quarta-feira, 29 de julho de 2015

Batimentos Cardíacos e a Imaginação Judicial

Hadley Arkes
Estava de viagem quando um amigo me ligou a dar a notícia. Um painel de juízes do 8º Circuito Federal tinha deliberado sobre um projecto de lei do Dakota do Norte que proibia os abortos depois de haver “batimentos cardíacos detectáveis” no nascituro. (Trata-se do caso MKB Management v. Stenehjam)

Esta era uma das iniciativas pró-vida mais promissoras dos últimos tempos. Uma sondagem mostrava que 62% da população acredita que o aborto não devia ser permitido depois de haver provas de batimentos cardíacos. O que a maioria das pessoas não sabe é que com a tecnologia moderna isso é possível tão cedo como as seis semanas e meia, ou sete ou oito. E já ouvi dizer que com ecografias vaginais o batimento cardíaco pode ser detectado tão cedo como cinco semanas depois da última menstruação, ou seja, 22 dias depois da concepção. Isto é, mais ou menos na altura em que a mulher descobre que está grávida.

Contudo, não é o batimento do coração que marca o início da vida humana, essa é apenas parte do desenvolvimento de uma vida que já existe, gerando e integrando o seu próprio crescimento. Em todo o caso, se o teste dos batimentos cardíacos servisse como nova fasquia para o limite ao aborto é escusado dizer que isso teria efeitos dramáticos sobre a sua prática nos Estados Unidos.

Os três juízes federais que lidaram com o caso tinham sido nomeados por George W. Bush e aproveitaram a ocasião para afirmar que “existem boas razões para que o Supremo Tribunal reavalie a sua jurisprudência”. Elencaram então uma longa lista dos efeitos negativos do aborto sobre as mulheres que se submetem à intervenção: A ligação ao cancro da mama, infecções crónicas da bexiga, cancro cervical, histerectomia precoce, já para não falar da incidência de depressões sérias em muitos casos.

Mas o meu amigo, ao transmitir-me a notícia, não entendeu bem a questão. Estes juízes, nomeados por Bush, que são claramente pró-vida, estavam a lançar um apelo sincero para a revisão da decisão do Supremo Tribunal que legalizou o aborto em todo o país, mas estavam a fazê-lo depois de explicar que a jurisprudência actual do Supremo os obrigava a anular a lei que proibia abortos depois de detectados batimentos cardíacos. Com essa decisão, infelizmente, estes homens de grande reputação revelaram os principais pontos de vazio moral daquilo que hoje em dia é conhecido como “jurisprudência conservadora”.

O obstáculo é a questão da “viabilidade”. O Supremo Tribunal decidiu que a viabilidade ocorre cerca das 24 semanas da gravidez. Porém, há pouco tempo esse prazo era de 28 semanas. Nesta sua decisão, os juízes conservadores tiveram a sagácia para perguntar: “Como é que se compreende que o mesmo feto seria merecedor de protecção estatal num ano, mas no ano seguinte não?”

O Supremo Tribunal, argumentam, “vinculou o interesse do Estado pelos nascituros ao desenvolvimento da obstetrícia e não ao desenvolvimento dos próprios nascituros”. Por outras palavras, a definição de Ser Humano do tribunal depende da ciência da evolução da construção de incubadoras.

Neste ponto vemos que os juízes tinham na mão um argumento fulcral, mas não souberam o que fazer com ele. Insistem que a actual regra do Supremo Tribunal deve ter precedência, mas claramente a regra das 24 semanas não deriva do texto da Constituição, nem deriva da lógica inerente ao “direito ao aborto”. E é evidente que não está apoiada nos manuais de embriologia. Por que razão, então, devem os juízes ceder perante esse prazo que não tem qualquer valor jurídico ou científico?

Na verdade, já que falamos de “viabilidade”, David Forte tem dito que a existência de batimentos cardíacos é um dos indicadores mais seguros de viabilidade. “Na ausência de um desenvolvimento externo inesperado, uma vez que um feto chegou às cinco ou seis semanas e o coração começa a funcionar, é quase certo que ele ou ela continuará a desenvolver-se até ao fim”.

Nas litigações sobre o Obamacare os juízes liberais estavam mais que dispostos a invocar os propósitos da lei, mesmo quando estes contrariavam o texto da mesma. Os juízes conservadores podiam, neste caso, ter invocado a regra da viabilidade mantendo a lei do Dakota do Norte como uma medida que merecia verdadeiramente obrigar o Supremo Tribunal a reconsiderar as provas e a lógica por detrás da sua posição sobre a mesma viabilidade.

Podiam até ter feito mais do que solicitar ao Supremo Tribunal que revisitasse a sua jurisprudência, podiam tê-lo obrigado. Certamente outro tribunal de recurso, noutro circuito, anularia uma lei comparável, criando uma divisão entre os circuitos que obrigaria o Supremo a pegar no assunto.

Cá para mim, estes juízes foram aprovados e nomeados com base na promessa de respeitar as decisões do Supremo Tribunal sobre o aborto e abjurando a tentação de se tornar – cruzes, credo! – activistas. Isto é, prometeram purgar-se da imaginação e da coragem moral que são revelados todos os dias pelos seus colegas liberais e abdicar da lógica e do raciocínio que praticam noutras áreas das suas vidas.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 28 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Processo arquivados e padres afastados

MP arquivou processo contra padre Abel Maia
Ontem, mais ou menos na mesma altura em que eu estava a enviar o mail diário, o ministério público mandou arquivar o processo de alegados abusos sexuais de menores envolvendo um padre da arquidiocese de Braga. Hoje a arquidiocese anunciou que o padre Abel Maia continuará afastado do trabalho pastoral, a seu pedido, até recuperar psicologicamente. A cronologia de casos de abusos envolvendo a Igreja já foi, por isso, actualizada.

