terça-feira, 31 de outubro de 2017

Lamentando a Reforma de Lutero

Charlotte Allen
Assinala-se hoje o 500.º aniversário do dia em que Martinho Lutero (alegadamente) pregou as suas 95 teses na porta do castelo de Witenberg, dando início à reforma. Em 1999 católicos e luteranos sentaram-se à mesa e chegaram ao consenso de que afinal os dois ramos do Cristianismo concordam precisamente sobre a questão que tinha levado Lutero a romper com a Igreja Católica: que a “justificação” – isto é, o perdão dos pecados dos homens através do poder salvífico de Cristo – se consegue apenas pela graça de Deus e não por méritos humanos, como alguns católicos tinham argumentado, ou pareciam ter argumentado. Depois, a 19 de Outubro deste ano, o bispo italiano Nunzio Galantino, secretário-geral da conferência episcopal italiana, foi mais longe e declarou que Lutero nem herege era e que a reforma tinha sido “obra do Espírito Santo”. Bom, eu não diria tanto, mas sinto uma espécie de obrigação ecuménica de dizer algo de simpático sobre Martinho Lutero.

Mas o problema é que não é fácil… Não é preciso ser freudiano para concluir que Lutero era um caso muito complicado. Era arrogante, egoísta, dramático e pensava que era o centro do mundo por ser mais esperto e espiritualmente superior a toda a gente.

Passou a juventude e hesitar sobre o que fazer com a vida (e a desperdiçar o dinheiro das propinas que o pai lhe dava) numa época – a alta Idade Média – em que um jovem adulto não se podia dar ao luxo de perder tempo, porque a maior parte deles não vivia para além dos 40. Depois, quando finalmente entrou para um mosteiro agostiniano (num gesto tipicamente melodramático, anunciando que jamais o iriam ver), lamentou-se durante uma década por não conseguir obter uma garantia de que a sua alma seria salva – pecando assim contra a virtude cristã da esperança.

Quando chegou a hora de “reformar” a Igreja, depois de 1517, o que interessava verdadeiramente a Lutero não era livrar-se das indulgências ou “jamais” ser visto. Lutero passou a ser visto em todo o lado, a conviver com poderosos príncipes alemães que tinham contas a ajustar com o Sacro Império Romano, ajudando-os a confiscar mosteiros a torto e a direito (será que não ficou com uma única memória boa dos agostinianos com quem tinha vivido tantos anos?), e perseguindo furiosamente os antepassados anabaptistas daquelas simpáticas senhoras amish que vendem legumes no mercado ao pé de minha casa.

Lutero pregava a sola scriptura, mas quando a Bíblia não se ajustava à sua teologia sentiu-se autorizado a mexer com ela. Inseriu o termo “somente” depois da palavra “fé” na sua tradução para alemão da Epístola de São Paulo aos Romanos e tentou relegar a Carta de Tiago para segundo plano porque mencionava as boas obras. Quando quis casar não podia contentar-se com uma simpática filha de um proprietário alemão, não, teve de casar com uma ex-freira, Katharina von Bura, que pessoalmente convenceu a sair do convento.

É possível ser mais ressabiado contra a Igreja Católica? Os dois mudaram-se para um mosteiro confiscado, que é como despejar o vizinho para poder ficar-lhe com a casa. Lutero foi pessoalmente responsável pela destruição maciça de arte medieval de valor incalculável, com incontáveis recém-luteranos a caiar alegremente os frescos das suas igrejas previamente católicas e a lançar para a fogueira as imagens de santos. Felizmente Lutero não era italiano, por isso ainda temos alguns Giottos.

Também tinha uma estranha fixação escatológica, e recorria facilmente à ordinarice para insultar os seus inimigos, o que fazia frequentemente, porque criava muitos. E para culminar, era ferozmente anti-judeu. É certo que os católicos medievais também não eram particularmente queridos na forma como tratavam os judeus, mas pelo menos nenhum deles escreveu um tratado chamado “Sobre os Judeus e as suas Mentiras”, que era um dos livros favoritos de Julius Streicher, um dos pais da propaganda nazi.

E não,

Martinho Lutero não inventou a árvore de Natal, nem escreveu o “Away in a Manger”. Mas conseguiu estragar o Halloween, rebaptizando-o “Dia da Reforma”. Que desmancha-prazeres! Não podia ter pregado as teses no dia 30 de Outubro?

