segunda-feira, 30 de abril de 2012

Spray na abóboda e culpa solteira no Egipto


Dois jovens entraram numa igreja em Espanha munidos de latas de spray e encheram-na de grafiti. Escusado será dizer que o padre ficou muito agradecido.
E o resultado? Impressionante. Pode ver mais imagens aqui.

Notícias piores vêm da Nigéria onde um novo ataque causou a morte a 15 cristãos.

Ainda em África, o Egipto arquivou um processo relativo ao massacre de cristãos em Outubro do ano passado. As imagens de blindados a esmagar manifestantes indefesos não chegou, pelos vistos, para identificar ninguém.


Amanhã entramos no mês de Maio. Antecipa-se a reunificação da Igreja com os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X. Interessa? Muito!

O grupo Actualidade Religiosa no Facebook tem crescido a olhos vistos e hoje chegou aos 600 membros! É mais uma plataforma onde podemos trocar informação e onde poderá ficar a par das novidades mais “em cima da hora”.

Maio, mês de reconciliação? E será que interessa?



Um leitor deste blogue sugeriu o dia 13. Seria uma data interessante, sobretudo se tivermos em conta que o bispo Bernard Fellay, o actual líder desta sociedade fundada pelo Arcebispo Marcel Lefebvre que se encontra em ruptura com Roma desde 1988, convocou há poucos anos uma “cruzada de terços” pela reunificação.

A data certa é um mistério. Se o Vaticano trabalhar ao seu ritmo, que não é o ritmo do mundo (como já sabemos pelas negociações a propósito dos feriados religiosos), então bem podemos esperar. Mas penso que o Papa não quererá perder muito mais tempo a este respeito. Esta unificação, a confirmar-se, configurará a concretização de um sonho e uma reconciliação pessoal. Ratzinger era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé na altura em que se deu a ruptura e, então, foi incapaz de a evitar.

E se os tradicionalistas forem recebidos de volta à Igreja, como se espera, o que se passará?

Em termos de organização, o Papa certamente lhes oferecerá uma estrutura que lhes dá bastante autonomia. Alguma coisa do género da prelatura pessoal do Opus Dei ou do ordinariato pessoal dos ex-anglicanos. Assim os membros da SSPX ficarão em larga medida a salvo das interferências dos bispos liberais que, em muitos locais da Europa Ocidental, são muito contrários a esta reunificação. Exactamente qual será essa estrutura não se sabe, mas o Papa tem total liberdade para inventar a estrutura que bem quiser, portanto não adianta muito tentar adivinhar.

Ou não...
Qual será a reacção da SSPX? Em primeiro lugar quero esclarecer que embora conheça uns quantos católicos de pendor tradicionalista, não conheço pessoalmente ninguém da SSPX. Em Portugal não são propriamente numerosos. Por isso tudo o que escrevo a seguir diz respeito ao que vou lendo, no meu esforço de acompanhar esta situação.

Com base nessas leituras, que incluem artigos, blogues e comentários aos mesmos feitos por simpatizantes e/ou membros da SSPX, penso que se engana quem pensa que os tradicionalistas regressam a Roma quais filhos pródigos, humildemente agradecidos pela magnanimidade do pai.

Há excepções, e já li alguns comentários de tradicionalistas a elogiar a benevolência de Bento XVI, mas a tendência geral é de um enorme triunfalismo, eventualmente de missão, de quem vem salvar Roma dos seus desvios. Os tradicionalistas não são conhecidos pela sua flexibilidade e, enquanto grupo, penso que o convívio debaixo do mesmo tecto nem sempre será fácil. A verdade, também, é que raramente estarão mesmo debaixo do mesmo tecto, uma vez que terão a sua estrutura autónoma.

Poderei estar a ser injusto com esta análise, se for o caso peço desculpa.

Who cares?
Finalmente, alguns poderão perguntar mas, afinal de contas, o que é que isto interessa?

Interessa muito, e basta olhar à nossa volta para ver o que se está a passar na Igreja actualmente para perceber porquê.

Sem querer fazer juízos de valor, o que é que vemos? O mesmo Papa que abriu as portas aos anglicanos conservadores (esvaziando, na prática, o diálogo ecuménico com uma igreja que insiste em cavalgar rumo ao liberalismo extremo) abre agora as portas aos católicos tradicionalistas que estavam afastados. No mesmo mês sabemos que a Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente as religiosas americanas pelos seus desvios à doutrina católica e a insistência em promover causas contrárias ao magistério.

Na Europa, onde a SSPX é mais forte, os tradicionalistas regressam a uma Igreja em que está a ocorrer, debaixo dos nossos olhos, uma rebelião liberal nos países germânicos. Centenas de padres assinam “manifestos pela desobediência”.

Aos 85 anos, e depois de sete na Cadeira de Pedro, o Papa está a tomar medidas concretas para reforçar a sua posição, que é conservadora e tradicionalista, sem ser extremista. Os resultados levarão tempo a fazer-se notar, mas penso que a atitude dos bispos americanos no seu “conflito” comObama já é um reflexo desta nova realidade.

Portugal não é um bom espelho desta realidade, mas a clivagem entre uma Igreja conservadora e uma Igreja liberal é demais evidente em várias partes do mundo.

Quando foi eleito muitos vaticinaram um duro pontificado do “Pastor Alemão”. Bento XVI tem surpreendido os mais críticos e, até certo ponto, desiludido os seus defensores mais ferozmente conservadores.

Afinal, ao que parece, o “Pastor Alemão” ainda sabe ladrar.

Filipe d’Avillez

Grafiti na Igreja (Actualizado)


Todos nós já vimos grafiti nas igrejas, algo que a maior parte das pessoas civilizadas lamenta.

Mas neste caso nada há para lamentar. É incrível o que dois artistas com latas de spray conseguem fazer.

Eu, que sou fã de igrejas repletas de murais, passei sem dúvida a ser fã de Rudi e de House, os dois artistas responsáveis por esta obra.

Aqui ficam mais umas imagens da Igreja de Santa Eulália de Provençana, na Catalunha:
Rudi e House estudaram cuidadosamente
o estilo românico catalão para fazerem o mural
As imagens foram inteiramente feitas com spray,
à excepção de alguns traços com pincel
Rudi e House numa pose tipicamente "street",
debaixo da sua mais recente criação
Embora não conheça nenhum paralelo para este caso, há outros exemplos de grafiti com temas religiosos. Este, mural em Los Angeles tornou-se bastante conhecido o ano passado.