Foi reaberta, em Santarém, uma Igreja fundada pelos templários.

Chamo ainda atenção para o livro “Museus da Igreja” que foi apresentado ontem.

Não deixem de ler os dois artigos do The Catholic Thing que publiquei nas últimas duas semanas e, caso ainda não o tenha feito, leia o anterior que teve muito mais sucesso do que eu esperaria: Namoro na era da Pílula.

E se ainda não leu, não deixe de dar uma vista de olhos no meu texto de opinião sobre a reacção da esquerda à aprovação de alterações à lei do aborto e de como isso revela que para os fiéis da revolução sexual esta é uma questão religiosa mais do que racional.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A fúria dos fiéis da Igreja da Revolução Sexual

Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. A maioria anunciou que ia rejeitar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos “Pelo Direito a Nascer”, mas fê-lo só depois de ter roubado as principais propostas da ILC. O resultado é que a ILC foi retirada e as propostas da maioria aprovadas.

Este debate – e aliás todo o processo – revelou muita coisa, mas uma das coisas que mais deu para perceber é que quando a esquerda fala do assunto não o faz com a paixão de quem defende uma causa política, fá-lo com o fanatismo de quem defende um dogma. A triste verdade é que a revolução sexual é hoje uma religião e o aborto é o seu sacramento.

Já foi há uma semana, mas ontem não falei no assunto. Há mais um caso suspeito de abusos de menores em Portugal, praticado por um membro do clero. O caso, de Coimbra, está a ser investigado pela PJ. Esta quinta-feira actualizei, devidamente, a cronologia de casos de abusos de menores envolvendo a Igreja.

Chamo ainda atenção para os últimos dois artigos do The Catholic Thing em português. Randall Smith explica o que é a fé – de forma muito simples e útil, e o padre Schall conclui, com base num livro sobre uma equipa olímpica de remo, que “a transcendência passa pelo lar”.

O aborto como sacramento de uma nova religião

Isabel Moreira
 Fundamentalista religiosa
Foram ontem aprovadas alterações à lei do aborto. Nomeadamente:

- As mulheres que pensam abortar são agora obrigadas a fazer consultas de aconselhamento durante o período de reflexão;
- Algumas mulheres, as que não seriam isentas de taxas moderadoras de qualquer maneira, terão de passar a pagá-las para abortar;
- Os objectores de consciência passam a poder fazer consultas de aconselhamento.

A pergunta do referendo de 2007 foi esta:

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?"

Ou seja, não há aqui nada sobre as consultas de aconselhamento, nada sobre taxas moderadoras e nada sobre a exclusão de objectores de consciência de eventuais consultas de aconselhamento.

Contudo, ainda assim, a esquerda conseguiu vislumbrar na decisão de ontem uma “adulteração” do referendo. Segundo o expresso, as várias bancadas consideram que se trata de uma violação do “espírito” do referendo. São os tempos em que vivemos. Os fetos não têm direitos nem dignidade, mas os referendos têm espíritos (mas só alguns… o referendo de 1998 foi bastante menos espirituoso).

A questão dos objectores de consciência sempre me pareceu uma das maiores injustiças da actual lei (deixando de parte a óbvia injustiça que é o próprio aborto). Porque o que o Estado está a dizer quando exclui os objectores de consciência das consultas de aconselhamento é que as pessoas que acreditam que o aborto é um mal, e que por isso não o querem praticar, são de alguma forma incapazes de exercer outros aspectos da sua profissão e não conseguem sequer aconselhar mulheres em situações dramáticas sem tentar impor as suas crenças medievais.

O comunista António Filipe considera mesmo que a direita quer “transformar os objectores de consciência numa tropa de choque”. Mas se pensavam que o dramatismo se resumia ao menino do PCP que se veste à Bloco de Esquerda, enganam-se! Temos sempre a Isabel Moreira.

Não. Eu não vou fazer um post a destruir ou a criticar a Isabel Moreira. Isto porque embora eu possa discordar muito do aborto, sou um fervoroso defensor da liberdade religiosa e Isabel Moreira, nestes casos, está a agir claramente em defesa da sua fé.

Porque para quem ainda não percebeu, esta questão não é menos que uma questão religiosa. Toda a revolução sexual, que tanto mal tem feito às famílias, às crianças e às próprias mulheres que supostamente seriam as suas grandes beneficiárias, é hoje defendida com fervor religioso, contra todos os factos.

(Nesse sentido, permito-me regozijar no facto de que pelo menos a minha religião defende – e tem longa tradição de defender – que a fé não pode ser incompatível com a razão, coisa que aos fiéis da Igreja da Revolução Sexual não se aplica, mas crenças são crenças e temos de respeitar.)

E como qualquer religião que se preze, a Igreja da Revolução Sexual tem liturgias – ver aqui um exemplo recente e perturbador –, tem apologistas – ver Isabel Moreira –; tem doutrina (e por consequência considera hereges que não segue a ortodoxia) e tem sacramentos: o aborto*.

