quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Adeus Colombo

Há quase exactamente 25 anos James A. Clifton, um antropólogo da Universidade de Wisconsin, ligou-me depois de ter lido o meu artigo no “First Things”, chamado “1492 and all that”, que mais tarde se tornou um livro. Nessa altura estávamos no meio de um turbilhão de emoções anticatólicas e anti-ocidentais por causa dos 500 anos das viagens de Cristóvão Colombo para o Novo Mundo e a sua alegada responsabilidade nos maus-tratos de nativos americanos, na escravatura e no imperialismo cristão.

Estava à espera do pior, mas ele ligou para me dar apoio. Ele tinha escrito um livro que continua a ser fascinante, chamado “The Invented Indian”, que procurava clarificar os verdadeiros feitos dos nativos americanos por oposição às idealizações alimentadas por um sentimento de culpabilização. Em troca deste seu serviço pela verdade recebeu ameaças e ressentimentos. Um dia alguém vestido de índio – ou melhor, alguém com um conjunto ridículo de artigos de roupa de diferentes tribos – foi bater à sua porta armado com uma pistola. O professor Clifton riu-se e virou as costas dizendo-lhe para voltar quando soubesse alguma coisa sobre índios.

Há coisas que nunca mudam, incluindo este revolta suicida e em larga medida ignorante que é agora um marco regular da cultura americana e que se está a espalhar para outros países ocidentais. Por entre os terríveis conflitos entre representantes do alt-right e do alt-left em Charlottesville (que, como de costume, causaram ferimentos em pessoas inocentes) parece que nos esquecemos da verdade humana e cristã de que somos todos seres imperfeitos. E que se não tivermos a capacidade de tolerar as fraquezas dos outros, e se não dermos espaço o perdão, acaba por se tornar impossível conviver.

O absolutismo puritano costumava ser uma característica de movimentos religiosos e políticos extremistas; mas agora infesta os próprios lugares que deviam ter melhor compreensão das diferenças e dos contextos, como é o caso das universidades e dos meios de comunicação.

Aprendi a minha lição quando tentei pintar um retrato claro da era dos descobrimentos. Havia, e ainda há, bons historiadores, académicos e amadores, dedicados a estes assuntos. Mas o que acaba por garantir a atenção mediática são as generalizações condenatórias que ignoram distinções morais essenciais.

O grande “defensor dos índios”, o dominicano Bartolomé de Las Casas, falou da “doçura e benignidade” de Colombo, em contraste com outros exploradores espanhóis. Cortez podia ser brutal, embora tenha acabado os seus dias num mosteiro, a penitenciar-se pelos seus pecados. Pizarro era pura e simplesmente um psicopata. Mas Colombo era de outra categoria; apesar das dificuldades sem precedentes que teve de enfrentar nas novas culturas que encontrou, houve poucos casos de maus tratos a quem quer que fosse. Frequentemente manifestava incertezas sobre como proceder, tal como nós. Las Casas disse que “verdadeiramente, não me atreveria a julgar as intenções do almirante pois conheci-o bem e sabia que eram boas”. Contudo, Colombo acabou por se tornar um bode expiatório cultural.

Salvo algumas personagens que eram quase puros monstros, as grandes figuras culturais são, como nós, uma mistura de bem e de mal. E a nossa posição em relação a eles é como crianças que tomaram conhecimento dos pecados e das fraquezas dos seus pais. Mesmo quando as suas falhas são muito evidentes, continuamos a poder honrar as coisas boas que nos legaram, que são tantas e de tal forma enraizadas em nós que nem as podemos enumerar. É por isso que no mandamento logo a seguir ao de não adorar ninguém para além de Deus, somos instruídos a “honrar pai e mãe”. Não estamos perante um patriarcado da idade da pedra (notem a referência à mãe), mas sim de um caso de simples justiça: Temos uma dívida para com aqueles que nos deram a vida e a nutriram.