Entretanto, avisado por um leitor, encontrei imagens da igreja de Goldscheuer, na Alemanha, que estava em risco de fechar mas que foi totalmente redecorada por um artista de grafiti e desde então ganhou nova vida, com o regresso de muitos locais.

A imagem de marca da Igreja passou a ser este mural de
Nossa Senhora com o Menino Jesus. A Virgem está
vestida com roupas típicas desta zona da Alemanha.
Filipe d'Avillez


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Meditações, cinema e depois um chinês


Meditação? Se pensou imediatamente em ioga ou em Budismo, clique aqui. Se não pensou… clique na mesma e conheça a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

A transcrição integral, em inglês, da entrevista ao coordenador internacional deste movimento está aqui e vale a pena ser lido.


O Governo chinês voltou a deter alguns bispos e padres da Igreja Católica. O Vaticano desaprova.



Ah, e o blogue passou, a partir de ontem, a ter publicidade. Tudo explicado aqui.

Meditation is a discipline of love


Full transcript of the interview with Laurence Freeman, OSB, coordinator of the World Community for Christian Meditation. News item can be found here.

Transcrição completa, no inglês original, da entrevista a Laurence Freeman, OSB, coordenador da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. A notícia está aqui.


When we think “meditation” we think Buddhism, Hinduism, Eastern religion. Why is this wrong?
Meditation is a universal spiritual wisdom, we find it in all the great religious traditions of the Human family, we find it at the core, in fact, of all the great spiritual traditions.
In Christianity it is to be found, it is present, but for various historical or cultural reasons it became marginalized, especially in Western Christianity. In Eastern Christianity it has always been more mainstream, through the practice of the Jesus Prayer, the prayer of the heart and the hesychast tradition of prayer, but in the Western Church our prayer became very head centred and of course mental prayer is a valid form of prayer, but there is also the prayer of the heart and this is where meditation finds its meaning.
In recent years there has been a great recovery of this tradition of contemplative prayer in the life of the church and it allows us to make sense of Jesus’ teachings on prayer. When you look at His teaching in the Gospels, you see that He is a teacher of contemplation, He doesn’t give us rules and regulations about prayer, He says: “When you pray go into your inner room, close the door, and pray to your Father who is in that secret place of the heart”. He tells us not to use many words when we pray, but to trust that God knows our needs before we ask. So all the elements, the essential elements of Jesus teaching on prayer, are contemplative.

Is that one of the problems with Western Christianity? Do we pray with too many words?
We have become far too head-centred in our spirituality. It’s one of the reasons why people want a more integrated spirituality, with the body and the mind and the spirit harmonized, and this is what human well-being is about, our destiny is to experience the presence of God as a whole person, every aspect of our being is brought alive in that knowledge of God.
I think we are very weak in Western Christianity and maybe even in Eastern Christianity, in spirituality of the body and its one of the reasons it is difficult for Christians to communicate their spirituality to a secular world.
Meditation is not mental prayer but it is the prayer of the heart, and the heart is a symbol of the wholeness of the person. The heart is not just about feelings, it’s about that point of integration, that is one of the reasons people experience physical well-being as a result of meditation, it reduces blood pressure, improves cholesterol, reduces stress and so on, that is true, valid and interesting, but from a from a spiritual point of view this is a sign of Grace working on nature, the spirit working through the body, so meditation is very much a spirituality of the whole person.

Was there a tradition of Jewish Meditation at the time of Jesus, for example? Is that where we get our tradition from?
It definitely came from the teaching of His own Jewish tradition. It was a teaching that was largely oral, it was passed on from teacher to disciple, rather than being written down.

Does this make Christian meditation different from other religions?
It’s different and similar at the same time, just as our bodies are. Our bodies are different from people in Asia, although we recognize them as fellow human beings, so there are similarities but also important differences. Over the years I have had several dialogues with the Dalai Lama and he often says: “We have to take the similarities and the differences equally seriously and balance them”.
So in that sense meditation is universal, you can recognize it in all the different traditions, it’s about silence, it’s about stillness, simplicity, moving from the head and thought into the heart and into a level of personal experience. So in that sense it is very similar.

The challenges are also similar, as we all experience distraction, we all find it difficult to pay attention, it’s difficult to have discipline. Meditation isn’t just a pill you take when you have a headache, meditation as a spiritual practice is part of your way of life, It takes time, you can’t rush it. You can experience the benefits of it quite quickly, but it requires time and perseverance. So in that sense they are very similar and for that reason you can say that meditation opens up the common ground between all religions and cultures.
We are living in a world of great divisions, crises, great confusion. We have huge problems to face globally and our institutions are not very good at solving them because we approach them, at the moment, in the wrong way. These are global problems but we are approaching them from a point of view of self-interest, nationalism, we don’t have the big picture in our minds.
Meditation helps to create the big picture. It helps to create not only a more compassionate and spiritually oriented set of values. Society has become excessively materialistic in its values, we’ve lost touch with an interiorized value system, you need only to look at this financial crisis. So we need to open our minds and hearts and meditation gives us the potential to develop a whole new kind of consciousness to deal with our man-made problems.

What are the differences?
Well the differences are particular to every religious tradition. If you were to ask what makes meditation Christian I would say first of all our faith in Christ. We are in the Easter season, we believe that Christ has risen and that He dwells within us and among us. So that faith, it might be well developed, it might be very small, it might be like a seed, but I believe that some kind of seed of faith is necessary. It is also Christian because we meditate within a historical tradition. There is a lineage, I mentioned the teaching of Jesus on prayer, but there is a whole Christian tradition between then and now.
We also come together to meditate. Where two or three gathered in His name, He is there. Here in Portugal we have many weekly meditation groups that meet in people’s homes, churches, schools, hospitals, prisons. This coming together represents the mystical body of Christ.
We also practice other parts of the Christian tradition. Pilgrimages, reading scripture, the Eucharist, the sacraments, all the other spiritual forms of life we have developed, these are part of the whole picture. These are some of the elements that make meditation Christian, but at the same time it is universal, like Christ, a particular person but a universal person.