Só assim é que se explica a paixão com que pessoas como Isabel Moreira, mas não só, defendem algo que até recentemente os seus correligionários classificavam apenas como um “mal necessário”. Só assim se explica que, segundo a própria, a existência de consultas de aconselhamento, com o intuito de informar as mulheres daquilo que vão fazer e das consequências, é uma forma de “terrorismo psicológico sobre as mulheres” praticada por pessoas imbuídas de “maldade pura”.

Os fiéis desta igreja até reivindicam para os seus praticantes a isenção de impostos que tanto criticam nos outros credos. Mas porque razão as nossas irmãs têm de pagar taxas moderadoras quando são operadas a um tumor no útero, mas as nossas primas devem ser isentas quando optam por abortar?

Um dos problemas desta religião é que nem sequer é fiel à sua própria tradição. Hoje diz uma coisa, amanhã diz outra. Lembram-se quando nos pintavam a imagem da pobre mulher, forçada a abortar numa clínica de vão de escada, sozinha e sem apoio? Pois Helena Pinto critica precisamente que com as alterações à lei a mulher pode abortar, pode decidir, “mas não pode decidir sozinha”.

"Recebei Senhor este sacrifício das nossas mãos"
Eu lembro-me da campanha de 2007. Lembro-me que os adeptos do sim nos diziam que o aborto é uma coisa terrível, mas que pelo menos a mulher não deve ir presa e que o referendo era unicamente sobre isso: a descriminalização. Nem liberalização era! Apenas descriminalização.

Pois quem diria! É uma coisa tão terrível que os únicos que trabalham no terreno para ajudar as mulheres a não o praticar são “terroristas imbuídos de pura maldade” e os médicos que se recusam a desmembrar os nossos filhos, apenas porque a mãe, na sua sagrada autonomia o deseja (ou, o que é mais comum, porque os seus pais ou o seu parceiro a pressiona), são uma “tropa de choque”.

Sim, é verdade… A revolução sexual é uma religião, a nova religião oficial. E o facto de o PS deixar que Isabel Moreira seja a face visível da sua política neste campo diz tudo o que eu preciso de saber sobre esse partido, obrigado.

É que eu nunca gostei de partidos de inspiração religiosa.


*Caso seja um defensor do aborto e esteja irritado com o facto de eu o ter chamado um "sacramento" de uma nova religião, fique descansado que a equiparação não é original. Foi uma das vossas que o fez primeiro, eu limitei-me a roubar.

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Luz ao fundo do túnel para Asia Bibi

Já há luz ao fundo do túnel, mas
é preciso continuar a rezar por Asia Bibi
Depois de uma semana de férias estive os últimos dias a fazer horário nocturno e só hoje consegui voltar a este serviço. Mas trago logo uma boa notícia! A condenação à morte de Asia Bibi foi suspensa. Atenção que não foi anulada, mas sim suspensa. Finalmente há luz ao fundo do túnel.

O Papa Francisco recebeu ontem no Vaticano autarcas e governadores de várias cidades do mundo, pedindo que pressionem os seus países a fazer mais pela ecologia. Pode ser a última chance, disse Francisco.

A Sé de Lisboa vai ter obras para ser “espaço de memória viva” para a cidade.

Foram encontrados o que poderão ser os fragmentos mais antigos do Alcorão até à data. Uma descoberta muito interessante.

Desde a última vez que fiz este “apanhado” já foram publicados dois artigos do The Catholic Thing no blog, sempre às quartas-feiras. Na semana passada tivemos o belíssimo artigo de Randall Smith que explica, de forma muito simples, o que é a Fé e como afecta a nossa forma de ver o mundo. Hoje publicámos um artigo do padre jesuíta James V. Schall, que conclui que a transcendência “aprende-se” no lar, alertando nesse sentido para o perigo de se estarem a destruir os lares…

Atenção para quem vive em Setúbal ou arredores, ou quem estará de férias nessa zona na primeira semana de Agosto. O musical “Godspell” que fez sucesso em Lisboa há alguns meses vai ao palco naquela cidade de 5 a 7 de Agosto. É de aproveitar, até porque não penso que haja mais datas previstas.

A Transcendência Passa Pelo Lar

James V. Schall S.J.
Num artigo chamado “A próxima guerra cultural”, publicado no New York Time, no passado dia 30 de Junho, David Brooks nota que o Cristianismo está em rápido declínio, se não mesmo em vias de eliminação. O seu termo para descrever o que resta – conservadores sociais – é infeliz. Tal como Chesterton anteviu há mais de 100 anos, este resto será composto por “hereges”. Só eles terão a coragem de afirmar que a relva é verde, ou que casamento é casamento, e não, segundo a nossa percepção voluntarista da realidade, aquilo que nós queremos que seja. “A revolução sexual não será desfeita tão cedo. O desafio mais prático passa por reparar uma sociedade atomizada, sem compaixão e inóspita”, escreve Brooks, num tom que recorda claramente o Papa Francisco.

Depois de ler o artigo de Brooks, acabei de ler o livro de Daniel James Brown, “The Boys in the Boat”, um relato dos oito tripulantes que ganharam a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Na nota de autor, Brown escreve: “Por fim, este é, em muitos sentidos, um livro sobre a longa viagem de um jovem de volta ao lugar a que chama casa; escrever esta história recordou-me novamente que ninguém é mais abençoado no seu lar do que eu”. Brown é casado e tem duas filhas.

