quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Love is in the air!

E pronto… Francisco arranja sempre maneira de nos surpreender novamente. Hoje foi um casamento em pleno voo. Dois assistentes de bordo entraram no avião solteiros, aos olhos da Igreja, e saíram casados. Love is in the air.

Já em Iquique, Francisco celebrou missa e disse aos presentes que os imigrantes que partem das suas casas à procura de melhores vidas, são “ícones da sagrada família”.

Ontem o Papa esteve com os jovens em Santiago, no Chile, e para que não lhes faltasse nada deu-lhes o password da banda larga de Jesus.

Braga é a mais recente diocese a publicar orientações para a aplicação do Amoris Laetitia.

E hoje que começa o oitavário da oração pela unidade dos cristãos, o bispo da Guarda desafia os cristãos a lutar contra novas formas de escravatura.

Apresento-vos o bispo americano que recusou participar numa caminhada pela vida na sua diocese porque a oradora é defensora da pena de morte.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Francisco no olho do furacão, vestido modestamente, claro

Continua a visita do Papa ao Chile e hoje ele esteve “no olho do furacão”, numa região onde existe uma luta armada contra o Governo e ontem mesmo os militantes atacaram os polícias que faziam a segurança ao recinto onde hoje decorreu a missa. O Papa tinha palavras fortes para o Governo e para os militantes.

Hoje soube-se que ontem, depois do almoço, Francisco recebeu vítimas de abusos sexuais, a quem escutou, e com quem rezou e chorou.

Ainda ontem, já depois de eu ter enviado o email, Francisco encontrou-se com reclusas em Santiago e, depois, esteve com os religiosos e religiosas do país, a quem fez um discurso que é tão bonito, na minha opinião, que o coloquei no blog e convido-vos a ler na íntegra. É longo, mas vale a pena.

A diocese de Leiria celebra 100 anos desde que foi restaurada. Saiba mais aqui.

Se forem como eu, então a maior parte das vezes que lêem ou ouvem um católico discorrer sobre vestuário modesto e a explicar que os bikinis são um sinal visível do fim dos tempos, só vos apetece arrancar cabelos. Este artigo do grande Anthony Esolen não é desses. Há uma forma inteligente e racional de abordar este tema. Há contextos e lugares para (quase) tudo. Leiam que vale bem a pena.

Modéstia e Caridade

Anthony Esolen
Há alguns anos, a editora do jornal da escola católica de Saint Eustaby escreveu que devia poder “descer a rua sem mais do que um par de chanatas e um sorriso” sem ter de se preocupar em ser assediada.

E tinha razão, de um ponto de vista óbvio e trivial. Assediar pessoas é contra a lei. Se um miúdo bêbado fosse a correr para a apalpar, alguém devia impedi-lo. Se esse alguém fosse um polícia, devia levá-lo directamente para a esquadra. Claro que ela também deveria ser detida por atentado ao pudor.

Mas o que me põe a pensar é a atitude por detrás da posição daquela rapariga. Faz-me lembrar um incidente que se passou comigo num verão em que estava a trabalhar como voluntário numa casa para operários católicos, em Washington. Estava a pintar um dos corredores quando tocaram à campainha. Como em qualquer outro verão naquele antro de calor, nevoeiro e corrupção, estava um autêntico forno, e por isso eu estava em tronco nu quando fui abrir a porta.

Era uma senhora hispânica, com cerca de 50 anos, que tinha umas perguntas a fazer, por isso fui buscar o meu chefe, John. Ele veio à porta e eles ficaram a conversar enquanto eu observava. Ela queria apenas umas informações, não era nada de privado.

Às tantas interrompeu uma frase e disse “com licença”, enquanto olhava na minha direcção. Eu pedi desculpa e voltei à pintura. Mais tarde o John explicou-me: “Ela é uma senhora tradicional, e tu estavas sem camisa”. Eu compreendi. Não pensei que ela fosse mal-educada nem puritana.

Não duvido que se estivéssemos todos no campo a cavar batatas ela não teria pensado duas vezes sobre o facto de haver homens em tronco nu. Também não teria esperado que eu usasse uma camisa na praia. O contexto é muito importante.

Ela não pensava mal do facto de eu estar a pintar o corredor em tronco nu. Também não a incomodava o facto de eu ter ficado a ver enquanto ela conversava com o meu patrão, para o caso de poder fazer alguma sugestão. O que lhe parecia mal era que eu não tivesse posto a camisa novamente enquanto não estava a pintar.

Tinha razão, e eu nunca mais me esqueci da lição. Somos seres sociais, e a forma como nos vestimos ajuda a comunicar-nos aos outros, ou a mentir, gritar ou frustrar os outros, evitando que se comuniquem a nós.

Em parte a linguagem do amor é convencional, como todas as linguagens, e em parte não é convencional, mas baseada na natureza do corpo e nas condições materiais do mundo que nos rodeia. Se eu estiver em Paris e proferir aquela lendária frase dos manuais de introdução ao francês, “La plume de ma tante est sur la table”, alguém responderá, “Mai bien sur” e o dia continuará em paz e solarengo. Mas essa mesma alocução não significa absolutamente nada em Peoria.