You belong to a cloistered religious order, yet you travel frequently and write publicly… does this make meditation harder?
Well I have to balance it. In between my travels, I take some time for quiet. Of course I have my community as well, that I go back to, and it’s very nourishing and stabilizing.
I also take time for solitude, I think I need perhaps a little more in order to balance the time spent travelling.
It’s true, I travel a lot, I came from London today, I arrived at the airport, my friends from the Portuguese meditation community met me at the airport so I was immediately in the community. These next few days we will be meditating three or four times a day together, so it is travelling, but it is really like travelling in a monastery without walls.

What advice would you give to somebody who is interested in starting meditating?
Trust your own instinct. If you feel drawn to it, interested in it, don’t just think about it and don’t just read about it but practice it. You will learn more from practice than study and reading.
Secondly try to connect with a group, a community, other people on the same path, because that will help you immensely to strengthen your own practice.
Try not to evaluate your progress. Everything else in life today, we are being evaluated, judged or compared to others. This is one aspect of our life in which we don’t need to be evaluated or judged in any way. If you get that clear in your mind when you start, you’ll find it is a simple path, most people will start with some enthusiasm, many of them will stop after a few days, weeks or months, and then they will start again. So be patient, don’t give up, but if you do give up, come back.
Saint John Cassian
And be gentle but serious about it. This is a gift that is so precious, simple and free, there is no pill that can compare to it. There is no qualification or worldly success that can compare with this experience of yourself as a spiritual being, held in the love of God. This is what our life is about, and it is not complicated.
Meditation is not a technique. When you begin it may feel like a technique, that you are not very good at it, and that you are failing. You have to go through that period and realise that it is not about mastering a technique or understanding a lot of theory, it is about something so simple and immediate, it is about being yourself.
It is a discipline of love. All love has an aspect of discipline. You’ll grow into that and you’ll experience it for yourself.
At the beginning of this Christian tradition of meditation there was a monk called John Cassian who said that “experientia magistra”, “experience is the teacher”, so just be open to the experience.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Publicidade


A partir de hoje, como alguns terão reparado, o blogue passou a ter publicidade.

Poderia pôr-me com rodeios, mas a verdade é que o dinheiro faz falta para o orçamento familiar e esta é mais uma forma de combater a crise. Faço isto por gosto e por interesse profissional, mas não deixa de dar trabalho, e se puder ser remunerado por isso, melhor.

Se escrevo esta justificação é mais no sentido de avisar que não sou eu quem controla os anúncios que aparecem. Espero sinceramente que nunca surjam anúncios ofensivos, nem é natural que assim seja, porque a publicidade costuma ter em conta o conteúdo do site, mas se acontecer terei de repensar o assunto.

Mas é possível que apareçam anúncios proselitistas, por exemplo. Sobre isso recordo que embora este blogue seja meu e por isso seja influenciada pela minha orientação religiosa, e não só, sobretudo nos artigos de opinião, ele é acima de tudo um instrumento que tem por objectivo tratar e analisar o fenómeno religioso de uma perspectiva jornalística e não catequética. Logo, se surgir um anúncio a convidar-vos a conhecer melhor o Islão, ou a divulgar o “Maior site de namoro evangélico”, duvido que alguém se ofenda.

Obrigado pela compreensão!

Filipe d’Avillez

Fé e Luz, partidos religiosos e as "coisas que os povos amam"

Nestes dias foram publicadas três reportagens sobre o movimento Fé e Luz, que trabalha com pessoas com deficiência mental e as suas famílias. Para além de servir de apoio, o movimento procura estimular a espiritualidade destes “amigos especiais”, como são conhecidos.


Se alguém estiver interessado em conhecer melhor este movimento deve contar Alice Cabral: caldeiracabral.alice@gmail.com

De resto soubemos hoje que a Líbia pretende proibir os partidos de natureza religiosa. Adivinhem que não gostou da ideia?


Ontem, como é hábito, foi publicado o artigo semanal de The Catholic Thing. Este fala sobre o problema da crise demográfica, que afecta também o mundo islâmico. “Os povos falham porque amam as coisas erradas”. Será assim?

E por fim, muitos de vós terão recebido, como eu, um e-mail a alertar para a perseguição dos cristãos na índia por parte de “Budistas extremistas”. É um e-mail falso, em vez de o reencaminharem ou de se preocuparem, leiam e divulguem esta clarificação.

Notícia falsa sobre cristãos e budistas na Índia


Há vários anos que circula um e-mail a dar conta de um ataque iminente aos cristãos da Índia.

Segundo o e-mail, que alegadamente é oriundo do superior dos franciscanos na Índia, um grupo de “Budistas extremistas” está prestes a lançar um ataque em massa contra os cristãos, queimar igrejas etc. Etc.

Já recebi o e-mail diversas vezes, mas como parece que agora está a fazer uma nova ronda, aproveito para explicar que é completamente falso.

Para começar, na índia o número de budistas é totalmente residual, apesar de a religião ter nascido lá. Depois, se há alguém que não ameaça os cristãos na Índia são os budistas.

O facto deste e-mail ser falso é grave, porque causa alarmismo desnecessário e mancha a reputação de um grupo religioso, mas não quer dizer que todos os cristãos estejam livres de perigo naquele país. Os cristãos na Índia sofrem duras perseguições, pelo menos nalguns Estados. Ficaram famosas as perseguições no Estado de Orissa há alguns anos.

Por isso se querem rezar pelos cristãos na Índia fazem muito bem, mas não dêem seguimento a este e-mail, por favor.

Filipe d’Avillez

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Morte das Civilizações Segundo Goldman


Matthew Hanley
Uma pergunta de algibeira para aqueles de vocês que, provavelmente em minoria, compreendem que o mundo praticamente inteiro está ameaçado por uma implosão demográfica, mesmo enquanto muitos continuam a falar do sobrepovoamento e os custos para o “sistema” que podem ser evitados prevenindo gravidezes.

Para dar apenas um exemplo, hoje na Grécia há apenas 42 netos por cada cem avós. Parece que é verdade que é preciso uma aldeia para educar uma criança, mas a este ritmo essas aldeias não vão sobreviver muito mais tempo.