A nossa cultura foi criada por pessoas grandes, ainda que imperfeitas. E os padrões que usamos para as julgar – e para nos julgarmos a nós mesmos – não foram inventados imaculadamente quando nós, quais seres perfeitos, começámos a existir. Quando tínhamos uma imagem mais perfeita da natureza humana não nos deixávamos surpreender tanto com o facto de que as grandes figuras históricas tinham grandes virtudes e grandes vícios.

Abraham Lincoln, por exemplo, costumava dizer que os escravos africanos não podiam ser assimilados numa sociedade branca e que por isso o melhor seria enviá-los de volta para África. Devemos ignorar tudo o que disse este grande homem só por causa de um erro de juízo?

De igual modo Martin Luther King Jr. cometeu vários actos de adultério. Perguntei uma vez a um padre católico que tinha trabalhado com King no movimento dos direitos civis sobre esta questão. Ele admitiu que se tratava de um problema, mas que tendo em conta a quantidade de mulheres que se atirava a ele, poderia ter sido bem pior. Devemos deixar que essa fraqueza dele se sobreponha a todos os seus grandes feitos?

Antigamente ficávamos preocupados com o facto de haver alunos a licenciar-se sem saber em que século tinha sido a Guerra Civil, ou as datas da Segunda Guerra Mundial. Mas agora permitimos a um pequeno grupo de radicais, com um grande megafone mediático, fazer afirmações e contra-afirmações cósmicas que ignoram os trajectos difíceis da história humana.

É natural, numa democracia, haver debate e até divisão, mas a demonização actual não é normal. É legítimo analisar e discutir a vida de figuras como Robert E. Lee. É até útil examinar os registos – através do pensamento crítico e não da profanação de monumentos – de santos como Junípero Serra, que enfrentou condições que dariam cabo da maioria de nós, e contudo foi capaz de retirar delas grandes bens.

Las Casas, que por vezes criticava ferozmente os seus compatriotas espanhóis, também foi capaz de elogiá-los por “levar a cabo feitos nunca antes inventados nem sonhados”. Todos nós, católicos, protestantes, religiosos ou não, precisam de se chegar à frente nesta altura. Não podemos deixar que os termos da discussão sejam estabelecidos por pessoas que sofrem de amnésia cultural ou que vivem auto-iludidos sobre a sua própria pureza moral.

Teremos de ser pessoas de memória, especialmente sobre as raízes da nossa civilização e sobre como a defender, não obstante as suas imperfeições. Na verdade definimos essas imperfeições largamente sob a óptica da tradição cristã ocidental, a única base real para a nossa noção de dignidade de todos os seres humanos, radicada no facto de sermos feitos à imagem de Deus.

Destruam essa tradição e verão que se seguirá uma guerra de todos contra todos. Aliás, já começou.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 28 de Agosto de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Não-Silêncio de Santa Perpétua

Randall Smith
“Queremos falar consigo sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Estávamos ainda na primeira semana do curso de Verão que eu estava a leccionar a um grupo de estudantes internacionais quando fui abordado por duas holandesas com este pedido. Temendo que se tratava de uma conversa armadilhada, chutei para canto.

Já por demasiadas vezes dei por mim a entrar em conversas sobre assuntos sensíveis, pensando tratar-se do género de discussão filosófica que se pode ter sobre, por exemplo, a natureza das virtudes morais no pensamento de São Tomás de Aquino. As discussões sobre temas “académicos” também podem ser acesas, estranhamente, mas costumam manter uma capa exterior de discussão desinteressada. Esse não é o caso quando o assunto é, por exemplo, o aborto.

Às vezes acontece, enquanto vamos debitando a nossa lista de argumentos mortíferos, respondendo a todas as objecções de forma socrática ou tomística, encantados pela nossa própria inteligência, que de repente ficamos com uma ideia clara – provavelmente com uns vinte minutos de atraso – de que a pessoa com quem estamos a falar já fez um aborto. Ou então ela diz-nos directamente: “Eu abortei”. Nesse ponto compreendemos, caso tenhamos algum juízo (o que não posso dizer ser o meu caso) que afinal não estamos numa discussão filosófica desinteressada; não, estamos envolvidos numa luta interna na própria alma daquela pessoa, e que é melhor andar com cuidado.