Mas por uma questão de justiça, há algumas coisas boas a dizer sobre Martinho Lutero. Vou enumerá-las:

·         Vender indulgências foi mesmo má ideia. Se ao menos tivesse parado por aí.
·         Gostava muito dos seus filhos. Isso é bom.
·         Consta que Katharina von Bora fazia excelente cerveja – mas aposto que aprendeu isso no convento.
·         “Castelo Forte é Nosso Deus”, que foi de facto escrito por Lutero, é um cântico fantástico.
·         J.S. Bach foi o melhor compositor que alguma vez existiu. Søren Kierkegaard foi um dos melhores teólogos. Dietrich Bonhoeffer um dos mais nobres mártires cristãos.
·         Os actuais luteranos que fizeram do “Midwest” americano um bastião de conservadorismo social (e de excelentes escolas públicas) são o sal da terra – embora a sua gastronomia deixe algo a desejar.

Chegado a este ponto, o meu leitor protestante e evangélico deve estar a pensar que não passo de uma versão moderna do Padre Feeney, a insultar indiscriminadamente “os nossos irmãos separados”, como nós, católicos, lhes chamamos hoje em dia. Mas não é o caso. O meu marido é protestante! E tiro o chapéu aos irmãos Wesley, a William Wilberforce, a C.S. Lewis, Billy Graham, ao biblista anglicano N.T. Wright e a tantos outros que testemunharam de forma tão vibrante a fé cristã fora da Igreja Católica. Não concordo com a sua visão do que é, ou deve ser, a Igreja de Cristo, mas admiro profundamente a sua relação intensa com Jesus.

Só preferia que esta história toda não tivesse começado com… Martinho Lutero.


Charlotte Allen é doutorada em estudos medievais pela Catholic University of America e é autora de “The Human Christ: The Search for the Historical Jesus”. Escreve no First Things tem colunas regulares no Weekly Standard, Acculturated, e no Wall Street Journal.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 31 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ele queria ser astronauta...

O Papa recebeu esta manhã representantes da Universidade Católica Portuguesa, a quem lançou três desafios. Em troca recebeu dois “presentes”, incluindo uma cruz peitoral feita por umaartista portuguesa.

Pouco depois Francisco esteve em diálogo directamente com a tripulação da Estação Espacial Internacional a quem colocou várias perguntas, como pode ver aqui.

Hungria: Menino mau da Europa, ou guardião dos seus verdadeiros valores? Leia e decida por si.

E hoje falamos também da Turquia, onde o presidente Erdogan é visto com cada vez mais desconfiança pelo mundo ocidental. Ameaça ou só fonte de preocupação? Fomos perguntar a um especialista português.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Jihadi Judge e Estado Islâmico prefere Messi a Ronaldo

ISIS prefere Messi a Ronaldo
Nos últimos dias um juiz no Porto lembrou-se de citar a Bíblia num acórdão sobre violência doméstica. Isso em si não tem mal. O problema é a forma como a cita e aparente enormidade da decisão, como explica Graça Franco nesta carta aberta, que vale a pena ler. Até os bispos tiveram de vir a público lamentar o sucedido.

Morreu o padre Noronha Galvão, que foi aluno de Ratzinger e um teólogo influente em Portugal.


No Médio Oriente aconteceu precisamente aquilo que, infelizmente, eu tinha previsto no Verão. Após o referendo no Curdistão iraquiano abriu-se um conflito entre Bagdad e os curdos e quem está a levar com os combates à porta de casa são os… Cristãos, claro.

O Estado Islâmico pegou numa imagem de Lionel Messi para ameaçar o mundial de 2018.

Mesmo as pessoas que cometem os crimes mais horríveis terão feito algum bem ao longo da vida. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o diácono James Toner recorda o seu antigo pároco, que teve sobre ele uma grande influência, mas que afinal revelou-se mais tarde como um violador e abusador de rapazes. Um artigo duro, mas que todos devemos ler.

O Padre “Smith” e o Mistério do Mal

Diácono James H. Toner
Estava no meu gabinete, no seminário onde leccionava, quando tocou o telefone. Atendi, e levei logo com uma rajada de palavrões. Quando o meu interlocutor acalmou, explicou-me que acabara de ler um artigo que eu tinha escrito, meses antes, sobre um padre que conheci nos meus dias de acólito, numa pequena igreja na Nova Inglaterra.

O padre “Smith” era o vigário paroquial cujas missas tinha acolitado 50 anos antes daquele telefonema. No artigo que escrevi agradeci-lhe os seus brilhantes serviços sacerdotais e a influência inteiramente positiva que tinha tido sobre mim. Em todos os anos em que fui acólito, sempre tive a melhor impressão do padre Smith.

Foi transferido mesmo antes de eu entrar para o liceu, em 1960. Liceu, universidade, tropa, o começo da vida de casado e o começo da minha carreira como professor sucederam-se rapidamente. Nunca tinha chegado a agradecer ao padre Smith e, quando finalmente me lembrei de o fazer, ele tinha morrido.

Não obstante, mesmo depois da sua morte escrevi, para expressar publicamente a minha apreciação por este grande padre que tinha sido parte da uma infância idílica: excelentes pais, grandes padres e professores, jogos, bicicletas e livros e, a seu tempo, um casamento com uma miúda da mesma terra.

