quarta-feira, 29 de julho de 2015

Batimentos Cardíacos e a Imaginação Judicial

Hadley Arkes
Estava de viagem quando um amigo me ligou a dar a notícia. Um painel de juízes do 8º Circuito Federal tinha deliberado sobre um projecto de lei do Dakota do Norte que proibia os abortos depois de haver “batimentos cardíacos detectáveis” no nascituro. (Trata-se do caso MKB Management v. Stenehjam)

Esta era uma das iniciativas pró-vida mais promissoras dos últimos tempos. Uma sondagem mostrava que 62% da população acredita que o aborto não devia ser permitido depois de haver provas de batimentos cardíacos. O que a maioria das pessoas não sabe é que com a tecnologia moderna isso é possível tão cedo como as seis semanas e meia, ou sete ou oito. E já ouvi dizer que com ecografias vaginais o batimento cardíaco pode ser detectado tão cedo como cinco semanas depois da última menstruação, ou seja, 22 dias depois da concepção. Isto é, mais ou menos na altura em que a mulher descobre que está grávida.

Contudo, não é o batimento do coração que marca o início da vida humana, essa é apenas parte do desenvolvimento de uma vida que já existe, gerando e integrando o seu próprio crescimento. Em todo o caso, se o teste dos batimentos cardíacos servisse como nova fasquia para o limite ao aborto é escusado dizer que isso teria efeitos dramáticos sobre a sua prática nos Estados Unidos.

Os três juízes federais que lidaram com o caso tinham sido nomeados por George W. Bush e aproveitaram a ocasião para afirmar que “existem boas razões para que o Supremo Tribunal reavalie a sua jurisprudência”. Elencaram então uma longa lista dos efeitos negativos do aborto sobre as mulheres que se submetem à intervenção: A ligação ao cancro da mama, infecções crónicas da bexiga, cancro cervical, histerectomia precoce, já para não falar da incidência de depressões sérias em muitos casos.

Mas o meu amigo, ao transmitir-me a notícia, não entendeu bem a questão. Estes juízes, nomeados por Bush, que são claramente pró-vida, estavam a lançar um apelo sincero para a revisão da decisão do Supremo Tribunal que legalizou o aborto em todo o país, mas estavam a fazê-lo depois de explicar que a jurisprudência actual do Supremo os obrigava a anular a lei que proibia abortos depois de detectados batimentos cardíacos. Com essa decisão, infelizmente, estes homens de grande reputação revelaram os principais pontos de vazio moral daquilo que hoje em dia é conhecido como “jurisprudência conservadora”.

O obstáculo é a questão da “viabilidade”. O Supremo Tribunal decidiu que a viabilidade ocorre cerca das 24 semanas da gravidez. Porém, há pouco tempo esse prazo era de 28 semanas. Nesta sua decisão, os juízes conservadores tiveram a sagácia para perguntar: “Como é que se compreende que o mesmo feto seria merecedor de protecção estatal num ano, mas no ano seguinte não?”

O Supremo Tribunal, argumentam, “vinculou o interesse do Estado pelos nascituros ao desenvolvimento da obstetrícia e não ao desenvolvimento dos próprios nascituros”. Por outras palavras, a definição de Ser Humano do tribunal depende da ciência da evolução da construção de incubadoras.

Neste ponto vemos que os juízes tinham na mão um argumento fulcral, mas não souberam o que fazer com ele. Insistem que a actual regra do Supremo Tribunal deve ter precedência, mas claramente a regra das 24 semanas não deriva do texto da Constituição, nem deriva da lógica inerente ao “direito ao aborto”. E é evidente que não está apoiada nos manuais de embriologia. Por que razão, então, devem os juízes ceder perante esse prazo que não tem qualquer valor jurídico ou científico?

Na verdade, já que falamos de “viabilidade”, David Forte tem dito que a existência de batimentos cardíacos é um dos indicadores mais seguros de viabilidade. “Na ausência de um desenvolvimento externo inesperado, uma vez que um feto chegou às cinco ou seis semanas e o coração começa a funcionar, é quase certo que ele ou ela continuará a desenvolver-se até ao fim”.