Na maior parte dos casos era importante que ambas as partes na discussão tivessem passado muito mais tempo a edificar uma relação de respeito mútuo e de confiança antes de se aventurarem nestas águas turbulentas. Não é preciso dizer as palavras “és um infanticida” para que a outra pessoa nos entenda dessa forma.

Parece-me que com a questão da homossexualidade, ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se passa o mesmo. Na maioria dos casos as pessoas de ambos os lados da barricada já investiram uma grande parte de si mesmas na questão e pode ser difícil dizer o que quer que seja sem que a outra pessoa não o entenda de forma errada. Nestas circunstâncias de rancor, dor e desconfiança é possível fazer terríveis danos numa ocasião que devia ter servido para alimentar a reconciliação e a compreensão mútua.

A ideia iluminista de que podemos simplesmente sentar-nos e pôr de lado as nossas emoções e preconceitos, discutindo estes assuntos de forma puramente racional, é uma ilusão perigosa. É importante, por isso, nessas situações, agir com grande cautela.

E foi por isso que quando estas duas jovens me abordaram, chutei para canto. Teríamos de nos conhecer melhor, expliquei-lhes; teria de haver de ambos os lados um sentimento de segurança na discussão; teríamos de estar prontos a olhar para além do que as palavras de cada um pudessem significar, para apreender as verdadeiras intenções por detrás dessas palavras; e teríamos de nos interessar suficientemente sobre os assuntos – e uns pelos outros – para termos paciência para um processo que talvez tivesse de se desenrolar ao longo de várias horas ou até semanas.

Mas afinal não era nada disso que elas queriam discutir. Afinal de contas eram ambas católicas devotas (sim, da Holanda!), que aceitavam o ensinamento da Igreja. O que queriam era falar sobre as leis da Holanda que obrigam todos os professores a ensinar aos seus alunos da primária que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é bom. Aquilo que eu pensava que iria ser uma conversa sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou, afinal, por ser uma questão sobre a liberdade de consciência e os limites do poder estatal.

Quis a providência divina que nesse dia a turma estivesse a ler “O Martírio de Perpétua e de Felicidade”, um relato escrito em larga medida pela própria Vibia Perpétua, antes de morrer no ano 203. A questão que Perpétua enfrentava era saber se deveria acender uma vela de incenso ao imperador, jurar-lhe fidelidade enquanto deus e depois prestar culto aos deuses por ele designados.

Um dos protagonistas do relato de Perpétua é o seu próprio pai, que repetidamente a aconselha a aceitar o acordo que foi proposto. Podia dizer uma coisa por palavras, mas acreditar noutra, dizia-lhe ele. As autoridades romanas não queriam saber de religião para nada, apenas de política. Eles não se interessavam em saber que Deuses se adorava, desde que se obedecesse ao imperador e aos seus representantes. Perpetua tinha um bebé, devia pensar nele, suplicou o pai. Mas ela não cedeu.

Muitos dos alunos na aula tinham visto o filme “Silêncio” de Martin Scorsese. “Porque não pisar simplesmente a imagem de Jesus?”, perguntei. “Apenas isso, alinhar, pisar. Deus não se magoa. Pode-se esconder um crucifixo no bolso, o que é que isso teria de mal?”

E você, o que teria feito na situação de Perpétua? Será que ela era uma mulher espetacular e forte que recusou ser amedrontada por homens, desde o imperador, ao governador, passando pelo próprio pai? O será que era uma tola teimosa que deveria ter aceitado a proposta que lhe foi feita? O que é que custaria acender uma vela? Deus não teria compreendido? Afinal de contas, era só uma vela.