Escrevi que o padre Smith era um filho leal da Igreja. Toda a gente na minha paróquia o adorava. Tratava os acólitos com respeito, bondade e bom humor. Se, por exemplo, eu cometesse algum erro quando ajudava à missa, corrigia-me com paciência. Estava disponível para todos os que precisavam dele – aconselhando, celebrando, consolando, baptisando, casando, visitando no hospital e presidindo a velórios e enterros.

Então o senhor do outro lado do telefone disse-me que o padre Smith era um violador; e que ele estava entre os que tinha sido violado.

Isto estava totalmente para além da minha capacidade de compreensão. Nos seis anos que o tínhamos conhecido na minha pequena vila, não houve um único incidente negativo nem qualquer manifestação da efebofilia (a atracção de um adulto por adolescentes) de que o padre Smith estava agora a ser acusado.

Disse-me que o padre Smith fazia parte de uma rede de padres que levava rapazes adolescentes para uma casa de campo, embebedavam-nos, drogavam-nos, mostravam-lhes pornografia e tinham relações sexuais com eles. Pior, o sucessor do padre Smith na minha antiga paróquia também era acusado de fazer parte desta rede.

Foi de pouco consolo saber que estas terríveis actividades tinham acontecido cerca de vinte anos depois de eu ter sido acólito.

Pensei que as acusações não podiam ser verdade, e disse-o ao meu interlocutor.

Mas eram – conforme me foi confirmado por várias fontes credíveis e pelo testemunho pessoal de pessoas que tinha conhecido anos antes. Não queria acreditar. Como é que este padre piedoso tinha participado nestes deboches, nestes crimes, nestes pecados mortais? O padre Smith? O devoto, bondoso, sincero e bem-disposto padre Smith?

Não sei. Jamais saberei. Mas ainda me lembro do padre Smith na missa, voltando-se para as pessoas e a dizer Dominus vobiscum; invocando o auxílio de São Miguel Arcanjo contra a maldade e as armadilhas do demónio; a sua devoção clara a Nosso Senhor e à sua Igreja.

No filme “Yang-Tsé em Chamas” Steve McQueen interpreta Jake Holman, da marinha americana que, depois de uma desventura na China, se vê encurralado. Mesmo antes de ser executado, pergunta: “como é que isto aconteceu?”

Passaram quase sessenta anos desde que vi o padre Smith, que em tempos me tinha desafiado a pensar em ser padre (coisa que não fiz). Celebrava a missa com grande reverência, era claramente devoto nos seus ensinamentos e nas suas pregações, era bondoso e bem-educado, tinha um humor apropriado e era um padre exemplar. Ainda guardo boas memórias de alguém que conheci como sendo um santo sacerdote e um homem bom.

As pessoas esperam que os escritores tenham respostas para as perguntas que levantam. Mas eu não tenho respostas para o que se passou com o padre Smith. Não compreendo. Estou atordoado por este mistério de iniquidade (2 Tess 2,7)

Bem sei, como diz o aforismo, que corruptio optimi pessimum est (A corrupção do melhor é a pior). Nós procurávamos no padre Smith e nos seus pares o sagrado, e deram-nos o profano; a virtude, e deram-nos o vício; a pureza, e deram-nos perversão. Foi chamado a ser digno do seu ministério (Ef. 4,1). Mas traiu as suas promessas e o seu sacerdócio. Os votos e o potencial do melhor padre Smith degeneraram de alguma forma na maldade moral que foi o pior padre Smith.

Rezamos ferverosamente, claro, por todas as vítimas do mal. Penso também no padre Smith de vez em quando, e rezo pelo repouso da sua alma. Foi um pároco tão bom, uma influência tão boa, que pelo menos um dos seus antigos acólitos o procuraria, anos mais tarde, para lhe agradecer. Deve ter feito muito de bom (que recordo) bem como muito mal (que, graças a Deus, nunca vi ou ouvi enquanto ele serviu na minha paróquia).

Será que ele pensou, para o fim da sua vida, nas muitas formas como traiu os seus votos sacerdotais solenes, e naqueles que tinha violado de forma tão cruel? Será que se arrependeu quando jazia, moribundo, com doença cardíaca? E será que perguntou a si mesmo e a Deus, enquanto morria, “como é que isto aconteceu?”

Rezo que sim.


O diácono James H. Toner, Ph.D., é professor emérito de Liderança e Ética na U.S. Air War College, e autor de “Morals Under the Gun” e outros livros. Leccionou em Notre Dame, Norwich, Auburn, a Academia da Força Aérea Americana e na escola e seminário de Holy Apostles.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Fuga Curda e Senhora Velejadora e Madragoas

Pôr-do-sol para os curdos em Kirkuk
Na sequência dos incêndios, a Cáritas Portuguesa abriu uma conta solidária. Saiba aqui como pode contribuir.

