sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Não há amor maior que dar a vida... Bom ano!

Igreja de Mar Mina, mais uma atacada...
Mais um atentado no Egipto. Outra igreja atacada. Morreu um polícia a tentar proteger o edifício, e vários civis.

Durante o ano de 2017 morreram 23 agentes pastorais da Igreja Católica. É um decréscimo marginal em relação a 2016.

A Comissão Nacional Justiça e Paz pede que se leia atentamente a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz.

E por estes dias estão milhares de jovens reunidos em Taizé para o encontro anual, que este ano se realiza em Basileia.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sem Jesus é outra coisa...

Antes de mais, espero que todos tenham tido um excelente e santo Natal e que os cristãos de entre os destinatários destas mensagens se tenham lembrado de que sem Jesus, não é Natal, é outra coisa, como disse hoje o Papa, depois de ontem ter recordado a ligação entre o Natal e o martírio.

D. Manuel Clemente celebrou missa no dia 25, insistindo na comunhão entre os cristãos e D. Jorge Ortiga alertou contra as “falsas esperanças alicerçadas na confiança em ídolos que nos querem vergar”. Antes, D. Manuel tinha alertado para o perigo da eutanásia, na sua tradicional mensagem de Natal, depois de ter recordado que esta prática é inconstitucional e que caso seja aprovada espera uma intervenção do Presidente. A propósito de eutanásia, saibam o que se passa na Bélgica, o país modelo cujo exemplo os defensores da “morte assistida” gostariam que seguíssemos.

O Papa aproveitou a mensagem de Natal para falar da importância de uma solução de dois estados na Terra Santa, com a partilha de Jerusalém e na missa do Galo falou do drama dos refugiados.

Quem teve um Natal mais difícil foi o cardeal Maradiaga, das Honduras, um dos conselheiros próximos de Francisco, que se vê agora envolvido numa polémica sobre dinheiro.

Hoje temos um artigo especial no The Catholic Thing em português. O texto publicado é um excerto de um ensaio do Papa Bento XVI, uma curiosa reflexão sobre o burro e a vaca no presépio. Convido-vos a ler!

A Vaca, o Burro e Nós

Bento XVI
Quem não compreende o mistério do Natal, não compreende o elemento decisivo do Cristianismo. Quem não aceitou isto não pode entrar no Reino do Céu – e foi isso que São Francisco de Assis quis recordar novamente aos cristãos do seu tempo, e das sucessivas gerações.

Francisco ordenou que a vaca e o burro deviam estar presentes no presépio na gruta de Greccio na noite de Natal. Disse ao nobre João: “Desejo em toda a realidade acordar a lembrança da criança tal como nasceu em Belém e todas as dificuldades que teve de suportar na sua infância. Desejo ver com os seus olhos corporais o que significou ter de repousar numa manjedoura e dormir na palha, entre uma vaca e um burro.”

A partir de então a vaca e o burro tiveram o seu lugar em todos os presépios – mas de onde vêm na realidade? É bem sabido que não são mencionados nas narrativas de Natal do Novo Testamento. Quando investigamos esta questão descobrimos um factor importante em todas as tradições associadas ao Natal e, na verdade, em toda a piedade do Natal e da Páscoa na Igreja, tanto na liturgia como nas devoções populares.

A vaca e o burro não são simplesmente produtos piedosos da imaginação: a fé da Igreja na unidade do Antigo e Novo Testamento deu-lhes um papel no acompanhamento do evento do Natal. Lemos em Isaías: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (1,3). Os padres da Igreja viram nestas palavras uma profecia que apontava para o novo povo de Deus, a Igreja composta tanto por judeus como por gentios.

Diante de Deus todos os homens, Judeus e Gentios, eram como a vaca e o burro, sem razão nem conhecimento. Mas a criança no presépio abriu-lhes os olhos e agora reconhecem a voz do seu Mestre, a voz do seu Senhor. É notável como nas imagens medievais da Natividade os artistas dão aos dois animais faces quase humanas e como eles se colocam diante do mistério da criança e baixam as cabeças em atenção e reverência.

Mas isto era, na verdade, uma questão de lógica uma vez que os dois animais eram considerados símbolos proféticos para o mistério da Igreja – o nosso próprio mistério, uma vez que não passamos de vacas e burros diante do Deus Eterno, vacas e burros cujos olhos se abrem na noite de Natal, para que possam reconhecer o seu Senhor no presépio. Quem o reconheceu e quem não o reconheceu? Mas será que o reconhecemos mesmo?

Quando colocamos uma vaca e um burro junto ao presépio devemos lembrar-nos da passagem inteira de Isaías, que é não apenas a boa nova – no sentido de uma promessa de um conhecimento futuro – mas também o juízo pronunciado sobre a cegueira contemporânea. A vaca e o burro têm conhecimento, “mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”.

Quem são a vaca e o burro hoje, e quem são “o meu povo” que não compreende? Como podemos reconhecer a vaca e o burro? Como podemos reconhecer “o meu povo”? E porque é que o irracional reconhece, enquanto a razão é cega?

Para descobrirmos a resposta devemos regressar com os Padres da Igreja ao primeiro Natal. Quem o reconhece? E quem não o reconhece? E porquê?

Aquele que não o reconheceu foi Herodes, que nem compreendeu aquilo que lhe disseram sobre a criança: em vez disso o seu desejo de poder e a paranoia que o acompanhava cegaram-no ainda mais (Mt. 2,3). Aqueles que não o reconheceram eram “toda Jerusalém com ele” (ibid). Aqueles que não o reconheceram eram as pessoas “ricamente vestidas” – aquelas com posição social elevada (11,8). Aqueles que não o reconheceram eram os mestres do conhecimento que eram especialistas na Bíblia, os especialistas na interpretação bíblica que, admita-se, conheciam as passagens correctas nas escrituras, mas mesmo assim não compreendiam nada (Mt. 2,6).

Mas aqueles que o reconheceram foram “a vaca e o burro” (em comparação com os homens de prestígio): os pastores, os magos, Maria e José. Mas as coisas poderiam ter sido de outra forma? Aqueles de condição social elevada não estão no estábulo onde descansa o menino Jesus, mas é aí que vivem a vaca e o burro.

E nós? Estamos longe do estábulo porque as nossas roupas são demasiado ricas e somos demasiado inteligentes? Envolvemo-nos de tal forma na exegese sofisticada das Escrituras, nas demonstrações da inautenticidade ou da verdade histórica de passagens individuais, que nos tornamos cegos ao menino em si e não entendemos nada dele?

Estamos de tal forma “em Jerusalém”, no palácio, em casa em nós mesmos e na nossa arrogância e paranoia, que não conseguimos ouvir a voz dos anjos na noite para que partamos a adorar a criança?

