quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os Primeiros Anos da Madre Teresa na Periferia

Ines A. Murzaku
A Madre Teresa é conhecida em todo o mundo. Mas são poucos os que sabem da importância dos seus primeiros anos nos Balcãs para a sua vida posterior. O dia 4 de Setembro de 2016, da sua canonização, será também, apropriadamente, o Jubileu dos Trabalhadores e dos Voluntários da Misericórdia. É uma feliz coincidência porque tudo indica que ela se tornará padroeira de todos os que trabalham e sofrem em nome do amor e da misericórdia de Deus.

O sofrimento é um factor inevitável da existência humana. Transcende países e nações, ricos e pobres. O sofrimento humano clama insistentemente para o mundo do amor humano. E de certa forma o homem deve a esse sofrimento o amor desinteressado que vive no seu coração e nos seus actos, como escreveu São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984.

Madre Teresa vinha daquilo a que o Papa Francisco chama as periferias e partiu de lá para outras periferias, para uma missão que durou a vida inteira. Ela compreendia as periferias porque nasceu numa periferia e familiarizou-se com a realidade e a experiência de vida das pessoas da periferia de Skopje. É nas periferias, como explicou Yves Congar, que as ideias e as iniciativas para os grandes movimentos começam.

Não há muito escrito sobre os seus primeiros anos. Agnes “Gonxhe” Bojaxhiu nasceu em Skopje, actualmente capital da República da Macedónia, no dia 26 de Agosto de 1910. Gonxhe (uma alcunha que significa “botão de rosa”) era filha de pais albaneses, Drane e Nikola Bojaxhiu, de Prizren, no Kosovo. Os católicos albaneses eram uma minoria naquele tempo na Macedónia, onde a maioria eram ortodoxos ou muçulmanos.

Tinha muito orgulho nas suas raízes albanesas: “De sangue e de origem, sou albanesa”, disse à imprensa quando recebeu o Nobel da Paz em 1979. As influências familiares tiveram grande importância para a jovem Agnes. A sua família feliz e próxima, que incluía, para além dos pais, um irmão (Lazer) e uma irmã (Age), deixou marcas indeléveis no carácter da futura santa.

Nikola era um comerciante bem-sucedido, familiarizado com a situação política e com as tendências dos Balcãs e do estrangeiro nos anos entre as duas guerras (ele próprio era nacionalista). A família Bojaxhiu vivia numa casa grande na praça principal de Skopje. Mas ajudavam os doentes, as viúvas e as crianças que lhes apareciam à porta. “Egoísmo e o auto-centrismo são uma doença espiritual”, dizia Nikola. O lema dos Bojaxhius era hospitalidade: A sua casa estava aberta a Deus bem como às visitas e aos necessitados.  

Drane era dona de casa, tinha uma personalidade forte e era inteiramente dedicada aos filhos, ao marido e à sua fé. Depois da morte inesperada do seu marido, sob circunstâncias suspeitas (provavelmente envenenado por razões políticas), Drane trabalhou para sustentar a família. Agnes dizia que a mãe não falava muito, mas agia imenso.

Estas foram as primeiras lições – de amar de forma activa e misericordiosa – que a madre Teresa aprenderia da “sua” Skopje, como se costumava referir à cidade onde nasceu. O Arcebispo de Skopje, Lazer Mjeda, era um amigo próximo da família e influenciou Agnes de muitas formas. O Arcebispo levava e partilhava poesia com a família Bojaxhiu. O seu irmão, o padre Ndre Mjeda, era um poeta albanês proeminente e Agnes ouviu a sua poesia desde muito cedo.

Os jesuítas que passaram pela comunidade também impressionaram muito Agnes com o seu zelo pela missão. Os Bojaxhius peregrinavam anualmente à Nossa Senhora de Letnica, perto de Skopje, no 15 de Agosto. Foi aos 17 anos, durante uma dessas peregrinações, diante de Nossa Senhora, que Agnes recebeu o chamamento para ser missionária.


Skopje, na encruzilhada entre os Balcãs e as civilizações, expôs a futura madre Teresa a pessoas de diferentes religiões, etnias, culturas e línguas.

