quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Porque nos Voltámos Para Oriente

Pe. Gerald E. Murray
Desde Julho que os padres da igreja de Holy Family, na cidade de Nova Iorque, onde sou pároco, voltaram à prática de celebrar a Santa Missa virados para o Oriente litúrgico, ad orientem. Decidi que o faríamos depois de ter lido uma entrevista dada pelo Cardeal Robert Sarah à revista francesa Famille Chrétienne, em Maio. Mais tarde voltaria a falar do assunto numa conferência em Londres, em Julho, recomendando reavivar a celebração da missa ad orientem.

Na entrevista de Maio ele aborda a questão da legalidade canónica desta prática: “É legítima e adequada à letra e ao espírito do Concílio. Na minha capacidade de prefeito para a Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, continuo a recordar a todos que a celebração voltada para Oriente (versus orientem) é autorizada pelas rúbricas do missal, que especificam os momentos em que o celebrante se deve voltar para as pessoas. Não é necessária, por isso, autorização particular para celebrar a missa voltado para o Senhor”.

Estas palavras do Cardeal Sarah mexeram comigo. Ele relaciona o voltar para o Oriente litúrgico com o movimento mais profundo das nossas almas que se voltam para Deus. O nosso culto deve ser uma experiência que nos faz sair de nós mesmos em direcção a Cristo. “A conversão é um voltar-se para Deus. Estou profundamente convencido que os nossos corpos devem participar nesta conversão. A melhor forma é certamente celebrar – padre e fiéis – voltados juntos para a mesma direcção: Para o Senhor que vem. Não se trata, como por vezes ouvimos, de celebrar de costas para as pessoas ou voltado para elas. O problema não é esse. Trata-se de estarem voltados em conjunto para a abside, que simboliza o Oriente, onde está entronizada a cruz do Senhor ressuscitado.”

Os fiéis não são um público que precisa de ser conquistado ou entretido por um espectáculo interessante por parte do padre que preside, que precisa de se manter na frente e no centro e não deixar que os paroquianos lhe saiam do campo de visão. Não, a natureza do culto divino exige que não deixemos nada interferir na união de Deus com o seu povo. Ao voltar-se para o Senhor com os fiéis, o padre assume o papel de guia na peregrinação para o Senhor, para o Céu. Não se põe a tentação de agir como actor principal num espectáculo para um público cativo.

O tempo para estar voltado para os fiéis e dirigir-se a eles durante a missa é sobretudo a Liturgia da Palavra. A Palavra de Deus é proclamada e o pregador utiliza os seus talentos e os frutos dos seus estudos numa exortação que tem as suas raízes no Evangelho, nas outras leituras e nos ensinamentos da Igreja. Mas depois de começar o ofertório, o sacerdote dirige-se em primeiro lugar a Deus e os fiéis unem-se a ele nas suas orações enquanto seu sacerdote e advogado dos pecadores.

Ainda segundo o Cardeal Sarah: “Celebrando desta forma, experimentamos, nos nossos próprios corpos, a primazia de Deus e da adoração. Compreendemos que a liturgia é a nossa primeira participação no sacrifício perfeito da Cruz. Eu próprio já tive esta experiência. Ao celebrar desta forma, com o padre à cabeça, a assembleia vê-se arrebatada de forma quase física pelo mistério da cruz no momento da elevação”.

O Papa Francisco a celebrar ad orientem
Também eu partilho desta experiência. Agora, quando elevo a Hóstia consagrada, e depois o cálice que contém o Sangue de Cristo, sei que os meus paroquianos estão a olhar para o sacramento de Cristo, e não para mim. A ausência de contacto visual entre o padre e os fiéis neste momento central do culto é uma das melhores formas de comunicar a presença de Deus na Santa Eucaristia.

Quando vimos para a Missa, sejamos padres ou paroquianos, procuramos todos, juntos, a presença de Deus. Na celebração ad orientem, quando Cristo desce sobre o altar na altura da consagração, estamos todos concentrados nele. A sua presença domina a nossa atenção. É como se o padre desaparecesse da cena, continuando depois as orações da Missa, antes de se voltar para os fiéis para oferecer a paz do Senhor e, depois, para mostrar o Senhor Eucarístico aos seus fiéis, antecipando o momento em que o Senhor dará de comer ao seu rebanho com o dom de si próprio, pelas mãos do seu sacerdote.

A maioria dos nossos paroquianos na Holy Family habituaram-se já, serenamente, a estas mudanças. Houve algumas queixas, mas houve mais expressões de agradecimento e de encorajamento. Alguns não entenderam ainda que ter o padre voltado para o Senhor e não para os fiéis não tira nada a estes, mas antes os ajuda a focar-se em Cristo.