Nesta noite, então, as caras da vaca e do burro olham para nós com uma interrogação: O meu povo não compreende, mas tu discernes a voz do teu Senhor? Quando colocamos as figuras familiares no presépio devemos pedir a Deus que nos dê corações simples que descubram o Senhor na Criança – tal como Francisco fez em Greccio. Porque aí talvez nós também possamos experimentar aquilo que Tomás de Celano relata sobre aqueles que participaram na missa do Galo em Greccio – com palavras que se assemelham às de São Lucas sobre os pastores na primeira noite de Natal – “voltaram todos para as suas casas cheios de alegria”.


Excerto do livro “A Bênção do Natal”, de Joseph Ratzinger

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Actualidade Religiosa: Cardeal Law, perseguição na Índia e focas chamadas Amália

Morreu o cardeal americano Bernard Law. O seu legado fica tristemente associado ao escândalo de abusos sexuais da diocese de Boston, mas como nos recorda o cardeal Sean O’Malley, ele era muito mais do que os seus pecados e as suas falhas que conduziram ao encobrimento de dezenas de casos de abusos.

Os cristãos na Índia temem um aumento de casos de perseguição, agora por altura do Natal, e apontam para uma situação recente que levou à detenção de um grupo de 32 seminaristas.

Conheça a foca chamada “Amália” que foi comprada pelas Irmãs Hospitaleiras para melhorar o bem-estar de pessoas com demência…

Convido-vos também a ver esta grande reportagem multimédia da Renascença sobre a vida dos refugiados sírios na Turquia. Não tem directamente a ver com religião, mas penso que não se vão arrepender de o ver e ler até ao fim.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Num mundo que é cada vez mais dominado pelos sentimentos e as emoções do que pela razão, é urgente ler e compreender este artigo do padre James V. Schall, que fala dos riscos que esta tendência apresenta para a nossa civilização. 

Sobre Sentimentos

James V. Schall S.J.
A direcção de uma grande universidade pediu recentemente informação sobre o sucesso de uma nova iniciativa. Enviou-se um inquérito e pediu-se aos inquiridos que expressassem, de diversas formas, os seus “sentimentos” sobre o programa. Claro que sobre “sentimentos” não pode haver controvérsia ou desacordo. Se nos baseamos na categoria de “sentimentos” para saber coisas, não pode haver discussão. Os “sentimentos”, enquanto tal, por mais fugazes que sejam, são absolutos. Ou os temos ou não temos.

É isso que significa o ditado latino: “De gustibus non est disputandum” – os gostos não se discutem. Num mundo de “sentimentos” não há ponto intermédio. Não existe qualquer princípio comum, salvo: “Sim, eu ‘sinto-me’ assim”, ou “não, não me ‘sinto’ assim”. Suponhamos que alguém diz: “Deixa-me convencer-te que a cerveja que dizes que sabe tão bem, na verdade não é muito melhor que gelatina de limão aquecida”. A sua resposta permanece: “Ainda assim, é a minha preferida”.

O verbo “sentir” tem, em vários casos, substituído o verbo “pensar”. À primeira vista os dois podem parecer sinónimos. Mas olhando mais de perto diferenciam-se de uma forma que indica uma mudança civilizacional. A sociedade que “sente” não é a sociedade que “pensa”. Ambas as palavras têm um sentido específico e pertencem juntos, numa certa ordem de prioridade. Os nossos “sentimentos” estão, ou deviam estar, ao serviço do nosso pensamento, mas na sua devida ordem são claramente reais.

“Sentir” é o verbo que usamos para indicar o estado e a natureza das nossas paixões e desejos. Refere-se às mudanças da nossa alma que estão ligadas ao nosso corpo. Assim, dizemos “Sinto-me doente.” “Estou zangado com o Charlie.” Ou “Eu rio-me da Harriet.” Mas não chega comunicar a alguém a sua doença, estado de espírito ou humor. Também precisamos de saber se esses sentimentos são razoáveis ou não nas circunstâncias em que surgem. Talvez sejam. Mas se forem, isso demonstra como nos “sentimos” mas também se os nossos sentimentos são orientados pela nossa razão. Mais, implica que a razão em si é medida por um padrão que não é subjectivo. O padrão não foi criado apenas a partir dos nossos próprios interesses.

Aqui, Aristóteles continua a ser mestre. Temos conhecimento sensorial. Nós “sentimos” dor. Tocamos em algo morno. Cheiramos o odor terrível. Saboreamos o sal na salada. Ouvimos e compreendemos a mentira ou a piada que o George nos contou. Sem os nossos poderes sensoriais, não poderíamos conhecer estas coisas com as quais lidamos todos os dias. Porém, o sentido do olfacto em si não sabe o que é o cheiro ou como se distingue do paladar. Uma vez que as nossas mentes não são meras extensões dos nossos poderes sensoriais, sabemos o que significam o olfacto, a audição, o tacto e o paladar. Podemos manter todos estes aspectos em simultâneo.

Pessoa ou mero aglomerado de células?
Depende dos "sentimentos"...
Outra coisa que rapidamente aprendemos sobre nós mesmos é que os nossos poderes sensoriais estão sujeitos ao nosso domínio. Podemos aprender porque os temos. Vemos que podemos ficar demasiado zangados, ou insuficientemente zangados. Cada um tem o seu propósito a partir do qual podemos concluir sobre o seu devido lugar nas nossas vidas. Através da tentativa e erro, agindo correctamente ou incorrectamente, desenvolvemos virtudes ou vícios. Habituamo-nos à forma como usamos cada um dos nossos sentidos. O nosso carácter manifesta-se aos outros na forma como habitualmente respondemos aos outros. A questão central da nossa vida moral vem rapidamente ao de cima através da forma como agimos. Somos governados pelas nossas paixões, ou somos nós que as governamos?

Se forem elas a governar-nos, isso interessa? Acontece que a nossa razão está orientada para um fim, para um bem que não é simplesmente arbitrário. As nossas paixões, por outra palavras, são faculdades que procuram orientação na razão. Logo, o bom ou o mau uso revela-se no fim que a nossa inteligência nos leva a escolher e a seguir.

Logo, se as nossas mentes estiverem enviesadas o mais provável é que as nossas paixões também estejam. Neste sentido, o caminho de uma civilização da razão para uma civilização de “sentimentos” é bastante compreensível. Uma civilização que dá primazia aos “sentimentos” sobre a civilização da razão é uma em que a desordem se tornou hábito, personalizada e legalizada.