Ou era? Se a vela era tão pouco importante, então porquê insistir que deveria ser acesa, sob pena de tortura ou morte? Talvez porque no final de contas não era só sobre acender uma vela ou pisar uma imagem, mas sim uma forma de mostrar que se aceitava a autoridade última daqueles que estão no poder. Essas pessoas não querem saber o que faz em privado, desde que mostre em público que aceita as suas vontades e concorde em submeter-se a tudo aquilo que consideram ser indispensável.

“Pensem na Perpétua”, disse-lhes. Há autoridades legítimas no Governo, e precisamos delas para nos ajudar a construir e defender o bem comum. Mas há também aqueles que apenas nos querem governar. Com estes chega-se a um ponto em que simplesmente devemos perguntar: “Que parte de mim mesmo estou disposto a submeter?”, “A que divindades me prostrarei?” e, a dada altura, “Quem é o meu Deus?”.


Não são perguntas que eu poderia responder por elas. Faz parte da dignidade da pessoa que cada um as deva enfrentar por si. 


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 16 de Agosto de 2017)

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Colher o que Semeámos

Anne Hendershott
Estudos recentes revelam que os níveis de esperma de homens no ocidente desceram 60% desde 1971, evocando a grande distopia de P.D. James “Os Filhos dos Homens”, com a sua visão de uma sociedade que já não se consegue reproduzir. Baseado no Reino Unido, em 2021, esta ficção assustadora descreve uma mundo de infertilidade em massa entre os homens, um mundo em que não nascem crianças há 25 anos. No livro, o último bebé que nasceu é agora um adulto e a população está a envelhecer. Tal como na realidade actual, os cientistas no livro de James ainda não conseguiram descobrir uma cura, ou sequer uma causa, para a infertilidade.

No artigo em que publicam as suas descobertas, na revista Human Reproduction Update, os investigadores – de Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Brasil e Espanha – concluem que o total de contagem de esperma caiu 59.3% entre 1971 e 2011 na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia.

Alguns cientistas afirmam que a “vida moderna” causou sérios danos à saúde dos homens. Pesticidas, poluição, dieta, stresse, tabaco e obesidade… todos têm sido associados ao problema, com algum grau de plausibilidade. Mas há menos homens a fumar do que nunca e os controlos de poluição e de pesticidas que os governos têm implementado ao longo dos últimos 40 anos diminuíram vários destes riscos.

Durante a Revolução Industrial, no século XIX, os homens incorriam em riscos de saúde muito maiores ao trabalhar em fábricas numa altura em que não havia sequer regulamentos sobre a qualidade do ar. Havia menos problemas de fertilidade nessa altura, as famílias eram numerosas e ninguém se preocupava com a contagem de esperma.

A obesidade pode ser um factor, mas os investigadores ainda não conseguiram estabelecer uma ligação. Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda fez um estudo ao longo de quatro anos com uma população de Adventistas do Sétimo Dia, que são rigorosamente vegetarianos. Os resultados revelaram que os vegetarianos têm uma média de contagem e de mobilidade de esperma significativamente mais baixas que carnívoros, mas o veganismo é um estilo de vida minoritário ainda, especialmente entre homens, e por isso não pode ser a principal causa do fenómeno.

As causas para este declínio de fertilidade continuam por apurar. Mas para se compreender as consequências de uma sociedade estéril, a história de P.D. James descreve um mundo sombrio em que emerge um Governo totalitário para manter a ordem – e fornecer “conforto” aos residentes. É um mundo em que os animais de estimação se substituem às crianças e a religião parece ter perdido o seu sentido. Porém, na tentativa fraca de manter os rituais cristãos as igrejas anglicanas levam a cabo cerimónias de baptismo elaboradas para os gatinhos de estimação da população, repletas de vestidos brancos e boinas.

