sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O “Silêncio” de Scorsese: Três atitudes perante a perseguição

Antes de começar, dois pontos.

1º Este filme é baseado num livro de Shusaku Endo. Eu só vi o filme, não li o livro, embora tenha ouvido dizer que o filme é bastante fiel ao original, vou estar aqui a falar de subtilezas que são do filme e não sei se correspondem ao texto e às intenções de Endo.

2º Inevitavelmente, o texto terá spoilers, isto é, falará de várias coisas importantes no filme que, caso ainda não tenham visto, poderão afectar essa experiência e condicionar o visionamento. É um aviso. Se não viram, vejam, que vale mesmo a pena, e leiam o texto depois.


Antes de ir ver o “Silêncio” de Martin Scorsese, baseado no livro de Shusaku Endo, li várias recensões e falei longamente com pessoas que já conheciam o livro. As opiniões dividiam-se muito, mas reparei em muitos um medo ou uma preocupação de que o filme pudesse ser entendido como uma justificação da apostasia.

Depois de ter visto o filme, não concordo de todo com essa análise. Acho, até, que o que ele nos transmite é o contrário. Há várias razões para isso, mas apresento o que me parece ser uma chave de leitura do filme.

Scorsese apresenta-nos essencialmente três atitudes diferentes e possíveis diante da perseguição religiosa extrema. Em primeiro lugar temos os que não cedem e dão a vida pela sua fé. Neste filme este grupo de pessoas é representada essencialmente por pobres camponeses japoneses que praticavam o Cristianismo em segredo mas que, sendo descobertos, recusam a apostasia, preferindo a morte.

Depois há os que renunciam à fé, mas arrependem-se. Esta segunda categoria é representada por Kichijiro, um pescador que cresceu numa família cristã e que fugiu do Japão depois de toda a sua família ter sido martirizada. Nessa ocasião ele foi o único que renunciou, salvando a vida. Durante o filme vemos Kichijiro várias vezes a renunciar à fé, mas acabando sempre por pedir perdão e procurar a confissão sacramental.

Por fim há os que, após alguma resistência, renunciam e transformam-se, passando a viver uma vida consonante com a sua renúncia. Um exemplo é o padre Ferreira, um jesuíta português que, tendo cedido às torturas e à pressão das autoridades japonesas, comete apostasia e passa a viver como um japonês, com mulher e filhos, e é usado como instrumento para levar outros a abandonar a fé também, chegando a escrever um tratado sobre os “erros do Cristianismo”.

O filme começa com dois jesuítas portugueses – que ao contrário de Ferreira são figuras míticas, embora um deles se baseie numa figura real, mas não portuguesa – que partem para o Japão para saber notícias de Ferreira. Guiados por Kichijiro conseguem encontrar cristãos escondidos nas aldeias de pescadores, e desenvolvem os seus ministérios, para enorme alegria dos fiéis, até que são apanhados pelas autoridades.

Shusaku Endo
Uma vez capturados, o padre Francisco Garrpe não só recusa renunciar à fé como se lança à água para morrer juntamente com cristãos que estão a ser afogados pelos soldados. Já o padre Rodrigues, após uma longa batalha de vontades com o inquisidor japonês que quebrou Ferreira, acaba por ceder quando compreende que só assim consegue salvar a vida a cinco cristãos nativos que estão a ser torturados. Com o seu acto público de apostasia, pisando uma imagem de Cristo, passa a viver com todo o conforto, tal como Ferreira, sendo usado pelas autoridades para desmascarar cristãos e objectos de culto cristãos.

Qual destas atitudes é a certa? O filme não o diz explicitamente. Aliás, diria que é propositadamente dúbio. Somos levados a admirar os mártires, a sentir pena de Kichijiro e a compreender que Ferreira e Rodrigues renunciem para poder salvar inocentes.