Nas litigações sobre o Obamacare os juízes liberais estavam mais que dispostos a invocar os propósitos da lei, mesmo quando estes contrariavam o texto da mesma. Os juízes conservadores podiam, neste caso, ter invocado a regra da viabilidade mantendo a lei do Dakota do Norte como uma medida que merecia verdadeiramente obrigar o Supremo Tribunal a reconsiderar as provas e a lógica por detrás da sua posição sobre a mesma viabilidade.

Podiam até ter feito mais do que solicitar ao Supremo Tribunal que revisitasse a sua jurisprudência, podiam tê-lo obrigado. Certamente outro tribunal de recurso, noutro circuito, anularia uma lei comparável, criando uma divisão entre os circuitos que obrigaria o Supremo a pegar no assunto.

Cá para mim, estes juízes foram aprovados e nomeados com base na promessa de respeitar as decisões do Supremo Tribunal sobre o aborto e abjurando a tentação de se tornar – cruzes, credo! – activistas. Isto é, prometeram purgar-se da imaginação e da coragem moral que são revelados todos os dias pelos seus colegas liberais e abdicar da lógica e do raciocínio que praticam noutras áreas das suas vidas.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 28 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Processo arquivados e padres afastados

MP arquivou processo contra padre Abel Maia
Ontem, mais ou menos na mesma altura em que eu estava a enviar o mail diário, o ministério público mandou arquivar o processo de alegados abusos sexuais de menores envolvendo um padre da arquidiocese de Braga. Hoje a arquidiocese anunciou que o padre Abel Maia continuará afastado do trabalho pastoral, a seu pedido, até recuperar psicologicamente. A cronologia de casos de abusos envolvendo a Igreja já foi, por isso, actualizada.

Foi reaberta, em Santarém, uma Igreja fundada pelos templários.

Chamo ainda atenção para o livro “Museus da Igreja” que foi apresentado ontem.

Não deixem de ler os dois artigos do The Catholic Thing que publiquei nas últimas duas semanas e, caso ainda não o tenha feito, leia o anterior que teve muito mais sucesso do que eu esperaria: Namoro na era da Pílula.

E se ainda não leu, não deixe de dar uma vista de olhos no meu texto de opinião sobre a reacção da esquerda à aprovação de alterações à lei do aborto e de como isso revela que para os fiéis da revolução sexual esta é uma questão religiosa mais do que racional.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A fúria dos fiéis da Igreja da Revolução Sexual

Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. A maioria anunciou que ia rejeitar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos “Pelo Direito a Nascer”, mas fê-lo só depois de ter roubado as principais propostas da ILC. O resultado é que a ILC foi retirada e as propostas da maioria aprovadas.

Este debate – e aliás todo o processo – revelou muita coisa, mas uma das coisas que mais deu para perceber é que quando a esquerda fala do assunto não o faz com a paixão de quem defende uma causa política, fá-lo com o fanatismo de quem defende um dogma. A triste verdade é que a revolução sexual é hoje uma religião e o aborto é o seu sacramento.

Já foi há uma semana, mas ontem não falei no assunto. Há mais um caso suspeito de abusos de menores em Portugal, praticado por um membro do clero. O caso, de Coimbra, está a ser investigado pela PJ. Esta quinta-feira actualizei, devidamente, a cronologia de casos de abusos de menores envolvendo a Igreja.

Chamo ainda atenção para os últimos dois artigos do The Catholic Thing em português. Randall Smith explica o que é a fé – de forma muito simples e útil, e o padre Schall conclui, com base num livro sobre uma equipa olímpica de remo, que “a transcendência passa pelo lar”.

O aborto como sacramento de uma nova religião

Isabel Moreira
 Fundamentalista religiosa
Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. Nomeadamente:

- As mulheres que pensam abortar são agora obrigadas a fazer consultas de aconselhamento durante o período de reflexão;
- Algumas mulheres, as que não seriam isentas de taxas moderadoras de qualquer maneira, terão de passar a pagá-las para abortar;
- Os objectores de consciência passam a poder fazer consultas de aconselhamento.

A pergunta do referendo de 2007 foi esta:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Ou seja, não há aqui nada sobre as consultas de aconselhamento, nada sobre taxas moderadoras e nada sobre a exclusão de objectores de consciência de eventuais consultas de aconselhamento.