Mas vamos à pergunta: Qual é o país que está a passar pela maior queda de fertilidade alguma vez registada na história do mundo? Adoraria prolongar o suspense, mas vou directo ao assunto. É o Irão. Muita coisa se deve passar naquele país muçulmano para justificar uma queda do índice de fertilidade para um nível tão europeu de 1,5 crianças por mulher.

Em 1970 as mulheres iranianas tinham em média sete filhos. Uma queda tão abrupta – mais de cinco filhos por mulher – em tao pouco tempo, é como se uma frente fria acabasse de chutar o Inverno demográfico para os trópicos.

Este é apenas um ponto interessante do novo e estimulante livro de David P. Goldman: How Civilizations Die (And Why Islam is Dying Too) [Como Morrem as Civilizações (e Porque o Islão Também Está a Morrer)]. Os países islâmicos, tal como o Ocidente e o Japão, estão a optar pelo declínio, como muitos outros povos e civilizações fizeram antes deles.

Santo Agostinho acreditava que “para descobrir o carácter de um povo, temos apenas de observar o que amam”, era esta a sua explicação para a queda de Roma e, na verdade, qualquer nação. Goldman concorda e acrescenta: “os povos falham porque amam as coisas erradas.”

Segundo ele o Irão, consciente do seu declínio, é como um “animal ferido” – perigoso e instável. Antevendo a sua queda ou mesmo extinção, pode ter mais tendência para atacar, sentindo que não tem nada a perder.

Mas a análise de Goldman é mais do que uma hábil mistura de estatísticas e considerações geopolíticas. Abrindo novos horizontes para o pensamento, mesmo para aqueles que à partida simpatizam com os seus argumentos, chega ao coração da matéria: as influências espirituais da implosão demográfica.

A organização das nossas culturas secularizadas, apesar de todos os confortos, não satisfaz as nossas necessidades mais básicas: “Quando os homens e as mulheres perdem o sagrado, perdem a vontade de viver.” Isto porque as nossas vidas precisam absolutamente de um sentido que transcenda a vida.

Talvez seja essa a razão pela qual ele chama à implosão demográfica não só “a notícia mais sub-divulgada dos nossos dias”, mas também “o elefante na sala”. É mais difícil falar das coisas mais profundas, mesmo que sejam também as nossas mais prof-undas necessidades.

Goldman atribui a queda demográfica de hoje a uma “Perda de Fé”, a que chama o quinto cavaleiro do apócalipse (os outros são Guerra, Praga, Fome e Morte): “À medida que as sociedades tradicionais dão lugar à modernidade, a fé e a fertilidade desaparecem em conjunto.”

Os níveis epidémicos de suicídio entre povos indígenas da América, desde os Inuit do Canadá aos Guarani da América do Sul, são outra triste manifestação desta profunda deslocação.

O colapso do Irão não é tão diferente assim, argumenta, de aquilo que se passou com comunidades étnicas que em tempos se identificaram fortemente com a fé católica.

David P. Goldman
Os indices de fertilidade no Quebec, que durante muitos anos foram substancialmente mais elevados que o resto do Canadá, caíram mais de dois terços em menos de uma geração, durante a transição para a modernidade. Em 1982 mais de 42% dos homens e mulheres tinham sido esterilizados.

O índice de fertilidade da Polónia – “a nação cuja fé e heroísmo venceram a Guerra Fria” – atingiu agora o ponto incrível de 1,25. A Espanha passou de ter o mais alto índice da Europa ocidental, de longe, nos anos 70, para o mais baixo, em menos de 20 anos.

A conclusão de Goldman é que a religião, quando se confunde com etnicidade – com o sangue e a terra e noções de estatuto de eleição divina – conduz mais frequentemente a conflitos e tende a ser mais frágil perante a modernidade, sobretudo quando comparada com a religião baseada na consciência individual. Isto compõe grande parte da sua discussão sobre a cultura islâmica – “tribalismo elevado a um princípio universal” – mas também ajuda a explicar as significativas diferenças entre a Europa e a América, apesar da herança cristã comum.

O índice de fertilidade na América – que ronda o nível de subtituição – não é tanto um indicador de saúde como um período de graça. Estamos ainda em crescimento, e capazes de nos mantermos, enquanto que a Europa e o Japão estão-se a aproximar de um “ponto sem retorno”. Em 2050, no Japão, haverá apenas metade do número de potenciais mães que existem hoje.

No início deste ano um relatório indicava que mais de metade das crianças de mulheres americanas com menos de 30 anos nasciam fora do casamento. As implicações exactas desta grande cisão no equilíbrio humano são uma questão a debater. Mas no fim de contas toda a “dignidade e equilíbrio” da vida humana depende “em cada momento da história e em todos os pontos geográficos, de quem ela (mulher) será para ele (homem) e ele para ela”, como argumentou João Paulo II em 1980, declarações que viriam a fazer parte da sua “Teologia do Corpo”.

Talvez o já falecido Cardeal Dulles, que Goldman cita, tenha tido razão quando se mostrou preocupado de que o resíduo cristão na América pudesse não ser suficientemente forte para resistir às forças de secularização que tomaram conta da Europa.

Sem ligações ao passado nem confiança no futuro, indivíduos presos numa cultura moribunda “embrutecem os seus sentidos com álcool e drogas” e, num estado de desencorajamento, “abraçam a morte na infertilidade, concupiscência e guerra.”

O salário do pecado, escreve São Paulo, é a morte. O reverso disto contém outro truísmo: o conhecimento da morte, sem fé no dom da vida eterna, leva as pessoas e as culturas a pecados maiores.

O que precisamos mais de tudo neste tempo, em que o pecado e o stress, o desespero e a decadência abundam, é fé no conhecimento de que superabunda a graça.


Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. O seu mais recente relatório, ‘The Catholic Church & The Global AIDS Crisis’ está disponível através do Catholic Truth Society, editora da Santa Sé no Reino Unido.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 19 de Abril 2012 em http://www.thecatholicthing.org/)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Freiras mal comportadas e "aquele país não é para Islão"

A Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente uma organização que representa as religiosas americanas. São acusadas de erros doutrinais, silêncio em relação a questões fundamentais e até “feminismo radical”.