Quando ela nasceu Skopje fazia parte do Império Otomano. A Albânia, Bósnia, Sérvia etc., que atualmente são Estados independentes, não existiam. Kosovo era uma divisão administrativa de primeiro nível (yilayet) do Império Otomano e Skopje fazia parte da província administrativa de Kosovo.

Agnes tinha apenas dois anos quando começaram as guerras dos Balcãs (1912-1913). As guerras assinalaram o fim do domínio Otomano nos Balcãs e a divisão da região pela Bulgária, Sérvia e Grécia. A divisão causou muitos mortos e grande sofrimento humano, incluindo migrações forçadas, expulsões, limpeza étnica e a deslocação forçada de aldeias, vilas e famílias inteiras.

Mas o pior ainda estava para vir, durante a I Guerra Mundial a Macedónia tornou-se um ponto de discórdia entre a Sérvia e a Bulgária. Agnes testemunhou todo este sofrimento e guerra em primeira mão e muito cedo. Nos dois anos antes de receber o seu chamamento, passou longos períodos em retiro e oração profunda, fazendo perguntas existenciais sobre o sofrimento humano. Foi neste profundo abismo de agonia humana que Agnes testemunhou Jesus, pela primeira vez, no sofrimento humano.

Nessa periferia perturbada ela experimentou o “toque de Deus” que marcaria a sua vocação religiosa e a levou a jurar saciar a sede de Jesus prestando serviço incondicional aos indesejados. Para Agnes, a sede de Jesus deve ser unida ao desejo infinito de Deus por comunhão com aqueles que foram criados para amar a Deus.

Foram a sua Skopje e os valores de família albaneses – o microcosmos dos Balcãs – que prepararam a Madre Teresa para a sua missão na Índia. Foram estes primeiros anos da sua vida naquela periferia que a prepararam para ser uma construtora de pontes entre continentes e povos inteiros.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

França, outra vez

Mais uma noite trágica em França. Um atentado que ainda não foi reivindicado mas que tem todos os indícios de ser um acto de terrorismo islâmico.

São mais de 80 mortos, centenas de feridos, um criminoso.


É neste nota triste que me despeço de vocês para férias. Ainda trabalho umas semanas em Agosto, mas só devo mandar mails se houver assuntos urgentes.

Entretanto podem seguir novidades no Twitter e no Facebook.

No blog continuarei a publicar artigos e os textos em português do The Catholic Thing, todas as quartas-feiras.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Barrigas maquilhadas, fé e futebol

Omar o Checheno
O Bloco de Esquerda apresentou hoje as alterações à lei das barrigas de aluguer que foi vetada por Marcelo Rebelo de Sousa. Uma das principais objecções que levou ao veto foi o facto de não estar previsto a mulher gestante poder mudar de ideias até ao momento do parto, mas com as alterações de hoje isso continua a ser o caso.

O Porta-voz da conferência episcopal diz que as mudanças não satisfazem,e que de qualquer maneira a Igreja seria contra.

Já a Federação Portuguesa pela Vida diz que tudo não passa de uma operação de maquilhagem e dá exemplos de questões complicadas que ficam por responder…

Foi dado como morto um dos mais influentes membros do Estado Islâmico. Omar o Checheno era conhecido como o ministro da Guerra do grupo terrorista.

Para quem ainda não se cansou de ouvir falar da vitória de Portugal no Euro, aqui podem ouvir na íntegra a edição de ontem do debate religioso das quartas-feiras, que versou precisamente o tema da fé e do futebol.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Pokémons, freiras e submarinos

Koffing, o Pokémon que o museu do Holocausto não quer ver
Se ainda não ouviu falar do jogo “Pokémon Go”, esse privilégio não vai durar muito mais. O jogo está a ser um fenómeno incrível e a pôr muita gente a fazer figuras parvas. No topo dessa lista estão os que acham giro jogar em pleno Museu do Holocausto

D. Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, foi nomeado para um cargo no Vaticano, ligado às comunicações sociais, mas que não implicará deixar o Patriarcado de Lisboa.

Esta quarta-feira foi feita uma bela e muito justa homenagem da Renascença ao padre Dâmaso Lambers. Eu tive a honra de estar presente, mas vocês também podem ver as imagens do que se passou.