O Papa Francisco quis associar-se aos 500 anos da Sé do Funchal.

Ao longo dos últimos dias muito aconteceu no Iraque e na Síria. O Estado Islâmico foi expulso de Raqqa e os curdos estão a ser humilhados em Kirkuk e na Planície de Nínive, onde vivem muitos cristãos. O Patriarca da Igreja Caldeia pede às partes em disputa que protejam a vida acima dos poços de petróleo.

Convido-vos a conhecer o projecto de Ricardo Diniz, o navegador solitário que se prepara para rumar ao Brasil com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.

E aqui podem também ouvir a minha participação na Rádio Amália, em que se falou sobre religião e algo mais, com sugestões musicais pelo meio.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre a importância de haver jornalistas católicos nos grandes órgãos de comunicação social e, caso não o tenham feito já, o da semana passada sobre o perigo apresentado pelas leis que criminalizam o chamado “discurso de ódio”.

Participação no Madragoas, da Rádio Amália

Na noite de terça para quarta-feira tive o prazer de estar à conversa com António Vieira, da Rádio Amália, no programa Madragoas.

Falámos sobre o meu livro "Que fazes aí fechada?", sobre o paradoxo que é a liberdade que sente quem faz votos de pobreza, obediência e castidade, sobre ser cristão hoje em dia e sobre o meu trabalho enquanto jornalista da Renascença, especializado na área de religião. Também foi tema de conversa a natureza da Renascença enquanto emissora católica.

Pelo meio sugeri músicas, incluindo dois fados do Peu Madureira, meu amigo e cunhado.

Podem ouvir tudo aqui. Espero que gostem.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Um país coberto de cinza

Portugal está de luto, novamente. Politiquices à parte, vários bispos manifestaram-se sobre os incêndios, com o Patriarca a dizer que a tragédia era evitável, e o Papa enviou hoje uma mensagem de solidariedade.

Também hoje o Papa lamentou outra tragédia do fim-de-semana, o atentado em Mogadishu que fez mais de 300 mortos. Uma coisa absolutamente hedionda.

Em menor escala, mas também muito triste, é o assassinato de um padre copta, à facada. Uma sucessão de azares, ou mais um dia na vida daquela comunidade? (Aqui têm uma versão inglesa do mesmo artigo, caso queiram partilhar com os vossos contactos internacionais).

No fim-de-semana o Papa canonizou mais um português e convocou um sínodo sobre a Amazónia.

Entretanto na semana passada terminaram oficialmente as celebrações do centenário de Fátima. Sobre Fátima, decorre um musical, no Estoril, sobre a mensagem de Fátima. Há três novas sessões previstas para este próximo fim-de-semana. São os últimos, por isso aproveitem!

Terços que Assustam os Media

Clemente Lisi
Num tempo marcado por “fake news”, os leitores são bombardeados todos os dias com histórias – na maior parte dos casos legítimas, mas às vezes totalmente inventadas – alimentadas pelas redes sociais. O processo de angariação de notícias – o método através do qual os jornalistas e os editores avaliam o valor das histórias – tem-se tornado cada vez mais tema de discussão.

Os leitores já não se limitam a aceitar as notícias que aparecem de manhã nos jornais ou que lhes chegam continuamente através dos seus feeds do Twitter. Erros básicos, falta de isenção e a eleição presidencial do ano passado ajudaram a alimentar a narrativa de que a imprensa generalista está desligada da realidade dos americanos. A internet tem-se revelado uma oportunidade para os jornalistas, mas cada vez mais um desafio, também.

A minha experiência indica que falta diversidade nas redacções. Todas as empresas procuram ter diversidade nos seus quadros hoje em dia, mas nenhuma indústria precisa mais dela do que o jornalismo. A diversidade na redacção conduz a boas ideias, melhores debates e cobertura jornalística de melhor qualidade. Existe diversidade racial entre o pessoal? Devemos contratar outra mulher? Estas são questões com as quais as empresas se debatem cada vez que há uma vaga.

Mas o que nunca parece preocupar os empregadores é se existe um número suficiente de católicos praticantes na redacção, ou se devem contratar uma pessoa de fé – qualquer fé – para escrever sobre o que se passa no mundo e na comunidade. A crença em Deus é tabu na redacção.

Dizer que as pessoas religiosas estão mal representadas no mundo jornalístico é pouco. Mas esse facto faz uma grande diferença na forma como grandes órgãos de comunicação social tratam temas importantes como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A cobertura mediática pode influenciar a opinião pública e ajudar a determinar as leis e as políticas. Tem um impacto sobre as normas sociais e está a ser feita, em larga medida, sem a contribuição de pessoas religiosas em lugares chave.