Na Alemanha, logo no arranque de um congresso sobre o Islão, um deputado conservador decidiu dizer que essa religião “não tem lugar”, no país.

Já subiu para 35 o número de tibetanos que se imolaram pelo fogo em protesto contra a China. Para além das últimas duas vítimas, de ontem, circulam imagens de um homem que é espancado pela polícia enquanto ainda está a arder. São imagens chocantes, que pode ver aqui.

O mundo tem-se revoltado ultimamente contra o Paquistão e a sua lei da blasfémia. O mundo, como que diz… no Kuwait acham boa ideia e querem copiá-la.

E pelos vistos há pessoas que têm uma imagem do Festival da Eurovisão ainda pior que a minha. São os islamistas do Azerbaijão, que ameaçam os participantes com ataques.

Ontem não pude enviar mail, mas a principal notícia é sem dúvida a aprovação de normas para lidar com casos de abusos sexuais na Igreja portuguesa.

Para este fim-de-semana fica uma recomendação cultural. Uma visita por Lisboa passando pelos locais mais importantes ligados ao Judaísmo, guiada por Susana Bastos Mateus. Começa às 15h nas Portas do Sol e custa 15 Euros.

Deve ser muito interessante, eu não posso ir porque trabalho no fim-de-semana. Por essa razão folgo na segunda e terça. Como quarta é feriado, voltarei no dia 25. Não se esqueça que pode ir acompanhando as principais novidades no nosso grupo do Facebook.

David contra Golias, nas montanhas do Tibete

No Tibete já vamos em 35 pessoas que se auto-imolaram pelo fogo, em protesto contra a ocupação chinesa.

Esta é uma luta entre um David e um Golias que parece ser ainda mais condenado ao insucesso que a história bíblica.

35 pessoas regaram-se com gasolina e pegaram fogo ao seu próprio corpo... a maioria morreu, algumas eram apenas adolescentes. Haverá aqui certamente um grande peso religioso do Budismo, que não encara o suicídio da mesma maneira que as religiões cristãs, mas temos que pensar, o que é que isto nos diz sobre o estado psicológico daquele povo? É terrível.

Mais terrível é saber que num dos casos recentes as autoridades chinesas não se limitaram a apagar as chamas... não, sentiram ainda a necessidade de espancar o homem que se tinha incendiado e que mais tarde viria a morrer.

São imagens absolutamente trágicas. Não se vê nada em grande detalhe, mas comove e choca. Fica o aviso.



Sobre este tema já escrevi anteriormente, aqui.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Feriados e tradicionalistas... estamos quase lá!

Não é definitivo, mas em 24 anos, nunca esteve tão próxima a reunificação entre os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X e Roma. Pode ser uma questão de dias. Este assunto, e outros, estarão em discussão no debate de esta noite da Renascença, a ouvir depois do noticiário das 23h00




Porque hoje é quarta-feira temos um novo artigo de The Catholic Thing. Randall Smith escreve sobre a necessidade de conhecermos a fundo a fé e os ensinamentos da Igreja.

O Amor Anseia Conhecer o Amado

Randall Smith

Sugeri anteriormente neste site que aquilo em que acreditamos – o conteúdo da nossa fé – é importante, não porque existe um exame de teologia para entrar no Céu, mas porque a fé cristã é a resposta a uma pessoa e o amor, pela sua própria natureza, anseia conhecer o amado.

Há dias soube de um exemplo que ilustra bem esta questão. Um amigo que é professor de Filosofia estava a ler o Comentário Literal ao Genesis, de Santo Agostinho, uma obra notoriamente complexa, quando um dos seus alunos perguntou, de forma típica para um estudante: “Mas afinal de contas o que é que isto interessa?”

Ao que o meu amigo retorquiu: “Amas Deus?”. “Sim”, respondeu o aluno, surpreendido. “Então escuta”, disse o meu amigo, “Talvez tenhas a sorte de te casar. E se esse dia chegar poderás encontrar-te a ter uma discussão com a tua mulher, ela dirá alguma coisa e tu responderás: ‘não percebo’. Ela tentará explicar-se melhor e, provavelmente, dirás algo do género ‘Mas o que estás a tentar dizer é isto?’, e ela dirá: ‘Não, não é nada disso’”.

“Agora”, continuou o meu amigo, “tens duas hipóteses. Podes dizer ‘Mas afinal de contas o que é que isto interessa?’, ou podes escolher não ser um idiota. Acredita, isto interessa.”

Foi por razões deste género que Santo Agostinho tentou, várias vezes (mais precisamente quatro), escrever um bom comentário ao Genesis. Para ele era muito importante tratar bem o assunto, sem dúvida porque ele acreditava que o Genesis é a palavra de Deus e importava compreender o que Deus estava a tentar transmitir com essas palavras.

Pela mesma razão, se nós, enquanto católicos, acreditamos que o Espírito Santo continua a ensinar através do Magistério da Igreja, então devemo-nos interessar em compreender correctamente essas palavras.

No meu trabalho enquanto professor de Teologia conheço muitas pessoas e oiço muitos “pseudo-respostas”, como eu lhes chamo, aos ensinamentos da Igreja. Há vários tipos diferentes.

O primeiro género baseia-se na total ignorância. Uma pessoa diz: “Discordo totalmente do ensinamento da Igreja em relação a X!”

“Já leste a documentação sobre esse assunto?”

“Claro que não, porque tenho a certeza que não iria concordar.”

De certeza? Quantas vezes não teve a experiência de conhecer alguém que só tinha ouvido falar de si através das conversas que outros têm por detrás das suas costas? “Não gosto das coisas que diz e que faz”, diz-lhe essa pessoa. Mas depois de alguma conversa descobre-se que não fez nem disse nada daquilo que ele pensa que você fez ou disse. Essa pessoa tinha odiado uma ilusão.

Santo Agostinho
É igual com a Igreja. Frequentemente, quando as pessoas me descrevem um ensinamento particular da Igreja que odeiam, acabo por ter de lhes explicar que na verdade a Igreja não ensina nada disso. Já conheci pessoas que não são católicas, e que admitem que não sabem absolutamente nada sobre o Catolicismo, mas que insistem que a Igreja ensina isto ou aquilo, quando na realidade não o faz. Os preconceitos são difíceis de combater.