Imagine que os sermões dominicais das igrejas eram todos escritos por um secretário-de-estado qualquer, com a ajuda de um padre amigo do Governo. Ridículo, certo? Mas é mais ou menos isso que vai acontecer nas mesquitas do Egipto, à imagem do que já se passa na Turquia.

Hoje é quarta-feira e temos um novo artigo do The Catholic Thing. Michael Baruzzini conta-nos o episódio da freira que salvou a tripulação de um submarino… Vale muito a pena conhecer!

A Freira e o Submarino

Michael Baruzzini
Numa noite de verão o Kiowa Maru, um pesqueiro japonês, navegava ao largo da costa do Peru. No lusco-fusco, a tripulação do navio de repente sentiu um embate. Sem luz, não lhes pareceu ver nada de estranho, mas em todo o caso relataram um possível embate e seguiram caminho.

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Em Dezembro de 1892 uma menina, Marija, nasceu na ilha de Korčula. A sexta filha de Marija e Antun Petković revelou uma devoção precoce a Deus e pelos actos de caridade e em 1906 tinha já feito um voto de castidade e trabalhava com as Filhas de Maria, chegando rapidamente à presidência deste e de outros movimentos nos anos seguintes. Em 1919 Marija entrou para um convento das Servas da Caridade.

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O submarino USS Atule (que como outros daquela era foi baptizado com o nome de um peixe) foi inaugurado em Março de 1944. Em Outubro estava pronto para acção e já tinha chegado a Pearl Harbour; pouco depois rumava a alto mar para combater as forças navais do Japão. Participou na busca por navios inimigos que fugiam à Batalha do Golfo de Leyte e depois seguiu para o Mar da China. No dia 1 de Novembro o Atule afundou o Asama Maru. Continuou em serviço até ao fim da guerra e anos mais tarde.

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Pouco depois de Marija Petković ter entrado no convento, a madre superiora morreu e as restantes freiras regressaram à Itália. Marija ficou na Croácia e, em 1920, estabeleceu uma nova ordem religiosa, a Congregação das Filhas da Misericórdia. Marija foi escolhida como a primeira Madre Superiora. Ao longo dos anos seguintes as obras de misericórdia da ordem multiplicaram-se, primeiro pela Croácia e depois nas regiões circundantes – e finalmente para a América do Sul, onde a própria Marija viveu durante 12 anos e onde a ordem e a sua fundadora ganharam fama pelo seu serviço aos pobres.

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Em 1970 o já antigo submarino Atule foi desactivado. Foi vendido ao Peru quatro anos mais tarde e activado novamente como BAP Pacocha, em homenagem a um conhecido conflito entre rebeldes peruanos e a Marinha Britânica.

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Marija Petković foi da América do Sul para Roma em 1952. Em 1954 ficou paralisada devido a um AVC, mas continuou como superiora da sua ordem. Sete anos mais tarde resignou e dedicou-se a uma vida de oração e silêncio. Morreu no dia 10 de Julho de 1966, aos 74 anos.

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No dia 26 de Agosto de 1988 o BAP Pacocha navegava à superfície, a caminho da base, com 49 almas a bordo. Ao cair da noite foi atingido pelo navio de pesca Kiowa Maru. As escotilhas exteriores estavam abertas e, afundando-se, começou a meter água. O comandante do submarino, capitão Daniel Neva Rodriguez, morreu ao fechar a escotilha na ponte da torre. Outros três marinheiros morreram com o impacto inicial. Vinte e três conseguiram abandonar o navio antes de se afundar e, destes, três morreram nas águas geladas. Os restantes ficaram presos no interior.

Na sala dos torpedos dianteira, o tenente Roger Cotrina Alvarado estava a fechar as escotilhas e as portas estanques. Quando tentava fechar a escotilha da sala dos torpedos entrou água com uma força irresistível, entalando a perna de um marinheiro. A água salgada jorrava para dentro da sala. Cotrina não tinha força para contrariar o fluxo e mover a escotilha para libertar a perna do marinheiro e selar a sala.

Beatificação de Marija Petkovic
Foi então que o tenente começou a rezar, por intercessão de Marija Petković.