Não existe espaço mais secularizado do que uma redacção. O preconceito liberal existe nos media, mas a maioria dos jornalistas não dá por ele. Não se consegue distinguir o preconceito quando toda a gente à nossa volta pensa e sente da mesma maneira.

Tomemos como exemplo a recente concentração de cidadãos polacos ao longo da fronteira da sua nação. O evento do dia 7 de Outubro, a que se chamou, “Terço nas Fronteiras”, foi organizado para coincidir com o aniversário da Batalha de Lepanto, entre cristãos e o Império Otomano, em 1571. Neste caso tratou-se de um evento solene e pacífico, mas para muitos nos media foi automaticamente classificado como sinistro porque envolvia católicos e terços. A “Newsweek” não resistiu a classificá-lo assim logo no título: “Católicos polacos rezam na fronteira, em evento tido como anti-islâmico”.

Se os muçulmanos tivessem organizado uma iniciativa semelhante jamais teria sido descrito de forma negativa. Ainda por cima a “Newsweek” embebeu um vídeo sobre a Sexta-Feira Santa nas Filipinas (provavelmente o único vídeo relacionado com catolicismo que tinham disponível), em que são reencenadas as últimas horas de Jesus – incluindo homens a serem pregados a cruzes – numa prática que o Vaticano já condenou. A imprensa cobre este evento porque representa fanatismo, ao contrário de devoção normal.

Mas a “Newsweek” está em boa companhia. A “BBC” e outros órgãos descreveram o evento de oração como “controverso”, como se isso fosse um simples facto.

Estamos habituados a ver este tipo de preconceito na forma como os media cobrem eventos como a Marcha pela Vida anual, mas a maioria de nós não tem noção de como muitas outras “notícias” são afectadas.

Os jornalistas tendem a ser caucasianos, educados, a viver em Nova Iorque ou em Los Angeles, duas das cidades mais liberais do país. A maioria das pessoas conservadoras acaba por entrar para o sector privado, oferecendo frequentemente o seu tempo ou doando dinheiro para causas que crêem que podem ajudar outros. Os liberais apostam no jornalismo porque é uma profissão que valorizam.

Os jornalistas que trabalham nos jornais de grande circulação de áreas metropolitanas importantes costumam ter licenciaturas de universidades da Ivy League – mais um bastião de liberalismo – e querem promover a mudança através do pensamento crítico e da escrita. O jornalismo é visto como um trabalho intelectual e passou de ser um trabalho de classes socialmente mais baixas para classe média ou alta nos anos que se seguiram ao caso Watergate.

Este conjunto de factores deixa católicos devotos – e crentes devotos de qualquer fé – praticamente sem espaço nas redacções actuais. Isso em si faz com que a cobertura mediática seja enviesada. O escândalo dos abusos sexuais na Igreja Católica, por exemplo, não é tratado da mesma forma do que escândalos envolvendo rabinos ou imãs.

Para os jornalistas liberais a Igreja Católica é um autêntico saco de pancada. O jornalismo que levou ao desmascarar de padres culpados de abusos sexuais é um exemplo de profissionalismo – e uma fonte de grande vergonha para mim enquanto católico. Mas os representantes da Igreja nunca recebem o benefício da presunção da inocência que vimos atribuída a polícias, ou até a outras pessoas, acusadas de homicídio. As únicas alturas em que vemos a Igreja a receber cobertura mediática positiva é quando apoia a agenda liberal – basta ver a cobertura aos bispos americanos que se opuseram a Trump quando ele tentou acabar com a política que protegia imigrantes ilegais que tinham chegado aos Estados Unidos enquanto crianças.

A diversidade de pensamento, em geral, seria muito útil para melhorar as redacções e o jornalismo que produzem. Mas contratar alguns jornalistas que percebem de facto alguma coisa sobre religião – um dos aspectos centrais da vida de seres humanos em todo o mundo – ou que talvez fossem eles próprios crentes, é tão ou mais importante para garantir que as notícias são completas do que a cor da pele ou o historial étnico de um repórter.

Talvez um dia os órgãos generalistas dos media acordem para essa realidade.


Clemente Lisi, um novo colunista no “The Catholic Thing”, é professor assistente de Jornalismo na King’s College, em Nova Iorque. Tem quase 20 anos de experiência enquanto jornalista e editor em órgãos de comunicação social como o “New York Post”, “ABC News” e o “New York Daily News”.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 12 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Samaan’s misfortune

Fr. Saaman Shehata
A run of misfortune yesterday left one man dead in Egypt.

The bad luck began with the fact that Samaan Shehata was from Beni Suef, a poor region in Egypt. Because of that poverty, he had offered to go to Cairo to gather humanitarian aid which had been made available to his community.

The next stroke of bad luck was the fact that a crazy man – at least the police considered him crazy even though he was not diagnosed by a professional – saw him walking down the street and decided to give chase. Unfortunately the mad man had a knife, with which he stabbed him several times.