Os benefícios para o padre que preside incluem lembrar-se de que, no cânone da missa, ele está a falar a Deus em nome de todos, especialmente em nome daqueles que conduz naquele momento. O padre que preside é o seu pai espiritual e está a suplicar a Deus em seu nome enquanto renova o sacrifício perfeito do Calvário.

Outro benefício para o padre é que ele pode estar mais focado naquilo que está a fazer e distrair-se menos pelos movimentos inevitáveis na Igreja – pessoas a entrar e a sair, crianças e até adultos a andar de um lado para o outro, portas a abrir-se e a fechar-se, etc.

Estou agradecido ao Cardeal Sarah por encorajar pelo reavivar desta antiga prática litúrgica da Igreja. Ele recorda-nos de algo que já sabemos, mas de que facilmente nos esquecemos quando o nosso culto se torna demasiado autoreferencial e menos cristocêntrico: “Para nós, a luz é Jesus Cristo. Quando está voltada para Oriente, toda a Igreja está orientada para Cristo: ad Dominum. Uma Igreja fechada sobre si mesma, num círculo, perderá a sua razão de ser. Para ser ela mesma, a Igreja deve viver voltada para Deus. O nosso ponto de referência é o Senhor! Sabemos que Ele esteve connosco e que regressou ao Pai do Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, e que voltará da mesma forma. Estar voltado para o Senhor significa esperar por ele todos os dias. Não devemos dar a Deus razões para se queixar constantemente de nós: ‘porque me viraram as costas, e não o rosto’ (Jeremias 2:27)”. 


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 21 de Agosto de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Maria, Destruidora de Heresias

Pe. Paul Scalia
Na encíclica Pascendidominici gregis, o Papa Pio X invoca a bem-aventurada Virgem Maria com o título “Destruidora de todas as heresias”. Este curioso título tinha um sentido particular nessa encíclica, escrita em 1911 contra o modernismo, a “síntese de todas as heresias”. Perante tal crise, era apropriado apelar à “Destruidora de todas as heresias”. O título, contudo, ainda se aplica. Na verdade, descreve algo que sempre foi verdade sobre Nossa Senhora – e que talvez seja ainda mais urgente agora.

Mas como é que Maria destrói as heresias? Maria nunca pregou uma homilia contra qualquer erro. Nunca conduziu uma inquisição nem excomungou ninguém. E nunca, valha-nos Deus, apresentou um artigo numa conferência teológica.

Então como? Bem, em primeiro lugar olhem para o zelo que ela inspira. Uma característica típica dos defensores da fé é que têm uma devoção – muitas vezes encantadoramente infantil – por Nossa Senhora. De Santo Ireneu, escrevendo contra as heresias no século II a São Domingos, pregando contra os albigenses no XII, até São João Paulo II advertindo contra os erros do nosso tempo, a devoção a Maria tem sido sempre uma marca dos defensores da fé. Num belo paradoxo católico, estes homens tornaram-se defensores ferozes da fé depois de se tornarem como crianças diante dela. A devoção a Maria faz-se acompanhar de pureza de alma e daí vem clareza mental.

Também podemos pedir a sua intercessão. Só na eternidade é que saberemos como isso funciona. Entretanto temos a certeza de que a Igreja tem sido livrada, vezes e vezes sem conta, das trevas e do erro porque os fiéis clamaram por ela quando precisavam.

Mas acima de tudo, ela é a “Destruidora de todas as heresias” em virtude do que é. É a verdade de quem ela é – ou, antes, a verdade do que Deus fez por ela – que derrota as heresias. O seu ser guarda a verdade sobre Deus e o homem.

Vemos isto muito cedo na história da Igreja. Quando o Concílio de Éfeso definiu solenemente que Maria era a portadora de Deus – a Theotokos – essa foi outra forma de defender a divindade de Cristo. O facto de Nestório se ter recusado a reconhecer Maria como Mãe de Deus alertou os outros pais conciliares para erros em relação ao seu Filho. Proclamar a verdade sobre Maria é proclamar a verdade sobre Jesus Cristo. No século XIX, a definição solene de Pio IX da Imaculada Conceção defendeu a iniciativa da Graça de Deus contra o enamoramento da modernidade pelo engenho humano e o desejo crescente por autonomia humana total.

Hoje vemos outra dimensão de Maria enquanto destruidora de todas as heresias: A sua defesa das verdades sobre a pessoa humana. Mais especificamente, através da sua Assunção, ela revela e destrói o erro que agora nos atormenta: o erro sobre o corpo humano. A heresia moderna (que se vê acima de tudo na gnóstica ideologia do género) é a renovação de um erro antigo e recorrente. Em vez de reconhecer no homem uma alma incorporada, vemos uma alma que calha ter, ou que está cativa dentro de, um corpo.