Contudo, ainda assim, a esquerda conseguiu vislumbrar na decisão de ontem uma “adulteração” do referendo. Segundo o expresso, as várias bancadas consideram que se trata de uma violação do “espírito” do referendo. São os tempos em que vivemos. Os fetos não têm direitos nem dignidade, mas os referendos têm espíritos (mas só alguns… o referendo de 1998 foi bastante menos espirituoso).

A questão dos objectores de consciência sempre me pareceu uma das maiores injustiças da actual lei (deixando de parte a óbvia injustiça que é o próprio aborto). Porque o que o Estado está a dizer quando exclui os objectores de consciência das consultas de aconselhamento é que as pessoas que acreditam que o aborto é um mal, e que por isso não o querem praticar, são de alguma forma incapazes de exercer outros aspectos da sua profissão e não conseguem sequer aconselhar mulheres em situações dramáticas sem tentar impor as suas crenças medievais.

O comunista António Filipe considera mesmo que a direita quer “transformar os objectores de consciência numa tropa de choque”. Mas se pensavam que o dramatismo se resumia ao menino do PCP que se veste à Bloco de Esquerda, enganam-se! Temos sempre a Isabel Moreira.

Não. Eu não vou fazer um post a destruir ou a criticar a Isabel Moreira. Isto porque embora eu possa discordar muito do aborto, sou um fervoroso defensor da liberdade religiosa e Isabel Moreira, nestes casos, está a agir claramente em defesa da sua fé.

Porque para quem ainda não percebeu, esta questão não é menos que uma questão religiosa. Toda a revolução sexual, que tanto mal tem feito às famílias, às crianças e às próprias mulheres que supostamente seriam as suas grandes beneficiárias, é hoje defendida com fervor religioso, contra todos os factos.

(Nesse sentido, permito-me regozijar no facto de que pelo menos a minha religião defende – e tem longa tradição de defender – que a fé não pode ser incompatível com a razão, coisa que aos fiéis da Igreja da Revolução Sexual não se aplica, mas crenças são crenças e temos de respeitar.)

E como qualquer religião que se preze, a Igreja da Revolução Sexual tem liturgias – ver aqui um exemplo recente e perturbador –, tem apologistas – ver Isabel Moreira –; tem doutrina (e por consequência considera hereges que não segue a ortodoxia) e tem sacramentos: o aborto*.

Só assim é que se explica a paixão com que pessoas como Isabel Moreira, mas não só, defendem algo que até recentemente os seus correligionários classificavam apenas como um “mal necessário”. Só assim se explica que, segundo a própria, a existência de consultas de aconselhamento, com o intuito de informar as mulheres daquilo que vão fazer e das consequências, é uma forma de “terrorismo psicológico sobre as mulheres” praticada por pessoas imbuídas de “maldade pura”.

Os fiéis desta igreja até reivindicam para os seus praticantes a isenção de impostos que tanto criticam nos outros credos. Mas porque razão as nossas irmãs têm de pagar taxas moderadoras quando são operadas a um tumor no útero, mas as nossas primas devem ser isentas quando optam por abortar?

Um dos problemas desta religião é que nem sequer é fiel à sua própria tradição. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra. Lembram-se quando nos pintavam a imagem da pobre mulher, forçada a abortar numa clínica de vão de escada, sozinha e sem apoio? Pois Helena Pinto critica precisamente que com as alterações à lei a mulher pode abortar, pode decidir, “mas não pode decidir sozinha”.

"Recebei Senhor este sacrifício das nossas mãos"
Eu lembro-me da campanha de 2007. Lembro-me que os adeptos do sim nos diziam que o aborto é uma coisa terrível, mas que pelo menos a mulher não deve ir presa e que o referendo era unicamente sobre isso: a descriminalização. Nem liberalização era! Apenas descriminalização.

Pois quem diria! É uma coisa tão terrível que os únicos que trabalham no terreno para ajudar as mulheres a não o praticar são “terroristas imbuídos de pura maldade” e os médicos que se recusam a desmembrar os nossos filhos, apenas porque a mãe, na sua sagrada autonomia o deseja (ou, o que é mais comum, porque os seus pais ou o seu parceiro a pressiona), são uma “tropa de choque”.

Sim, é verdade… A revolução sexual é uma religião, a nova religião oficial. E o facto de o PS deixar que Isabel Moreira seja a face visível da sua política neste campo diz tudo o que eu preciso de saber sobre esse partido, obrigado.

É que eu nunca gostei de partidos de inspiração religiosa.