There were plenty of people on the street, but as luck would have it, nobody came to his aid.

But apparently Samaan did not die straight away. But he was terribly unfortunate in that it took over na hour for the ambulance to arrive and, when it did, he was unlucky in that the first responders decided not to attend to his wounds.

The police arrived later and partly due to misfortune, partly because they already knew the killer was a mad man – even though he had not been diagnosed by a professional – they didn’t set up a crime scene or investigate further.

In the midst of all this misfortune, there is one coincidence. All this happened on the same day that Aid to the Church in Need presented a report in Lisbon, where I live and work, which concluded that Christian persecution has reached levels never before seen in history. That means that we are worse off now than we were when the Romans had Christians devoured by wild animals in the arena.

What does this have to do with Samaan Shehata? It so happens that Samaan is a Coptic Christian priest. As a Coptic priest he would have been easily identifiable by his long black cassock and traditional hat. He would have been easy to spot by somebody – crazy or not – who would want to kill him. And as luck would have it there is no shortage of men in Egypt – crazy or not – who want to kill Christians.

On second thought, maybe none of this had anything to do with misfortune at all. Because this story is becoming all to common, it’s happened too many times before, to be put down to bad luck. Misfortune had nothing to do with the fact that bombs were placed in Egyptian churches in April this year, killing almost 50 people. Misfortune did not kill the pilgrims whose buses were pulled over, massacred by automatic gunfire by the side of the road.

Father Saaman’s parishioners have been left without a pastor. His wife – Coptic priests are traditionally married – is now a widow and his children orphans. But that isn’t bad luck either. It’s just one of the risks that comes with being a Christian in the Middle East.

Filipe d'Avillez 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Do Ódio

James V. Schall S.J.
Tanto o Antigo como o Novo Testamento contêm passagens em que somos advertidos a odiar algo, como o mal, mas não o nosso irmão. Estamos familiarizados, talvez demasiado, com a expressão “odiar o pecado mas amar o pecador”. Este aforismo corre o risco de nos deixar com a impressão de que o nosso pecado é algo que flutua por aí, totalmente independente de nós, que nos mantemos puros como a neve virgem. Mas não existe pecado sem pecador. Mais, há pecadores que fazemos bem em evitar ou, pelo menos, tratar de forma cautelosa.

Quando Aristóteles trata a ira, que em si é uma coisa boa, fala do controlo, ou descontrolo de uma reacção apaixonada a algo que é perigoso ou errado. Normalmente exageramos. Mas não nos irarmos com coisas más é um vício. Algumas coisas devem despertar em nós a ira.

O ódio é uma resposta emocional ao nosso reconhecimento de que há algo de específico errado com o mundo. Diz-me o que odeias e dir-te-ei quem és. E se me dizes que nada odeias porque não há nada de errado no mundo, então fico com uma imagem ainda mais clara do que és – incuravelmente ingénuo.

Dito isto, estou interessado neste fenómeno relativamente novo a que se chama “discurso de ódio”. Poucas coisas são potencialmente mais perniciosas, sobretudo quando os governos e as instituições começam a defini-lo ou a fazer cumprir a sua proibição. O “discurso de ódio” e a liberdade de expressão estão claramente em conflito um com o outro. As pessoas que em tempos estavam interessadas em explorar as fronteiras da liberdade de expressão – ao ponto de se poder dizer praticamente qualquer coisa com impunidade – são as mesmas que agora, que controlam a cultura, querem suprimir qualquer expressão que não seja do seu agrado.

Mas afinal de contas de onde veio esta questão do “discurso de ódio”? A sua origem está no esforço, agora em larga medida bem-sucedido, de derrubar a estrutura moral da sociedade. De forma geral, esta transformação foi levada a cabo através do uso perspicaz da conversa de “direitos”. Aquilo a que antes se chamava, por razões racionais, uma desordem ou um vício começou por ser tolerado, depois finalmente um “direito”. Mal se torna um “direito” qualquer pessoa que lhe chama pecado ou mal torna-se automaticamente um caluniador e violador da dignidade e do orgulho humanos.

A linguagem tem um propósito. Serve para definir, e depois nomear, aquilo que designa realmente. Se começarmos a usar a mesma palavra para duas realidades diferentes, temos de passar a deduzir pelo contexto a realidade a que nos referimos. Se casamento passa a designar tanto a relação entre macho/fêmea e macho/macho, a realidade a que a palavra se refere não muda. Uma coisa não é a outra.