Não se pode ser civilizado e não ter “sentimentos”. A civilização significa optar livremente por sujeitar os nossos “sentimentos” à razão. Mas significa também orientar todas as nossas paixões para um fim que coloca tudo o resto em ordem. As paixões, quando se lhes é dada primazia, podem tornar-se “razões” sofisticadas para substituir a razão. Mas quando se dá essa troca é porque desviamos deliberadamente as nossas mentes do seu fim próprio.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 17 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Papa e Rei falam de Jerusalém

O Papa e o Rei da Jordânia encontraram-se hoje e discutiram a situação de Jerusalém “pós-Trumpada”.

Ao que parece há mais uma portuguesa a caminho dos altares. Trata-se de Luzia Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima.

Marcelo Rebelo de Sousa visitou a Sé de Lisboa, onde foi recebido por D. Manuel Clemente e expressou aprovação sobre o projecto de recuperação do claustro da Sé.

Recentemente foi nomeado um novo bispo para Paris, trata-se de um antigo-médico. Pois Londres não quis ficar atrás e por isso a Igreja Anglicana nomeou uma ex-enfermeira para o cargo

A comissão australiana que esteve a investigar os abusos sexuais naquele país sugere à Igreja que altere a disciplina do celibato e que reveja o segredo de confissão para casos de abusos de menores. É já a seguir…

E o padre Tom Uzhunnalil, que esteve cativo um ano e maio na Líbia, recebeu o prémio Madre Teresa.

É tempo de mensagens de Natal dos bispos. Já se manifestaram Évora, Bragança-Miranda, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo e Portalegre-Castelo Branco.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Milagres vários: Iraque, Fátima e Hanucá

(Clicar para aumentar)
Foi reaberta ao culto a primeira das igrejas iraquianas reconstruídas com o apoio da Ajuda à Igreja que Sofre, depois de terem sido profanadas e danificadas pelo Estado Islâmico. Uma notícia pascal em tempos de Advento!

Os judeus de Portugal tencionam continuar a florescer e não temem o desafio da assimilação cultural, numa altura em que se festeja o Hanucá. Amanhã acende-se a menorá numa cerimónia pública no Parque Eduardo VII a que todos são convidados.

Começam a surgir as mensagens de Natal dos bispos. Já temos Viseu e Angra.

A Igreja está preocupada com as regras de protecção de dados da União Europeia.

Por já passar da meia-noite, e porque provavelmente não haverá mais mails esta semana, publiquei já o artigo desta semana do The Catholic Thing. Howard Kainz fala de um interessante livro que torna acessível e compreensível o Alcorão, ajudando os cristãos a compreender melhor o livro sagrado dos muçulmanos. O autor sublinha a diferença entre o Alcorão antes e depois da fuga de Meca para Medina.

E deixo também o convite para a apresentação do livro de Bernardo Motta, sobre o milagre do Sol, em Fátima, uma obra que certamente será útil para quem quiser aprofundar o fenómeno. Ver imagem.

As Duas Religiões do Alcorão

Howard Kainz
É urgente que os cristãos leiam e compreendam o Alcorão, para poderem compreender melhor uma religião que está constantemente nas manchetes. Mas isso é pedir muito, porque o Alcorão é uma mistura de capítulos, escritos em tempos diferentes, organizados por ordem de comprimento, do maior ao mais curto, misturando assim os pensamentos primordiais de Maomé em Meca com ditos muito diferentes posteriores à fuga para Medina.

No livro A Simple Koran, Bill Warner ajuda-nos a ultrapassar essa confusão, reorganizando o Alcorão por ordem cronológica, ao longo dos 23 anos em que Maomé propagou a sua nova religião. Esta abordagem, composta quase inteiramente por textos do Alcorão, com ocasionais subtítulos ou explicações, demonstra bem como o Islão evoluiu durante a vida de Maomé e ilumina a divisão crucial entre aquilo que Aayan Hirsi Ali descreve como “Muçulmanos de Meca” e “Muçumanos de Medina”.

As primeiras passagens do Alcorão, de Meca, derivam da sua conversão das múltiplas religiões politeístas que existiam em torno do santuário da Kaaba, ao monoteísmo. Algumas fontes dizem que eram adoradas até 360 divindades em Meca. Mas Maomé pregava a sujeição ao único Deus, Allah.

Mas houve um percalço. Maomé parecia ter permitido que três deusas fossem veneradas juntamente com Allah. De acordo com a biografia Twenty-Three Years, escrita por ‘Ali Dashti, dois versículos na Sura 2:19-22 diziam originalmente: “Pensastes em Lāt e em ‘Ozzā? E em Manāt, a terceira, a outra? Essas são os grous em voo. Por isso pode-se esperar pela sua intercessão”

Esta passagem parecia reconhecer a divindade das três deusas, juntamente com Allah. Mas Allah acabaria por repreender Maomé por estes “versículos satânicos”, que foram corrigidos em versões posteriores do Alcorão. A partir de então pregou-se apenas o monoteísmo rigoroso. (Salman Rushdie esreveu um romance sobre esta passagem e continua em vigor uma fatwa do Ayatollah Khomeini a exigir a sua morte).

As primeiras partes do Alcorão reescrevem o Antigo Testamento, explicando que Abraão, Lot, Moisés, etc., eram na realidade todos muçulmanos e que todos aqueles que rejeitam o Islão acabam no inferno. Aparecem várias histórias imaginativas sobre Moisés, que normalmente têm pouco a ver com a versão bíblica.

Tais revisões das histórias do Antigo Testamento eram acompanhadas por constantes avisos sobre a tortura eterna no inferno reservada aos Kafirs (não-muçulmanos) que não se convertam. Isto torna-se um tema recorrente ao longo do Alcorão, que tem 290 versículos sobre o Inferno e mais de 300 referências ao temor de Allah, a quem é devida Islam (submissão) servil, como que a um senhor. Por exemplo: “Os Kafirs de entre os Povos do Livro e os idólatras arderão eternamente nos fogos do Inferno. De todos os seres criados, eles são os mais desprezíveis” (98:6)

Em contraste, aos que aceitam a mensagem de Maomé é prometida uma recompensa celestial, em que se encontrarão sobre “poltronas decoradas”, servidos por “jovens rapazes imortais” a trazer-lhes fruta, vinho e “a carne de aves”, bem como as atenções amorosas de houris virginais.

O povo de Meca, duvidando das suas credenciais, pediram-lhe sinais de que se tratava de um profeta verdadeiro. Maomé apontou para uma litania de coisas como sinais – “a sucessão da noite e do dia”, “a chuva enviada por Allah”, “relâmpagos”, “as mudanças dos ventos”, “folhas verdes e cereais”, “a vossa sonolência noite e dia”, “a vossa busca pela generosidade de Allah”, “os navios, como montanhas no mar”, etc.