Não pretendo fazer aqui uma crítica a este excelente livro. Há um clube de leitores em Maryland que diz que todos os habitantes do Estado o deviam ler. É um bom conselho. Mas seja como for que se vê este livro, é claramente contra-corrente. Hesito dizê-lo com medo de que hesitem lê-lo.

Brown presta particular atenção à vida familiar de Joe Rantz, o herói do livro, e à vida dos outros rapazes tripulantes, bem como aquilo que lhes acontece até às suas mortes. Todos menos um casam, têm filhos, lares, memórias. O livro depende em grande parte das memórias da filha de Rantz. É um livro sobre homens, homens bons e novos que, como muitos turistas de visita à Alemanha pela primeira vez, bebem demasiada cerveja. Mas é também um livro sobre mulheres, filhas, irmãs e mães, nenhuma das quais remava. É um livro que compreende o casamento, a sua relação aos sexos, a filhos, a pais e mães. Relações que podem ser, por vezes, agonizantes, mas não existem dúvidas sobre o que deviam ser.

O protagonista filosófico do livro é um inglês chamado George Pocock. Cada capítulo começa com uma afirmação de Pocock sobre a majestade do remo. Pocock é o construtor dos melhores skiffs de cedro de oito lugares. É também uma figura importante na sede da tripulação na Universidade de Washington, onde constrói e vende os seus barcos. O drama do livro está centrado em Joe Rantz, um dos principais remadores da tripulação. A sua vida familiar foi afectada pela morte da sua mãe e o segundo casamento do seu pai, que resultou em quatro meios-irmãos e irmãs. Para todos os efeitos o seu pai e a sua madrasta abandonaram-no quando ainda era rapaz.

Ao analisar a psicologia de Joe e o seu enquadramento na equipa, Pocock chega à conclusão que o que o incomoda é a sua relação difícil com o seu pai que, como Joe, é muito pobre. Esta é uma das passagens centrais do livro:

O facto de a mãe de Pocock ter morrido seis meses depois de ele ter nascido ajudava. A segunda mulher do seu pai morreu poucos anos depois, antes de George ter idade sequer para se lembrar dela. Ele sabia bem o que era crescer numa casa sem mãe, do buraco que isso deixa no coração de um rapaz. Conhecia bem aquela vontade incessante de se tornar completo, esse desejo infindável. Lentamente, começou a compreender a essência de Joe Rantz.

Mas que coisa estranha esta?! Um rapaz precisa de uma mãe? Da sua mãe?

Joe Rantz teve apenas uma namorada na sua juventude. Casou com ela no mesmo dia em que ambos se licenciaram na Universidade de Washington. A sua mulher, Joyce, que também ajudou a criar os seus meios-irmãos, foi uma esposa dedicada, descrita da seguinte maneira por Brown:

Ao longo dos anos Joe e Joyce tiveram cinco filhos – Fred, Judy, Jerry, Barb e Jenny. Em todos esses anos, a Joyce nunca se esqueceu do que o Joe tinha passado nos seus primeiros anos e nunca se desviou do juramento que fizera a si mesma no início da sua relação: Acontecesse o que acontecesse, ela nunca o deixaria passar por algo do género, nunca o deixaria sentir-se abandonado, ele teria sempre um lar caloroso e cheio de amor.

Joyce morreu antes de Joe. Na sua velhice e morte, os seus filhos cuidaram dele.

“A próxima guerra cultural?” Homem, mulher, fidelidade, votos, trabalho, lar, glória – estas são as coisas que temos estado a destruir, as coisas que os homens e as mulheres, rapazes e raparigas, mais querem, se é que querem algo para além disso. Porque será, perguntou Chesterton, que sentimos “saudades de casa em nossa própria casa?” Se os “rapazes no barco” nos ensinam alguma coisa é que para sermos o que somos temos de saber, por experiência ou por esperança, o que é um lar – pai, mãe e os seus filhos. A transcendência passa pelo lar.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is Catholic, The Modern Age, Political Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fé: Luz Espiritual que Ilumina a Mente

Randall Smith
Recentemente uma das minhas alunas estava a ler um livro que dizia que a fé é “uma luz espiritual que ilumina a mente” e que “vemos através dessa luz”. Perguntou-me o que é que isso queria dizer. O que é uma “luz espiritual” e como é que pode “iluminar a mente?”. “Sei que ‘luz’ é apenas uma metáfora, mas não deixa de me parecer um pouco vago. Do que é que o autor está a falar?”

Consideremos o seguinte caso, disse-lhe. Digamos que há uma jovem rapariga que sofre de depressão crónica e que, desde muito nova, tem problemas com a sua imagem corporal. Ela pensa que é gorda e feia, mas não é. Na verdade, é capaz até de ser demasiado magra para o seu bem, mas é até bastante atraente.

Agora digamos que esta jovem mulher recebe ajuda de um bom psicólogo e/ou que responde da melhor forma ao amor de um pai, de uma amigo ou do seu marido. E digamos que depois desta alteração na sua disposição, quando se olha ao espelho, já não se vê como gorda e feia, apesar de o seu índice de massa corporal estar exactamente na mesma. Por alguma razão ela agora já acredita, ao contrário de antes, no seu marido, ou na sua mãe ou nos amigos, quando estes lhe dizem “não és gorda, és linda”. Antes até lhe custava ouvir tais palavras.

Como é que descreveríamos esta nova visão que a jovem passou a ter de si mesma, e de si em relação ao mundo? Que tal uma espécie de “luz espiritual” que lhe “iluminou a mente?”