É aqui que entra em cena o “discurso de ódio”. Uma vez que a lei afirma agora que ambos os arranjos maritais são “iguais”, deixamos de ter a liberdade de afirmar que não o são. As pessoas sentem-se magoadas se lhes disserem que aquilo que fazem é, ou não é, um casamento. A afirmação de que não é ganha estatuto de desordem cívica que deve, em nome da prevenção da perturbação, ser proibida. Podemos dar por nós ostracizados ou até detidos por afirmar aquilo que é verdade e argumentar nesse sentido. A liberdade de expressão, que tinha como objectivo afirmar a verdade das coisas, já não é permitida. A verdade é uma ameaça à sociedade.

Uma nova revolução cultural
Quando se universaliza esta situação percebemos que temos de providenciar espaços onde as pessoas estão protegidas de ouvir sequer algo que questione a rectidão das suas escolhas ou da lei civil que agora reivindica jurisdição sobre todo o nosso discurso. Um dos aspectos mais odiosos das sociedades totalitárias era a montagem de postos de escuta, ou o hábito de levar as crianças a revelar o que os seus pais diziam em privado. Este mesmo fenómeno já está entre nós. Agora está disfarçada de forma de proteger as vítimas do ódio daqueles que se recusam a aceitar o novo regime de “direitos” que insiste que a sua lei é a única e mais alta lei da nação.

Ao discutir o direito, são Tomás de Aquino perguntava se devemos ter uma lei que proíba todos os vícios. Inicialmente parecia uma boa ideia, mas na verdade é uma ideia terrível. Aquino compreendia que dar tal poder ao Estado implicaria um conhecimento divino e acabaria com a liberdade de errar que nos permite estabelecer o nosso próprio destino.

São Tomás sabia que alguns vícios tinham de ser reprimidos, caso contrário estaríamos num estado de guerra constante. Mas dar poder ao Estado para nos livrar de todos os vícios equivaleria a dar-lhe poder absoluto, algo que demasiados políticos anseiam. Os cidadãos perderiam então esse espaço de liberdade e de inteligência em que podem tomar as suas próprias decisões. As “leis de ódio” radicam, em última análise, do esforço do Estado moderno para alterar a natureza humana.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 9 de Outubro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Justiça restaurativa, sangue e sofrimento

Está em discussão em Cascais a Justiça Restaurativa. Seria capaz de perdoar ao seu agressor? Concorda que os reclusos estrangeiros em Portugal sejam apoiados? Estas e outras questões debatidas num assunto fundamental.

O Papa Francisco dedica o mês de Outubro à oração pelos direitos dos trabalhadores e esta quarta-feira renovou o apelo de Fátima de se rezar pela Igreja.

Igreja essa que nas Filipinas continua a fazer frente ao carniceiro Rodrigo Duterte. Agora os bispos oferecem guarida e ajuda a quem quiser testemunhar contra a “guerra à droga”.


Sabia que um em cada cinco países do mundo tem religião oficial? E que a maioria desses países são muçulmanos? Mas o cristianismo é das religiões que mais tem tratamento preferencial.

Esta quarta-feira publicamos um artigo do The Catholic Thing sobre o sentido do sofrimento. É algo que toca a todos durante as nossas vidas. Como entender e tirar graça da dor? O médico Philip Hawley deixa a sua opinião.

Aceitar o Dom do Sofrimento

Philip Hawley Jr.
De vez em quando Deus coloca na nossa vida alguém tão rico em graça que esta parece submergir-nos completamente. A Emma foi uma dessas pessoas para mim.

A sua morte, depois de uma batalha de cinco anos contra o cancro, não foi referida na imprensa local. A Emma era uma imigrante pobre que esfregava o chão da minha casa quando não estava a mudar as fraldas aos meus filhos. A sua humildade era tão misteriosamente profunda que podia desaparecer de vista mesmo quando era a única outra pessoa na sala.

E contudo – ou, aliás, devido a estas qualidades – estou certo de que um coro de anjos fez tremer as portas do céu durante os seus últimos momentos na terra, porque, na morte como na vida, ela esvaziou-se em Deus numa viagem indescritivelmente bela de sofrimento e graça.

A Emma sofreu emocional e espiritualmente nos últimos meses e a minha experiência enquanto médico de pouco serviu para aliviar as suas aflições. Todos já passámos pela angústia de ver alguém de quem gostamos em sofrimento. Há uma aversão profunda ao sofrimento na natureza humana, bem como compaixão para com aqueles que sofrem.

Estes aspectos da nossa natureza são ainda mais aparentes nestes tempos em que o desenvolvimento da medicina eliminou grande parte do sofrimento físico que, para os nossos antepassados, era simplesmente parte da vida e da morte. Não obstante serem bons em si, estes avanços levam-nos a ver o sofrimento como uma anomalia, algo a ser eliminado, até na hora da morte.

O sofrimento é um denominador comum em todas as razões dadas por doentes com pensamentos suicidas. O apoio ao suicídio medicamente assistido radica, no fim de contas, na crença de que a eliminação do sofrimento – físico, psicológico, espiritual ou existencial – é um bem moral mais importante do que sustentar a vida.