*Caso seja um defensor do aborto e esteja irritado com o facto de eu o ter chamado um "sacramento" de uma nova religião, fique descansado que a equiparação não é original. Foi uma das vossas que o fez primeiro, eu limitei-me a roubar.

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Luz ao fundo do túnel para Asia Bibi

Já há luz ao fundo do túnel, mas
é preciso continuar a rezar por Asia Bibi
Depois de uma semana de férias estive os últimos dias a fazer horário nocturno e só hoje consegui voltar a este serviço. Mas trago logo uma boa notícia! A condenação à morte de Asia Bibi foi suspensa. Atenção que não foi anulada, mas sim suspensa. Finalmente há luz ao fundo do túnel.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano autarcas e governadores de várias cidades do mundo, pedindo que pressionem os seus países a fazer mais pela ecologia. Pode ser a última chance, disse Francisco.

A Sé de Lisboa vai ter obras para ser “espaço de memória viva” para a cidade.

Foram encontrados o que poderão ser os fragmentos mais antigos do Alcorão até à data. Uma descoberta muito interessante.

Desde a última vez que fiz este “apanhado” já foram publicados dois artigos do The Catholic Thing no blog, sempre às quartas-feiras. Na semana passada tivemos o belíssimo artigo de Randall Smith que explica, de forma muito simples, o que é a Fé e como afecta a nossa forma de ver o mundo. Hoje publicámos um artigo do padre jesuíta James V. Schall, que conclui que a transcendência “aprende-se” no lar, alertando nesse sentido para o perigo de se estarem a destruir os lares…

Atenção para quem vive em Setúbal ou arredores, ou quem estará de férias nessa zona na primeira semana de Agosto. O musical “Godspell” que fez sucesso em Lisboa há alguns meses vai ao palco naquela cidade de 5 a 7 de Agosto. É de aproveitar, até porque não penso que haja mais datas previstas.

A Transcendência Passa Pelo Lar

James V. Schall S.J.
Num artigo chamado “A próxima guerra cultural”, publicado no New York Time, no passado dia 30 de Junho, David Brooks nota que o Cristianismo está em rápido declínio, se não mesmo em vias de eliminação. O seu termo para descrever o que resta – conservadores sociais – é infeliz. Tal como Chesterton anteviu há mais de 100 anos, este resto será composto por “hereges”. Só eles terão a coragem de afirmar que a relva é verde, ou que casamento é casamento, e não, segundo a nossa percepção voluntarista da realidade, aquilo que nós queremos que seja. “A revolução sexual não será desfeita tão cedo. O desafio mais prático passa por reparar uma sociedade atomizada, sem compaixão e inóspita”, escreve Brooks, num tom que recorda claramente o Papa Francisco.

Depois de ler o artigo de Brooks, acabei de ler o livro de Daniel James Brown, “The Boys in the Boat”, um relato dos oito tripulantes que ganharam a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Na nota de autor, Brown escreve: “Por fim, este é, em muitos sentidos, um livro sobre a longa viagem de um jovem de volta ao lugar a que chama casa; escrever esta história recordou-me novamente que ninguém é mais abençoado no seu lar do que eu”. Brown é casado e tem duas filhas.

Não pretendo fazer aqui uma crítica a este excelente livro. Há um clube de leitores em Maryland que diz que todos os habitantes do Estado o deviam ler. É um bom conselho. Mas seja como for que se vê este livro, é claramente contra-corrente. Hesito dizê-lo com medo de que hesitem lê-lo.

Brown presta particular atenção à vida familiar de Joe Rantz, o herói do livro, e à vida dos outros rapazes tripulantes, bem como aquilo que lhes acontece até às suas mortes. Todos menos um casam, têm filhos, lares, memórias. O livro depende em grande parte das memórias da filha de Rantz. É um livro sobre homens, homens bons e novos que, como muitos turistas de visita à Alemanha pela primeira vez, bebem demasiada cerveja. Mas é também um livro sobre mulheres, filhas, irmãs e mães, nenhuma das quais remava. É um livro que compreende o casamento, a sua relação aos sexos, a filhos, a pais e mães. Relações que podem ser, por vezes, agonizantes, mas não existem dúvidas sobre o que deviam ser.