Desse ponto de vista, ser humano implica ter uma alma – e fazer com o corpo aquilo que se deseja. O corpo torna-se um brinquedo, uma ferramenta, uma posse, uma maldição, etc. Devemos saciá-lo enquanto tiver saúde e descartá-lo quando deixar de ser útil. O corpo nada significa nem nos diz nada sobre nós mesmos. Pode-se ser uma coisa fisicamente mas outra espiritualmente.

Este é um erro perene precisamente porque todos nós experimentamos até certo ponto uma des-integração do corpo e da alma. Através do pecado original perdemos a integridade original, incluindo a união perfeita entre corpo e alma que Deus desejava desde o início. A diferença agora é que esse desconforto foi elevado ao nível de ideologia e essa ideologia está a ser imposta pelos manda-chuvas culturais e governamentais.

Maria, assumida ao Céu, revela a verdade e revela os erros. Todos os santos estão no Céu em espírito. Esperam pelo dia final, quando os seus corpos serão ressuscitados e reunidos com as suas almas. Mas Nossa Senhora, assumida já de corpo e alma no Céu, goza já da perfeição na inteireza da sua natureza humana. No seu próprio ser ela ensina-nos sobre a união essencial entre corpo e alma.

A sua assunção deve ser entendida como estando de acordo com toda a sua vida. Através da Imaculada Conceição, Maria é livre do pecado original e dos seus efeitos. Não sofre de oposição entre corpo e alma, como nós. A sua virgindade perpétua confirma e revela ainda mais esta união perfeita. O seu corpo e alma são tão perfeitamente um que o seu corpo participa de, e manifesta, o dom espiritual perfeito de si para Deus.  

Com essa graça singular que é dada à Nova Eva – na sua Assunção – somos recordados daquilo para o qual fomos criados e vemos uma proclamação daquilo que a Graça de Deus pode conseguir. Vemos que Deus nos criou como uma unidade entre corpo e alma. O corpo e a alma do homem são um, e uma sociedade organizada à volta de um conceito de oposição entre eles é contrária ao seu bem. Mais, a Graça de Cristo reconcilia-nos com Deus e, por isso, connosco próprios. Encontramos na oração e nos sacramentos da Igreja o remédio que cura a divisão que existe em nós.

As velhas orações em Latim suplicam a graça pelo poder de Maria assumpta. Não só pela Assunção de Maria, mas por Maria Assumida – Maria, a que foi Assumida. Este termo chama atenção não só para um evento, mas para um estado de ser. Ela própria, em virtude do que Deus fez por ela, assiste-nos.

Roguemos-lhe mais e mais enquanto nos esforçamos por viver a integridade de corpo e de alma nas nossas próprias vidas e, ao mesmo tempo, enquanto lutamos contra as confusões da nossa cultura e os abusos do nosso Governo.

Maria Assumpta, ora pro nobis.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 14 de Agosto de 2016 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Leão de Münster

George J. Marlin
Faz hoje [3 de Agosto] 75 anos que o bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen, condenou do púlpito da sua catedral o programa de eutanásia dos nazis: “Se estabelecer-se e aplicar-se o princípio de que se pode ‘matar’ seres humanos improdutivos, então ai de nós quando nos tornarmos velhos e frágeis! Será que eu e vós temos apenas direito a viver enquanto formos produtivos? Ninguém se sentiria seguro. Quem poderia confiar no seu médico? É inconcebível que conduta depravada, que suspeição poderia entrar na vida familiar se esta doutrina terrível for tolerada, adoptada e executada”.

Tendo testemunhado a ascensão do nazismo e das suas tácticas brutais, von Galen passou à ofensiva pouco depois de Hitler se tornar chanceler. Numa carta pastoral da Quaresma de 1934, avisou os seus fiéis sobre a ideologia nazi infiel. Dois anos mais tarde comentava a perseguição anti-cristã: “Existem na Alemanha campas novas que contêm as cinzas daqueles que o povo alemão vê como mártires”.

Grande defensor da liberdade católica, apoiou petições a exigir o direito de crianças a serem educadas em instituições católicas. Também juntou um grupo de cientistas católicos para refutar as doutrinas raciais, anticristãs e antissemíticas, formuladas pelo ideólogo nazi Alfred Rosenberg, no seu livro “O Mito do Século XX”.

Em 1937 Pio XI chamou von Galen a Roma para, juntamente com o cardeal Eugenio Pacelli, mais tarde Pio XII, o ajudar a escrever a encíclica Mit Brennender Sorge, que condenava o “mito da raça e do sangue” do nazismo.