Mas se eu estiver em Paris e passar por uma criança a brincar no passeio, e se olhar para ele e sorrir na sua direcção e na da sua mãe, então estou a comunicar a mesma alegria e aprovação do que se estivesse em Peoria, ou Poona ou Papeete. É um gesto universal.

"Um par de chanatas e um sorriso"
Aquilo que consideramos roupa imodesta varia de acordo com os povos e dependerá do clima ou da actividade, mas todas as sociedades traçam limites nalgum ponto. Mas uma vez que nos nossos dias não se pode falar de modéstia sexual sem que os puritanos do vício desmaiem, temendo que os “teocratas” os levem para algum castelo longínquo, para os aterrorizar com presentes de poesia e cortesia, mudemos de arena moral.

Pensemos antes em gritar ou lutar. Estes são actos de agressão não apenas contra os oponentes, mas contra quem estiver por perto. Novamente estão em causa contextos e convenções sociais, mas não só. Normalmente, gritar num jogo de futebol não tem problema, excepção feita para palavrões ou ameaças contra outro jogador, treinador ou árbitro.

Mas gritar num jogo de ténis, antes do serviço, não está bem e levará à sua expulsão. Gritar numa grande festa ao ar livre é aceitável, mas gritar dentro de portas? Agressivo, mal-educado, pouco caridoso.

Rapazes podem lutar no recreio da escola, desde que respeitem as regras. Mas lutar dentro de portas não é aceitável. Os rapazes devem controlar a sua agressividade, mesmo a sua agressividade boa, na companhia de raparigas. Isso inclui linguagem ordinária. Não o fazer equivale a dizer, “aqui quem manda sou eu, fazes o que eu quero, e que te lixes”.

Acontece o mesmo com a roupa imodesta. Uma mulher que se veste para revelar as suas curvas de forma provocatória, ou está a dizer “não quero que olhes para a minha cara, mas para coisas mais importantes, mais abaixo”, ou então “vai-te lixar”.

Deixem-me ser claro. Se eu vir uma mulher cujo vestido parece um embrulho de plástico, para ser usado uma vez e descartado, surgem-me logo pensamentos sexuais, que é precisamente o que ela quer, a não ser que seja uma tola. Então eu controlo-me e desvio os olhos, porque não quero ter esses pensamentos.

E não basta dizer para não pensar dessa forma. Todas as forças humanas contêm também uma fraqueza. A sensibilidade das mulheres para com os sentimentos – sem a qual a raça humana não teria sobrevivido – revela-se também na tentação de escolher a palavra certa para magoar ao máximo os sentimentos. A inclinação de um homem para com a agressividade – sem a qual a raça humana jamais teria sobrevivido – revela-se também na tentação para a violência.

Temos de viver uns com os outros como somos. A caridade, a paciência, um reconhecimento honesto da nossa susceptibilidade para o pecado e compreensão pela susceptibilidade de outros – em particular os membros do sexo oposto, cujas emoções são frequentemente diferentes das nossas – deve orientar sempre as nossas escolhas no que diz respeito ao vestuário, à linguagem e ao comportamento físico.

Não coloquemos obstáculos no caminho do nosso próximo.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child. 

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Setembro de 2018 em The Catholic Thing)

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Discurso do Papa aos religiosos no Chile

Este discurso foi pronunciado pelo Papa na noite de segunda-feira, 16 de Janeiro, em Santiago, no Chile. Para mim, foi o discurso do dia, um dos melhores do Papa Francisco até hoje. Deixo-o aqui, na íntegra e sem qualquer edição, para que todos possam ler. É longo, mas compensa.

Queridos irmãos e irmãs, boa-tarde!

Estou feliz por participar neste encontro convosco. Gostei do modo como o Card. Ezzati vos apresentou: «Aqui estão... aqui estão as consagradas, os consagrados, os presbíteros, os diáconos permanentes, os seminaristas…» Aqui estão. Fez-me recordar o dia da nossa Ordenação ou Consagração em que, depois da apresentação, dissemos: «Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade». Neste encontro, queremos dizer ao Senhor: «Aqui estamos» para renovar o nosso «sim». 

Queremos renovar, juntos, a resposta à vocação que um dia alvoroçou o nosso coração.

E, para isso, creio que nos pode ajudar a passagem do Evangelho que escutamos, compartilhando três momentos de Pedro e da primeira comunidade: Pedro e a comunidade abatidos, Pedro e a comunidade tratados com misericórdia e Pedro e a comunidade transfigurados. Jogo com o binómio Pedro-comunidade, porque a experiência dos apóstolos tem sempre estes dois aspetos: pessoal e comunitário. Andam de mãos dadas, e não os podemos separar. É verdade que somos chamados individualmente, mas sempre para ser parte dum grupo maior. Não existe a «selfie vocacional», não existe. A vocação exige que a foto te seja tirada por outrem; que lhe havemos de fazer? As coisas estão assim.

1. Pedro abatido e a comunidade abatida
Sempre gostei do estilo dos Evangelhos que não adornam, não mitigam os acontecimentos, nem os pintam fazendo-os mais belos. Apresentam-nos a vida como é e não como deveria ser. O Evangelho não tem medo de nos mostrar os momentos difíceis, e até conflituosos, por que passaram os discípulos.