Exasperado pelas exigências de sinais mais claros, Maomé responde. “Os sinais estão somente no poder de Allah. Eu sou apenas o que traz o aviso. Não chega para eles que te tenhamos revelado o Livro, para lhes ser recitado? (28:48). Por outras palavras, o Alcorão é em si mesmo um milagre que confirma Maomé como profeta.

Maomé não teve grande sucesso em Meca; acabou com apenas 150 convertidos. Mas tinha alguns seguidores em Medina e foi para lá que fugiu quando a situação em Meca se tornou perigosa.

A Hegira (emigração) de Maomé e dos seus discípulos para Medina aconteceu em 622. Medina era uma cidade meia judia e meia árabe. Os judeus, a classe abastada, eram em larga medida artesãos e agricultores. Tinham aliados entre os árabes, mas reinava uma atmosfera de animosidade e de ciúme. Alguns árabes acreditavam que viria um profeta para os guiar à vitória sobre os judeus. Rapidamente começaram a ver que Maomé poderia ser esse homem. Fizeram-lhe um juramente de fidelidade e ofereceram-se para o proteger com armas, caso fosse necessário. Em breve Maomé começou a agir como um líder militar e a enviar combatentes em raides armados contra as caravanas de comércio que chegavam a Meca. Ao longo de nove anos levaram a cabo sessenta e cinco ataques (Maomé esteve presente pessoalmente em 27), bem como vários assassinatos e execuções.

As ameaças de condenação eterna por rejeitar Maomé começam nesta fase a tornar-se mais gráficas – Allah “destruirá os vossos rostos e virará as vossas cabeças ao contrário” (4:47), dará aos descrentes “fogo por vestuário”, “despejará água a ferver nas suas cabeças”, “escaldará as entranhas e a pele” e batê-los-á com “varas de ferro” (22:19).

Já Maomé começou a gozar de privilégios especiais: Os despojos de guerra (limitado a uma quinta parte do total), e mulheres e escravas para além dos limites que se aplicavam a outros (a comitiva amorosa de Maomé acabaria por incluir nove mulheres e várias escravas).

Irrompeu uma nova onda de violência quando os judeus de Medina e até mesmo muitos árabes rejeitaram a reivindicação de Maomé de ser um profeta enviado por Allah. A jihad islâmica tornou-se essencial para espalhar o Islão na Arábia e noutras partes. Um quarto dos versículos de Medina são exortações à jihad e promessas sobre as recompensas não só para a comunidade muçulmana, mas para guerreiros individuais. 

Nos seus anos finais Maomé começou a comportar-se como um profeta-rei. Cada aspecto da vida estava sob o seu controlo – horas de oração, proibições alimentares, o uso de véus, heranças, testamentos, punição por crimes, distribuição de impostos, etc. – tudo obedecendo a sentenças de Allah.

Resumindo, uma leitura cronológica/biográfica do Alcorão revela tremendas diferenças entre as partes anteriores e as posteriores. Não há apelos à jihad no Alcorão de Meca, nem antissemitismo, apenas apelos pacíficos à conversão. Mas em Medina temos a formação gradual de um verdadeiro exército, inspirado a conquistar, literalmente, o mundo para o Islão.

O Islão enquanto “religião da paz” tem, por isso, alguns fundamentos corânicos, mas a história islâmica e os eventos contemporâneos deixam claro que a justificação corânica para a jihad violenta é talvez maior.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de Dezembro de 2017)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Muçulmanos chateados com Trump, jornalista chateado com humorista

O Papa recordou esta segunda-feira que os hospitais católicos não são empresas, no dia em que se tornaram públicas suspeitas de que a Igreja Universal do Reino de Deus dirigiu uma rede de adopção ilegal em Portugal.

A decisão de Donald Trump de mudar a embaixada americana em Israel para Jerusalém continua a causar problemas na Terra Santa, levou o Papa da Igreja Copta a cancelar uma reunião com Mike Pence e pode mesmo ter estado na origem de um atentado frustrado em Nova Iorque, hoje. O Papa pede medidas para travar uma “nova espiral de violência”.


Estou chateado com o Bruno Nogueira. Sei que muitos de vocês também, mas a mim irrita-me mais a manifesta ignorância sobre o que se celebra a 8 de Dezembro do que os insultos à fé.

Estou chateado com o Bruno Nogueira

Ao longo dos últimos dias recebi várias mensagens de católicos a alertar-me para uma rubrica do Bruno Nogueira em que ele ofende Nossa Senhora de forma vil e baixa.

Normalmente ignoro esses apelos. Os católicos têm de perceber que os humoristas ganham dinheiro a fazer humor e que a forma mais simples e básica de fazer humor é à custa de outros. De vez em quando os católicos vão estar na mira dos humoristas, é a vida. Por vezes conseguiremos rir-nos de nós próprios, outras vezes ficaremos chocados com o que ouvimos e serão apenas os outros a rir, mas seja como for as campanhas organizadas de revolta, que têm sempre o efeito de aumentar as audiências e os cliques da dita ofensa, acabam por ser contraproducentes e passam uma imagem dos cristãos como gente histérica e sem sentido de humor.

Mas desta vez fui ouvir e confesso que fiquei chocado e chateado.

Não foi com as piadas… Só quem conseguiu viver até agora passando ao largo de uma tradição de dois mil anos de piadas sobre o nascimento virginal de Cristo é que pode ficar chateado com as larachas sofríveis e pouco imaginativas do Bruno Nogueira. Vá, todos temos dias maus no trabalho.

O que me chateia é que alguém com tempo de antena fixo na RDP, ou seja, pago pelos contribuintes, possa ter direito a cinco minutos para falar sobre um feriado e confundi-lo com outra coisa qualquer. 

Imaginem agora que a RDP me convidava para fazer um curto programa sobre o 1º de Dezembro e eu dedicava-o a falar do regicídio e da implantação da República? Pois foi basicamente isso que o Bruno Nogueira fez. Propondo-se a falar sobre o 8 de Dezembro, dia da Imaculada Conceição, conseguiu falar durante vários minutos sobre outra coisa totalmente diferente, que é a concepção virginal, confundindo ainda “pecado original” com relação sexual.

Por amor de Deus Bruno! A festa da Imaculada Conceição assinala o facto de Nossa Senhora ter sido concebida sem pecado original, ou seja, sem a propensão para o pecado que a todos nos limita a liberdade. Não tem nada a ver com sexo, lamento informar-te.

Aquilo sobre o qual tu escreveste é a concepção virginal de Jesus Cristo, festejado no dia de Nossa Senhora da Encarnação, por ser o dia em que Deus encarnou. É a 25 de Março, por ser nove meses antes do Natal. Estás a ver a ligação? Giro não é?… Pois.