Mas von Galen é mais bem lembrado por batalhar os esforços do regime para eliminar os “inaptos”. A classe médica alemã abraçou em larga medida o Nacional Socialismo. Para eles, o racismo Nazi era “biologia aplicada” que lhes fornecia as ideias e as técnicas que levariam a um genocídio sem paralelo.

O próprio Hitler era um forte apoiante da eutanásia. Ainda em 1935 disse a Gerhard Wagner, líder da Liga de Médicos Nacional Socialistas que “a eutanásia em larga escala teria de esperar pela guerra, porque aí seria mais fácil de administrar”.

Nos primeiros anos da guerra abriram seis centros de eutanásia, apelidados de “Fundações Caritativas para o Cuidado Institucional”. Como se vê pelo nome, a matança era racionalizada como um acto de compaixão.

Galen condenou imediatamente estes “centros” numa série de sermões. No domingo, dia 13 de Julho de 1941 avisou que ninguém estava a salvo de ser “fechado nas celas e nos campos de concentração da Gestapo. O direito à vida, à inviolabilidade, à liberdade é uma parte indispensável da ordem moral da sociedade. Exigimos justiça!”

Uma semana mais tarde condenou o encerramento recente, por parte da Gestapo, de escolas, conventos, mosteiros, abadias e a confiscação de propriedades:

Permaneçam firmes! Vemos e experimentamos claramente o que está por detrás das novas doutrinas que há anos nos têm impingido, por causa das quais a religião tem sido banida das escolas, as nossas organizações têm sido suprimidas e agora as creches católicas estão prestes a ser abolidas – existe um profundo ódio ao Cristianismo, que estão determinados a destruir.

Pouco depois, von Galen levou a cabo o seu golpe de mestre. O Artigo 31 do Código Penal alemão dizia que “quem quer que tenha conhecimento da intenção de cometer um crime contra a vida de qualquer pessoa e não informe as autoridades, ou a pessoa cuja vida está ameaçada, no devido tempo … comete um crime punível por lei”. Von Galen foi às autoridades para dizer que alguns pacientes “classificados como improdutivos” num hospital local estavam a ser transferidos para um hospital psiquiátrico, onde “serão intencionalmente mortos”.

Leão de Münster
Ninguém ligou à sua queixa, por isso von Galen - corajosamente - tornou a sua queixa pública:

Devemos esperar, então, que estes pobres pacientes indefesos serão mortos, mais cedo ou mais tarde. Porquê? Não por terem cometido alguma ofensa, mas porque na opinião de alguma comissão se tornaram “indignos de viver” porque são classificados como “membros improdutivos da comunidade nacional”.

Pediu então aos fiéis que erguessem a voz “sob pena de nos deixarmos infectar pelas suas formas infiéis de pensar e de agir, sob pena de partilharmos da sua culpa”.

O sermão tornou-se “viral”. As forças anti-Nazis clandestinas circularam-no pelo Reich e aviões britânicos largaram exemplares por cima de cidades alemãs. Muitos oficiais nazis exigiram que o bispo fosse julgado por traição e enforcado. Mas Goebbels discordou. Ele avisou que a exposição da eutanásia por parte de Galen já tinha virado muitos nazis contra o regime e seria “praticamente impossível” ao partido manter a sua popularidade se von Galen fosse punido.

Hitler concordou. Ordenou que a eutanásia fosse travada e que acabassem os ataques à propriedade da Igreja. Era claro, todavia, que quando a Alemanha ganhasse a guerra Galen “teria de pagá-las” e que então começaria um novo programa de eutanásia.

Em 1941 Pio XII escreveu uma carta a outro bispo alemão. “Os bispos que, com tanta coragem e, ao mesmo tempo, conduta exemplar, se erguerem em defesa das causas de Deus e da Santa Igreja, como fez o bispo von Galen, contarão sempre com o nosso apoio”.

Logo no primeiro consistório do seu pontificado, Pio XII elevou von Galen ao cardinalato, “pela sua resistência destemida ao Nacional Socialismo”. Durante o evento, os alemães na Praça de São Pedro aplaudiram-no, chamando-o “Leão de Münster”.

Um mês mais tarde, von Galen morreu.

O presidente da associação alemã de comunidades judaicas comentou: “O Cardeal von Galen foi um dos poucos homens rectos e conscienciosos que lutou contra o racismo num tempo muito difícil. Honraremos sempre a memória do falecido bispo.”

Quarenta anos mais tarde, o Papa São João Paulo II visitou a Catedral de Münster para rezar junto ao seu túmulo.