Reconstituamos a situação. Tinham morto Jesus; algumas mulheres diziam que estava vivo (cf. Lc 24, 22-24). Os discípulos, mesmo tendo visto Jesus ressuscitado, tão grande é o acontecimento que precisarão de tempo para compreender o sucedido. Diz Lucas: «Era tão grande a alegria que nem queriam acreditar». Precisavam de tempo para compreender aquilo que tinha acontecido. A compreensão chegar-lhes-á no Pentecostes, com o envio do Espírito Santo. A irrupção do Ressuscitado levará tempo a penetrar no coração dos seus.

Os discípulos voltam para a sua terra. Vão fazer o que sabiam: pescar. Não estavam todos, apenas alguns. Divididos, fragmentados? Não sabemos. O que nos diz a Escritura é que, aqueles que estavam, não pescaram nada. Têm as redes vazias.

Entretanto havia outro vazio que pesava inconscientemente sobre eles: a perplexidade e o turvamento pela morte do seu Mestre. Já não está, foi crucificado. Mas não acabou só Ele crucificado, os próprios discípulos foram joeirados, tendo a morte de Jesus posto em evidência um torvelinho de conflitos no coração dos seus amigos. Pedro renegara-O, Judas traíra-O, os restantes fugiram e esconderam-se. Ficou apenas um punhado de mulheres e o discípulo amado. O resto, foi-se. Questão de dias, e tudo ruiu. São as horas da perplexidade e do turvamento na vida do discípulo. Nos momentos «em que está levantada a poeira das perseguições, tribulações, dúvidas, etc. por causa de factos culturais e históricos, não é fácil atinar com o caminho a seguir. Há várias tentações que caraterizam estes momentos: discutir ideias, não prestar a devida atenção ao caso, fixar-se demasiado nos perseguidores... e – creio que a pior de todas as tentações – ficar a ruminar a desolação».[1] Sim, ficar a ruminar a desolação. Isto é o que sucedeu aos discípulos.

Como nos dizia o cardeal Ezzati, «a vida sacerdotal e consagrada, no Chile, atravessou e atravessa horas difíceis de turbulência e desafios sérios. Juntamente com a fidelidade da imensa maioria, cresceu também a cizânia do mal com as suas consequências de escândalo e deserção».

Momento de turbulência. Sei da dor causada pelos casos de abuso contra menores e sigo com atenção aquilo que estais a fazer para superar este grave e doloroso malefício. Dor pelo dano e sofrimento das vítimas e suas famílias, que viram traída a confiança que depunham nos ministros da Igreja. Dor pelo sofrimento das comunidades eclesiais, e dor também por vós, irmãos, que, além do desgaste pela entrega, experimentastes o dano que provoca a suspeita e a contestação, que pode ter insinuado – em alguns ou muitos – a dúvida, o medo e a difidência. Sei que, às vezes, sofrestes insultos no metropolitano ou caminhando pela rua; que, em muitos lugares, se está a «pagar caro» andar vestido de padre. Por isso, convido-vos a pedir a Deus que nos dê a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a coragem de pedir perdão e a capacidade de aprender a escutar o que Ele nos está a dizer, e não ruminar a desolação.

Gostaria de acrescentar ainda outro aspeto importante. As nossas sociedades estão a mudar. O Chile de hoje é muito diferente do que conheci no tempo da minha juventude, quando me estava a formar. Estão a nascer novas e variadas formas culturais, que não se enquadram nos contornos habituais. E temos de reconhecer que, muitas vezes, não sabemos como nos inserir nestas novas situações. Frequentemente sonhamos com as «cebolas do Egito» e esquecemo-nos de que a terra prometida está à frente, e não atrás. Que a promessa é de ontem, mas diz respeito ao amanhã. E então podemos cair na tentação de nos fecharmos e isolarmos para defender as nossas posições que acabam por ser apenas bons monólogos. Podemos ser tentados a pensar que tudo está mal e, em vez de professar uma «boa nova», tudo o que professamos é apatia e deceção. Assim, fechamos os olhos perante os desafios pastorais, pensando que o Espírito não tenha nada a dizer. Deste modo esquecemo-nos de que o Evangelho é um caminho de conversão, mas não só «dos outros», também nossa.

Gostemos ou não, estamos convidados a enfrentar a realidade como ela se nos apresenta: a realidade pessoal, comunitária e social. As redes – dizem os discípulos – estão vazias, e podemos compreender os sentimentos que isso gera. Regressam a casa sem grandes aventuras para contar; regressam a casa de mãos vazias; regressam a casa, abatidos.

Que resta daqueles discípulos fortes, corajosos, vivazes, que se sentiam escolhidos tendo deixado tudo para seguir Jesus (cf. Mc 1, 16-20)? Que resta daqueles discípulos seguros de si, prontos a ir para a prisão e até dariam a vida pelo seu Mestre (cf. Lc 22, 33), que, para O defender, queriam mandar vir fogo sobre a terra (cf. Lc 9, 54); que, por Ele, desembainhariam a espada e combateriam (cf. Lc 22, 49-51)? Que resta do Pedro que repreendia o seu Mestre dizendo-Lhe como é que deveria orientar a sua vida (cf. Mc 8, 31-33), o seu programa de redenção? A desolação.