O segundo tipo de pseudo-resposta aos ensinamentos da Igreja baseia-se numa ignorância parcial e resulta na deturpação desses ensinamentos em direcções predeterminadas.

Por exemplo, a Igreja ensina que a propriedade privada é um elemento importante para o florescimento da humanidade. O que algumas pessoas ouvem é que a Igreja ensina que a propriedade privada deve ser defendida a todo o custo. Errado.

Por exemplo, a Igreja prega o destino universal dos recursos humanos. Sim. Mas o que alguns ouvem é que a Igreja defende que os programas de redistribuição estatais são moralmente obrigatórios. Errado.

Na verdade, a Igreja ensina tanto o valor da propriedade privada como o destino universal dos recursos humanos.

Das duas, uma: Podemos tentar distorcer os ensinamentos da Igreja para se adequarem às nossas predisposições, ou podemos tentar perceber o que a Igreja verdadeiramente ensina. Requer esforço. Os preconceitos são difíceis de combater.

Na América, quando se é conservador, a tendência é de dizer sim aos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual, mas não aos ensinamentos sobre justiça social. Quando se é liberal, acontece o contrário. Quando o Magistério diz aquilo que queremos ouvir, consideramos os bispos “proféticos”, quando ensina aquilo de que não gostamos, dizemos que são velhos alheados da realidade.

As pessoas perguntam, “Mas o que é que uma série de padres sabe sobre isto ou aquilo?” Pode-se preencher com qualquer tema: sexo, economia, guerra, política, ciência e tecnologia, como bombardear uma cidade, etc. Para começar, digamos que a sua sabedoria colectiva é muito como a da sua mãe: provavelmente maior do que você pensa. Mas não confiamos na sabedoria dos bispos só por si, confiamos na promessa que Cristo fez de que estaria com a sua Igreja até ao fim dos tempos, e que enviaria o seu Espírito Santo para a guiar e proteger.

Se gosta da sua mãe, procurará saber o que ela diz, e toma atenção à forma como o faz para compreender as suas verdadeiras intenções. Quando ela insiste que algo é verdadeiramente importante, não o entendemos como uma “recomendação”, e quando diz que uma coisa “seria simpática”, não o interpretamos como um mandamento divino.

É o mesmo com a Igreja, se estiver a ouvir porque se interessa verdadeiramente pelo que está a ser transmitido, então não transforma o aborto, por exemplo, em só mais uma questão, para depois tratar a energia alternativa como um mandamento de Deus. Bem como, se ama a sua mãe e se tem um mínimo de bom senso, não lhe dá uma palmadinha nas costas quando ela lhe diz algo importante, respondendo com um “sim, sim, mãezinha, tão querida e antiquada”.

Todos nós ouvimos de forma selectiva e, por vezes, ouvimos só o que queremos. Mas se a Palavra vai fazer uma diferença nas nossas vidas, então as palavras que Ele nos transmite têm de ser importantes para nós também. O amor anseia compreender o amado.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 15 de Abril 2012 em www.thecatholicthing.org)

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Tradicionalistas respondem “Sim”, segundo imprensa italiana

Fim da cisão com a Sociedade de São Pio X, fundada por Lefebvre, poderá estar por dias. Este é um projecto pessoal de Bento XVI.

Filipe d’Avillez


A reunificação entre a Sociedade de São Pio X (SSPX) e o Vaticano pode estar prestes a ser anunciada. Segundo o jornal italiano La Stampa, a resposta dos tradicionalistas já chegou a Roma e é positiva.

A SSPX está num estado de ruptura com o Vaticano desde 1988. Os seus padres e quatro bispos rejeitam alguns dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, bem como a reforma litúrgica, e a cisão com Roma consumou-se quando o seu fundador, o Arcebispo Marcel Lefebvre, ordenou quatro bispos sem autorização do Vaticano.

Desde a sua eleição, Bento XVI tem feito esforços para tentar sanar a ruptura. Depois de alguns anos de conversações o Vaticano apresentou a Bernard Fellay, o superior da SSPX, um “preâmbulo doutrinário”. Caso Fellay assine o documento o Vaticano oferecerá uma estrutura autónoma que permita aos tradicionalistas agir com liberdade e sem interferência dos bispos diocesanos dos países em que têm membros.

Segundo o vaticanista Andrea Tornielli, do jornal La Stampa, a resposta de Fellay já terá chegado ao Vaticano e é positiva. Fellay poderá ter proposto algumas ligeiras alterações ao documento que lhe foi apresentado, mas que não alteram substancialmente o seu conteúdo. A resposta deverá agora ser estudada por Roma que poderá em breve anunciar o fim da cisão com os tradicionalistas e explicitar a estrutura que lhes será oferecida no seio da Igreja.

Para além de quatro bispos, a SSPX conta nas suas fileiras com cerca de 500 sacerdotes, bem como 200 seminaristas e algumas centenas de religiosos. Os fiéis leigos rondarão as centenas de milhares.

Não é certo, contudo, que todos os membros acompanhem o superior no regresso a Roma. Pelo menos um dos bispos, o inglês Richard Williamson, é tido como ferozmente anti-romano e deverá permanecer fora da Igreja Católica, à frente de um grupo de “ala dura” que não aceitam submeter-se novamente ao Papa.

Para além das notícias que circulam na imprensa italiana não há, por enquanto, qualquer confirmação oficial por parte de Roma ou da Sociedade.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Família, educação e Guiné

Decorreu hoje uma conferência sobre a família, na Universidade de Lisboa. O principal orador foi o Cardeal Antonelli (na imagem), que culpa uma sociedade libertária e relativista pela desvalorização da família.


Entretanto os bispos portugueses continuam reunidos em Fátima. Ontem o Patriarca, presidente da CEP, pediu “equidade e justiça no combate à crise”.

Os bispos também estão preocupados com o estado do ensino superior, que temem estar a tornar-se demasiado elitista.

