quarta-feira, 26 de abril de 2017

“Que o seu sangue caia sobre nós!”

Randall Smith
De todas as leituras do tempo pascal, o que mais me perturba é a passagem de Mateus 25,27, quando a multidão clama “que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” Talvez valha a pena recordar que esta passagem encontra-se no Evangelho de Mateus, que era judeu. Estará ele a invocar sobre o seu próprio povo uma maldição multisecular? Não me parece o caso. Este é um mal-entendido frequente, com consequências particularmente trágicas neste caso, mas que corresponde a um padrão comum.

Este “padrão” envolve pegar numa passagem que tem a ver com o sacrifício desinteresseiro de Cristo por toda a humanidade e interpretá-la de uma forma essencialmente pagã, como se Cristo fosse Zeus, ou Apolo.

Um exemplo clássico disto mesmo tem a ver com a forma como algumas pessoas interpretam Efésios 5,22-25, em que São Paulo estabelece uma analogia entre maridos e mulheres e Cristo e a Igreja. As mulheres estão para os seus maridos como a Igreja está para Cristo, e os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a Igreja.

Por alguma razão – e penso que isto tem tanto a ver com a nossa natureza pecaminosa como com maus hábitos de interpretação bíblica – algumas pessoas, sobretudo homens, pensam que isto significa que os maridos podem dominar as suas mulheres. Mas quando é que Cristo dominou a Igreja, se entendermos o domínio como é praticado por um Rei pagão? Cristo lavou os pés aos seus discípulos e disse que “quem quiser ser o primeiro deve servir os outros”. Por isso, no meu entender, quando um marido diz à sua mulher “eu sou como Cristo para ti” ela devia imediatamente tirar as meias e esticar o pé para que ele o lave.

Os deuses pagãos como Zeus e Apolo exigiam que os humanos lhes fizessem sacrifícios. O Deus cristão sacrifica-se inteiramente por nós e morre para perdoar os pecados até daqueles que o crucificam. O que é que pode levar alguém a virar isto ao contrário e, em vez de ver o comentário de São Paulo como um convite ao serviço, interpretá-lo como uma exigência de ser servido?

Seja o que for, não é saudável. E não tem nada a ver com a forma como Cristo se revelou nas Escrituras.

O que nos traz de volta ao comentário perturbador: “Que o seu sangue caia sobre nós”. Enquanto cristãos, em que é que acreditamos? Acreditamos que no sangue de Cristo somos curados e os nossos pecados perdoados. Na Eucaristia, o sangue e o corpo de Cristo são-nos oferecidos tal como foram aos primeiros apóstolos.

A recepção do corpo e sangue de Cristo na Eucaristia é uma das formas mais poderosas que temos de participar na morte e ressurreição salvífica de Cristo e de receber os seus dons de graça divina. O que nos leva a virar esta bênção de pernas para o ar e entendê-la como uma maldição, quando a intenção de Mateus ao contar esta história é obviamente de dizer que aquilo que se pensava ser uma maldição se tinha tornado, no caso do sacrifício de Cristo, uma bênção?

Jesus era judeu. Maria e todos os primeiros apóstolos também. Nós lemos a Nova Aliança à luz da Antiga, razão pela qual temos tantas leituras do Antigo Testamento na vigília de Páscoa. A única leitura que não deve nunca ser omitida durante a vigília, segundo as normas do Missal Romano, é a do Êxodo, sobre o resgate de Israel do Egipto: o evento que está no cerne da Páscoa do Antigo Testamento. Não podemos verdadeiramente compreender a Última Ceia e a celebração pascal do novo testamento sem este contexto. Como o próprio Cristo diz: “A salvação vem dos judeus” (Jo. 4,22).

Os romanos crucificaram Cristo. Qual o significado então de os judeus gritarem pela sua crucificação? De acordo com João 1,11: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Foi rejeitado não só pelos romanos “estrangeiros” mas pelo seu próprio povo. E quem é o “seu próprio” povo? Quem é que os judeus representam? Todos nós: toda a humanidade, marcada pelo pecado, que rejeitou Deus.

Não é por nada que na liturgia de Domingo de Ramos toda a Assembleia clama “Crucifica-o! Crucifica-o!”. Não são apenas os judeus, somos nós. E com eles dizemos: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!” E cai mesmo sobre nós, porque é o sangue da Cruz que nos torna inteiros, o sangue da nova e eterna aliança, o sangue de Cristo derramado através do qual somos salvos.

Podemos pedir maior bênção para uma multidão do que esta, que o sangue de Cristo caia sobre ela e sobre os seus filhos?

Vêem como o sacrifício de Cristo transformou aquilo que era entendido como uma maldição numa bênção, não só para os que estavam presentes, mas para todos nós? Aqueles que usam esta passagem como desculpa para odiar ou perseguir judeus estão a passar ao lado da questão. Pior, estão a tornar a bênção de Cristo, comprada a alto preço com o seu próprio sangue, numa maldição novamente. Se esse não for o pior crime que se pode cometer contra o sacrifício salvífico de Cristo, então não sei qual é.

Ah, Santo Jesus, que ofensa cometestes
Que o homem, para vos julgar enveredou pelo ódio?
Desprezado pelos inimigos, rejeitado pelos seus próprios, oh, mais atormentado .

Não se iludam. Quando cantamos este hino, o inimigo somos nós; somos nós quem o rejeita; somos nós que traficámos ódio, disfarçado de rectidão. Somos nós quem o atormenta. Mas apesar de tudo, ele continua a amar-nos – um amor que Ele revela na plenitude derramando o seu sangue por nós na Cruz.

Por isso que o seu Sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos, pois é no seu sangue que somos redimidos e temos a vida eterna.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 23 de Abril de 2017)

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