Mas não havendo respostas explícitas, há sinais. A mim, o que me chamou mais atenção foi a questão da dignidade…

Aquilo que salta mais à vista na morte de todos os cristãos, durante o filme, é a enorme e admirável dignidade com que são representados. Desde os que são crucificados e deixados à mercê da maré enchente, chegando a cantar hinos religiosos enquanto são fustigados pelas ondas, aos que são lançados ao mar. Todos são um hino à dignidade. Mas há uma sequência que o mostra de forma muito explícita.

Quando vários cristãos são conduzidos de uma cela e convidados a pisar a imagem religiosa, todos recusam. Apesar de presos, estão vestidos de forma digna, e comportam-se assim, também. No final são todos reenviados para a cela, excepto um. Enquanto este espera, vemo-lo, surpreendentemente, a conversar de forma aparentemente relaxada com o guarda. Está de pé, de cabeça erguida, a falar com um guarda de igual para igual e a ser tratado como um homem. Do nada surge um dos inquisidores que lhe corta a cabeça, uma cena que recorda – duvido que não seja propositado – as decapitações de Cristãos na Síria, na Líbia e no Iraque nos últimos anos.

Logo a seguir, o inquisidor diz aos cristãos que há uma outra hipótese e manda chamar Kichijiro, que é convidado a pisar a imagem, penso que pela terceira vez desde o início do filme. O Kichijiro que aparece parece um primata. Vestido unicamente de cueca, sujo, desgrenhado, corre curvado, pisa a imagem medroso e foge de imediato para fora da prisão.

O contraste entre as duas posições não podia ser mais evidente. Os que morrem pela fé morrem inteiros e dignos. Os que abjuram, quanto mais o fazem, mais miseráveis ficam, por mais que se venham a arrepender. Mas há mais… Kichijiro ainda volta a aparecer, e no final do filme, inesperadamente, é-lhe descoberto um amuleto religioso. Nessa altura encontra-se já bem vestido e limpo. Quando tudo indica que a traição poderá novamente comprar-lhe a liberdade, é fiel aos seus amigos e, embora não se diga explicitamente, fica-se com a ideia de que acaba por ser martirizado. Quando os soldados o levam embora, vai direito, de cabeça erguida e a olhar em frente. Agora sim, um homem digno. Salvou-se no final, apesar de ter dado a vida.

E que dizer dos outros? A melhor expressão que encontro é que são carcaças de homem. Da primeira vez que Ferreira aparece, para tentar convencer Rodrigues a apostatar, nem lhe consegue olhar nos olhos, é todo ele autojustificação e arrogância. Mais tarde, quando Rodrigues lhe segue os passos, praticamente não voltamos a ver nele qualquer emoção. Não sorri, não revela compaixão por cristãos perseguidos. Está vazio. Se há alguma esperança de salvação para Rodrigues, esta parece chegar-lhe, surpreendentemente, de Kichijiro.

A apostasia é justificada? Scorsese não nos enfia uma resposta pela goela abaixo, mas penso que o seu filme deixa bem claro quais são as atitudes que mais respeitam a dignidade humana dos seus intervenientes.

Uma nota final, ligada a tudo isto… Várias vezes os inquisidores dizem aos cristãos que na verdade não querem saber daquilo em que acreditam ou não, apenas lhes interessa que façam o acto público, exterior, e serão deixados em paz. É a sedução do mal em todo o seu esplendor.

Mas outra coisa que ressalta muito claramente do filme, é que essas promessas são sempre falsas. Em primeiro lugar, vários dos cristãos que são mortos, segundo nos dizem, já renunciaram publicamente, mas são torturados para levar outros a renunciar. Em segundo lugar, nunca é só uma vez… Mesmo Ferreira e Rodrigues, que para todos os efeitos vivem vidas de exemplar colaboração com as autoridades, têm de assinar declarações de apostasia regulares e são repetidamente convidados a pisar publicamente as imagens sagradas em demonstração pública dessa mesma renuncia. Ou seja, a apostasia é um acto que nunca satisfaz quem o exige e nunca deixa em paz quem o pratica.