O protagonista filosófico do livro é um inglês chamado George Pocock. Cada capítulo começa com uma afirmação de Pocock sobre a majestade do remo. Pocock é o construtor dos melhores skiffs de cedro de oito lugares. É também uma figura importante na sede da tripulação na Universidade de Washington, onde constrói e vende os seus barcos. O drama do livro está centrado em Joe Rantz, um dos principais remadores da tripulação. A sua vida familiar foi afectada pela morte da sua mãe e o segundo casamento do seu pai, que resultou em quatro meios-irmãos e irmãs. Para todos os efeitos o seu pai e a sua madrasta abandonaram-no quando ainda era rapaz.

Ao analisar a psicologia de Joe e o seu enquadramento na equipa, Pocock chega à conclusão que o que o incomoda é a sua relação difícil com o seu pai que, como Joe, é muito pobre. Esta é uma das passagens centrais do livro:

O facto de a mãe de Pocock ter morrido seis meses depois de ele ter nascido ajudava. A segunda mulher do seu pai morreu poucos anos depois, antes de George ter idade sequer para se lembrar dela. Ele sabia bem o que era crescer numa casa sem mãe, do buraco que isso deixa no coração de um rapaz. Conhecia bem aquela vontade incessante de se tornar completo, esse desejo infindável. Lentamente, começou a compreender a essência de Joe Rantz.

Mas que coisa estranha esta?! Um rapaz precisa de uma mãe? Da sua mãe?

Joe Rantz teve apenas uma namorada na sua juventude. Casou com ela no mesmo dia em que ambos se licenciaram na Universidade de Washington. A sua mulher, Joyce, que também ajudou a criar os seus meios-irmãos, foi uma esposa dedicada, descrita da seguinte maneira por Brown:

Ao longo dos anos Joe e Joyce tiveram cinco filhos – Fred, Judy, Jerry, Barb e Jenny. Em todos esses anos, a Joyce nunca se esqueceu do que o Joe tinha passado nos seus primeiros anos e nunca se desviou do juramento que fizera a si mesma no início da sua relação: Acontecesse o que acontecesse, ela nunca o deixaria passar por algo do género, nunca o deixaria sentir-se abandonado, ele teria sempre um lar caloroso e cheio de amor.

Joyce morreu antes de Joe. Na sua velhice e morte, os seus filhos cuidaram dele.

“A próxima guerra cultural?” Homem, mulher, fidelidade, votos, trabalho, lar, glória – estas são as coisas que temos estado a destruir, as coisas que os homens e as mulheres, rapazes e raparigas, mais querem, se é que querem algo para além disso. Porque será, perguntou Chesterton, que sentimos “saudades de casa em nossa própria casa?” Se os “rapazes no barco” nos ensinam alguma coisa é que para sermos o que somos temos de saber, por experiência ou por esperança, o que é um lar – pai, mãe e os seus filhos. A transcendência passa pelo lar.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is Catholic, The Modern Age, Political Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fé: Luz Espiritual que Ilumina a Mente

Randall Smith
Recentemente uma das minhas alunas estava a ler um livro que dizia que a fé é “uma luz espiritual que ilumina a mente” e que “vemos através dessa luz”. Perguntou-me o que é que isso queria dizer. O que é uma “luz espiritual” e como é que pode “iluminar a mente?”. “Sei que ‘luz’ é apenas uma metáfora, mas não deixa de me parecer um pouco vago. Do que é que o autor está a falar?”

Consideremos o seguinte caso, disse-lhe. Digamos que há uma jovem rapariga que sofre de depressão crónica e que, desde muito nova, tem problemas com a sua imagem corporal. Ela pensa que é gorda e feia, mas não é. Na verdade, é capaz até de ser demasiado magra para o seu bem, mas é até bastante atraente.

Agora digamos que esta jovem mulher recebe ajuda de um bom psicólogo e/ou que responde da melhor forma ao amor de um pai, de uma amigo ou do seu marido. E digamos que depois desta alteração na sua disposição, quando se olha ao espelho, já não se vê como gorda e feia, apesar de o seu índice de massa corporal estar exactamente na mesma. Por alguma razão ela agora já acredita, ao contrário de antes, no seu marido, ou na sua mãe ou nos amigos, quando estes lhe dizem “não és gorda, és linda”. Antes até lhe custava ouvir tais palavras.