Tenho para mim que o melhor humor é aquele que consegue divertir o seu público e ao mesmo tempo deixá-lo mais inteligente. Mas o Bruno Nogueira conseguiu fazer uma rubrica inteira que não só não teve grande piada, como deixou uma boa parte da população mais ignorante. Mas enfim, como já disse, dias maus no trabalho todos temos. 



PS: Se depois de tudo isto ainda querem ir lá dar mais um clique, o programa pode ouvir-se aqui.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

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domingo, 3 de dezembro de 2017

Papa ordena Luiz Pinto Costa... No Bangladesh


Não costumo mandar mails ao fim-de-semana, mas não queria deixar de partilhar alguns dos trabalhos relativos à viagem do Papa à Birmânia e ao Bangladesh, e como vou estar fora alguns dias, achei melhor fazê-lo agora. Agradeço a vossa compreensão!

A visita do Papa à Birmânia chegou ao fim com um encontro com os jovens e depois Francisco seguiu para o Bangladesh onde ficou logo claro que a proibição de se dizer “rohingya” já não se aplicava. Mesmo assim, Francisco esperou até ao último dia para pronunciar o termo e aí não só falou dele como se encontrou com membros da comunidade e, admitiu mais tarde, até chorou.

Toda esta viagem foi marcada por marcas da presença dos portugueses. Francisco encontrou-se com os bispos do Bangladesh – incluindo o Costa, o Rozário e o Gomes – e ordenou 16 novos padres, sete dos quais com apelidos portugueses, incluindo o Luís Pinto Costa…

Este tema foi alvo de conversa entre mim e o historiador Miguel Castelo Branco e podem ler a interessantíssima transcrição integral da conversa aqui. Podem também ler a transcrição da conversa com o luso-birmanês James Swe, que diz que não tem cara de português, mas sente-se português.

Hoje começou o Advento. O Papa alertou para a importância da vigilância. Quem quiser ajudas no campo da oração pode recorrer às ferramentas deixadas pelo Apostolado.

Com medo da invasão islâmica? Não stresse… Mas já agora, sabia que há um país na União Europeia onde não só se permite a Sharia como ela é obrigatória para os cidadãos muçulmanos?

"I don't look Portuguese, but I feel Portuguese"

Burmese Catholics at Papal mass
This is a full transcript, in the original English, of my conversation with Mr. James Swe, a Burmese Catholic of Portuguese descent and member of the "Bayingyi" community. Mr. Swe is also author of the book Cannon Soldiers of Burma about the Portuguese presence in the country. The interview was used in two stories which can be read here, and here, in Portuguese.


Most people in the world will never have heard of the Bayingyi. Who are they?
They call the Catholics in Burma Bayingyis. Historians say that Bayingyis came from Frankies, the Europeans were called Frankies during the Crusades by the Arab and Middle Eastern people, and when the Christians came to Asia they were known as the Frankies, and then slowly the Burmese changed the name to Bayingyis. So in Burma right now all these descendants of the Portuguese are called Bayingyis.

And you are a descendant of these people?
Yes. They were here about three or four hundred years ago, and I am one of the descendants of the villages, I came from Chanthaywa, near the first Portuguese settlement in 1613.

All this was close to 500 years ago. What kinship do the Bayingyi feel to Portugal today?
To tell you the truth, they don't understand too much about it. Most of them, the people living in the villages, don't even know where Portugal is. But they are very proud of the fact that they are descended from the Portuguese. The reason is that in Burmese history, the expansion of Burmese influence and power is because of the Portuguese descendants who served the Burmese kings as cannon men and gunners. Because the Burmese were fighting with bows and arrows and knives against their enemies, and when the Portuguese came, with the guns and cannons, they won their wars and expanded all over Asia. That is why they are very proud of it.

In what characteristics can this Portuguese heritage still be seen?
There are very few little signs left. The main thing is the Catholic faith. All of the Catholics are Portuguese descendants. All the churches... Even the first Cardinal we have in Burma right now, Charles Bo, is also one of their descendants. He is also my cousin.

How about clothing, cooking, and vocabulary?
There are very few things left, like vindaloo, making sausages, in most of the villages they know how to make pork sausages, just like the Portuguese had done many hundred years ago. That is how things carry on through the generations. A lot of that continues with the cooking and the religion, some of the traditions.

You can see the features of some of the people, they are quite fair, have blue eyes and green eyes, but there are very few of those left because they have been living in a very hot and remote area for centuries and their skin colour changed a little bit. These are the only traces left right now.

The Bayangyi were considered elite and loyal soldiers. Is there still a military tradition? Are any represented in senior posts in the armed forces at the moment?
The last Catholic general in the Burmese military was general Abel, which was about 20 years ago, but he has retired now. He was the last one to be in a prominent military position.

Is there any contact, recognition or interest on the part of current Portuguese authorities in relation to the descendants of the Portuguese in Burma?
The first contact I had with them was with the previous Portuguese ambassador to Burma. His name was Mr. Luís de Sousa. He was very interested, because when he saw my book he read it and he invited me to his residence in Thailand, my wife and I went there, and we discussed many things. Then he went to the villages and he visited with his family and showed his children, saying these people had lived in these remote areas for the last 400 years, so they were very touched.

That was the first contact the villages had with the Portuguese Government or representatives. But now this new ambassador, Mr. Francisco, he is also very interested. I told him last time to come and visit, during the Pope's trip to Burma, but I think he is busy right now, he is looking after three countries as Portuguese ambassador to Thailand, to Burma and to Vietnam, I believe. So he has to go on rotating the countries. So he is busy, but he said if he has the chance he would come down to Burma some time.

This is the first contact the Portuguese villages had with the Portuguese government.

Have you ever even been to Portugal?
I was there about four times, because when I was writing my book I went there quite a few times to do research. There is a lady called Ana Guedes, who stayed in Burma for a long time doing her own research. So I went there to contact her as well.

What was it like for you?
For me, the first feeling I had when I arrived in Portugal was that we were being reunited to Portugal. After 400 years, even though my forefathers from 400 years ago never new if they would get back to Portugal, but after 400 years I, as their spiritual heir, arrived back in Portugal. That is how I felt it. Even though I don't look like a Portuguese person, I feel like it, like I was back home.

Would you say that for most of your people this kinship has less to do with geography, and is of a more spiritual nature?
A lot of things yes. Spiritual things like the Catholic religion are deeply embedded in our culture. All these villages are very firm Catholics, very conservative Catholics, so that is a very strong position, we carry on as Portuguese descendants. It is a very important thing.

What do your people expect from the Pope’s visit?

They are very excited. It is almost like a miracle for them. Most of the people cannot afford to go to Rome, and the Pope is going to meet them, and they are very anxious to meet the Pope. They will see him from a very far distance, but they are really excited. They are talking about between two and three hundred thousand, minimum, people showing up there. All these villages are planning to come, with busses and trains and planes right now.