Podem ler as reportagens que fiz sobre o filme aqui e aqui. Aqui a opinião de Aura Miguel. Em breve publicarei aqui as transcrições integrais das entrevistas que fiz para as reportagens, incluindo ao padre Adelino Ascenso, provavelmente o maior especialista sobre Shusaku Endo e a sua obra em Portugal.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carta de uma prisão em Birmingham

Martin Luther King Jr.
16 de Abril de 1963
Meus caros amigos clérigos:

Durante o meu encarceramento na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com as vossas declarações recentes apelidando as minhas actividades actuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente páro para responder a críticas ao meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, as minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que essa correspondência no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que as vossas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder-lhes em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do Século VIII a.C. abandonaram as suas vilas e levaram o seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao apelo macedónio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos numa rede inescapável de mutualidade, atados num único laço do destino. Algo que aja sobre alguém directamente age sobre todos indirectamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.

Vocês deploram as manifestações que estão a ocorrer em Birmingham. Mas a vossa declaração, lamento dizer, não expressa preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês gostaria de se contentar com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam a ocorrer em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: Apuramento dos factos para determinar se existem injustiças; Negociação; Auto-purificação e acção directa. Efectuamos todos esses passos em Birmingham. Não se pode negar que a injustiça racial domina a comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. A sua história feia de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais explosões não resolvidas de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os factos duros e brutais da situação. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas estes recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa-fé.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em qualquer campanha de acção directa que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre se traduziu em “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Existe uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. Pelo contrário, há uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade.

Obviamente, não há nada de novo nesta forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante das mutilações a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade académica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um acto imponente de desobediência civil.

Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a acção directa pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação com o rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ama os teus inimigos, abençoa aqueles que te amaldiçoam, faz o bem àqueles que te odeiam e reza por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amós um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do Evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”?

…Devo salientar sinceramente que fiquei desiludido com a Igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo de errado na igreja. Digo-o como um sacerdote do Evangelho, que ama a Igreja; que foi acalentado no seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida se estender.

Profundamente decepcionado, chorei pela frouxidão da Igreja. Mas podem estar certos de que as minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a Igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a Igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Se disse algo nessa carta que exagera os factos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os factos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que esta carta vos encontre fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança de que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão se dissipa das nossas comunidades amedrontadas, e que numa manhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre o nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.


Martin Luther King Jr. (1929-1968), um pastor baptista, foi presidente da Conferência de Líderes Cristãos do Sul. Recebeu o prémio Nobel da Paz em 1964 por causa da sua defesa da luta não-violenta a favor dos direitos civis. Em 1963 liderou a Marcha Sobre Washington onde fez o discurso “Eu Tenho um Sonho”, que marcou um ponto de viragem da História americana.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lúcia e Fernanda, duas irmãs, duas causas

Irmã Fernanda
A Obra Católica das Migrações pede mais disponibilidade para acolher refugiados em Portugal, numa altura em que o Papa recorda a quantidade de vezes que Deus nos pede, na Bíblia, para acolher migrantes e estrangeiros.

A beatificação da Irmã Lúcia está agora nas mãos de Roma, tendo já terminado a fase diocesana. A postuladora da causa não acha que haverá novidades no ano do centenário das aparições.

Conheça a história da irmã Fernanda, cuja esclerose lateral amiotrófica não impediu de continuar a trabalhar em prole dos outros. Foi o que a levou a ganhar o Troféu Português do Voluntariado.

A Cáritas de Coimbra promove uma campanha para ajudar mulheres de etnia cigana.

Podem ler aqui a transcrição integral da entrevista que fiz semana passada ao líderda Ordem de Malta em Portugal, sobre a polémica que opõe a ordem à Santa Sé. D. Augusto de Athayde manifesta esperança numa solução que agrada a todos.

Santa Sé v. Ordem de Malta: “Estou certo que terá um desenlace positivo”

Transcrição integral da entrevista que fiz a D. Augusto de Albuquerque de Athayde, Conde de Albuquerque e presidente da Assembleia Portuguesa da Ordem Soberana e Militar de Malta. A reportagem pode ser lida aqui.