O lema episcopal de von Galen era “Nec Laudibus, Nec Timore” – literalmente: “Nem elogios nem medo”, mas que significa algo como “nem os elogios nem as ameaças me distanciarão de Deus”. Se a Igreja de hoje precisa de um modelo a seguir, tem um exemplo excelente no Cardeal von Galen e a sua defesa inquebrantável das verdades e das liberdades cristãs, perante o regime mais homicida dos tempos modernos.


George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 3 de Agosto de 2016)

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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Compreender o Desapego

Russell Shaw
O desapego é um tema central para o Cristianismo desde o seu início. Recordemos a história do homem rico, encontrado em todos os Evangelhos sinópticos, que pergunta a Jesus o que deve fazer para ser melhor. Jesus responde: “Vai e vende todos os teus bens e dá aos pobres. Depois vem e segue-me”. O jovem afasta-se, triste, porque, diz-nos o evangelista, “tinha muitos bens” (Mt. 19, 21-22). Faltava-lhe o desapego – precisava de se desprender de algo grande, mas não conseguia fazê-lo.

O desapego tem uma importância crucial, não só para jovens ricos, mas para todos os que querem imitar Cristo e viver segundo os seus ensinamentos. Mas do que é que estamos a falar, exactamente? E porque é que é tão importante não só para quem tem “muitos bens” mas também para aqueles cujos bens são mais modestos? Deixem-me propor uma definição que talvez ajude a chegar a uma resposta.

A definição é minha e não acarreta outra autoridade. Aceitem-na ou ignorem-na:

Ser-se desapegado – praticar o desapego – passa por estabelecer e manter uma relação com tudo e com todos na sua vida, de acordo com a qual todas as coisas são avaliadas consoante auxiliam ou dificultam a nossa relação com Deus, a imitação de Cristo e o serviço aos outros.

É uma boca cheia, admito. O que se segue talvez ajude a explicar o que significa.

No final da Idade Média os melhores pensadores consideravam que o desapego era contemptus mundi – desprezo pelo mundo. Encontra-se isto na sua forma mais pura em “A Imitação de Cristo”, um clássico da literatura espiritual (1419) que se costuma atribuir a Tomás Kempis, embora outros possam ter contribuído também. Prega uma mensagem de contemptus mundi a toda a linha, a começar pelo Livro Um, Capítulo Um:

A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo do mundo tender ao reino dos céus.
Vaidade é, pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas.
Vaidade é também ambicionar honras e desejar posição elevada.
Vaidade, seguir os apetites da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado.
Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa.
Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura.
Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a felicidade que sempre dura.

E por aí fora.

A mensagem da “Imitação” é de uma sabedoria perene e tem sido crucial para a vida espiritual de incontáveis pessoas ao longo de seis séculos, e continua a sê-lo. Ainda assim, não há como negar que a sua visão do mundo contrasta, para não dizer que entra em conflito com, a visão expressa em “Amar o Mundo Apaixonadamente”, a famosa homilia de São Josemaria Escrivá, o fundador da Opus Dei.

“Deus vos chama a servi-Lo em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir.”
 
"Pois tinha muitos bens" - Watts
Existe uma clara tensão entre isto e o contemptus mundi. Então o que devem fazer os cristãos que querem exercer o desapego? Encarar o mundo com desprezo, ou amá-lo apaixonadamente?

Esta tensão resolve-se, creio eu, num texto do Concílio Vaticano II que deu pouco nas vistas mas que é extremamente importante, “Gaudium et Spes”. Os teólogos não parecem saber muito bem o que fazer com o documento, mas no meu entender ele pode fazer uma enorme diferença para a maneira como os cristãos encaram a vida no mundo.

Os padres conciliares estão a discutir o sentido da actividade humana na perspectiva da fé. Recordando o ensinamento bíblico de que “a figura deste mundo, deformada pelo pecado, passa certamente, mas Deus ensina-nos que se prepara uma nova habitação e uma nova terra, na qual reina a justiça”. E continua dizendo que “a expectativa da nova terra não deve, porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro.”

“Todos estes valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo o seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: ‘Reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz’. Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente; quando o Senhor vier, atingirá a perfeição”. (GS 39)

Claramente isto significa que, pelo menos os bens humanos para os quais trabalhamos agora e que por vezes realizamos, embora de forma imperfeita, não desaparecerão na próxima vida. Há uma verdadeira continuidade. Os bens humanos estarão presentes no Céu, também, de forma perfeita e realizada. E embora a passagem não o diga, suspeito que o modelo que os padres conciliares tinham em mente é a humanidade ressuscitada de Cristo.