Porquê esta descrição? Porque antes ela estava convencida na sua mente que era gorda e feia. Ninguém lhe poderia demonstrar o contrário. Por isso a mudança não foi puramente intelectual. Ninguém lhe deu novas provas; ninguém lhe mostrou fotografias que antes não tinha visto. A mudança aconteceu nalgum lado dentro dela que não apenas o intelecto. Não foi apenas uma mudança na sua mente; foi uma mudança em toda uma atitude para consigo mesma e em relação a outras pessoas e ao mundo.

Onde antes tinha existido uma espécie de desespero porque as coisas nunca seriam diferentes, agora existe uma esperança. Não se trata de um sonho ilusório e impossível (como eu dizer, por exemplo, que um dia seria capaz de jogar no NBA), mas uma esperança baseada numa nova percepção da realidade das coisas como verdadeiramente são. Não dizemos apenas que ela “espera” que não seja gorda. Não, ela vê a verdade de que não é gorda, coisa que antes não era capaz de ver, nem de imaginar. Podemos dizer, por isso, que esta nova “luz espiritual” lhe “iluminou” a mente, de forma a que ela consegue agora ver com os seus olhos e compreender com a sua mente a sua verdadeira imagem e o seu verdadeiro valor, que antes estavam abafados por uma ilusão.

Poderá ser que esta nova capacidade de se ver a si mesma e ao mundo se tornou possível porque finalmente acreditou no amor de um amigo, ou do seu marido, ou por alguma razão que ela provavelmente não consegue explicar. Ou talvez se trate de algo para além da “razão”, pelo menos de acordo com o que ela considerava “razoável”. E esta nova “visão” de si mesma e do mundo, que se tornou possível por ter dito finalmente que “sim” ao amor, também abriu as portas a uma nova esperança e à capacidade para amar de forma mais completa. Na verdade, se calhar ela simplesmente disse a si mesma: “Prefiro dizer que sim à realidade do amor e a tudo o que isso promete em vez de dizer que não e permanecer presa na triste realidade que me convenci a mim mesma que é a única que poderia possivelmente existir.”

Este dizer que “sim” na esperança da promessa da realidade que o amor pode tornar possível é aquilo a que os cristãos chamam “fé”. Não é apenas um acto de vontade: Não me limito a querer acreditar naquilo que é impossível. Antes, é uma nova visão do intelecto, uma luz espiritual nova na qual nos conseguimos ver a nós mesmos e ao mundo de forma mais clara, uma visão que se torna possível dizendo “sim” ao amor e à sua promessa daquilo que pode vir a ser, mas ainda não é.

Seria bom se, quando lidamos com jovens deste tipo que se convenceram de que são feias, pudéssemos simplesmente fornecer-lhes provas no sentido contrário. Mas por alguma razão, na maior parte das vezes, o “sim” da fé, esperança e amor precisam de vir primeiro. Este tipo de pessoa não começa por ver a verdade e depois decide, com base em critérios racionais, a amar-se a si mesmos e aos outros. Primeiro têm de aceitar a realidade do amor e depois deixá-lo desabrochar num novo tipo de esperança que lhes permite ver a realidade como ela é verdadeiramente.

Se duvida que o amor torna possível uma visão mais verdadeira e clara da realidade – sobretudo da realidade das pessoas – do que teria sido possível de outra forma, então é porque não passou tempo suficiente a ouvir mães a falar dos seus filhos. Sobretudo, digamos, a mãe de um filho com Trissomia XXI. Tanto quanto consigo ver (não sendo uma daquelas pessoas que se baba por bebés), se não pudesse ver com os olhos de um amor que é capaz de olhar para além das evidências e com uma esperança por possibilidades que ainda não estão presentes (ou que nem parecem muito prováveis), aquela mãe não estaria a apostar a sua vida no futuro destas crianças.

Mas é isso mesmo que as mães fazem, todos os dias.

O que é que elas vêem nestas crianças que eu não vejo? Provavelmente o mesmo que os santos vêem no mundo e nas outras pessoas que o resto da humanidade não vê: A graça amorosa de Deus em acção, tornando possíveis realidades que mal podemos conceber e que na maior parte das vezes nem conseguimos imaginar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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sexta-feira, 10 de julho de 2015

O homem perdoado contra o Zapping espiritual

Um cartaz do Papa na prisão de Palmasola
No seu último dia na Bolívia, o Papa Francisco esteve numa cadeia, onde se apresentou aos reclusos como “um homem perdoado”.

Ontem à noite, já depois de ter enviado o meu mail do dia, o Papa Francisco esteve reunido com seminaristas, padres e bispos e, depois, com representantes de “movimentos populares”.

Aos religiosos alertou para o perigo do “Zapping espiritual”, mais um termo que entra agora no léxico do Papa Francisco.

Já aos representantes dos movimentos populares, tradicionalmente vistos como sendo de esquerda ou mesmo de extrema esquerda, o Papa falou no “direito sagrado” aos 3T – Terra, Tecto e Trabalho. “Vale a pena lutar por eles”.

Foi um discurso muito longo, e por isso vale a pena também ler aqui o apanhado das dez frases que seleccionámos e que inclui o pedido de perdão pelos pecados cometidos pela Igreja na colonização da América Latina.

Agora o Papa está a caminho do Paraguai, último troço desta viagem de vários dias.

