quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Jesus e o Revisionismo Histórico

Casey Chalk
A indignação contra monumentos a figuras históricas está a começar a adquirir contornos de histeria cega. Na américa estão na mira dos activistas os confederados mortos, juízes do Supremo Tribunal, Cristóvão Colombo e até um médico do século XIX conhecido por ser o “pai da ginecologia”. Na Alemanha há quem peça a remoção de estátuas de Martinho Lutero por causa do seu antissemitismo. Em tudo isto há uma certa ingenuidade e presunção: “Se eu estivesse vivo naquele tempo, não teria cometido essas ofensas”. Mas as palavras de Jesus aos escrivas e aos fariseus respondem muito bem a esse tipo de pensamento simplista e presunçoso.

Os escribas e os fariseus, a elite religiosa do Judaísmo do primeiro século, acreditavam ser os herdeiros dos seus antepassados rectos. Jesus fala directamente à sua presunção:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? (Mat. 23:29-33)

Os escribas e os fariseus, na sua presunção, afirmavam que se fossem vivos naquele tempo jamais teriam cometido tais actos.

Com a nossa geração passa-se o mesmo. Emitimos juízos sobre as gerações passadas, com um ar de autossatisfação pelo esclarecimento do nosso próprio tempo, claramente o mais virtuoso de todos os que o precederam. As gerações anteriores – e certamente aquelas responsáveis pela descoberta, fundação e preservação inicial da nossa nação – eram ignorantes, supersticiosas e imorais. Nós somos científicos, realistas e sábios. Vemos filmes sobre injustiça social, como o “Selma” ou “12 Anos Escravo” e raramente imaginamos que seríamos capazes de tal preconceito ou mal moral.

A verdade é que se estivéssemos no lugar dos nossos antepassados e enfrentássemos os mesmos desafios, a maioria de nós provavelmente cometeria os mesmos erros. Os homens têm uma tendência natural para tentar encaixar com a maioria, evitando assim o risco de perseguição ou serem ostracizados. Poucas pessoas em cada geração tomam a decisão certa, o imperativo moral correcto, precisamente porque as consequências são tão graves. Quem o faz é considerado santo, e bem, pela Igreja. É por isso que os profetas do Antigo Testamento estavam sempre em minoria contra uma maioria egoísta e preguiçosa.

Mas Jesus lançou ainda mais avisos aos presunçosos:

Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração. (Mat. 23:34-36)

Recentemente esta estátua do Pe. António Vieira, em Lisboa
também foi alvo de uma acção de protesto
Quanto mais rejeitamos uma avaliação justa e honesta de nós mesmos e do nosso tempo, mais provável é que cometeremos o mesmo tipo de injustiça e maldade que tanto detestamos nos outros e no nosso passado. A presunção alimenta uma incapacidade de ver a verdade sobre nós mesmos e a nossa cultura. Alguém se espanta por ver que as vozes mais radicais que pedem a remoção de qualquer figura histórica contaminada por racismo ou sexismo são, essencialmente, as mesmas que defendem o aborto e a eutanásia?

Jesus termina a sua série de avisos com um lamento por Jerusalém, num tom mais pesaroso que zangado e acusatório:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta; porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor. (Mat 23:37-39)

A América e o mundo não precisam de mais críticas presunçosas às figuras do nosso passado. O que precisamos é de introspecção, arrependimento e caridade. Introspecção e arrependimento pelos erros não só do nosso passado, mas do presente. Caridade que aborda a nossa herança, por mais defeitos que tenha, com um pouco mais de humildade.

Um povo cego a uma avaliação honesta e caridosa da sua história – e do papel de Deus em, e através de, um povo imperfeito e pecaminoso – estará igualmente cego à sua obra no presente. Mais, esta nossa tendência de demolir monumentos e de mudar o nome a feriados – que rapidamente se está a tornar um movimento ideológico mais alargado – acaba por ser mais divisivo que unificador e reconciliador. Como Jesus e o nosso 16.º Presidente avisaram, uma casa dividida contra si mesma não permanecerá de pé.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 12 de Novembro de 2017)

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