Aqui está, portanto, o ponto de partida e a fundação de um verdadeiro desapego, que valoriza as obras para a realização de bens humanos e os utiliza ao serviço de Deus e um do outro, sem lhes dar, na sua forma imperfeita, o valor permanente que apenas terão na sua forma perfeita no Reino dos Céus.

Amar o mundo apaixonadamente significa que podemos desapegar-nos dele graças à promessa da ressurreição e da vida eterna, confiantes de que encontraremos no Céu o melhor daquilo pelo qual trabalhámos na terra. É essa a essência do desapego.



Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 31 de Julho de 2016)

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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Islão e os Dez Mandamentos

Howard Kainz
A primeira vez que notei algo fora do comum sobre o Islão foi nos anos 80 quando estava a fazer investigação para o meu livro “Ethics in Context”. Dediquei uma secção do livro à “Regra de Ouro”. A “Regra de Ouro”, na sua formulação negativa ou positiva não existe apenas no Cristianismo (Mat. 7,12), em que Jesus declara que resume a “lei e os profetas”, mas também noutras grandes religiões. Por exemplo, no Judaísmo, “o que for detestável para ti, não o faças ao teu vizinho”; no Hinduísmo, “que nenhum homem faça a outro aquilo que é repugnante para si”; no Budismo, “não magoes outros de formas que também acharias dolorosas”; no Confucionismo, “aquilo que não queres que te façam, não o faças aos outros”.

Na altura interpretei isto como prova de uma relativa universalidade dos princípios éticos racionais no mundo. Mas no Islão não encontrei nada do género, apenas o oposto – o inverso da Regra de Ouro, por assim dizer: “Mohammad é o Mensageiro de Allah, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si” (Alcorão 48,29) e “Os crentes não tomam por confidentes os incrédulos, em detrimento de outros crentes” (3,28). A isto somam-se os comandos do Alcorão para matar os infiéis onde quere que se encontrem (2,191), lutar e ser duro para com eles (9,123), e golpear-lhes os pescoços (47,4)  que acentuam a distância para a Regra de Ouro.

Na altura optei apenas por omitir qualquer referência ao Islão nesse capítulo. Contudo, à medida que investiguei outros assuntos, os problemas religiosos/éticos no seio do Islão são ainda mais sérios. Tal como o Islão ensina o inverso da Regra de Ouro, ensina também o reverso dos últimos sete dos Dez Mandamentos, que lidam com questões de moral:

§  4º Mandamento, Honrar Pai e Mãe: A Universidade de Al-Azhar, a mais respeitada autoridade do Islão Sunita, afirma que um homicídio deve ser vingado, excepto quando se trata de “um pai ou uma mãe (ou os seus pais) por matar um filho, ou o filho de um filho”. Mas os homicídios de honra podem funcionar ao contrário também. Rapazes capturados pelo Estado Islâmico afirmam que receberam ordens para matar os seus pais, de acordo com o que está escrito no Alcorão – Suras 9,23, 58,22, 60,4 – que obrigam ao ódio total por, e dissociação de, infiéis, mesmo que sejam familiares ou pais.

§  Mandamento, não matar: Maomé é considerado o “homem perfeito” pelos muçulmanos, mas ofereceu inúmeros exemplos de homicídio para serem seguidos pelos fiéis muçulmanos – a começar pelo assassinato dos poetas que o ridicularizaram em Medina e em Meca e a acabar com a decapitação de centenas de “infiéis” em vários assaltos e batalhas. Na sua “Declaração de Guerra contra os Americanos que Ocupam a Terra dos Dois Lugares Sagrados”, de 1996, Osama bin Laden justifica a sua Fatwa para matar americanos citando os versículos 3,145; 47,4-6; 2,154; 9,14; 8,72 e 9,5 (o “versículo da espada”). O terrorismo é especificamente justificado nos versículos 8,12 e 3,151 e num hadite de Bukhari 52,256. E a conversão do Islão para outra religião é punida com execução, de acordo com Bukhari 9.84.57, “[Mohammad ordenou] ‘Quem mudar a sua religião islâmica, matai-o’.”

§  6º Mandamento, contra o adultério: Em linguagem comum, “adultério” significa infidelidade para com o esposo ou esposa. Mas para homens muçulmanos, que podem ter até quatro mulheres, divórcio fácil e escravas (4,3), seria extremamente desleixado cometer adultério. O próprio profeta ofereceu exemplos de como “evitar o adultério”, tendo treze mulheres, concubinas e escravas, tudo permitido por Allah (Sura 33,50). Para mulheres e homens solteiros, contudo, o adultério é possível e é severamente punido.