Por falar em educação, fica o desafio lançado a todos os que possam para ir ouvir o responsável dos jesuítas em Portugal, o Pe. Alberto Brito, a falar do tema “Educar para quê?”. A conferência é organizada pelo sector de Cascais das Equipas de Nossa Senhora e integra-se no tema do ano “Educar na Esperança”. A não perder, na Igreja de Santo António do Estoril, às 21h30

A não perder!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

85 anos de Bento XVI, tradicionalistas e igrejas de papel

Sarajevo... com cada vez menos cristãos

Esta é uma semana importante para Bento XVI. O Papa cumpre 7 anos no trono de Pedro na quinta-feira, mas hoje celebra 85 anos de vida.




E finalmente, sobretudo para quem se interessa por arquitectura religiosa, já imaginaram uma catedral de cartão? Vai ser construída na Nova Zelândia. Podem ver mais fotos aqui.

O papel da igreja na Nova Zelândia - literalmente

A nova catedral da cidade de Christchurch, que sofreu um sismo devastador em 2011, vai ser feita essencialmente de cartão.

O arquitecto é Shigeru Ban, que se especializa neste género de obras, e já construiu pelo menos uma igreja com este material, que podem ver nas fotos que se seguem.


A igreja foi construída para a cidade de Kobe,
arrasada por um sismo em 1995

A estrutura "temporária" acabou por
ser usada durante uma década

Ao fim desse tempo foi doada e encontra-se agora no Taiwan.
A estrutura original foi erigida por 160 homens em 5 semanas
A nova catedral de Christchurch tem a vantagem de ser ecológica e económica, como realça um porta-voz da cidade. 


Estes projectos permitem perceber como ficará a estrutura quando estiver finalizada:






Filipe d'Avillez

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um presente tradicional para Bento XVI?

Quatro bispos, 500 padres, 200 seminaristas, 280 religiosos, 88 escolas, duas universidades e algumas centenas de milhares de fiéis.

É este o presente que está a ser preparado para os 85 anos de Bento XVI?

As indicações apontam nesse sentido. Um artigo publicado na edição de hoje de Le Figaro, da autoria do seu especialista em assuntos religiosos, garante que o Vaticano e a Sociedade de São Pio X (SSPX) estão a dias de anunciar oficialmente a reconciliação.

O último passo neste processo foi a resposta enviada pela Sociedade ao Vaticano, no decorrer de um já longo percurso de diálogo. A ser positiva, poderá ser anunciada a reintegração da SSPX no seio da Igreja Católica, de onde anda afastada desde 1988.

Bento XVI investiu fortemente neste processo de reconciliação. O Vaticano pediu à Sociedade que enviasse a sua resposta até domingo, dia 15 de Abril. O que é que acontece a dia 16? Bento XVI faz 85 anos.

Poderá parecer exagerado que tudo isto esteja a ser preparado para ser anunciado no dia de anos do Papa? Ou pelo menos para ficar resolvido nessa altura? Talvez seja. Mas seria um belo presente.

Os contornos de um eventual acordo não são ainda conhecidos. Tudo indica que a Igreja oferecerá à Sociedade uma estrutura autónoma, ao estilo de uma prelatura pessoal, como tem o Opus Dei. Isso é essencial para a SSPX, para poder agir sem interferência dos bispos diocesanos, muitos dos quais, sobretudo na Europa, não são favoráveis à sua reintegração e, ainda por cima, não fizeram grande questão de o esconder.

Em troca, a Sociedade aceitaria os termos de um Preâmbulo Doutrinal que lhe foi apresentado pelo Vaticano o ano passado e cujos termos são secretos. Não se sabe se depois de uma resposta inicial que, não tendo side explicitamente negativa, deixou pelo menos dúvidas suficientes para que o Vaticano requisitasse outra mais clara, esse preâmbulo sofreu alterações. Certo é que tem havido muitas negociações informais entre as partes nas últimas semanas para tentar chegar a um ponto em que fosse possível estabelecer um acordo.

Esse acordo dificilmente passará por uma aceitação simples de todos os aspectos do Concílio Vaticano II que até agora tinham sido rejeitados pela Sociedade, nomeadamente a liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso, o ecumenismo e a reforma litúrgica. É provável que em pelo menos alguns destes aspectos seja permitido à Sociedade manter as suas reservas. Fazendo uma comparação simples, os bispos da SSPX que são contra o ecumenismo estariam numa situação parecida com os actuais bispos liberais que, também contra os ensinamentos do magistério, defendem publicamente a ordenação de mulheres.

A consumar-se esta reunificação, ficam ainda duas grandes questões. Em primeiro lugar, que efeitos é que isto terá na SSPX? A sociedade está presente em vários países. Nem todos estão de acordo em relação ao diálogo com Roma. É mais que natural que haja uma boa secção da Sociedade que rejeite a oferta do Vaticano e que acabe por se separar da SSPX para se poder manter fora de Roma. É quase um dado adquirido que um dos quatro bispos ficará de fora. Trata-se do inglês Richard Williamson, cujas posições anti-semitas e negacionistas do holocausto, tornadas públicas pouco depois de Bento XVI ter levantado a excomunhão que pendia sobre os quatro, foram um grande embaraço para o Papa. Williamson nunca escondeu o seu ódio por Roma e desde esse incidente tem sido colocado nas margens da SSPX pelo actual dirigente, Bernard Fellay.

Richard Williamson
A outra questão é saber que efeito terá em França. O país que atravessa uma das maiores crises, em termos religiosos de toda a Europa, é também aquele em que a SSPX tem maior presença e influência.

Apesar de um aumento de padres conservadores na Igreja Católica actual, o episcopado francês é bastante liberal e o peso da SSPX no seu quintal não tem facilitado as relações. Uma abertura dos portões de Roma poderá ser entendido como uma traição por partes da Igreja institucional francesa.

Tudo isto depende, claro está, de uma resposta positiva. Sobre isso há apenas, por enquanto, especulações. A única coisa que é mesmo certa é que Bento XVI completa 85 anos na Segunda-feira.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Corrupção em Timor, silêncio tradicionalista

O Patriarca de Lisboa fez ontem um discurso sobre a missão da Renascença. Como tende a acontecer quando fala de improviso, D. José Policarpo foi simples, muito simpático e divertido.

Menos positivo foi o Bispo de Baucau, em Timor-Leste, que falou da existência de corrupção no seu país.

Do Irão chega-nos uma notícia preocupante de 12 cristãos que foram detidos e poderão enfrentar a pena de morte se forem condenados por “crimes contra a ordem pública”.