2. Pedro tratado com misericórdia e a comunidade tratada com misericórdia
É a hora da verdade, na vida da primeira comunidade. É a hora em que Pedro se confrontou com parte de si mesmo: a parte da sua verdade que muitas vezes não queria ver. Experimentou a sua limitação, a sua fragilidade, o seu ser pecador. Pedro, o instintivo, o chefe impulsivo e salvador, com uma boa dose de autossuficiência e um excesso de confiança em si mesmo e nas suas possibilidades, teve que se curvar à sua fraqueza e pecado. Era tão pecador como os outros, era tão carente como os outros, era tão frágil como os outros. Pedro dececionou Aquele a quem jurara proteção. Hora crucial na vida de Pedro.

Como discípulos, como Igreja, pode acontecer-nos o mesmo: há momentos em que somos confrontados, não com as nossas glórias, mas com a nossa fraqueza. Horas cruciais na vida dos discípulos, mas é também nessas horas que nasce o apóstolo. Deixemos o texto levar-nos pela mão.
«Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?”» (Jo 21, 15).

Depois de comer, Jesus convida Pedro a passear um pouco e a única palavra é uma pergunta, uma pergunta de amor: Amas-Me? Jesus não censura nem condena. Tudo o que Ele quer fazer é salvar Pedro. Quer salvá-lo do perigo de ficar fechado no seu pecado, de ficar «a mastigar» a desolação, fruto da sua limitação; salvá-lo do perigo de desistir, por causa das suas limitações, de todas as coisas boas que vivera com Jesus. Quer salvá-lo do fechamento e do isolamento. Quer salvá-lo daquela atitude destrutiva que é o vitimizar-se ou, ao contrário, cair num «vale tudo o mesmo», acabando por fazer malograr qualquer compromisso no mais danoso relativismo. Quer libertá-lo de considerar quem se opõe a Ele como se fosse um inimigo, ou de não aceitar com serenidade as contradições e as críticas. Quer libertá-lo da tristeza e sobretudo do mau humor. Com esta pergunta, Jesus convida Pedro a auscultar o seu coração e aprender a discernir. Uma vez que «não era de Deus defender a verdade à custa da caridade, nem a caridade à custa da verdade, nem o equilíbrio à custa de ambas. É preciso discernir. Jesus quer evitar que Pedro se torne um veraz destruidor ou um caritativo mentiroso ou um perplexo paralisado»,[2] como pode acontecer connosco em tais situações.

Jesus interpelou Pedro sobre o seu amor e insistiu nisso até ele Lhe poder dar uma resposta realista: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo» (Jo 21, 17). E, deste modo, Jesus confirma-o na missão. Assim o faz tornar-se definitivamente seu apóstolo.
O que é que fortalece Pedro como apóstolo? O que é que nos mantém a nós como apóstolos? Uma coisa só: fomos tratados com misericórdia (cf. 1 Tim 1, 12-16). Fomos tratados com misericórdia. «Não obstante os nossos pecados, os nossos limites, as nossas faltas; não obstante as nossas numerosas quedas, Jesus Cristo viu-nos, aproximou-Se, deu-nos a mão e teve misericórdia de nós. (…) Cada um de nós poderá recordar, pensando em todas as vezes que o Senhor o viu, que olhou para ele, que se aproximou dele e o tratou com misericórdia».[3] E convido-vos a fazer o mesmo. Não estamos aqui por ser melhores do que os outros. Não somos super-heróis que, do alto, descem para se encontrar com os «mortais». Antes, somos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E esta é a fonte da nossa alegria. Somos consagrados, pastores segundo o estilo de Jesus ferido, morto e ressuscitado. A pessoa consagrada – e, quando digo «consagrados», penso em quantos aqui estão – é alguém que encontra, nas suas feridas, os sinais da Ressurreição. É alguém que consegue ver, nas feridas do mundo, a força da Ressurreição. É alguém que, segundo o estilo de Jesus, não vai ao encontro dos seus irmãos com a censura e a condenação.

Jesus Cristo não Se apresenta, aos seus, sem chagas; foi precisamente a partir das suas chagas que Tomé pôde confessar a fé. Estamos convidados a não dissimular nem esconder as nossas chagas. Uma Igreja com as chagas é capaz de compreender as chagas do mundo atual e de assumi-las, sofrê-las, acompanhá-las e procurar saná-las. Uma Igreja com as chagas não se coloca no centro, não se considera perfeita, mas coloca no centro o único que pode sanar as feridas e que tem um nome: Jesus Cristo.

A consciência de ter chagas, liberta-nos. É verdade; liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, de nos considerarmos superiores. Liberta-nos da tendência «prometeica de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado».[4]

Em Jesus, as nossas chagas ficam ressuscitadas. Tornam-nos solidários; ajudam-nos a derrubar os muros que nos encerram numa atitude elitista, incitando-nos a construir pontes e ir ao encontro de tantos sedentos do mesmo amor misericordioso que só Cristo nos pode dar. «Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho é “suor do nosso rosto”».[5] Vejo, com certa preocupação, que há comunidades que vivem acometidas pela ânsia de constar no cartaz, ocupar espaços, aparecer e se mostrar, mais do que pela vontade de arregaçar as mangas e sair para tocar a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
Como nos interpela a reflexão deste Santo chileno, que advertia: «Por isso, serão métodos falsos todos os que são impostos pela uniformidade; todos os que pretendem encaminhar-nos para Deus, fazendo-nos esquecer os nossos irmãos; todos os que nos levam a fechar os olhos ao universo, em vez de nos ensinar a abri-los para elevar tudo ao Criador de todas as coisas; todos os que nos fazem egoístas e nos dobram sobre nós mesmos».[6]

O povo de Deus não espera nem precisa de nós como super-heróis, espera pastores, homens e mulheres consagrados, que conheçam a compaixão, que saibam estender uma mão, que saibam parar junto de quem está caído e, como Jesus, ajudem a sair desse círculo vicioso de «mastigar» a desolação que envenena a alma.