Eu, pelo contrário, estou a caminho de uma semana de férias, pelo que vos aconselho a manterem-se atentos ao site da Renascença durante o fim-de-semana para estarem sempre a par das novidades.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Em terra de coca, o mais alucinado é presidente

Err... Sim, obrigado... Vou pôr no meu quarto... A sério!
Ao que parece, em terra de coca, o mais alucinado é rei. Ou presidente, neste caso. Evo Morales ofereceu ao Papa um crucifixo que é simultaneamente uma foice e martelo, mas isso foi só uma pequena parte do aproveitamento político deste homem cuja fé consegue ser ainda mais bizarra que a política.

O Vaticano já esclareceu que o Papa não fazia ideia dos presentes que estava prestes a receber.

Na sua primeira missa na Bolívia, Francisco convidou os fiéis a atacar a pobreza através da partilha e a nunca cair na tentação de pensar que há pessoas “descartáveis” só porque não produzem.

Esta noite o Papa reúne-se com os padres e religiosos e, depois, vai falar com representantes dos movimentos populares, portanto podem esperar notícias frescas na madrugada ou logo de manhã.

Os frades agostinhos vão ter o seu segundo padre português desde a expulsão das ordens religiosas. Tiago Alberto diz que querer ser sacerdote não é nem impossível nem complicado.

Entretanto não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre a importância de apostar numa restauração do namoro, para se salvar o casamento.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Diz-me a tua receita que eu digo-te a minha

Guardas Suíços em alerta máximo por
ameaça chamada Cruella de Vil
O Papa Francisco voltou hoje a fazer das suas e quando chegou a altura de fazer o seu discurso deixou de lado a versão escrita e disse que não tinha paciência para a ler.

No seu discurso improvisado Francisco alertou para o a importância de os padres e religiosos terem memória e de reconhecerem a gratuidade da sua vocação. Francisco também andou a trocar receitas (de alegria) com os equatorianos.

Já o outro discurso, que não tendo sido lido foi entregue a um representante do clero local para ser tornado público, explicava que os clérigos não são mercenários mas servidores. Vale a pena ler ambas as notícias que, naturalmente, se completam.

Ontem foi dia de falar de ecologia, de pobreza, do amor que devemos ter até pelos nossos adversários, e de lamentar novamente o facto de a morte dos pobres não ser notícia nas nossas sociedades. Foi também dia de paramentos ponchos e de báculos bacanos (ou de férulas fixes).

Esta quarta-feira D. Manuel Clemente esteve na Renascença para empossar o Conselho de Gerência e sublinhou que a catolicidade da emissora católica portuguesa não é uma coisa de tirar e pôr, deve estar sempre presente. Vamos fazendo por isso Senhor Patriarca!

Por fim, não deixem de ler o artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing em português. Fala-se muito na crise do casamento, mas e a crise do namoro? Não é menos importante e drástica. O namoro na idade da pílula tem muito que se lhe diga, nem tudo de bom.

Namoro na era da Pílula

George Sim Johnston 
Fala-se muito, hoje em dia, da crise do casamento. Os níveis de divórcio são altos e demasiadas crianças vivem em famílias monoparentais e frequentemente as pessoas acabam por se sentir isoladas e sós quando chegam à meia-idade. Mas fala-se pouco de namoro. Como é que se chega a um casamento? Como é que uma pessoa de 25 anos devia lidar com toda a cena do namoro?

Segundo o filósofo Leon R. Kass, a razão pela qual se fala tão pouco de namoro é porque “os próprios termos: ‘cortejar’ e ‘pretendente’ são arcaicos e se hoje as palavras mal se usam é porque o fenómeno praticamente desapareceu. Actualmente não existem normas de conduta socialmente definidas para ajudar os jovens a orientarem-se para o casamento. Para a grande maioria o caminho para o altar é território desconhecido: É cada casal por si, sem bússola, frequentemente sem um objectivo”.

Esta ausência virtual de guiões para o namoro não tem precedentes. Até há pouco tempo, a sociedade possuía normas claras para governar a “dança” entre um homem e uma mulher antes do casamento. Há razões pelas quais isso já não acontece, salvo raras excepções.

Em primeiro lugar, vivemos naquilo a que Barbara Dafoe Whitehead chama uma cultura de divórcio. Muitos jovens adultos têm os pais divorciados e por isso falta-lhes não só bons conselhos como um modelo convincente para o matrimónio. O fim doloroso dos casamentos dos seus pais deixa-os reticentes quanto à ideia de compromisso.

Em segundo lugar, tem havido uma grande mudança de prioridades em relação ao trabalho e à família. Hoje as pessoas querem ter independência financeira antes de pensar sequer em casar, enquanto os seus pais (e certamente os seus avós) costumavam casar antes de terem uma situação financeira clara. Há cinquenta anos esperava-se que os jovens casais subsistissem com pouco nos primeiros anos do casamento e isto tendia a fortalecer a relação.

“Se esperar até aos trintas”, escreve Charles Murray, “é provável que o seu casamento seja uma fusão. Se casar antes é natural que seja um start-up… Quais são as vantagens de um casamento start-up? Em primeiro lugar, ambos terão memória das suas vidas em conjunto quando tudo estava ainda por definir (…) e cada um saberá que sem o outro não seria a pessoa que é hoje”.

Em terceiro lugar, muitos solteiros tendem a viver o que Kay Hymowitz apelida de uma “adolescência pós-moderna”. Este estado de suspensão emocional tem sido retratado em séries como Seinfeld. Homens novos (e algumas mulheres) que não vêem qualquer razão convincente para se tornar adultos; podem nem saber bem o que a palavra significa.