Na sociedade estéril de P.D. James, o sexo entre os jovens tornou-se “o menos importante dos prazeres sensoriais do homem”. E embora os homens e as mulheres ainda se casem, é frequentemente com pessoas do mesmo sexo. O desejo sexual diminuiu a par da fertilidade masculina, não obstante os esforços do Governo para estimular o desejo através de lojas de pornografia patrocinadas pelo Estado.

De certa forma o romance de James descreve uma sociedade que conseguiu precisamente aquilo que queria: prazer sexual sem risco de gravidez. Mas a ironia é que não havendo possibilidade de procriação, o sexo perde o seu sentido. É um facto que enfrentamos cada vez mais hoje enquanto debatemos se o Estado deve obrigar todos os contribuintes, incluindo aqueles que têm objecções religiosas, a pagar pelos “direitos reprodutivos” de todas as mulheres, numa altura em que há cada vez mais preocupações com a infertilidade masculina.

Há muito que os antropólogos e os sociólogos sabem que a questão da fertilidade humana numa dada população tem de ser vista de uma perspectiva cultural. A cultura é a forma de vida, ou a concepção de vida que caracteriza cada sociedade humana. Inclui os valores partilhados, normas e comportamentos de uma dada sociedade.

Para compreender as taxas de fertilidade e a diminuição da população, devem-se identificar e modificar as influências culturais. A cultura é importante para se compreender as taxas de fertilidade e para modificar a actividade sexual, criando uma relação entre o sexo e a reprodução e o sistema de valores de uma cultura. Quando, numa determinada sociedade, a chegada de uma criança é desvalorizada, o acto sexual que produz a criança também se desvaloriza. Note-se que os níveis de fertilidade masculina estão em queda no Ocidente e não em África, onde as crianças continuam a ser altamente valorizadas e acolhidas em amor.

Esta perspectiva sociológica ou cultural estava claramente expressada na Humanae Vitae: Sobre a Regulação da Natalidade, emitida pelo Papa Paulo VI no dia 25 de Julho de 1968, onde se lê:

“O problema da natalidade, como de resto qualquer outro problema que diga respeito à vida humana, deve ser considerado numa perspectiva que transcenda as vistas parciais  sejam elas de ordem biológica, psicológica, demográfica ou sociológica – à luz da visão integral do homem e da sua vocação, não só natural e terrena, mas também sobrenatural e eterna.”

Talvez seja chegada a hora de considerar a sociologia em torno da cultura de “direitos reprodutivos” que criámos – a cultura de contracepção que o Ocidente abraçou. Temos de nos questionar sobre o eventual custo psíquico de uma cultura em que a contracepção e o aborto são de tal forma importantes que o ObamaCare procurou obrigar todos os empregadores – incluindo instituições religiosas – a fornecer aos seus funcionários seguros de saúde que incluíam cobertura para medicamentos contraceptivos e abortivos abortivos para todos.

É importante realçar que estes declínios de fertilidade começaram a registar-se em 1971 com o surgimento da pílula contraceptiva e liberalização do aborto a pedido através de Roe v. Wade. Será que, tal como na distopia de James, há um preço psíquico a pagar quando começamos a partir do princípio que podemos controlar todos os aspectos das nossas vidas? Será possível que tenhamos sobrecontrolado a nossa própria fertilidade?


Anne Hendershott é professora de Sociologia e directora do Centro Veritas para Ética na Vida Pública, da Universidade Franciscana de Steubenville, Ohio. É autora do livro The Politics of Deviance (Encounter Books).