As Christians, you are a minority in Burma. Currently another minority, the Rohyngia, have been in the news, with accusations of genocide levelled at the Armed Forces. What is your opinion on what is going on there?
Rohingyas is just a name that they created. Some of them have been in Burma for a long time, some of them since the Portuguese were there, but they are not Rohingya, they are Bengalis, the people from Bangladesh.

When their population grew to fast they started having problems with the Budhists. Budhists are also very conservative people, there was a clash between the Budhists and Muslims in that area.

For us, as Christians, we don't want to get too involved, complaining to any sides. That is why our Cardinal Charles Bo asked the Pope not to use the word Rohingya, because Rohingya is not recognised in Burma as a race, or ethnicity. We have so many ethnic groups in Burma, they don't want to create another one.

But we always try to help them, even the Church is helping them to resettle. We Christians always try to be neutral in these religious and cultural conflicts.

Is there a history of intolerance and conflict between the Budhist majority and the Christians, for example?
During the military government, around 50 or 60 years ago, they nationalised about 32 schools and six hospitals which were run by the Catholic Church. The Government took them over and never returned them. Also, during that time the Churches were not allowed to rebuild or even be maintained, we couldn't even paint them. Only now, with this new government, since 2011 did they allow us to remodel and repaint the churches. It was very hard before, but now it is more relaxed with regard to the churches. 


Further reading


"Católicos na Birmânia e no Bangladesh sentem-se (legitimamente) portugueses"

Aqui podem ler a transcrição integral da minha conversa com o historiador Miguel Castelo Branco, a propósito da importância da presença portuguesa na Birmânia e no Bangladesh. Esta entrevista serviu de base para três reportagens, que podem ser lidas aqui, aqui e aqui.

O Papa viaja nos próximos dias para a Birmânia e para o Bangladesh. São dois destinos em que o catolicismo está muito ligado a Portugal…
O primeiro contacto que tiveram com o Ocidente foi com portugueses, muito embora alguns digam que por lá, ocasionalmente pudesse ter chegado algum mercador genovês ou veneziano. Mas a presença impressiva, que deixou sulco e que ainda deixa sulco por todas as comunidades católicas – atrever-me-ia mesmo a dizer do Cabo ao Japão – foram profundamente inspiradas pela matriz do Catolicismo português, porque há estruturas sociais, mentais e de valores que extravasam o campo estritamente religioso e que têm uma marca profunda de Portugal.

No caso da Birmânia desde meados do Século XVI foram chegando portugueses, não propriamente portugueses organizados, porque não eram funcionários ou servidores do Estado da Índia, e que se fizeram no actual Myanmar como soldados.

Mas há aqui uma série de outras questões engraçadas, que dariam um filme por exemplo, dos aventureiros mercenários portugueses, dois dos quais até se transformaram em reis locais.

Há o caso do Sebastião Tibau, que é um rapaz novo, de 20 anos, que chega à Índia, deserta imediatamente e põe-se ao serviço do Rei do Arracão, que é esta região onde há actualmente este problema dos Rohingyas, chama-se Rakhine. E ele transforma-se lentamente num rei pirata de uma ilha que fica no Golfo de Bengala, em frente ao Bangladesh, onde termina o Bangladesh começa Myanmar.

Ele foi rei de Sundiva, depois é claro que com tantas traições e mudanças de campo acabou por ser destruído pelos birmaneses.  E depois há o famosíssimo Rei do Sirião, ou rei do Pegú, que é um Filipe Brito de Nicote, no primeiro quartel do século XVII, e que era também um mercenário, que ganhou tanto relevo que acabou por ser investido como Senhor do Sirião. Sirião fica no Pegú, o extremo sul da Tailândia, perto do mar de Andaman. Mas a partir do momento em que extravasou a sua lealdade para com o Rei do Arracão...

Tudo isto no que é actualmente a Birmânia?
A Birmânia antigamente, assim de forma muito simplista, eram dois reinos. O Arracão, actualmente o Rakhine – aquele Estado onde está em curso aquele problema dos rohingyas – e o norte, a Birmânia interior, que era o Reino de Ava.

Filipe Brito de Nicote servia o Arracão, mas a partir do momento em que excedeu em liberdade em autonomia, foi eliminado. Temos aqui dois casos de soldados práticos que não têm nada a ver com o Estado da Índia nem com as relações diplomáticas, informais, entre Portugal e a Birmânia.

Esses são dois casos isolados e curiosos. Mas há depois uma presença mais organizada que acaba por ter uma grande influência na história da Birmânia...
Onde há portugueses à solta – que era o nome que se lhes dava – geravam espontaneamente comunidades ditas portuguesas. Casavam com mulheres locais e os filhos recebiam educação portuguesa, o que quer dizer a religião dos portugueses, católica. E por conseguinte, ao fim de 20 ou 30 anos geravam-se os chamados bandéis, que são povoados inteiramente ocupados por esta população mista, neste caso luso-birmanesa, como na actual Tailândia, luso-siamesa e por todo o lado assim aconteceu.
Eram comunidades que desabrochavam espontaneamente e que eram especializadas, isto é, estas comunidades tinham uma função no quadro das monarquias locais. Eram soldados, eram intérpretes (não nos esqueçamos que o português era a língua franca internacional. Até ao Século XIX os ingleses, holandeses e franceses, tinham de aprender português para poderem negociar nessa região, uma região vasta, que vai praticamente até Timor. O inglês é uma coisa muito recente), eram bons agentes diplomáticos para receber europeus, porque dominavam o processo de negociação e conheciam as manhas dos ocidentais, e eram também fundidores.

Até ao século XIX, no caso da Birmânia, estas comunidades, que eram numerosas, tinham um estatuto muito privilegiado e eram muito protegidas pelas monarquias budistas – como é o caso da Tailândia e da Birmânia – que são aliadas dos portugueses, mas no sentido em que há forças que são intermediárias entre Portugal e essas monarquias e essas forças locais, sociais, são estas comunidades católicas.

Claro que com o aumento da expressão demográfica destas minorias católicas portuguesas, porque era assim que eram tratados – a religião dos portugueses era o Catolicismo, logo o Catolicismo só era próprio dos portugueses – eles tiveram de pedir assistência religiosa e assim várias ordens religiosas, nomeadamente os jesuítas, os agostinhos, os franciscanos enviaram missionários e criaram-se missões.

Ainda há quem recorde a presença dos portugueses naquele país? O que é que lá ficou?
Ainda há uma comunidade compacta. Eles foram distribuídos pelo território, por vários motivos históricos.