Para os homens este atraso em aceitar as responsabilidades da vida adulta explica-se em parte pela disponibilidade de sexo sem compromissos. “Se a cultura oferece acesso sexual sem exigir compromisso pessoal em troca”, escreve James Q. Wilson, “muitos homens optarão sempre pelo sexo”.

O sexo, em tempos reservado para o casamento, é agora visto como parte essencial do namoro. Isto não clarifica o pensamento nem enriquece as emoções. O sexo casual criou um clima de cinismo entre os jovens, que entraram no hábito de tratar os membros do sexo oposto como um meio para atingir um fim. A transformação do sexo numa actividade casual faz mirrar o sentido do namoro e, portanto, do próprio casamento.

Estado de suspensão emocional
A modernidade dá muita importância à ideia de liberdade, mas diz pouco sobre como usar essa liberdade. Um caso concreto é a revolução sexual, que tem tido um impacto devastador sobre o namoro e o casamento. De forma geral é difícil, passados estes anos todos, afirmar que a revolução sexual tornou as pessoas mais felizes. Talvez seja mais fácil comprovar o contrário. Considere-se, por exemplo, o número de nascimentos fora do casamento, que agora já ultrapassa os 40% na América e no Reino Unido, ou a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis.

A revolução sexual foi iniciada pela introdução da pílula contraceptiva para mulheres. A pílula era suposto “libertar” as mulheres, mas teve uma série de efeitos imprevistos – pelo menos pelos que a promoviam mais vigorosamente.

A pílula concedeu aos homens uma autorização em branco para ter sexo sem responsabilidades, tornou-se algo que podiam exigir sem se preocuparem com as consequências. Tornou-se fácil aos homens tratar as mulheres como objectos de prazer (e algumas mulheres adoptaram a mesma atitude). Esta transformação de prazer físico em comodidade esvaziou o acto sexual do seu sentido nupcial. Fez com que os homens e as mulheres passassem a olhar uns para os outros de formas que têm pouco a ver com a aliança de permanente doação própria que é o casamento.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de engate que – como até escritoras feministas de tendência liberacionista como Donna Freitas admitem – tem causado muita dor e frustração, sobretudo entre mulheres. Não é difícil ver que a promiscuidade sexual tanto nos campus universitários como mais tarde tem resultado em muitos homens e mulheres a entrar para o casamento com uma atitude consumista em relação ao sexo.

A pílula também ajudou a criar uma cultura de coabitação antes do casamento. Em 1960, o ano em que a pílula foi introduzida, quase ninguém coabitava antes de casar. Agora 60% já o faz. E acontece que a coabitação não é uma boa rampa de acesso ao casamento. Para começar, ensina aos casais uma noção de compromisso “light”. Apelidos diferentes e contas bancárias separadas, a certeza de que se podem separar “a qualquer instante”. Muitos casais descobrem apenas tarde de mais que a coabitação e o casamento não são de todo a mesma coisa.

A transformação da instituição do casamento terá de passar pela restauração do namoro, embora de uma forma diferente do que era há 60 anos. Recentemente uma aluna de 23 anos contou-me que o que se faz actualmente é juntar-se a um tipo que pode ou não vir a ser seu marido e nem pensar em casar até perto dos trinta. A sua geração precisa de ouvir as razões pelas quais isto é uma fórmula para a infelicidade aos cinquenta anos.


George Sim Johnston é autor de “Did Darwin Get It Right? Catholics and the Theory of Evolution” (Our Sunday Visitor).

(Publicado pela primeira vez no sábado, 4 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Papa, as famílias e as talhas de bom vinho

Fiéis aguardam o Papa no Equador
O Papa Francisco está no Equador, onde esta tarde visitou um santuário da Divina Misericórdia e, depois, celebrou missa para uma grande multidão, debaixo de um calor intenso.

Da homilia há uma frase sobre o sínodo da família que há-de ser interpretado e lido das mais variadas maneiras, mas seria uma enorme pena se essa frase desviar a atenção do texto como um todo, que é dos mais bonitos que já ouvi este Papa proferir.

Durante a semana que estive fora, de férias, o Papa Bento XVI fez um discurso oficial e público, o primeiro desde a sua resignação, sobre um dos seus temas preferidos… A música!

Também durante a semana publicou-se, como sempre, mais um artigo do The Catholic Thing. O padre Mark Pilon pergunta se a Igreja precisa de pessoas como João Baptista hoje em dia, recordando o caso do bispo de Nova Orleãs que excomungou um político que se opunha às leis de integração racial na década de 60.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

João Baptista e Escândalo Público

Pe. Mark Pilon
Quando os homens fingem favorecer o Evangelho, mas vivem no mal, não devemos encorajar a sua ilusão, mas obedecer às nossas consciências, como fez João. O mundo pode chamar a isto falta de educação ou zelo cego. Os professores falsos, ou os cristãos tímidos, poderão censurá-lo como sendo falta de civismo; mas os inimigos mais poderosos não podem ir mais longe do que aquilo que o Senhor permite. – Comentário de Matthew Henry a Mateus 14,1

João Baptista seria bem-vindo na Igreja de hoje? Em primeiro lugar, o seu estilo de vida era tão ascético que incomodaria certamente muitas consciências, mesmo entre a hierarquia. Depois havia a pregação, que incluiu uma condenação pública de Herodes Antipas por viver em incesto com a mulher do seu meio-irmão Filipe. Essa tomada de posição seria alvo de muita crítica, se não mesmo censura, nos dias de hoje.