3. Pedro transfigurado e a comunidade transfigurada
Jesus convida Pedro a discernir e, assim, começam a ganhar força muitos acontecimentos da vida de Pedro, como o gesto profético do lava-pés. Pedro, que resistira a deixar-se lavar os pés, começava a compreender que a verdadeira grandeza passa por se fazer pequenino e servidor.[7]
Como é grande a pedagogia de nosso Senhor! Do gesto profético de Jesus à Igreja profética que, lavada do seu pecado, não tem medo de sair para servir uma humanidade ferida.

Pedro experimentou, na sua carne, a ferida não só do pecado, mas também das suas próprias limitações e fraquezas. Mas descobriu em Jesus que as suas feridas podem ser caminho de Ressurreição. Conhecer Pedro abatido para conhecer Pedro transfigurado é o convite a deixar de ser uma Igreja de abatidos desolados para passar a uma Igreja servidora de tantos abatidos que convivem ao nosso lado. Uma Igreja capaz de se colocar ao serviço do seu Senhor no faminto, no preso, no sedento, no desalojado, no nu, no doente... (cf. Mt 25, 35). Um serviço que não se identifica com o assistencialismo nem o paternalismo, mas com a conversão do coração. O problema não está em dar de comer ao pobre, vestir o nu, assistir o doente, mas em considerar que o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado têm a dignidade de se sentar às nossas mesas, sentir-se «em casa» entre nós, sentir-se família. Este é o sinal de que o Reino de Deus está no meio de nós. É o sinal duma Igreja que foi ferida pelo seu pecado, foi cumulada de misericórdia pelo seu Senhor, e foi tornada profética por vocação.

Renovar a profecia é renovar o nosso compromisso de não esperar por um mundo ideal, uma comunidade ideal, um discípulo ideal para viver ou para evangelizar, mas criar as condições para que cada pessoa abatida possa encontrar-se com Jesus. Não se amam as situações nem as comunidades ideais, amam-se as pessoas.

O reconhecimento sincero, contrito e orante das nossas limitações, longe de nos separar de nosso Senhor, permite-nos retornar a Jesus, sabendo que, «com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. (…) Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual».[8] Como nos faz bem a todos deixar que Jesus nos renove o coração!

Ao início deste encontro, disse-vos que vínhamos renovar o nosso «sim», com garra, com paixão. Queremos renovar o nosso «sim», mas um sim realista, porque apoiado no olhar de Jesus. Convido-vos, quando voltardes para casa, a preparar no vosso coração uma espécie de testamento espiritual, no estilo do cardeal Raúl Silva Henríquez expresso nesta linda oração que começa dizendo: «A Igreja que eu amo é a Santa Igreja de todos os dias... a tua, a minha, a Santa Igreja de todos os dias...

Jesus, o Evangelho, o pão, a Eucaristia, o Corpo de Cristo humilde em cada dia. Com os rostos dos pobres e os rostos de homens e mulheres que cantavam, que lutavam, que sofriam. A Santa Igreja de todos os dias».

Pergunto-te: Como é a Igreja que tu amas? Amas esta Igreja ferida, que encontra vida nas chagas de Jesus?

Obrigado por este encontro. Obrigado pela oportunidade de renovar o «sim» convosco. A Virgem do Carmo vos cubra com o seu manto.

Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Papa no Chile com vergonha de abusos

O Papa chegou ontem à noite ao Chile, mas só hoje é que houve agenda oficial. Francisco foi recebido pela presidente do Chile e, no seu discurso, manifestou novamente vergonha e pesar pelos abusos sexuais cometidos por padres ou outros representantes da Igreja.

Depois, celebrou missa perante 400 mil pessoas num parque da cidade, elogiando a tenacidade dos chilenos, peritos em levantarem-se “depois de tantas derrocadas”.

Antes, a caminho do Chile, Francisco manifestou aos jornalistas a sua preocupação com os riscos de uma guerra nuclear.

Mais uma história triste que nos chega do Egipto. Esta é de um jovem que foi assassinado por ter uma tatuagem cristã. O seu irmão sobreviveu por milagre… Conheça a história aqui.

Na China continua a tensão entre os cristãos e o Governo, com mais uma igreja demolida. São três só nas últimas semanas. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

22 missionários no Afeganistão executados?

Fake news
Nos últimos dias várias pessoas me perguntaram sobre a veracidade de uma mensagem que anda a circular, a pedir orações para 22 missionários cristãos no Afeganistão que vão ser executados "amanhã".

Não, não é verdade. Graças a Deus.

Eu não sei quem é que inventa estas mensagens, nem percebo quem ganha com isso, mas tal como esta mensagem e esta, a dos 22 missionários também é falsa.