Faltam quatro dias para que a Sociedade de São Pio X faça chegar a Roma a sua resposta em relação à proposta de reintegração plena na Igreja Católica. Ao contrário de prazos anteriores, este não tem sido antecedido de comentários públicos por parte dos bispos da Sociedade. No meu entender, isto pode ser bom sinal.

E porque hoje é quarta-feira temos um novo artigo de The Catholic Thing. “Nesta curta vida temos duas hipóteses. Andamos à volta da igreja, ou andamos em direcção a ela”, escreve Ashley McGuire, curiosamente a primeira mulher que figura nos artigos deste site que traduzimos até agora.

Marchemos, meus irmãos católicos

Texto de Ashley McGuire
Há quatro anos, na manhã de Páscoa, despertei de um sonho com suores frios.

Estava a andar no meio de uma multidão, sem conseguir ver nada para além das pessoas que me apertavam de todos os lados. Não via para onde íamos, apenas sabia que andávamos à volta de alguma coisa num grande círculo. De repente parei e, contrariando o fluxo, fui em direcção ao centro.

Quando cheguei a uma clareira vi-me frente-a-frente com um ancião, sentado em cima de uma rocha. Era a única coisa que se encontrava ali.

Chamou-me pelo meu nome e perguntou-me se eu sabia quem ele era. Respondi: “És um discípulo de Cristo. És Pedro.” (Já na altura não fazia a menor ideia de onde me tinha vindo essa resposta.)

Respondeu, “Sim. E chegou a hora de vires comigo.”

Acordei exaltada. Horas mais tarde encontrava-me nos bancos de uma igreja protestante, com os pensamentos à deriva no meio de uma homilia pascal. Peguei na Bíblia e abri-a em Mateus 16,18: “Tu és Pedro e sob esta rocha edificarei a minha Igreja.”

Exactamente um ano mais tarde tornei-me católica.

Há alguns domingos, enquanto atravessava a Pennsilvania Avenue em Washington, D.C. para entrar numa igreja com o meu marido ao meu lado, o vento fez esvoaçar a blusa à volta da minha barriga, inchada com nova vida.

Os transeuntes tinham o olhar cansado e vago de uma noite de excessos. Havia lixo no passeio. Tanto as pessoas como os papéis atravessavam à frente da porta da Igreja, soprados lentamente pelo vento, como se aquela nem lá estivesse, sem qualquer destino concreto.

Por breves instantes senti-me de volta ao meu sonho, um pé suspenso por cima da passagem de peões, a minha bainha a subir lentamente em direcção às portas. O vento também me tentava empurrar, mas tinha o olhar fixo em São Pedro e na sua Rocha.

Era Domingo Laetare. A missa era da comunidade filipina, o padre era africano, duas mulheres traduziam os cânticos para língua gestual. A Igreja Universal. Apertada entre o mercado e a loja de ferragens. As leituras versavam uma das aparentemente incontáveis destruições deste ou daquele templo. O padre recordava-nos que cada vez que sentíamos o aperto do nosso sacrifício quaresmal, dávamos mais um passo em direcção a Cristo.

Nesta curta vida temos duas hipóteses. Andamos à volta da igreja, ou andamos em direcção a ela.

É assim tão simples. Ou caminhamos atrás de Cristo, a sacudir os demónios que pousam sobre os nossos ombros, sob o peso terrível do pecado. Caindo ao chão para sentir o sabor do Sangue. Um doce toque da Carne. Ou estamos de pé, nas margens, a observá-Lo.

No passado fim-de-semana, durante o Tríduo Pascal, os católicos americanos fizeram uma pausa de todo o caos da discussão do decreto da HHS [que visa forçar instituições católicas a suportar o custo de serviços contraceptivos e abortivos para os seus funcionários] para permanecer aos pés da Cruz. Ficámos lá num silêncio tão profundo que alguns conseguiam ouvir o madeiro a ranger no vento.

Naquele espaço de tempo entre a Quaresma e a oitava da Páscoa em que nos encontramos agora, o tempo fica suspenso e agarramo-nos à Cruz. Sentimos as suas farpas na nossas face molhada. Dormimos sonos irrequietos enquanto os agentes de Satanás, com as suas memórias truncadas, pensam por uma questão de horas que a vitória lhes vai sorrir.


E depois regozijamos na glória da Páscoa. O sepulcro está tão vazio, o mundo tão cheio. A vida é novamente sensual. As nossas almas cheias.

E então chega a segunda-feira de manhã e o Cardeal Dolan está de volta à televisão a defender a Igreja contra o decreto da HHS e Ross Douthat recorda-nos da crescente polarização da religião na América.

O nosso “inbox” está zangado por termos tirado o fim-de-semana para seguir a Cristo na sua Via Sacra, de nos termos colocado ao lado da sua mãe enquanto Ele morria e festejado com as mulheres, carregadas de óleos, quando vimos que o seu corpo tinha desaparecido no Domingo de manhã.

Mas a Páscoa acaba, o mundo volta à carga. Satanás pega na sua arma chamada “mundano”.

Aconteça o que acontecer com este decreto da HHS, não nos esqueçamos que a nossa é uma Igreja que já sobreviveu a mais do que um abuso burocrático. Sobreviveu a séculos de guerra e perseguição. Viu os seus templos arrasados, reconstruídos e demolidos de novo. Sobreviveu até à fumaça de Satanás no seu seio.

Actualmente sobrevive a um período de grande descrença e hostilidade. De facto, prospera misteriosamente.

Por isso enquanto descemos do Calvário e regressamos ao tempo comum mais uma vez, encontraremos novamente os males diários que atravessam os nossos caminhos. Tal como o decreto da HHS.

Deixem-me ser clara. O decreto da HHS é talvez o mais grave atentado contra a nossa Igreja que alguma vez se viu na América moderna. Estes não são tempos comuns para os católicos americanos

Mas a nossa Igreja está edificada na mais eterna das rochas.

E as portas do Inferno não prevalecerão contra Ela.

Marchemos, então, meus irmãos católicos.


Ashley E. McGuire é directora da AltCatholicah.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 11 de Abril 2012 em www.thecatholicthing.org)

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