Como é que descreveríamos esta nova visão que a jovem passou a ter de si mesma, e de si em relação ao mundo? Que tal uma espécie de “luz espiritual” que lhe “iluminou a mente?”

Porquê esta descrição? Porque antes ela estava convencida na sua mente que era gorda e feia. Ninguém lhe poderia demonstrar o contrário. Por isso a mudança não foi puramente intelectual. Ninguém lhe deu novas provas; ninguém lhe mostrou fotografias que antes não tinha visto. A mudança aconteceu nalgum lado dentro dela que não apenas o intelecto. Não foi apenas uma mudança na sua mente; foi uma mudança em toda uma atitude para consigo mesma e em relação a outras pessoas e ao mundo.

Onde antes tinha existido uma espécie de desespero porque as coisas nunca seriam diferentes, agora existe uma esperança. Não se trata de um sonho ilusório e impossível (como eu dizer, por exemplo, que um dia seria capaz de jogar no NBA), mas uma esperança baseada numa nova percepção da realidade das coisas como verdadeiramente são. Não dizemos apenas que ela “espera” que não seja gorda. Não, ela vê a verdade de que não é gorda, coisa que antes não era capaz de ver, nem de imaginar. Podemos dizer, por isso, que esta nova “luz espiritual” lhe “iluminou” a mente, de forma a que ela consegue agora ver com os seus olhos e compreender com a sua mente a sua verdadeira imagem e o seu verdadeiro valor, que antes estavam abafados por uma ilusão.

Poderá ser que esta nova capacidade de se ver a si mesma e ao mundo se tornou possível porque finalmente acreditou no amor de um amigo, ou do seu marido, ou por alguma razão que ela provavelmente não consegue explicar. Ou talvez se trate de algo para além da “razão”, pelo menos de acordo com o que ela considerava “razoável”. E esta nova “visão” de si mesma e do mundo, que se tornou possível por ter dito finalmente que “sim” ao amor, também abriu as portas a uma nova esperança e à capacidade para amar de forma mais completa. Na verdade, se calhar ela simplesmente disse a si mesma: “Prefiro dizer que sim à realidade do amor e a tudo o que isso promete em vez de dizer que não e permanecer presa na triste realidade que me convenci a mim mesma que é a única que poderia possivelmente existir.”

Este dizer que “sim” na esperança da promessa da realidade que o amor pode tornar possível é aquilo a que os cristãos chamam “fé”. Não é apenas um acto de vontade: Não me limito a querer acreditar naquilo que é impossível. Antes, é uma nova visão do intelecto, uma luz espiritual nova na qual nos conseguimos ver a nós mesmos e ao mundo de forma mais clara, uma visão que se torna possível dizendo “sim” ao amor e à sua promessa daquilo que pode vir a ser, mas ainda não é.

Seria bom se, quando lidamos com jovens deste tipo que se convenceram de que são feias, pudéssemos simplesmente fornecer-lhes provas no sentido contrário. Mas por alguma razão, na maior parte das vezes, o “sim” da fé, esperança e amor precisam de vir primeiro. Este tipo de pessoa não começa por ver a verdade e depois decide, com base em critérios racionais, a amar-se a si mesmos e aos outros. Primeiro têm de aceitar a realidade do amor e depois deixá-lo desabrochar num novo tipo de esperança que lhes permite ver a realidade como ela é verdadeiramente.

Se duvida que o amor torna possível uma visão mais verdadeira e clara da realidade – sobretudo da realidade das pessoas – do que teria sido possível de outra forma, então é porque não passou tempo suficiente a ouvir mães a falar dos seus filhos. Sobretudo, digamos, a mãe de um filho com Trissomia XXI. Tanto quanto consigo ver (não sendo uma daquelas pessoas que se baba por bebés), se não pudesse ver com os olhos de um amor que é capaz de olhar para além das evidências e com uma esperança por possibilidades que ainda não estão presentes (ou que nem parecem muito prováveis), aquela mãe não estaria a apostar a sua vida no futuro destas crianças.

Mas é isso mesmo que as mães fazem, todos os dias.

O que é que elas vêem nestas crianças que eu não vejo? Provavelmente o mesmo que os santos vêem no mundo e nas outras pessoas que o resto da humanidade não vê: A graça amorosa de Deus em acção, tornando possíveis realidades que mal podemos conceber e que na maior parte das vezes nem conseguimos imaginar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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