Rezem, isso sim, pelos cristãos perseguidos no mundo. Eles não faltam. Mas não espalhem, por amor de Deus, mensagens sobre situações concretas sem estarem certos da sua veracidade.

Eu não sou o sabichão, mas dado a minha profissão, conhecimento e acesso a fontes terei todo o gosto em poder confirmar ou despistar as informações que vos cheguem. Basta que me contactem, pode ser até pela caixa de comentários deste post.

Obrigado!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ela não quer salvar o mundo sozinha, mas vai fazendo a sua parte

Joana Gomes
A Joana não pretende salvar o mundo sozinha, mas continuará no Chade, a única branca no campo de refugiados onde trabalha, enquanto Deus a quiser lá. Se pensam que tiveram um dia chato no trabalho, leiam esta entrevista. Se o dia correu bem, leiam na mesma.

O Chade é longe e a vida é difícil, mas é bastante pior para cristãos que vivem num dos 10 países que mais perseguem o Cristianismo, segundo a organização Open Doors. Conheça essa lista aqui.

O Papa vai na segunda-feira para o Chile e segue para o Peru. Não é desta que visita a Argentina, mas pelo menos 40 mil argentinos vão visitá-lo a ele.

A primeira-ministra do Reino Unido nomeou uma vice-presidente do Partido Conservador para promover a integração das mulheres. As organizações e figuras pró-aborto do país tiveram um ataque porque ela é, pasme-se, pró-vida e pretende ser uma voz para os que não têm voz. Bravo Maria Caulfield!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Europa sem Sharia e reclusos no circo

Estou de volta depois de uma ausência motivada por horários nocturnos, dias de folga e excesso de trabalho. Certamente já morriam de saudades!

Começo por vos informar que foi preciso esperar por 2018 para a Sharia deixar de ser obrigatória na… Grécia. Leu bem. Saiba porquê.

O Papa teve um dia ocupado. Começou por assumir o controlo directo de mais uma organização católica conservadora envolvida em escândalos de abusos sexuais e ainda teve tempo de convidar 2.100 sem-abrigo, presos e refugiados para ir ao circo.

Boas notícias de Angola, onde a Igreja venceu a “guerra da rádio” contra o regime. A Ecclesia vai poder emitir para todo o país.

No dia 7 assinalou-se o Natal para os cristãos que seguem o calendário juliano. No Egipto, onde a data tem sido ocasião para atentados nos últimos anos, correu tudo bem mas em Belém o patriarca greco-ortodoxo passou um mau bocado, tendo sido insultado por uma multidão que lançou ovos e pedras contra o seu carro. Os responsáveis? Não foram muçulmanos, foram os seus próprios fiéis. Veja porquê.

Depois de na semana passada o The Catholic Thing nos ter desafiado a largar a ira durante 2018, hoje o grande Randall Smith pede-nos para dar um passo atrás antes de embarcar nas discussões já cansadas entre liberaise conservadores sobre problemas como a educação católica, os processos de nulidade e outros e perceber quais são as verdadeiras origens destes problemas. É boa leitura, não deixe de ver!

Empurrando problemas com a barriga...

Randall Smith
Há alguns anos surgiu um filme chamado “A Corrente do Bem” [Pay it Forward], cuja ideia principal era de que quando alguém nos faz bem, em vez de retribuir devia-se fazer bem a outra pessoa. A realidade costuma ser menos benigna. O que as pessoas costumam passar aos outros são os resultados de um trabalho mal feito, um problema por resolver, uma disfunção que vai passando de gabinete em gabinete até que cai no colo de alguém que não tem nem a autoridade para o poder passar a mais ninguém.

Digamos que um jovem padre, acabado de se formar em Direito Canónico, é colocado num tribunal diocesano, esperando idealisticamente poder aplicar o conhecimento e as práticas que aprendeu, com base na tradição da Igreja, aos desafios pastoralmente difíceis dos casos de nulidade. O que descobre, porém, é que há anos que o tribunal não segue essas práticas, adoptando uma atitude de despachar os processos, dos quais muito poucos são rejeitados.

Estes funcionários sabem, com base em décadas de experiência (uma vez que muitos estão no tribunal desde os anos 70) que se recusarem um processo, ou se recusarem a nulidade, as partes envolvidas tendem a abandonar a Igreja. Por isso, quando o nosso jovem padre chega, o tribunal encontra-se a decretar algumas centenas de nulidades por ano, tendo rejeitado apenas oito ou nove na última década.

O jovem padre idealista decide resistir a este laxismo burocrático. Assim ele é que passa a ser o problema. A burocracia diocesana gere as coisas de uma certa forma há anos; os padres que aconselham os casais estão habituados a dizer-lhes que não haverá qualquer problema uma vez ultrapassada a difícil fase do preenchimento dos papéis.

Ao resistir, o nosso jovem padre vai causar muito mal-estar. Pessoas zangadas por terem visto os seus processos negados irão abandonar a Igreja e os padres que os aconselharam ficarão furiosos. Se o conflito se tornar público os comentadores “liberais” escreverão artigos revoltados, lamentando a “falta de caridade e sensibilidade pastoral” do tribunal, enquanto os “conservadores” criticarão o tribunal por ser tão laxista, insistindo que a caridade maior é a aplicação rigorosa das leis da Igreja.