A actual polémica entre a Santa Sé e a Ordem de Malta tem afectado a Ordem em Portugal?
Em nada.

Em Portugal estamos com a situação perfeitamente arrumada. Temos a consciência que somos membros de uma ordem católica de cavalaria com 900 anos de história e que está em Portugal desde a fundação do Estado, e que é aliás um dos pais fundadores da nacionalidade portuguesa. Os cavaleiros de São João, antes de serem de Malta, já estavam em Leça do Balio no tempo da Condessa D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.

E portanto há uma solidez e uma serenidade espiritual, sociológica e histórica e também uma consciência da prática dos dois deveres principais de qualquer membro da Ordem de Malta no mundo, que é a defesa da fé cristã e por outro lado o apoio aos mais desfavorecidos, os que chamamos Nosso Senhor dos Pobres e os desvalidos e que precisam de um apoio na óptica de prática do amor cristão e ao próximo.

Esta situação dá-se ao nível das altas esferas, e não da assembleia portuguesa, que é uma associação que em nada é tocada nem envolvida nesta situação. Portanto, como os ingleses diriam, é “business as usual”.

Se se der o caso de algum membro da ordem em Portugal ser contactado pela comissão de inquérito do Vaticano, estão dispostos a colaborar?
Há aqui uma distinção que gostaria de frisar. Por um lado, a assembleia portuguesa está totalmente com fidelidade, obediência e apoio incondicional ao príncipe e grão-mestre Fra Matthew Festing e ao seu Governo, neste caso em particular ao grande-chanceler, que é o Fra John Critien. Isto é um ponto base, a assembleia portuguesa unida, nos seus cerca de 280 membros, está com total sintonia e alinhamento com o Príncipe e grão-mestre e seu grande-chanceler interino.

Dito isto, o que a comissão nomeada pelo Vaticano propõe, que também respeitamos, é que quem quer que vá, eventualmente, dar alguma achega ou fazer algum tipo de esclarecimento a nível individual e a título particular à comissão é livre de o fazer, mas não é obrigado a isso. É livre de o fazer, a título particular, nunca a título institucional, representativo de uma associação ou de um subpriorado ou de um grão-priorado, que são as estruturas administrativas em que a associação se divide no mundo inteiro.

Se alguém o quiser fazer, pois muito bem, será da responsabilidade de cada qual e a associação portuguesa está à margem, ou acima, disso.

Agora, a comissão, nomeada pelo Vaticano e pelo Santo Padre, se bem percebi não está em posição de obrigar ninguém a ir fazer depoimentos, apenas sugere que quem quiser o faça. Mais, também posso dizer que tudo isto é uma situação que não envolve de qualquer forma ou maneira a associação portuguesa, porque ela não tem a ver com o essencial da questão, que se passou há vários anos, na estrutura do Malteser International, um braço assistencial da ordem internacional, na dependência do grande hospitalário, quer era então o agora cessante grande chanceler, Albrecht von Boeselager, no Myanmar, portanto não temos nada a ver com isso. É uma questão que nos transcende completamente a nível administrativo e de gestão da representação da ordem em Portugal.

Conhecia pessoalmente von Boeselager?
Sim! Muito bem. Era o grande-chanceler e antes foi grande hospitalário. Estou como presidente aqui há 11 anos, já fui vice três anos antes, vou a Roma quase de três em três meses, e a reuniões. Portanto conheço-o há muitos anos e sempre tive uma relação normal, institucional com ele. Aliás, houve três visitas do Príncipe e grão-mestre a Portugal nos últimos seis anos e meio, uma delas de Estado, a convite do Presidente da República, e eu integrei a comitiva com ele, portanto conheço-o mais ou menos bem.

Tem algum comentário a fazer ao processo que levou à sua demissão?
Não. Não tenho comentário nenhum a fazer. Absolutamente nenhum. É um pelouro que não tem a ver com as funções que cabem nem no âmbito das actividades da associação portuguesa, nem no âmbito do presidente da associação portuguesa, não tenho nenhum comentário a fazer.