§  7º Mandamento, não roubar: Ali Dashti, na sua biografia de Maomé, Twenty-Three Years, mostra como, ao juntarem-se numa única grande força, os muçulmanos foram capazes de tirar partido do hábito já existente nas tribos árabes de “alimentar a sua ganância ao roubar duzentos ou trezentos camelos num assalto a uma tribo mais fraca” e assim “puderam capturar muito mais despojos” e “conquistar terras ricas e férteis”. A Sura 8 do Alcorão deixa indicações claras sobre o que fazer com despojos de guerra, incluindo a revelação especial (8,41) de que “Deus e o seu apóstolo” deviam receber 1/5 dos despojos.

§  8º Mandamento, não mentir: Ao contrário dos mártires cristãos, que estavam dispostos a dar a vida para não negarem a sua religião, os muçulmanos estão autorizados, pela taqiyya, a mentir sobre as suas crenças religiosas desde que isso contribua para o avanço do Islão. Nonie Darwish, no livro The Devil We Don’t Know, descreve como a Sharia incorpora a taqiyya: “A própria Sharia permite mentiras não só para com infiéis, mas também para resolver disputas entre muçulmanos e nas relações conjugais, cobrindo assim praticamente todas as relações… O muçulmano aprende que a protecção do Islão e uma obrigação comunitária que é mais importante do que a família, a vida ou a felicidade.”

§  9º Mandamento, não cobiçar a mulher alheia; O próprio Maomé, modelo de virtude Islâmica, oferece o melhor exemplo de negação deste mandamento. Tendo-se apaixonado por Zeinab, a mulher do seu filho adoptivo, Zeid, recebeu a aprovação de Allah (33,37) para a tomar por sua mulher. Aconteceu uma coisa semelhante com Aisha, que mais tarde viria a ser a sua mulher favorita, quando ela tinha apenas seis anos, e também com Reihana, uma judia acabada de enviuvar, com quem se deitou na mesma noite em que executou o seu marido.

§  10º Mandamento, não cobiçar os bens alheios: Wafa Sultan, no livro A God Who Hates, refere as condições históricas e culturais que acentuam e continuam a alimentar a importância da inveja no Islão: “Os beduínos temiam os assaltos, por um lado, mas dependiam deles para se sustentarem, por outro. Depois surgiu o Islão que canonizou a prática. Os muçulmanos no Século XXI continuam a temer serem assaltados e vivem cada segundo das suas vidas a preparar-se para assaltar outros”.

Tal como sugeri num artigo anterior, o Islão deve ser compreendido como uma seita de dimensão mundial. Reforça a ideia de honestidade e justiça entre crentes, mas não obriga a qualquer respeito pelos cânones éticos dos “infiéis”, o que inclui a Regra de Ouro e os Dez Mandamentos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 23 de Julho de 2016)

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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os Primeiros Anos da Madre Teresa na Periferia

Ines A. Murzaku
A Madre Teresa é conhecida em todo o mundo. Mas são poucos os que sabem da importância dos seus primeiros anos nos Balcãs para a sua vida posterior. O dia 4 de Setembro de 2016, da sua canonização, será também, apropriadamente, o Jubileu dos Trabalhadores e dos Voluntários da Misericórdia. É uma feliz coincidência porque tudo indica que ela se tornará padroeira de todos os que trabalham e sofrem em nome do amor e da misericórdia de Deus.

O sofrimento é um factor inevitável da existência humana. Transcende países e nações, ricos e pobres. O sofrimento humano clama insistentemente para o mundo do amor humano. E de certa forma o homem deve a esse sofrimento o amor desinteressado que vive no seu coração e nos seus actos, como escreveu São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984.

Madre Teresa vinha daquilo a que o Papa Francisco chama as periferias e partiu de lá para outras periferias, para uma missão que durou a vida inteira. Ela compreendia as periferias porque nasceu numa periferia e familiarizou-se com a realidade e a experiência de vida das pessoas da periferia de Skopje. É nas periferias, como explicou Yves Congar, que as ideias e as iniciativas para os grandes movimentos começam.

Não há muito escrito sobre os seus primeiros anos. Agnes “Gonxhe” Bojaxhiu nasceu em Skopje, actualmente capital da República da Macedónia, no dia 26 de Agosto de 1910. Gonxhe (uma alcunha que significa “botão de rosa”) era filha de pais albaneses, Drane e Nikola Bojaxhiu, de Prizren, no Kosovo. Os católicos albaneses eram uma minoria naquele tempo na Macedónia, onde a maioria eram ortodoxos ou muçulmanos.

