quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A Alegria do Evangelho - Os Conservadores

Antes sequer de começar, eu sei que estes rótulos “conservador” ou “liberal” são muito redutores. Mas por outro lado também são indicativos, desde que nos lembremos que são estereótipos, e tenhamos algumas reservas.

O problema é que conservador abarca tanto as pessoas que são ultra-tradicionalistas como outras que simplesmente estão com a Igreja em questões fracturantes como o aborto, casamento, ordenação de mulheres etc.

Dito isto, muitas pessoas têm dito que este documento, à imagem de todo o pontificado, tem posto os conservadores “nervosos”. Os conservadores, por seu lado, sobretudo os mais conservadores, fazem logo questão de desmentir e insistir que não há aqui nada de novo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É verdade que muitos conservadores sustêm a respiração cada vez que o Papa diz ou escreve alguma coisa. É uma questão de hábito, também… estavam habituados à total segurança de Bento XVI e com Francisco há surpresas. Mas às vezes a ginástica torna-se absurda, como quando alguns insistiram que nesta exortação não há qualquer crítica ao capitalismo, porque o Papa nunca menciona a palavra capitalismo… please!

Vejamos então algumas passagens.

“A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgotável do Evangelho.” (#40)
A questão aqui é que, por mais que isso custe a alguns, a Igreja é de facto uma casa de variedades. Poderão dizer, sim, é certo, mas ao menos em relação à doutrina não há dúvidas. O Papa aqui não usa a palavra dúvidas, mas usa nuances… é mais neutro. Doutrina só há uma, mas como a entendemos? Como a ensinamos? A Igreja não ensina que há hierarquias de verdades? Penso que será essa a janela que o Papa está a abrir aqui.

“Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais grave.” (#41)
“O risco mais grave”… Isto não é brincadeira. E isto sim é algo que eu identifico com alguma facilidade no “campo” conservador. A rigidez da defesa da doutrina, sendo louvável em si, não pode abafar a surpresa e a frescura que deve ser a mensagem cristã. Conhecer Cristo tem de ser mais do que simplesmente ter a fórmula certa na cabeça e observar os rituais.

Podem até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. (#43)

Nalguns, há um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. (#95)
Lamento, mas esta é uma forma querida e simpática de o Papa dizer aquilo que muitos de nós, e uso o “nós” de propósito, temíamos. Francisco está a falar precisamente das tradições de que tanto gostamos e que ao longo das últimas décadas têm sido abandonadas. Liturgias elaboradas, ritos diferentes e antigos, dos incensos aos paramentos pretos… E fala também de outras curiosidades que Bento XVI estimava mas que Francisco mostrou desde cedo não querer. Os sapatos encarnados, os mil e um apetrechos que, de facto, fazem parte da história e da cultura da Igreja.

Mas não demos um passo maior que as pernas. Francisco não tem paciência para estas coisas, mas não diz que devemos enterrá-las, como muitos andam a tentar fazer desde o Concílio, baseando-se no tal “espírito” vago, que não está na letra dos documentos.

E por isso mesmo, esta atitude do Papa e as suas palavras não deixam de ser absolutamente certeiras. Porque para muitos os paramentos, os incensos, as liturgias, a língua e a orientação do padre deixaram de ser setas a apontar no sentido de Cristo e passaram a ser o próprio objectivo e destino. O Papa não nos diz que estas coisas são más em si, só nos diz que na medida em que não contribuem para iluminar o caminho para Cristo, são dispensáveis.

E não iluminam? Nalguns casos, provavelmente não. Noutros, sim. É esse discernimento que é preciso saber fazer. Não guardar a tradição só porque é antigo e tradicional, mas sim na medida em que contribui para o conhecimento da verdade.

A todos os que sentem agora a tentação de citar estas palavras para celebrar liturgias francamente feias, e igrejas que mais parecem contentores e armazéns, não esqueçamos que o mesmo Papa, neste mesmo documento, pede liturgias belas. Para Jesus o melhor, só o melhor. O melhor tem muitas formas e feitios. Não tem de ser sempre igual e parado no tempo. Mas é sempre belo.

A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa. (#47)
Esta foi uma passagem que levou muita gente a pensar que o Papa preparava terreno para permitir que os divorciados recebam os sacramentos. Eu também a assinalei por causa disso. Contudo, na sua mais recente entrevista, publicada pelo “La Stampa”, o Papa desmente essa ideia e diz que não era isso que queria dizer, que pensava mais especificamente na situação de quem recusa baptizar filhos de mães solteiras e que, no caso dos divorciados “recasados”, o impedimento de comungar não é uma sanção.

A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. (#94)
Nada a acrescentar a estas palavras, que são muito claramente direccionadas a um estilo de tradicionalistas que, infelizmente, cumpre criteriosamente cada ponto da descrição.

A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja. (#131)
Esta passagem é muito importante para os nossos dias, quando os novos meios de comunicação tornam cada vez mais fácil encontrar quem pensa como nós e assim formarmos grupinhos e grupetas, cuja legitimidade reivindicamos em nome da diversidade.

Por outro lado, não deixa de ter piada ver a ala mais liberal a exigir o fim sem tréguas de tudo o que é movimento e grupo mais conservador, contrariando precisamente essa diversidade que, supostamente, tanto prezam.

O Papa dá aqui uma resposta que desarma ambos esses excessos. A diversidade e a unidade não são incompatíveis… Desde que verdadeiramente inspirados pelo Espírito Santo. E essa confirmação vem-nos pela oração, antes de mais, mas vê-se também nos frutos. De resto o Espírito Santo não é monopólio nem de conservadores nem de liberais, mas serve os propósitos de Deus, sempre.

Outros temas:

1 comentário:

  1. Leonardo S. de Oliveira.5 de fevereiro de 2014 às 21:42

    Meu caro um católico é tradicional e conservador por essência.Toda crise que a Santa Imaculada Igreja católica passa é justamente por essa parte liberal,progressista e modernista do cléro.

    Liberais,progressistas e modernistas vão ter que pretar conta ao Absoluto Juíz por tudo de ruim que eles tem feito na Santa Madre Igreja!!

    In Corde Jesu, semper.

    ResponderEliminar

Partilhar