São decisões tomadas internamente nas altas esferas do Estado da Ordem Soberana e Militar de Malta, pelo seu governante máximo que é o seu Príncipe e grão-mestre, no qual reside a soberania da ordem, portanto não tenho comentários de qualquer tipo ou natureza a fazer.

Cardeal Raymond Burke
Esta disputa pode ter a ver com o braço-de-ferro entre os cardeais que endereçaram uma carta ao Papa com dúvidas sobre o Amoris Laetitia, em que se inclui o Cardeal Burke, e o Papa? Ou seja, entre conservadores e uma ala mais reformista?
Acho, francamente, que não tem a ver. Esta questão é do foro interno da Ordem de Malta, acho que o facto de o Cardeal Patrono, Sr. Cardeal Burke, ser um Cardeal conservador em relação a outras linhas que existem no Vaticano é um assunto diferente.

Acho que a ordem não está a ser instrumentalizada numa luta entre cardeais de tendências diferentes. Pelo contrário, a Ordem de Malta está – e insisto neste ponto – plenamente, de corpo, alma e coração com o Príncipe e grão-mestre o seu actual Governo, o grão-chanceler interino, numa óptica de defender a soberania da instituição em matéria de jurisdição interna, e portanto tudo o que se terá passado será matéria de pura e simples jurisdição e tomada de decisão interna.

Aliás, a comissão, pelo que percebi, foi nomeada para esclarecimento de factos para conduzir a uma espécie de paz e concórdia. Não tem a ver com uma contestação à soberania da instituição nem a uma instrumentalização da mesma. É apenas uma comissão - aliás chefiada por um antigo núncio e diplomata do Vaticano - que procura a paz e a concórdia, mas não há qualquer antagonismo ou desrespeito espiritual ou de natureza hierárquica entre a Santa Sé e a Ordem, ou vice-versa, há uma questão administrativa, política também, talvez, do foro interno da Ordem, mas que se resolverá e bem na estrutura e no seio da ordem com superior iluminação e direcção do Príncipe e grão-mestre.

Reconhece legitimidade então à comissão de inquérito?
Reconheço legitimidade para emitir uma opinião.

Mas não reconheço legitimidade para dar instruções internas ao Príncipe e grão-mestre.

Acredita que tudo isto pode ter um desenlace positivo?
Estou certo que terá um desenlace positivo, porque acho que o mais importante é que, no mundo como ele está, e sendo a Ordem de Malta uma entidade com uma finalidade de defesa da fé, dignificação do homem e da Cristandade, e sendo o Vaticano por um lado, nesta natureza dualista da Ordem, e sendo o Vaticano uma entidade de quem espiritualmente a Ordem depende, mas por outro de quem a ordem é independente numa óptica de soberania, estou convencido que já somos tão poucos neste mundo tão conturbado, tão ateu e agnóstico, e tão cheio de alçapões e de materialismos doentios, somos tão poucos a remar contra a maré que espero bem que a concórdia e o bom-senso acabem por prevalecer, a bem do cumprimento das nossas missões enquanto cristãos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ordem de Malta e o regresso do Faith's Night Out

A Santa Sé e a Ordem Soberana e Militar de Malta e a Santa Sé estão envolvidos num braço de ferro que tem contornos de autoridade religiosa mas também de direito internacional. É um tema complexo, que procuro explicar aqui, com a ajuda do superior da ordem em Portugal, D. Augusto de Athayde.

A União Europeia defende o julgamento dos militantes jihadistas que entretanto voltaram à Europa depois de terem combatido noutros países. Este é, aliás, o maior desafio que a Europa enfrenta neste momento, considera António Nunes, do OSCOT.

A petição que pede a rejeição da eutanásia reuniu já mais de 14 mil assinaturas, três vezes mais do que é preciso para ser debatido no Parlamento.