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 10 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Argueiros, Traves e Vista Desimpedida

Anthony Esolen
“Se vires um argueiro no olho do teu irmão, ignora-o, porque o mais natural é teres um argueiro no teu olho também, ou alguma coisa pior”, disse Jesus, nunca. Um argueiro no olho dói. Esta parábola é um aviso contra o orgulho espiritual; acharmo-nos melhor que os nossos irmãos só porque calhou não sermos afligidos por esse argueiro em particular. É por isso que na parábola que verdadeiramente contou chama hipócrita ao homem orgulhoso. Mas reparem que ele acrescenta: “Primeiro tira a trave do teu próprio olho, só assim, verás com nitidez para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

Jesus não é fã de argueiros. Quer-nos livres deles. Ordena-nos a fazer um sério exame de consciência, uma limpeza espiritual; devemos ser misericordiosos com os pecadores, mas intolerantes com o pecado, a começar com o nosso próprio. Estamos zangados com o nosso irmão? Olhámos com desejo para aquela mulher? Procurámos o lugar de honra na mesa? Rezamos de forma a dar nas vistas? Alimentamos desejos de vingança contra aqueles que nos magoaram?

Hipocrisia, orgulho, ira, cobiça, vaidade, desejo de vingança – estes são pecados ou disposições pecaminosas que devemos odiar como odiamos as doenças do corpo, porque, tal como o cancro, fazem mal à constituição moral de que Deus nos dotou. Pensem nos pecados sérios como corpos estranhos que se alojam nos ossos, no sangue, no cérebro e no coração. Jesus quer-nos livres deles.

Podemos fazer uma distinção claríssima entre o realismo da Igreja e aquilo a que chamarei o “irrealismo” dos nossos tempos, uma incapacidade de compreender a realidade do pecado. Quando eu digo que a calúnia é um pecado isso significa mais do que apenas a constatação do facto de que a calúnia fere a reputação da vítima, ou que Deus a condenou, ou que, como dizem os sofistas, a “sociedade” a vê com maus olhos. Significa que Deus a condena da mesma forma como um médico odeia cancro.

Platão entendia isto – como é que os cristãos não o percebem? A calúnia devora verdadeiramente as entranhas do caluniador. O pecador é a primeira e mais miserável vítima do pecado. Não seguimos as leis morais como se fossem um conjunto de restrições culturais arbitrárias. Deus criou-nos de forma que florescemos quando obedecemos à lei moral e decaímos, adoecemos e morremos quando a ignoramos ou violamos.

Tudo isto é independente de opiniões. É a lei que está inscrita nos nossos corações; a lei com a qual os nossos corações funcionam, e neste sentido todas as pessoas são iguais. Não há dois ou três tipos de coração diferentes que bombeiam o sangue pelos nossos corpos; só um. Não há dois ou três testemunhos da lei moral diferentes inscritas no nosso coração, apenas um. O coração físico é feito para sangue, não para água ou cola. O coração moral é formado por aquilo que é verdadeiramente bom, não para a hipocrisia, orgulho, ira, luxúria, cobiça, vaidade ou vingança.

Claro que, se viver cercado de pessoas que enchem o coração moral de cola e chamam-lhe um tipo de sangue diferentes, e seguir os seus exemplos, poderá não ser culpado de uma violação consciente e intencional da lei de Deus. A sua culpa é mitigada pela sua insensatez. Mas a cola não deixa de ser cola. Chame-lhe o que quiser; o pecado não se verga às alcunhas. Pode chamar ao melanoma na bochecha do seu irmão um sinal, mas os seus perigosos tentáculos não deixarão de fazer o seu trabalho.

E porque é que lhe chamaria um sinal? Talvez não creia verdadeiramente naquilo que a Igreja ensina. Segue-o na sua própria vida, mas não lhe dá verdadeiro crédito. É um resíduo de um hábito cultural; como um judeu que segue as leis kosher, mas que não insiste que os filhos o façam, porque já não vê qualquer ligação entre essas leis e a aliança entre Deus e Israel. Não tem valor real.

E portanto você diz que a fornicação é errada, porque Deus a condenou, mas não acredita verdadeiramente que a fornicação é errada, e que por isso a condenação de Deus é um pouco como um alarme, uma barreira de segurança. Diz a si mesmo que Deus ignorará esse mal, tal como você ignora, porque assim é tudo mais fácil.

Você não é um hipócrita moralista. É um hipócrita não-moralista, que se congratula por ter uma mente muito aberta que, na realidade, não passa de indiferença e cobardia.