Tinha muito orgulho nas suas raízes albanesas: “De sangue e de origem, sou albanesa”, disse à imprensa quando recebeu o Nobel da Paz em 1979. As influências familiares tiveram grande importância para a jovem Agnes. A sua família feliz e próxima, que incluía, para além dos pais, um irmão (Lazer) e uma irmã (Age), deixou marcas indeléveis no carácter da futura santa.

Nikola era um comerciante bem-sucedido, familiarizado com a situação política e com as tendências dos Balcãs e do estrangeiro nos anos entre as duas guerras (ele próprio era nacionalista). A família Bojaxhiu vivia numa casa grande na praça principal de Skopje. Mas ajudavam os doentes, as viúvas e as crianças que lhes apareciam à porta. “Egoísmo e o auto-centrismo são uma doença espiritual”, dizia Nikola. O lema dos Bojaxhius era hospitalidade: A sua casa estava aberta a Deus bem como às visitas e aos necessitados.  

Drane era dona de casa, tinha uma personalidade forte e era inteiramente dedicada aos filhos, ao marido e à sua fé. Depois da morte inesperada do seu marido, sob circunstâncias suspeitas (provavelmente envenenado por razões políticas), Drane trabalhou para sustentar a família. Agnes dizia que a mãe não falava muito, mas agia imenso.

Estas foram as primeiras lições – de amar de forma activa e misericordiosa – que a madre Teresa aprenderia da “sua” Skopje, como se costumava referir à cidade onde nasceu. O Arcebispo de Skopje, Lazer Mjeda, era um amigo próximo da família e influenciou Agnes de muitas formas. O Arcebispo levava e partilhava poesia com a família Bojaxhiu. O seu irmão, o padre Ndre Mjeda, era um poeta albanês proeminente e Agnes ouviu a sua poesia desde muito cedo.

Os jesuítas que passaram pela comunidade também impressionaram muito Agnes com o seu zelo pela missão. Os Bojaxhius peregrinavam anualmente à Nossa Senhora de Letnica, perto de Skopje, no 15 de Agosto. Foi aos 17 anos, durante uma dessas peregrinações, diante de Nossa Senhora, que Agnes recebeu o chamamento para ser missionária.


Skopje, na encruzilhada entre os Balcãs e as civilizações, expôs a futura madre Teresa a pessoas de diferentes religiões, etnias, culturas e línguas.

Quando ela nasceu Skopje fazia parte do Império Otomano. A Albânia, Bósnia, Sérvia etc., que atualmente são Estados independentes, não existiam. Kosovo era uma divisão administrativa de primeiro nível (yilayet) do Império Otomano e Skopje fazia parte da província administrativa de Kosovo.

Agnes tinha apenas dois anos quando começaram as guerras dos Balcãs (1912-1913). As guerras assinalaram o fim do domínio Otomano nos Balcãs e a divisão da região pela Bulgária, Sérvia e Grécia. A divisão causou muitos mortos e grande sofrimento humano, incluindo migrações forçadas, expulsões, limpeza étnica e a deslocação forçada de aldeias, vilas e famílias inteiras.

Mas o pior ainda estava para vir, durante a I Guerra Mundial a Macedónia tornou-se um ponto de discórdia entre a Sérvia e a Bulgária. Agnes testemunhou todo este sofrimento e guerra em primeira mão e muito cedo. Nos dois anos antes de receber o seu chamamento, passou longos períodos em retiro e oração profunda, fazendo perguntas existenciais sobre o sofrimento humano. Foi neste profundo abismo de agonia humana que Agnes testemunhou Jesus, pela primeira vez, no sofrimento humano.

Nessa periferia perturbada ela experimentou o “toque de Deus” que marcaria a sua vocação religiosa e a levou a jurar saciar a sede de Jesus prestando serviço incondicional aos indesejados. Para Agnes, a sede de Jesus deve ser unida ao desejo infinito de Deus por comunhão com aqueles que foram criados para amar a Deus.

Foram a sua Skopje e os valores de família albaneses – o microcosmos dos Balcãs – que prepararam a Madre Teresa para a sua missão na Índia. Foram estes primeiros anos da sua vida naquela periferia que a prepararam para ser uma construtora de pontes entre continentes e povos inteiros.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 15 de julho de 2016

França, outra vez

Mais uma noite trágica em França. Um atentado que ainda não foi reivindicado mas que tem todos os indícios de ser um acto de terrorismo islâmico.

São mais de 80 mortos, centenas de feridos, um criminoso.


É neste nota triste que me despeço de vocês para férias. Ainda trabalho umas semanas em Agosto, mas só devo mandar mails se houver assuntos urgentes.

Entretanto podem seguir novidades no Twitter e no Facebook.

No blog continuarei a publicar artigos e os textos em português do The Catholic Thing, todas as quartas-feiras.

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