Pelo quarto ano consecutivo, as Equipas de Jovens de Nossa Senhora organizam o Faith’s Night Out. São várias conferências de apenas sete minutos, algumas por oradores muito famosos, outros menos e outros desconhecidos do grande público, mas sempre do maior interesse. Nos últimos anos a coisa correu tão bem que este ano os jovens alugaram o auditório da antiga FIL, que leva mais de mil pessoas. Aconselho-vos a ir e a comprar bilhete com tempo, porque embora a sala seja muito grande, nunca se sabe! É no dia 18 de Fevereiro.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Mais musical, mais Soares, menos aborto por favor


Também ontem a CEP destacou o papel de Mário Soares à frente da Comissão de Liberdade Religiosa. Eu sei de pelo menos uma pessoa que discorda… Seja como for, o jornal do Vaticano também falou de Soares na sua edição de ontem.

Hoje o Papa Francisco insurgiu-se contra aldrabões de várias estirpes. Primeiro os videntes e afins, depois os que vendem bilhetes gratuitos para as audiências gerais.

Volta esta terça-feira aos palcos o musical “Partimos, Vamos, Somos”, sobre os 300 anos do Patriarcado de Lisboa. É uma oportunidade para todos os que quiseram ir da última vez mas não conseguiram.

Foi condenado à morte o supremacista branco que assassinou várias pessoas numa igreja em Charleston, nos EUA.


Quando São Paulo enviou um escravo de volta ao seu senhor, estava implicitamente a defender a instituição da escravatura? No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, Randall Smith argumenta que é precisamente ao contrário que se deve ler essa passagem.

Deixo-vos aqui o convite para uma oração da organização Esperança de Ana, que se dedica a ajudar mulheres e casais que sofrem de problemas de infertilidade ou que tenham perdido gravidezes. Se não participar, lembre-se pelo menos desta situações nas suas orações pessoais.

Filémon e o Novo Homem em Cristo

Randall Smith
Um amigo meu protestante fez uma observação interessante, o outro dia, sobre a Epístola de São Paulo a Filémon. Esta carta é muitas vezes encarada com algum embaraço, porque aparentemente Paulo está a enviar um escravo fugitivo, Onésimo, de volta para o seu senhor, um líder da Igreja Colossense chamado Filémon. “Como é que Paulo podia mandar um escravo de volta ao seu senhor?”, pergunta-se, “porque não proibiu simplesmente a escravatura?”

Alguns académicos modernos responderão, indubitavelmente, que Paulo, sendo um homem da sua época, não compreendia o quão horrível era a escravatura. Nós, que vivemos numa era mais iluminada, temos a visão que lhe faltava. Talvez seja verdade – todos temos pontos cegos – mas eu prefiro dar o benefício da dúvida às pessoas, sobretudo se estavam a escrever textos sob inspiração do Espírito Santo. Parece-me mais seguro.

Eis o que diz São Paulo:

Embora tenha toda a autoridade em Cristo para te impor o que mais convém, levado pelo amor, prefiro pedir como aquele que sou: Paulo, um ancião e, agora, até prisioneiro por causa de Cristo Jesus. Peço-te pelo meu filho, que gerei na prisão: Onésimo, que outrora te era inútil, mas agora é, para ti e para mim, bem útil. É ele que eu te envio: ele, isto é, o meu próprio coração. Eu bem desejava mantê-lo junto de mim, para, em vez de ti, se colocar ao meu serviço nas prisões que sofro por causa do evangelho. Porém, nada quero fazer sem o teu consentimento, para que o bem que fazes não seja por obrigação, mas de livre vontade. É que, afinal, talvez tenha sido por isto que ele foi afastado por breve tempo: para que o recebas para sempre, não já como escravo, mas muito mais do que um escravo: como irmão querido; isto especialmente para mim, quanto mais para ti, que com ele estás relacionado tanto humanamente como no Senhor. Se, pois, me consideras em comunhão contigo, recebe-o como a mim próprio. E se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve, põe isso na minha conta.

Paulo, prisioneiro por Cristo, insta Filémon a não lançar na prisão o seu “amado filho” Onésimo, cujo “pai” ele se tornou durante o seu cativeiro. Na qualidade de escravo, Onésimo era “inútil” para Filémon. Agora, regressando não como escravo mas como irmão, pode ser útil a ambos, não para carregar os fardos das suas possessões terrenas inúteis, mas ajudando-os a carregar a cruz que conduz à salvação celeste.