Ou então chama-lhe um sinal porque é isso que toda a gente lhe chama e de alguma forma tem esperança que Deus alinhe. Diz que toda a gente é pecadora, por isso pouco interessa qual é o pecado que desfigura o seu irmão. No fim Deus apagará tudo.

Mas essa atitude não é reconciliável com as palavras e o exemplo de Jesus, e faz com que a Cruz não tenha qualquer sentido. Para quê morrer por um povo paralisado pelo pecado quando seria muito mais fácil encolher os ombros perante a paralisia e com um toque de uma varinha mágica na ressurreição dos mortos: Já está! Toda a gente é santa.

Nesse esquema não há lugar para o amor. Se vê um cancro não diz: “Bem, toda a gente vai morrer de alguma coisa eventualmente, qual é o problema?” Se vir um homem deitado numa vala, espancado quase até à morte, não olha para ele e diz “bem, se não fosse isto era outra coisa qualquer” e segue o seu caminho.

Interessa que o homem se tenha lançado para a vala? Interessa que o seu irmão esteja a preparar uma corda para se enforcar? A vontade altera a realidade do mal? Se duas pessoas concordam em jogar à roleta russa, isso faz com que o jogo seja menos mortal? O consentimento mútuo no mal tanto pode agravar a culpa como mitigá-la. Num duelo, ambos consentem.

Caros leitores, chegou a hora de voltar à realidade.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 3 de Agosto de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Poluição da Nossa Vida Comum

Matthew Hanley
Há um aluno da Universidade de Arizona que acha que é um hipopótamo. Ora aí está uma frase que nunca imaginei escrever. Define-se como um “tranimal”.

Normalmente qualquer leigo o poderia diagnosticar – mesmo sem lhe pôr os olhos em cima e sem qualquer medo de negligência – como non compôs mentis. Mas já fomos todos avisados, à medida que estes desvarios aumentam em número, que qualquer forma de “autoidentificação” deve ser validada.

Basta perguntar ao professor canadiano que tem sido perseguido incansavelmente por se recusar a alinhar com a ditadura dos pronomes. Os seus superiores insistem que ele use invenções gnósticas como Ze, Hir, Xe, Verself, etc., em vez dos pronomes ingleses comuns (he, she, hers, etc.), sempre que alguém considera que os reflexos gramaticais da realidade biológica sejam demasiado restritivos.

Tendo em conta que os advogados têm achado por bem forçar as massas a aceitar estas ilusões (e bem antes disto já eramos lamentavelmente litigiosos), temo pelo futuro da Universidade de Arizona. Há claramente um processo no horizonte – se não contra a universidade, então contra quem alimenta o hipopótamo. Eu já tive a sorte de ver hipopótamos em liberdade e sei que todas as reservas naturais insistem que é proibido e punível por lei alimentar animais selvagens. Como é que vai ser quando a exaltação da autonomia no ramo da sexualidade – que chegou ao ponto de redefinir a realidade biológica – entrar em conflito com o respeito pelo ambiente? Nem deve ser uma questão. A vida selvagem fica em segundo lugar, a autonomia em primeiro.

Por falar em vida selvagem, vejamos outro exemplo deste conflito. Até envolve outro “tranimal” – na medida em que se pode referir ao fenómeno dos peixes “inter-sexo” com este termo. Estamos a falar de peixes machos que estão a desenvolver ovos nos testículos. Como é que isto acontece? Demasiado estrogénio na água; as ETAR simplesmente não conseguem lidar com a quantidade de hormonas estrogénicas que os seres humanos consomem, eliminam e enviam de volta para a natureza.

Há décadas de provas – que constam até de publicações “mainstream” como a “Nature” – de que o princípio activo da pílula (EE2), juntamente com outros estrogénios, “causa danos em larga escala no ambiente aquático, perturbando os sistemas endócrinos da vida selvagem”.