A missão de João tinha basicamente duas vertentes. Era o último dos profetas que anunciaria a presença do Messias. Mas primeiro tinha de preparar o povo de Israel para acolher o Messias, que já estava entre eles, através de uma chamada firme para o arrependimento do dos pecados. Esta última parte da sua missão dirigia-se a uma nação inteira e não se dirigia a algum pecado em particular, até confrontar Herodes. Foi aí que as coisas se tornaram pessoais.

Herodes fazia parte de Israel, era Rei, nomeado pelo imperador romano. Mas era um membro apenas parcialmente comprometido com a religião judaica. Não era devoto, de todo, mas era bastante ecléctico. Claramente preocupava-se com algumas práticas ou costumes judaicos, mas claramente, também, não acreditava muito em doutrinas.

Tal como o seu pai, Herodes o Grande, não ia muito com a conversa de um messias. Do resto das suas crenças, se as tinha, não sabemos nada. Mas sabemos que era desprezado por todas as facções religiosas que tinham de lidar com ele. Sabemos também, através dos historiadores, que metia o dedo em práticas pagãs, ligadas aos deuses dos seus mestres, os romanos. Quando era politicamente oportuno fazia o que era preciso do ponto de vista religioso, tanto para os judeus como para os pagãos.

Mas João trata-o como correligionário judeu e não como pagão. E João respeita-o ao ponto de lhe dizer para se arrepender e mudar de vida, tal como fazia com outros judeus. Mais, porque Herodes fazia parte do povo judeu, independentemente da forma morna como o fazia, e porque desempenhava um papel importante para o povo, João não pode permitir que o seu comportamento escandaloso (a sua união incestuosa com Herodíade) passe em claro. Por isso denunciou-o, e custou-lhe a vida.

É difícil imaginar algo do género a passar-se hoje em dia. Herodes faz lembrar muitos políticos católicos que praticam a sua religião apenas na medida em que está de acordo com as suas ambições políticas. Quantos políticos católicos prestam culto, hoje em dia, aos deuses contemporâneos dos pagãos? Quantos “católicos” no congresso e noutras legislaturas e cargos de responsabilidade, apoiam os “sacramentos” sagrados da religião secular; o sacramento do aborto, há décadas, e o mais moderno sacramento do “casamento” homossexual?

Simplesmente já não há ninguém como João Baptista entre os líderes da Igreja actual que, por inerência dos seus cargos, receberam um mandato profético de Cristo. Que político católico que trabalha abertamente contra os ensinamentos morais de Cristo tem sido denunciado publicamente por isso? Sei de apenas um caso nos últimos cinquenta e três anos, quando o arcebispo Joseph Rummel, de Nova Orleans, excomungou o líder democrata Leander Perez, em 1962, por se opor à integração racial das escolas.

O preço a pagar por denunciar os poderosos
Desde essa altura tenho quase a certeza que não houve um único caso. Suponho que estas traições políticas modernas, contribuindo para o assassinato em massa e para a perversão do casamento, não merecem sequer uma condenação pública, quanto mais uma excomunhão.

Devemos, talvez, acreditar que os bispos estão a repreender estas pessoas em privado? Essa era a desculpa dada frequentemente a pais de crianças abusadas por membros do clero: “O bispo está a tratar do assunto discretamente, para evitar escândalo”. Mas depois foi-se a ver e raramente isso correspondia à verdade.

O diálogo discreto nunca pode ser a resposta adequada a uma situação de escândalo público grave. São João sabia que não podia apenas falar com Herodes em privado, porque Herodes era um escândalo público. O Arcebispo Rummel sabia que não bastava falar secretamente com Perez, embora o tenha feito também, porque Perez era obstinado no seu comportamento escandaloso.

Hoje os políticos semi-católicos são igualmente persistentes no seu escândalo. Independentemente de os bispos terem falado com eles em privado, chamando-os à conversão, não tem funcionado. O escândalo público continua e os leigos ficam mais e mais confusos.

Não basta que os líderes da Igreja dialoguem com estes políticos. As suas acções pedem arrependimento e esse arrependimento tem de ser de natureza pública para que o escândalo público seja removido.

Enquanto ainda era cardeal, o Papa Bento XVI disse que o principal dever de um bispo é de proteger a fé dos simples fiéis católicos. Quando os políticos católicos defendem males graves na sociedade, pelas suas acções, claramente estão a causar escândalo grave entre os fiéis. Quantos católicos comuns, ao longo das últimas décadas, concluíram – compreensivelmente, tendo em conta as acções dos seus pastores – que qualquer pessoa pode ser um católico fiel e ainda assim defender o aborto na praça pública e até na sua vida privada?

Não só nunca vêem os Herodes dos nossos dias censurados pelos actuais guardiões da fé, mas vêem-nos mesmo a receber a Comunhão das suas mãos. Que mais haviam de concluir?

Leander Perez acabou por regressar à Igreja antes de morrer, o que significou que teve de rejeitar e arrepender-se do seu racismo. Se o seu arcebispo o tivesse deixado passar como uma repreensão discreta temos de pensar se esse arrependimento, necessário para a salvação, teria ocorrido. Gosto de pensar que Perez ficará eternamente grato ao seu velho inimigo e que hoje gozam juntos da beatitude, tal como Paulo e Estêvão.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez no sábado, 27 de Junho de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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