A França e a Alemanha daquela região são respectivamente a Birmânia e a Tailândia, e estavam em constantes guerras. Como havia portugueses de um e de outro lado, ao serviço das monarquias, o princípio não era matá-los, era capturá-los, porque nas guerras asiáticas desse tempo a lógica não era exterminar o inimigo, era aprisionar o inimigo, porque havia uma falta crónica de mão-de-obra e de gente e sabiam que estes arcabuzeiros, estes atiradores portugueses eram muito bons, pelo que tentavam capturá-los e cobriam-nos de regalias.

Estando de um lado ou de outro, sendo capturado por um lado ou por outro, sabiam que não seriam mal-tratados.

Actualmente ainda há vestígios razoavelmente importantes. Quem leu as “Burmese Days”, de Orwell, encontra esta figura do português, aquilo a que os ingleses chamavam desdenhosamente “Black Portuguese”, com o seu racismo, porque de facto essas populações foram hostilizadas sobretudo pelas potências coloniais, não foram pelos estados independentes que subsistiram até ao século XIX. No caso da Tailândia felizmente nunca foi colonizada até ao Século XX.

Actualmente estes descendentes vivem alguns em Rangum, que foi até há pouco a capital do Myanmar, mudou para Naipindau, e no Norte. Eles foram acompanhando a monarquia Birmanesa no seu recuo para o interior. Sobretudo no Século XIX quando os ingleses chegaram para invadir pela primeira vez a Birmânia – a Birmânia era um grande Estado, foi agredida três vezes militarmente pelos ingleses até desaparecer, três guerras sucessivas no século XIX – a população católica acompanhou os seus reis, os seus reis budistas, até Mandalay. No Norte do país, perto do Rio Mo, há ainda uma numerosa população portuguesa, com os seus padres católicos, descendentes de portugueses.

Ainda há um ano na Faculdade de Direito, a Nova Portugalidade organizou uma conferência que teve por convidado Sua Alteza Real o Sr. D. Duarte, e ele falou sobre as comunidades e as cristandades portuguesas no Oriente e lembrou que todos os bispos da região têm ascendência portuguesa, o que de facto mostra que são comunidades que mantiveram a sua lealdade e a sua lealdade é tripla: É uma lealdade nacional, porque eles são bons patriotas e bons cidadãos dos países onde nasceram; uma lealdade à sua religião, são católicos, e uma lealdade emocional a Portugal, coisa que certamente nas Necessidades ninguém se lembrará.

São comunidades extremamente importantes e continuam a ser, sobretudo na Tailândia, onde ocupam funções de grande relevo no serviço público.

Neste momento há uma crise humanitária com os Rohingya... Quais são as raízes históricas do que se está a passar aí?
Creio que há uma grande parcialidade, para não dizer uma grande manipulação, em relação á questão dos refugiados rohingyas. Para o Governo birmanês eles não são birmaneses, isto é, não são cidadãos do Myanmar. Chamam-lhes bengalis, porque vieram do Golfo de Bengal.

Acontece que a questão é antiga e é recente. É antiga porque de facto há referências esparsas, de viajantes ingleses, sobretudo, à existências desses rohingyas já no século XVIII. Como era prática no quadro do império, o Raj britânico, havia mudanças de população. Os ingleses levaram para a Malásia milhares, que agora são milhões, de chineses, como levaram para o Uganda indianos, como levaram chineses também para a actual Singapura e levaram estes bengalis para o ocidente de Myanmar, para este Estado de Rakhine.

O que acontece é que durante a Segunda Guerra Mundial a Birmânia tornou-se independente. Teve um Governo fabricado pelos japoneses para demonstrar que o Japão estava na dianteira do processo de luta contra o imperialismo ocidental. Os birmaneses aceitaram naturalmente essa graça da independência e foram fiéis aliados dos japoneses. Quando voltaram os ingleses em 45 já estavam com problemas na Índia, iniciaram o processo de independência da Índia e depois da Birmânia. E ao saírem entregaram todas as armas que tinham aos muçulmanos, ditos rohingyas, que agora estão no centro dos noticiários.

Acontece que entre 1948, data da independência da Birmânia, e os anos 60, estes muçulmanos desenvolveram uma guerra de guerrilha intensíssima que foi, finalmente, vencida pelo Exército birmanês.

Agora, uma coisa que as pessoas não sabem é porque é que o Governo do Bangladesh e o Governo da Índia hostilizam de uma forma tão notória os chamados rohingyas. Porquê? Porque o braço armado da chamada resistência rohingya é o nome local para a Al-Qaeda.

Os rohingyas não são só alvo de perseguição, têm morrido milhares de budistas, impalados, queimados vivos, com templos destruídos, pelo chamado exército de defesa rohingya. Portanto os rohingya armados são outro nome para a Al-Qaeda.

Não devemos de uma forma tão afirmativa separar os bons dos maus, porque aqui há de facto um problema grave. Há um problema de populações, um problema de sofrimento humano, mas parece-me que, ao contrário do que se diz, a senhora Aung San Su Kyi tem tentado de uma forma razoavelmente cordata – no pressuposto de que Estado algum aceita uma secessão de uma parte do seu território. Se acontecesse connosco no Algarve ou nos Açores, ou com os espanhóis na Catalunha, a posição do Estado é mais dura – mas não me parece que da parte dela e da parte da grande maioria da população, e sobretudo dos agentes políticos birmaneses, haja qualquer expressão de ódio em relação aos muçulmanos.

Não está em curso uma guerra religiosa, ao contrário do que muitas pessoas julgam. A situação não é tão clara como parece e há, no caso dos rohingyas, um fantasma, um espectro oculto, que é a Al-Qaeda, que também está em Mindanao nas Filipinas, que está no Sul da Tailândia, portanto a questão não é tão linear como alguns pretendem fazer crer.

Independentemente disso, que dá contexto, as imagens que vimos dos refugiados, das tragédias, da limpeza étnica...
Eu não sei se será limpeza étnica, mas há de facto um nível de violência inaceitável.

Mas conviria estudar e saber in loco, porque ao contrário do que o senso comum, que muitas vezes tem um peso imenso, pretende fazer crer, os especialistas na matéria birmanesa tomam todos partido pelo Governo da Birmânia. Estou a falar de grandes autoridades, historiadores, sociólogos e antropólogos e etnólogos, que conhecem profundamente Rakhine, que é o estado onde estão a acontecer estes problemas, e todos eles tomam partido.