“Recebe-o como a mim próprio”, diz Paulo, um homem acostumado a pedir aos outros que o recebam a ele como se recebessem Cristo. Se receber Paulo é receber Cristo, e se receber Onésimo é receber Paulo, então Filémon deve receber Onésimo como Cristo, aquele que “se esvaziou da sua divindade”, lavou os pés dos seus discípulos e lhes disse: “Estou entre vós como aquele que serve”, para que os primeiros sejam os últimos e aquele que seria o mestre venha a servir os outros.

“Se ele te causou algum prejuízo ou alguma coisa te deve”, diz Paulo a Filémon, “põe isso na minha conta”. Seria necessário Paulo dizer mais alguma coisa para recordar a Filémon a sua dívida não só para com Paulo, mas para Deus – Dívida essa paga por inteiro por Cristo? Paulo sabe que, tendo em conta tudo quanto Filémon lhe deve, poderia simplesmente dar-lhe uma ordem. Mas nesse caso Filémon não estaria a dar livremente, e Paulo sabe bem a diferença entre a obediência externa a um mandamento e aquilo que significa tornar-se um “homem novo”, inspirado por uma dádiva livre de amor.

Onésimo regressa a casa de Filémon
Por isso sim, Paulo envia Onésimo de volta para Filémon, não já como escravo, mas como “irmão” – um irmão em Cristo. A base da sua relação foi inteiramente transformada e com este gesto Paulo semeou as sementes que levarão ao fim da escravatura, não através de um tratado político cujo objectivo seja dirigir a partir de cima a aplicação do poder político, mas procurando mudar corações, levedando o pão a partir de dentro. Planta-se a semente nesta casa, com esta relação, e deixa-se a vida nova crescer daqui para o exterior.

Por mais “imperfeita” que pensemos que foi a resposta de Paulo ao problema da escravatura, não é verdade que nos deparamos com problemas semelhantes no nosso tempo? Existem instituições que sabemos que estão marcadas pela decadência da condição humana, contudo, não temos nem o poder nem a autoridade para as abolir. Burocracias que denigrem as pessoas em vez de as dignificar; estruturas económicas que enriquecem poucos e deixam os pobres sem meios de subsistência; mecanismos financeiros que protegem as pessoas das consequências morais das suas decisões de investimento.

Mas poderíamos viver sem as funções organizativas fornecidas pelas instituições burocráticas? Como é que reestruturávamos a nossa economia e reorganizaríamos a nossa bolsa para servirem melhor e mais fielmente o bem comum? É fácil criticar os males passados; mais difícil é compreender como reformar os aspectos difíceis do nosso sistema sem introduzir nele males ainda maiores do que aqueles que já enfrentamos.

Não nos devemos, então, rever em São Paulo? Sozinho ele não conseguiria reformar todo o Império Romano, nem convencer toda a gente a abandonar a instituição da escravatura. Que fazer?

Mesmo que não possamos fazer mais nada, podemos plantar as sementes e confiar que Deus as ajudará a crescer. Podemos estar dispostos a sacrificar-nos pelo Evangelho e abraçar-nos uns aos outros, não como “escravos” e “mestres”, “ricos” e “pobres”, “fracos” e “fortes”, mas como “irmãos em Cristo”.

Não nos cabe salvar o mundo; esse é o trabalho de Deus. Mas se amarmos os outros como Cristo, plantamos sementes espirituais e abrimos novas perspectivas para futuras gerações que neste momento talvez estejam vedadas ao pensamento humano. Temos de caminhar pela fé, e não à vista, fiéis ao Evangelho que nos foi confiado, mesmo quando parece bizarro ou chocante. Como Filémon certamente se deve ter sentido chocado quando abriu a porta e encontrou uma encomenda de São Paulo: Um antigo escravo, um novo irmão.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Janeiro de 2017)

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