cultura híper-secularizada como a nossa celebra a dignidade de actos de amor altruísta.

Mas o amor de Cristo e a vida na sua graça podem perder-se, por isso Jesus ensina: “Se guardares os meus mandamentos permanecerão no meu amor, tal como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (Jo. 15,10). A obediência e o sofrimento que frequentemente os acompanham demonstram que a coragem, a convicção e uma consciência tranquila sustentam a alegria da vida com Cristo: “Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo. 15,11).

O mandamento mais significativo de todos é dado na Última Ceia: “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lc. 22,19). A nossa obediência na Graça de Deus é premiada com o Verbo a fazer-se Carne novamente, na Eucaristia: A Santa Comunhão, a fonte e o ápice da vida cristã.

A “vida em abundância” do Senhor purifica e eleva todas as alegrias e as tristezas terrenas. É uma vida de coragem, de convicção, de consciência tranquila e de comunhão com Ele, com a nossa própria carne santificada pelo seu santíssimo Corpo e Sangue. Nunca é demasiado tarde para viver a sua Vida em abundância com esperança firme e verdadeira alegria.  


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Maio de 2017 em The Catholic Thing)

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