Eu creio que tal como aconteceu na Síria, seria conveniente saber quem é quem e saber quem é que faz o quê. Ainda me lembro que há quatro ou cinco anos era impossível falar na Síria sem ter de despejar uma torrente de impropérios sobre o Governo de Bashar al-Assad, quando para nós, católicos e cristãos, era a entidade que estava a defender as cristandades existentes na Síria. Portanto eu creio que é necessário muitas vezes tentar perceber um pouco e ouvir as autoridades certas e no caso da Birmânia aquilo que me parece é que houve um grande exagero, como há estas explosões emocionais, que são próprias, mas que não são esclarecedoras. E depois é necessário dar voz, e ouvir as pessoas que conhecem, sobretudo ocidentais, sem parcialidade e sem cegueiras, para que possam dizer-nos exactamente o que é que está a acontecer.

Temos depois o Bangladesh onde, segundo o embaixador em Lisboa, ainda existem 1.500 palavras portuguesas no vocabulário e o principal bispo tem o apelido D’Rozário… Fica surpreendido ao saber estas coisas?
Há uma grande comunidade, aliás, Calcutá, que foi – creio que ainda será – a maior cidade indiana, onde os ingleses se fixaram depois no Século XVII para XVIII, foi criada pelos portugueses. De Calcutá para Leste, ali na foz do Bramaputra, constituíram esses tais bandéis, esses tais acampamentos dos portugueses. A maior cidade portuária, que é agora especialista mundial em desfazer navios, que é Chitacong, foi criada pelos portugueses. E o Bangladesh tem esta curiosidade, tem de facto uma minoria católica forte, muito resistente até à pressão islâmica, o que é um caso notável de sobrevivência. Mas essa presença portuguesa está lá desde o século XVI, também.

Temos alguns piratas e que desenvolvem uma actividade importante, porque escoam os produtos dessas regiões, portanto tornaram-se úteis, ao contrário do que diz alguma historiografia anglo-saxónica, não são parasitas, pelo contrário, são agentes de reprodução de riqueza, dai serem tão estimados.

A India durante 400 anos foi governada pelo chamado Império o Grão Moghol. O Grão Moghol hostilizava os cristãos, mas protegia os portugueses, porque sabia que tinham esta faculdade, eram agentes importantes dinamizadores do comércio e da riqueza. No caso do Bangladesh, um país que se inunda com facilidade, os portugueses penetraram ligeiramente no interior.

Os portugueses não foram os únicos europeus a ter interesses, comércio e a deixar um legado na Ásia. Mas este fenómeno de orgulho nas raízes portuguesas que vemos na Birmânia, na Tailândia, etc. acontece também com ingleses, holandeses, franceses?
No caso holandês e inglês não, decididamente, porque a própria expressão da sua presença e até a sua própria ideologia é marcada por uma profunda desconfiança em relação àquilo. O Grócio dizia que os portugueses eram uma raça decaída, um povo caído, porque se misturavam com os animais. Isto mostra um bocadinho o tipo de atitude holandês e inglês em relação aos povos de pele escura.

No caso dos franceses é tardia, porque a França tem sobretudo uma presença na Índia em Puducherri, a mestiçagem é muito pequena, e depois a França só volta de facto a ter algum impacto no sudeste asiático a partir da década de 60 da década XIX.

No caso português é diferente. As populações católicas que se orgulham das suas raízes portuguesas são imensas. E até têm a faculdade de resgatar do isolamento e da sua condição social marginal os mestiços feitos pelos ingleses e pelos holandeses. Todos eles quer em Batávia, actual Jacarta, quer no actual Ceilão, muitos dos descendentes de marinheiros e soldados holandeses quiseram ficar portugueses e tomaram nomes portugueses, não querem nada com essa memória e com essa ancestralidade cultural holandesa.

Aliás, as marcas são muito pequenas. Eu falo tailandês, estive vários anos na Tailândia, e não há semana que não encontre uma expressão portuguesa já muito corrompida. Perguntaria quantos termos holandeses terão ficado na actual Indonésia.

E o caso inglês e holandês, são casos de companhias, são companhias de accionistas. O império, de jure, inglês na Ásia é do Século XIX. Antes eram iniciativas de uma empresa, de uma companhia, que se chamava Companhia das Índias Orientais. O mesmo acontecia com os holandeses.

A presença portuguesa é efectiva e desenvolve-se em vectores profundíssimos, não é só uma presença de estado, económica e comercial. É uma presença religiosa, cultural e de populações que passam a ser portuguesas, dentro e fora dos limites do próprio império português. Isto é um caso único daí que para muitos ocidentais se consegue demonstrar que há actualmente – isto pode parecer um pouco exagerado – um império. Já lhe chamaram império informal ou império invisível, mas há um império invisível português na Ásia que tem a ver com todas estas comunidades católicas, que continuam vivas, algumas com alguma influência, e que Portugal infelizmente não acompanha, porque são vectores poderosíssimos de relacionamento com os estados onde prosperam estas comunidades.

Hoje em dia temos comunidades em vários pontos da Ásia que reivindicam ser descendentes dos portugueses. O Governo português faz alguma coisa para cultivar estes laços? Que mais poderia ou deveria ser feito?
Poderia fazer muito, creio que deveria. Da mesma forma que a Assembleia da República, há cerca de um ano, aprovou a concessão da nacionalidade portuguesa a sefarditas que façam testemunho e prova da sua ancestralidade portuguesa – é claro que não poderíamos fazê-lo de uma forma despreocupada – mas julgo que se deveria estudar, devia-se conhecer e de uma forma, mesmo que fosse simbólica, restituir parte da cidadania portuguesa.

Até ao século XIX a cidadania antiga portuguesa era para todo aquele que fosse católico, vivesse ou não em domínio português e que fosse leal, de uma certa forma, ao Rei de Portugal que era o responsável pelo padroado português no Oriente. Todos eles se consideravam portugueses. Subitamente há uma revolução em 1820, fazem uma Constituição escrita a dizer que são portugueses os cidadãos nascidos em Portugal... Essa gente sofre desde então uma certa orfandade, porque eles consideram-se, e legitimamente, na sua perspectiva, portugueses.

Portanto caberia ao Estado português tentar encontrar uma fórmula e sobretudo investir um bocadinho mais. Creio que a Igreja portuguesa poderia ser neste caso apoiada, e todas as organizações católicas, que enviam tantos jovens para África, poderiam ajudar. Há pouco tempo uma Cátia Ferreira esteve em Malaca, professora de português, e tinha centenas de miúdos a querer aprender português.

O Governo português poderia enviar – e isto custaria menos que um dos milhares de bolsas da FCT – uns 20 professores primários, professores de português básico, para o Bangladesh, para as nossas comunidades portugueses no Myanmar, para os bairros católicos de Banguecoque, para tanto lado onde há uma fome imensa de aprendizagem da língua portuguesa, porque eles consideram-se portugueses. São portugueses, mas não têm cidadania, não são ouvidos, nem se quer, julgo eu, para nosso mal, haverá muitas pessoas nas Necessidades que tenham sequer a percepção de que este problema existe. 

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