quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O que nos trouxe o Protestantismo?






Nota prévia: Tenho o privilégio de contar entre os meus leitores muitas pessoas de tradição protestante. Publico este artigo de Howard Kainz certo de que compreendam que o faço no espírito do conhecimento e troca de ideias e não como qualquer ataque mesquinho às suas crenças religiosas. Se vos servir de consolo, traduzi-o ao som de "Amamos Duvall", que Tiago Guillul simpaticamente me ofereceu antes do Natal.
Filipe d'Avillez


Duas publicações recentes partilham um tema que podíamos resumir como “O que nos trouxe o Protestantismo?”. Em “The Unintended Reformation”, o professor Brad Gregory, da Universidade de Notre Dame, enumera os desenvolvimentos históricos através dos quais o Protestantismo, cujo objectivo inicial era a reforma da Igreja, resultou em milhares de “denominações” com mensagens contraditórias, isoladas umas das outras por mecanismos secularistas de tolerância e relativismo. Em “If Protestantism is True”, Devin Rose dá conta das suas investigações teológicas pessoais que o conduziram, inesperadamente, para o seio da Igreja Católica.

Face à aparente corrupção e má gestão das autoridades eclesiais e do papado, a ideia aparentemente inspirada dos primeiros “reformadores” protestantes, era simplesmente de regressar às Escrituras para encontrar orientação. No Verão de 1519 Martinho Lutero, por exemplo, tinha chegado à conclusão que só nas escrituras é que se podia encontrar a única verdadeira e inquestionável fundação da fé e vivência cristãs. Sola scriptura.

Mas quais escrituras? Devin Rose começou a sua busca com a pressuposição de que a única autoridade infalível é a Bíblia protestante, composta de sessenta e seis livros. Mas poderia ter a certeza de que os restantes sete livros – Tobit, Judite, Sabedoria, Ben Sirá, Baruc, 1 e 2 Macabeus – da Bíblia católica não são fiáveis? Fossem quais fossem as escrituras aceites, nenhuma afirma que deve ser recebida como autoridade final. Na verdade os sessenta e seis livros incluídos na Bíblia Protestante foram inicialmente considerados “canónicos” com base na autoridade da Igreja Católica – uma fonte suspeita, aos olhos dos reformadores.

Mas mesmo partindo do princípio de que a Bíblia protestante é definitiva, qual dos reformadores devemos seguir? Tal como Devin Rose, Brad Gregory deparou-se com inúmeras discussões entre os principais reformadores, precisamente na altura em que procuravam lançar as fundações da restauração do Cristianismo:

Lutero e Melanchthon discordaram de Zwingli e dos seus aliados sobre a natureza da presença de Cristo na Ceia do Senhor... Perante o testemunho de Zwingli: “Tenho por certo que Deus me ensina, porque o experimentei”, Lutero contrapõe: “Tenham atenção a Zwingly e evitem os seus livros como se fossem o veneno infernal de Satanás...”. Muitos cristãos anti-romanos discordaram suficientemente de Lutero, Zwingly, Bucer, João Calvino e todos os outros líderes luteranos ou da reforma protestante sobre verdade de Deus ao ponto de se recusarem a prestar culto ou estar em comunhão com eles.

Mas é preciso interpretar correctamente a Bíblia. Gregory demonstra como os princípios tradicionais de interpretação foram descartados à medida que os vários reformadores, certos da sua inspiração, deixaram de se considerar obrigados a respeitar a tradição:

Os reformadores rejeitaram as interpretações e afirmações patrísticas sobre a Escritura, tal como rejeitaram a exegese medieval, os decretos papais, o direito canónico, os decretos conciliares e as práticas eclesiais em tudo quanto contradizia as suas próprias interpretações da Bíblia... Discordaram sobre o significado e a prioridade dos textos bíblicos e da relação entre esses textos e as doutrinas sobre os sacramentos, culto, graça, Igreja e por aí fora. Discordaram sobre os princípios interpretativas que deviam orientar a compreensão das Escrituras, como por exemplo a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, ou a permissibilidade de práticas religiosas que não tinham sido explicitamente proibidas ou sancionadas na Bíblia.