Um relatório da Marinha Americana sobre o incidente, feito em 1989, explica o que se passou a seguir: “Com a Pacocha a descer até ao fundo do mar, a água jorrou pela escotilha dianteira, atirando com o tenente Cotrina pela escada abaixo mas, felizmente, pouco depois, a água fechou a escotilha”.

O relatório continua: “O tenente Cotrina considera que se tratou de um milagre”.

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No espaço de cinco minutos o Pacocha, gravemente danificado, tinha assentado no fundo, debaixo de 40 metros de água. Com as escotilhas essenciais fechadas, de forma a evitar a entrada de mais água, vinte e dois homens continuavam encurralados lá dentro. O tenente Cotrina era o oficial mais graduado a bordo. Quando o Pacocha não chegou ao porto, e tendo em conta o relato de uma possível colisão por parte do Kiowa Maru, foi rapidamente lançada uma missão de resgate. A tripulação encurralada lançou foguetes de iluminação e foram enviados mergulhadores. Estabeleceu-se comunicação com os sobreviventes dentro do navio afundado e quando chegou a manhã a tripulação dividiu-se em grupos e começou a usar, à vez, os sistemas de evacuação de emergência.

Por terem estado encurralados a tal profundidade há tanto tempo, alguns dos tripulantes começaram a exibir sintomas de doença de descompressão quando chegaram à superfície. Usou-se uma câmara de pressão para os tratar, mas apesar dos esforços um dos tripulantes morreu. Ainda assim, dos 49 tripulantes originais do Pacocha, 41 sobreviveram.

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Investigações levadas a cabo tanto pela Marinha peruana como pelo Vaticano concluíram que o fechar da escotilha da sala dos torpedos era humanamente inexplicável. Em Roma, a Congregação para as Causas dos Santos atribuiu o evento à intervenção de Marija Petković. No dia 6 de Junho de 2003, o Papa João Paulo II celebrou a sua missa de beatificação em Dubrovnik. Entre os presentes encontrava-se o tenente Cotrina.

No passado domingo cumpriram-se 50 anos da sua morte.


Michael Baruzzini é um freelancer e editor da área científica que escreve para publicações científicas e católicas, incluindo a CrisisFirst ThingsTouchstoneSky & TelescopeAmerican Spectator e outras. É também o fundador de CatholicScience.com, que oferece currículos e recursos científicos online para estudantes católicos.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 10 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Futebol e fé, Fernando Santos mostra o caminho

Estão todos recuperados da festa de ontem? Foi uma noite histórica para Portugal, como reconheceu o Patriarca de Lisboa, e culminou com uma declaração de fé absolutamente épica de Fernando Santos na conferência de imprensa.

Mas no mundo da religião passaram-se ainda outras coisas que não têm a ver com futebol… Foram ordenados novos padres em Bragança e no Porto, por exemplo, e um padre de Lamego defendeu a criação de uma pastoral inter-geracional, devido ao facto de nalgumas paróquias estarem a nascer cada vez menos crianças.

No Vaticano chegou ao fim o julgamento do caso Vatileaks II, com jornalistas ilibados e um padre condenado e foi anunciada uma substituição na Sala de Imprensa da Santa Sé. Lombardi parte para novas aventuras e o jornalista de carreira Greg Burke ocupar-se-á do cargo.

Por fim, a Igreja de Santa Isabel tem finalmente um “novo tecto”, que será inaugurado no dia 19 de Julho.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Objecção de consciência eutanasiada na Bélgica

Arcebispo emérito de Paraíba, D. Aldo Pagotto
O Papa Francisco aceitou esta quarta-feira a renúncia de um bispo brasileiro que aceitava na sua diocese candidatos ao sacerdócio que tinham sido expulsos de outras. Alguns revelaram-se abusadores sexuais.

Um lar de idosos na Bélgica foi multado por se recusar a permitir que uma utente fosse eutanasiada por médicos. A família mudou-a para outro lugar, organizou a sua morte e depois processou o lar, que vai ter de pagar seis mil euros de indemnização.


Em Ano da Misericórdia, o artigo desta semana do The Catholic Thing contempla a questão da retenção dos pecados, um poder que Cristo legou à Igreja mas que é menos falado e compreendido. 

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