No início de Julho o professor Charles Tyler da Universidade de Exeter, juntou os seus dados dramáticos ao monte crescente de provas numa palestra a um simpósio internacional patrocinado pela Sociedade Pesqueira das Ilhas Britânicas.

A apresentação chamava-se “A feminização da natureza – uma história não-natural” e era bastante técnica, mas uma das conclusões principais foi de que testes feitos em cinquenta locais diferentes revelaram que um em cada cinco peixes machos de água doce no Reino Unido tinha características femininas. Isto, juntamente com outros impactos adversos, diminui a capacidade desses peixes de se reproduzirem. Por outras palavras, o ecossistema está a levar por tabela.

Há muitos outros contaminantes implicados, como os derivados de cosméticos, plásticos e detergentes mas, tal como a pílula, estes também têm propriedades estrogénicas que contribuem para estes desequilíbrios ao nível fisiológico. Outros químicos, tais como os que se encontram nos antidepressivos, provocam alterações anormais no ramo do comportamento.

É um dado bem conhecido que a pílula é carcinogénea; mas isso pode não estar limitado ao consumo directo. Podemos estar perante um problema mais alargado, por causa dos níveis de estrogénio na água. Existe uma correlação forte – mas não, sublinho, uma causalidade comprovada – entre a utilização da pílula na sociedade e o cancro da próstata nos homens. Essa associação significativa foi detectada em todos os 88 países em que foi investigada.

Seja como for, a preocupação gerada pela realidade dos peixes inter-sexo – um exemplo inegável da conspurcação humana do ambiente – é insignificante em comparação com o furor sobre as alterações climáticas, alegadamente causadas pelo homem. Nem se dá por ela. Perante dados científicos ciência tão inegáveis, mas tão inconvenientes como estes, é muito mais eficiente ignorar do que negar.

A mera quantidade de repercussões da pílula, a todos os níveis, que é preciso ignorar só se compreende através de um exercício voluntário do intelecto. Melinda Gates disse recentemente que a pílula é uma das maiores medidas de sempre para combater a pobreza. Talvez esteja simplesmente a ignorar o trabalho do falecido economista Julian Simon, que demoliu essa visão recorrente que, no fundo, revela uma visão de soma zero de recursos limitados, destinados a diminuir à medida que as pessoas proliferam. Uma visão temorosa, contradita por resmas de provas. Simon, por outro lado, sabia que o melhor recurso no planeta são as pessoas e defendia que é tendo mais pessoas, e não menos, que se chegará à inovação e à produtividade responsáveis pelo desenvolvimento.

O principal motor do progresso mundial é uma boa quantidade de conhecimento humano. E o melhor dos recursos é composto por pessoas esperançosas, qualificadas e animadas, usando a vontade e a imaginação para se sustentarem a elas e às suas famílias, contribuindo dessa forma para o benefício de todos.

A investigação de Simon mostrou-se tão persuasiva que a sua tese passou de contracorrente a largamente aceite hoje. Até os peixes ficariam contentes se a Srª Gates passasse a ver as coisas deste modo. Esperar-se-ia que as pessoas que amam a humanidade – como a Srª Gates, na qualidade de filantropa – ficariam fora de si com a perspectiva do triunfo do engenho humano sobre as aparentes contrariedades da natureza.

A Srª Gates parece esperançada de que a Igreja Católica esteja em vias de mudar os seus ensinamentos sobre a contracepção. Talvez saiba algo que eu não sei. É verdade que algumas pessoas têm especulado sobre alterações para coincidir com os 50 anos da “Humanae Vitae” no próximo ano.

Há muitas razões importantes e de peso sobre porque é que isso não é boa ideia, mas eu acrescentaria mais uma: A aceitação de um conhecido poluente por parte da Igreja não estaria em contradição com a admoestação de 2015 contida na “Laudato Si”, de “cuidar da nossa casa comum”?


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 31 de Julho 2017 em The Catholic Thing)

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