Eu, para dizer a verdade, não tenho nada a dizer sobre o assunto.

Em vez disso, pergunto se não fará sentido sugerir que “o problema” começou muito antes. Cada pedido de nulidade que chega ao tribunal deve ser considerado uma falha na preparação para o matrimónio. Se a Igreja pode legitimamente decretar a nulidade de tantos casamentos por ano, então tem de enfrentar a triste realidade de que todos os anos milhares de casais católicos não estão a ser bem preparados para o casamento. Tentar lidar com o problema na fase do processo de nulidade é como tapar uma ferida de bala com um penso. Não faz mais do que esconder o problema, em vez de lidar com a ferida profunda, que devia ter sido evitada. Um “hospital de campanha” responsável deveria perguntar porque é estão a aparecer tantas pessoas vítimas de balas, em vez de procurar pensos mais sofisticados.

O pessoal das urgências era capaz de ficar irritado se um médico se recusasse a fazer como todos os outros e simplesmente tapar a ferida com um penso. Parece cruel deixar a ferida aberta. Mas devemos continuar a tapar os problemas em vez de lidar com as suas causas? Os médicos das urgências que já fizeram as pazes com aquilo que se lhes pede há anos provavelmente dirão que não conseguem controlar o que se passa antes de os feridos darem entrada, e isso é verdade, eles não criaram o problema, simplesmente caiu-lhes no colo. E agora?

Hospital de Campanha na Áustria, Primeira Guerra Mundial
Podíamos fazer um comentário semelhante sobre as escolas católicas. As escolas não costumam estar na raiz dos problemas, mas são o local onde todos os problemas tóxicos, que grassam na nossa cultura, vão parar. Questões com drogas e álcool, pornografia e a adolescência híper-sexualizada; consumismo; as pressões de ser bem-sucedido numa economia tecnocrática e globalizada; e por detrás de todas estas, as dificuldades de lidar com as exigências cada vez mais insaciáveis de multidões de indivíduos autónomos alimentados pela ideologia do Estado liberal e que acreditam que têm o “direito” de fazer o que querem, com pouca ou nenhuma consideração pelos desejos dos outros e as obrigações para com a comunidade.

O resultado é que temos uma população, incluindo americanos, que sentem que têm o “direito” a casar e a casar nesta igreja; o “direito” a uma declaração de nulidade quando as coisas não correm bem; o “direito” a ter a escola católica que querem (o que pode significar aulas de educação sexual, ética ambiental ou missa em latim); e o “direito” de escolher a vida que querem, quer isso signifique o “direito” a um aborto, o “direito” a casas de banho transgénero ou o “direito” a acumular toda a riqueza possível para poder comprar os bens de consumo que querem.

Por isso, e quando os padres insistem perante as suas congregações que a principal virtude cristã é “ser simpático”, esses fiéis têm alguma dificuldade em compreender porque é que uma instituição católica lhes negaria o que consideram ser desejos legítimos, porque negar às pessoas aquilo que querem não é “simpático”. Quando se alimenta uma cultura de liberalismo autónomo e se prega o Evangelho de deísmo terapêutico moralista, está-se a dar força às raízes das ervas daninhas da nossa cultura, muitas das quais acabarão por crescer com força no jardim de alguém que não tem os recursos necessários para se livrar delas.

Por isso podemos continuar a discutir amargamente e sem fim sobre os tribunais e as escolas onde os problemas acabam por ir parar – embora nesse ponto as dificuldades são já tão grandes e os recursos tão escassos que teria sorte se até um penso lhe dessem. Ou então podemos levar a sério o que está a acontecer na nossa cultura e o que não se está a passar na nossa Igreja e começar a responsabilizar as pessoas envolvidas no sistema, a começar por nós, para não empurrem mais os problemas com a barriga.

Talvez devêssemos fazer disso a nossa resolução de Ano Novo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Janeiro de 2017)

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Os tristes frutos da guerra

Frutos da guerra
Nos últimos dias têm circulado notícias sobre uma investigação da Polícia Judiciária relativa ao desaparecimento de arte sacra na Igreja de Santo Condestável, em Lisboa, sendo um anterior pároco o principal suspeito. O Patriarcado confirma a investigação e diz que “sem precipitar juízos que cabem aos tribunais, cumpra-se a lei e acompanhem-se as pessoas”. Parece ser um bom princípio.

O Papa Francisco e o Patriarca de Lisboa falaram ambos sobre o drama dos refugiados no dia de Ano Novo. Dias antes o Papa Francisco lembrou os verdadeiros frutos da guerra com uma foto histórica verdadeiramente impressionante.

O Santuário do Cristo Rei quer usar a arte para combater a ignorância religiosa.

Mais um atentado em Cabul, esta quinta-feira, reivindicado pelo Estado Islâmico.


Não foi de propósito, mas veio a calhar. Foi em dia de dérbi, quando os ânimos mais se exaltam, que publiquei o artigo do Catholic Thing que nos convida a uma reflexão sobre a ira e como ela se pode tornar um “falso deus”nas nossas vidas. Leiam e sigam os conselhos que vêm no fim. Para terem um ano melhor. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Um Novo Começo para 2018

O ministério de João Baptista foi um apelo ao arrependimento, à renúncia ao pecado, como tinha sido profetizado por Isaías: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Mt. 3,3). Os Dez Mandamentos fornecem uma base moral, com destaque para o primeiro: “Eu sou o Senhor teu Deus. Não terão falsos deuses diante de mim”.

