quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Carta de uma prisão em Birmingham

Martin Luther King Jr.
16 de Abril de 1963
Meus caros amigos clérigos:

Durante o meu encarceramento na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com as vossas declarações recentes apelidando as minhas actividades actuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente páro para responder a críticas ao meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, as minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que essa correspondência no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que as vossas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder-lhes em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do Século VIII a.C. abandonaram as suas vilas e levaram o seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao apelo macedónio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos numa rede inescapável de mutualidade, atados num único laço do destino. Algo que aja sobre alguém directamente age sobre todos indirectamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.

Vocês deploram as manifestações que estão a ocorrer em Birmingham. Mas a vossa declaração, lamento dizer, não expressa preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho a certeza de que nenhum de vocês gostaria de se contentar com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam a ocorrer em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: Apuramento dos factos para determinar se existem injustiças; Negociação; Auto-purificação e acção directa. Efectuamos todos esses passos em Birmingham. Não se pode negar que a injustiça racial domina a comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. A sua história feia de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais explosões não resolvidas de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os factos duros e brutais da situação. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas estes recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa-fé.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em qualquer campanha de acção directa que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre se traduziu em “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Existe uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. Pelo contrário, há uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade.

Obviamente, não há nada de novo nesta forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante das mutilações a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade académica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um acto imponente de desobediência civil.

Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a acção directa pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação com o rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ama os teus inimigos, abençoa aqueles que te amaldiçoam, faz o bem àqueles que te odeiam e reza por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amós um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca pára”? Não era Paulo um extremista do Evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”?

…Devo salientar sinceramente que fiquei desiludido com a Igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo de errado na igreja. Digo-o como um sacerdote do Evangelho, que ama a Igreja; que foi acalentado no seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida se estender.

Profundamente decepcionado, chorei pela frouxidão da Igreja. Mas podem estar certos de que as minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a Igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a Igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Se disse algo nessa carta que exagera os factos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os factos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que esta carta vos encontre fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança de que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão se dissipa das nossas comunidades amedrontadas, e que numa manhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre o nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.


Martin Luther King Jr. (1929-1968), um pastor baptista, foi presidente da Conferência de Líderes Cristãos do Sul. Recebeu o prémio Nobel da Paz em 1964 por causa da sua defesa da luta não-violenta a favor dos direitos civis. Em 1963 liderou a Marcha Sobre Washington onde fez o discurso “Eu Tenho um Sonho”, que marcou um ponto de viragem da História americana.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017)

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