Sem surpresas, a disseminação de diferentes interpretações por denominações protestantes ao longo dos séculos tem perturbado muitos dos nossos contemporâneos que procuram a mais plena expressão da verdade cristã. Devin Rose comenta:

O espectro protestante cobre agora uma grande variedade de crenças contraditórias: baptismo infantil contra baptismo de crentes, a presença, de alguma forma ou apenas simbólica, de Cristo na Eucaristia, a indissolubilidade do casamento ou a aceitação do divórcio, a condenação do aborto enquanto homicídio ou a permissibilidade do aborto, a ordenação de mulheres ou só de homens, a trindade enquanto Deus em três Pessoas ou enquanto um Deus com três propósitos. Há diferenças sobre a predestinação e o livre arbítrio, sobre se é possível perder-se a salvação, sobre a validade do “casamento” homossexual, e por aí fora... O casamento já foi, em tempos, considerado uma união indissolúvel por todos os cristãos mas, tal como a contracepção, a esterilização e o aborto, a maioria das comunidades protestantes já inverteu os seus ensinamentos sobre a impossibilidade do divórcio e recasamento, permitindo agora aos seus membros que se casem, desde que tenham obtido primeiro do seu anterior esposo um divórcio civil.

Os pais do Protestantismo
Perante uma disparidade tal de interpretações vem-nos à mente 1 Coríntios 14,8: “E, se a trombeta só emitir sons confusos, quem é que se prepara para a guerra?” A World Christian Encyclopedia afirma que existem mais de 33 mil denominações cristãs. A escolha difícil, enfrentada muitas vezes por protestantes sérios, é entre a Igreja e “igrejas”.

De acordo com Devin Rose, a consequência última e inevitável de se basear a religião num livro, mesmo um livro sagrado e inspirado como a Bíblia, foi uma variedade de interpretações contraditórias, sem que exista qualquer critério fiável de escolha para o crente. Rose foi coerente com a sua própria proposição, “se o Protestantismo é verdade”, e encontrou... a Igreja.

Brad Gregory vai ainda mais longe, traçando a origem da hegemonia actual do secularismo às discórdias incessantes e intratáveis entre protestantes e entre católicos e protestantes. Sem outra solução para harmonizar a dissensão, a Holanda foi pioneira na condução do mundo Ocidental à “liberdade de religião”. Os juízes holandeses:

Romperam com mais de um milénio de Cristianismo... ao transformar a fé “numa questão privada de preferência individual”. A liberdade de  religião protegeu a sociedade da religião e, por isso, secularizou a sociedade e a religião...

No meio desta secularização, “os cristãos americanos estão divididos em relação a todas as questões polémicas políticas e morais, do divórcio ao aborto, ao sistema de saúde e à ecologia.”

Como lidamos, então,com as “Questões de Vida” tão prementes? Gregory explica que nos voltámos para as ciências empíricas e o cientismo materialista como fonte de verdade por defeito. Depositamos a nossa confiança em ciências como a física que, depois de oitenta anos, ainda não faz a menor ideia como conciliar a teoria quântica com a teoria da relatividade; ou ciências como a psicologia evolucionária, que nos apresenta uma longa lista de comportamentos contraditórios que alegadamente têm a sua origem na evolução biológica: o Ser Humano enquanto ferozmente competitivo ou naturalmente cooperativo; essencialmente monogâmico ou polígamo; genocida ou pacífico; que cuida dos pobres ou os ignora.

Não obstante aderimos, religiosamente, à ciência como juiz supremo. Deus nos valha.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em www.thecatholicthing.com no Domingo, 23 de Dezembro de 2012)

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