Os falsos deuses assumem várias formas e feitios. À medida que a nossa cultura vai rejeitando a herança judaico-cristã, não podemos dar por adquirido que não regressaremos aos falsos ídolos de pedra. Mas um falso deus também pode ser uma obsessão tão intensa que nos impede de adorar devidamente o Deus único. Essas obsessões são legião, mas pode ser útil concentrarmo-nos apenas numa: a ira.

À medida que ficamos mais velhos acontece uma coisa curiosa. As nossas vidas parecem comprimir-se e começamos a perder a noção do tempo. Há coisas que parecem ter acontecido recentemente mas que na verdade se passaram há vários anos. Curiosamente até as memórias distantes – tanto boas como más – se tornam mais presentes. No aniversário do ataque a Pearl Harbour os jornais mostraram veteranos já na casa dos 90 anos, com as caras a expressar a dor da mágoa enquanto recordavam esse dia terrível em 1941.

Há uma piada velha sobre o Alzheimer irlandês: Esquecemos tudo menos os ressentimentos. Mas infelizmente isto não se limita aos irlandeses. A ira é fácil de compreender – a maioria de nós conhece-a muito bem. Até a vemos nos bebés. Tire um brinquedo a um bebé e ele faz birra. À medida que envelhecemos, tornamo-nos um pouco mais sofisticados na forma como exprimimos a nossa ira, quando são os outros a brincar connosco.

Se não tivermos cuidado é perfeitamente possível que até irritações miudinhas se transformem em ódios. Somos capazes de deixar um incómodo momentâneo transformar-se na razão por detrás de um ressentimento.

Isto não significa que tenhamos o dever de ignorar a revolta que costuma acompanhar a injustiça. Essa revolta tem o seu lugar. Por exemplo, a Igreja reconhece o papel do Estado na administração da pena de morte, precisamente para responder a esse desejo de justiça: “As penas capitais infligidas pela autoridade civil, que é a legítima vingadora do crime… concedem segurança à vida ao reprimir a revolta e a violência” (catecismo de Trento). Mas mesmo a revolta legítima que surge como resposta à injustiça deve ser controlada e devidamente ordenada.

Mais, não podemos contar que qualquer Governo seja perfeito no cumprimento de todas as leis justas. Para além de manter todos os potenciais criminosos em bicos de pés, com a ameaça do sistema judicial, não é razoável esperar que todos os malfeitores sejam conduzidos à justiça. Mas cultivar a ira enfurecida por causa de uma injustiça por resolver não dá resposta a estes factos da vida humana. Cultivar a ira não é apenas autodestrutivo; a obsessão torna-se um tipo de falso deus, o centro das nossas vidas.

Há anos um conhecido caçador de nazis observou que talvez a maior tragédia do Holocausto tenha sido que ele substituiu o Êxodo como centro da história judaica.

Como é que nós, pela graça de Deus, podemos remover o falso deus da ira nesta época em que acolhemos a vinda do Senhor e nos preparamos para começar um Novo Ano? Sabemos que não será fácil.

Eis umas sugestões bíblicas:

·         Reconhecer que a justa ira não é pecado. A ira impele-nos à acção, a equilibrar os pratos da balança da justiça. “Irai-vos e não pequeis” (Ef. 4,26).
·         A justa ira deve ser proporcional e sob controlo da razão: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef. 4,26)
·         Conte até dez depois de cada provocação: “Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1,19) (“Querida, porque é que não me respondes?”, “Estou a contar até dez querido!”)
·         Esteja preparado para perdoar, e perdoar novamente. “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt. 18,21-22)
·         Suporte as falhas dos outros, recordando as suas próprias fraquezas. “Perdoai-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
·         Reconheça que as emoções fortes, como a ira, são voláteis e não podem ser controladas sem a graça de Deus. Por isso, não negligencie a oração, o sacramento da reconciliação e a recepção devota da Sagrada Comunhão. “Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt. 5,44).
·         Não ignore o valor redentor do sofrimento injusto: “Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a Igreja” (Col. 1,24).
·         Experimente um pouco de bondade cristã à antiga; “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rom. 12,20-21).
·         Por fim, especialmente para casos de injustiças graves e crónicas, confie na justiça de Deus. Por mais que assim possa parecer, ninguém escapa impune: “A mim pertence a vingança e a retribuição. No devido tempo os pés deles escorregarão; o dia da sua desgraça está chegando e o seu próprio destino se apressa sobre eles” (Deuteronômio 32,35). Ninguém escapa ao trono de justiça de Deus, porque existe um céu e existe um inferno.

Podemos escolher entre ficar obcecados com injustiças e arriscar as nossas almas, ou antecipar a Cristo com uma fé firme. Por isso, tomemos a resolução firme de… parar. Parar de alimentar os nossos ressentimentos, grandes ou pequenos, e preparar o caminho para o Senhor neste Ano Novo – e todos os anos.


O padre Jerry J. Pokorsky é sacerdote na diocese de Arlington e pároco da Igreja de Saint Michael the Archangel em Annandale, Virgínia.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

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