Alguns destes argumentos são espúrios, como a afirmação de que a dor severa é comum no final da vida. Na verdade os cuidados paliativos tornaram-na bastante rara. Mas a mera negação destes medos, que são compreensíveis, nada faz para ajudar aqueles que contemplam o suicídio, só faz com que se sintam mais isolados.

Uma sondagem da Pew Research de 2014 revelou que 71% dos americanos consideram-se cristãos. É um número quase idêntico ao dos americanos que apoiam o suicídio assistido. Isto sugere que a maioria dos cristãos apoia o suicídio assistido. Então pergunto aos meus correligionários, sobretudo aos católicos: O que é que Jesus Cristo nos tem a dizer sobre o sofrimento em fim de vida? Afinal de contas, o seu exemplo devia ser da maior importância para os seus seguidores.

A nossa fé cristã assenta, em última análise, na Paixão de Cristo. Se Cristo significa alguma coisa, é em primeiro lugar o Deus-homem que sofreu para nos redimir do pecado. A Paixão não é apenas o que Cristo fez, mas quem Ele é.

Os defensores do suicídio assistido costumam argumentar que uma morte arrastada é indigna. Mas antes de aceitar esta afirmação, pensem por momentos nos detalhes da Paixão de Cristo. Se uma morte sofrida é indigna, então a de Cristo foi a mais indigna de todas. Porque é que Cristo, ou o Pai, não puseram fim rapidamente à indignidade? Tendo em conta que a prolongada morte de Cristo causou sofrimento aos que o observavam aos pés da Cruz, talvez ele tivesse o dever de morrer rapidamente.

São João Paulo II: Um exemplo de dignidade no sofrimento
Mas o sofrimento de Cristo continuou até à morte, o que aponta para outra verdade. Ao contrário dos conceitos triviais de dignidade a que nos costumamos agarrar, a verdadeira dignidade humana deriva directamente da fonte: Imago Dei. O sofrimento não é uma afronta à nossa dignidade. Quando oferecida da forma como Deus nos pede, é uma afirmação da nossa dignidade. Nos seus últimos anos, o Papa São João Paulo II viveu esta verdade de forma a que todos a pudessem ver.

A morte é uma coisa confusa e por vezes fisicamente revoltante. Desconfio que a morte de Cristo na cruz tenha sido bastante mais hedionda do que a Bíblia diz. Mas apesar disso a sua mãe permaneceu aos pés da cruz do seu filho e viu-o a morrer de uma forma indescritivelmente horrível. Apesar da agonia física e espiritual, tanto a mãe como o Filho aceitaram as suas cruzes. Ao fazê-lo, Cristo parece estar a dizer algo para todos aqueles que sofrem junto de um doente moribundo.

Para lá da Paixão de Cristo, a história da Igreja antiga é também, na sua dimensão humana, uma história de sofrimento. Todos os apóstolos à excepção de João foram martirizados e são incontáveis os que morreram pela fé nos primeiros tempos da Igreja.

Não quero dar a entender que compreendo uma morte sofrida, ou como Deus retira graça do mal físico. Estas e muitas outras coisas permanecem misteriosas para mim, mas há uma verdade que me parece clara: Cristo não aceita apenas o sofrimento para si. Ele pede-nos que sofra com ele e esse pedido está no coração da nossa fé cristã.

A Emma nunca deixou de sorrir, mesmo por entre o seu sofrimento imenso. É algo que não me imagino capaz de fazer. Ela aceitou o convite de Cristo e, nessa sua entrega, eu fui abençoado com a visão do Cristo sofredor e com a luz de uma graça inexplicável. Ela demonstrou como se pode optar por sofrer simplesmente porque é isso que Cristo nos pede.

Nas suas palavras e acções Jesus nunca sugere que a nossa vida – um dom de Deus – é nossa para destruir. Através da sua Palavra revelada, aliás, é precisamente o contrário que se torna evidente, como poucas verdades o são.

O suicídio não é uma libertação compassiva do sofrimento. A morte não é o fim. Eu não pretendo saber como é que Deus pesará a decisão de quem quer que seja debaixo de um sofrimento tão intenso, mas o que nos está a pedir quando chegar a hora da nossa morte parece-nos evidente.

Deus quer-nos com ele no Céu e o sofrimento em fim-de-vida é um apelo dramático e último para entregarmos a Ele a nossa vontade. Para aqueles, como eu, que são pecadores, esse é o maior dom que Ele nos podia oferecer. Não estou a dizer que vai ser fácil, mas temos o exemplo de Emma e de outros como ela para seguir.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 24 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

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Philip Hawley, Jr, MD, é médico num hospício e antigo professor assistente de Pediatria Clínica na University of Southern California Keck School of Medicine.

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