quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Confissões de um Convertido

Casey Chalk
Este ano teceram-se várias considerações sobre os 500 anos da Reforma. Para mim, 2017 foi também um ano de comemoração pessoal: faz sete anos desde que regressei ao Catolicismo. Uma noite de conversa com um padre dominicano transformou-se numa vontade impulsiva para me confessar (não o fazia desde os sete anos). Mas se a recordação da Reforma tem sido razão tanto para introspecção e luto, o aniversário do meu regresso a Roma também. “Perda e Ganhos”, o título de um romance filosófico do Cardeal John Henry Newman, sobre a conversão de um aluno em Oxford ao Catolicismo, descreve bem aquilo que senti.

A vasta maioria dos testemunhos de conversão ao Catolicismo focam tudo o que se ganha ao entrar na Igreja fundada por Jesus. Isso é bom, a Igreja não é apenas algo que Ele estabeleceu há milénios, é onde Ele continua a residir. Mais, sendo verdadeiramente universal, engloba tudo o que é bom, verdadeiro e belo. Em todo o caso pode ser útil para potenciais convertidos, bem como para aqueles que os irão encontrar, descrever também aquilo que se perde.

Comunidade: Eu fazia parte de uma pequena e conservadora comunidade cristã alinhada com a Igreja Presbiteriana na América (PCA). A minha congregação da PCA contava com uns 150 fiéis ao domingo. Eu conhecia praticamente todas as famílias e elas conheciam-me. Conversávamos depois do serviço, às vezes durante horas. Tinha visitado as casas de muitos deles. Quando uma família tinha um bebé era anunciado na igreja e os diáconos asseguravam que não lhes faltava nada, incluindo refeições enquanto se adaptavam. Havia dois serviços compridos ao domingo, estudos bíblicos e vários eventos durante a semana ou fim-de-semana… A nossa vida rodava intimamente à volta de um pequeno grupo de pessoas. Era uma verdadeira bênção, envolvendo abertura aos outros, sacrifício e amor profundo. É difícil esconder as nossas falhas e falhanços numa comunidade destas; quando somos amados apesar de os nossos pecados serem conhecidos, o Evangelho ganha vida.

Em contraste, na minha primeira missa depois de regressar à Igreja não houve qualquer convite para eventos depois da celebração. Nada sobre grupos de jovens ou estudos bíblicos. Ninguém na paróquia sabia que era a minha primeira vez lá. Era anónimo. Aos poucos acabei por descobrir vários grupos sociais católicos, mas a missa de domingo continuou a resumir-se a uma hora por semana sentado sozinho, sem que ninguém me abordasse. A paróquia católica que frequentei durante os primeiros anos após a minha conversão ficava a algumas centenas de metros do quartel dos bombeiros onde a minha congregação presbiteriana se reunia para os serviços. Isolado na minha nova paróquia, senti-me muitas vezes tentado a descer a rua e voltar para lá.

Uma cultura partilhada: Enquanto cristão reformado fazia parte de um mundo pequeno e paroquial. A denominação tinha apenas cerca de 330.000 membros em todos os Estados Unidos, e talvez uns poucos milhões de pessoas no resto do país que se identificariam como “reformados” ou “calvinistas”. Paradoxalmente, isto teve o efeito de aprofundar os nossos laços neste pequeno “gueto” calvinista. Líamos os mesmos livros, cantávamos os mesmos cânticos e falávamos a mesma linguagem. Também partilhávamos uma herança comum com os nossos “santos”, homens em grande medida desconhecidos fora do nosso pequeno mundo, como J. Gresham Machen, Charles Hodge, B.B. Warfield, Robert Lewis Dabney. Orgulhavamo-nos muito desta cultura reformada. Na verdade tínhamos de o fazer. Uma comunidade cristã assim tão pequena precisa de uma grande fonte de riqueza cultural partilhada para conseguir sobreviver.  

Quando deixei o presbiterianismo deixei para trás quase tudo isso. As paróquias católicas não cantavam os cânticos que eu conhecia, não liam os livros que me tinham formado e não estavam interessadas no que o meu pequeno mundo de cristianismo tinha para oferecer. Sejamos claros, eu sabia que a maior parte da minha formação cristã era imprecisa ou incompleta, e que os “santos” reformados eram pouco em comparação com a santidade ou o brilhantismo de um São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales ou Santa Teresa de Lisieux.  

Em muitos aspectos tive de recomeçar tudo do início, aprendendo a cantar a Salve Rainha em latim, desenvolvendo um conhecimento e apreciação das diferentes correntes culturais, litúrgicas e teológicas que existiam na Igreja e encontrando algo no Catolicismo a que poderia chamar meu. Sete anos mais tarde tenho sem dúvida mais orgulho e lealdade para com a Igreja Católica e a maravilhosa diversidade das suas manifestações culturais do que alguma vez tive para com o calvinismo. Mas tive de passar por isso sozinho.

Pessoas: Deixei para trás algumas centenas de presbiterianos com quem já tinha desenvolvido uma relação espiritual profunda. Meses depois da minha conversão uma rapariga calvinista com quem tinha tido um namoro sério – e com quem tinha querido casar – disse-me que se eu regressasse ela concordava em casar comigo. Isso é que é guerra espiritual! Disse que não (depois de algumas noites em branco!). Muitas das minhas outras relações não românticas com ex-correligionários persistem, graças a Deus. Mas tristemente essas relações estão agora incompletas, estamos agora separados pelo facto de não podermos comungar dos elementos mais universais do Cristianismo Católico: A Eucaristia e a união com o episcopado apostólico.

Estas feridas são verdadeiras e são a razão pela qual escrevo estas linhas. Em breve estaremos a celebrar o Natal e já sei o que está no topo da minha lista: a unidade de todos os cristãos, sobretudo estes meus irmãos calvinistas. Quando entrei na Igreja Católica ganhei Cristo e tudo o que Ele tão generosamente ofereceu ao seu corpo místico. Mas perdi a comunhão de alguns dos meus melhores amigos, aqueles por quem rezo, para que um dia se juntem a mim em Roma.

A sua separação (e a de todos os protestantes) é uma verdadeira perda e deve encorajar-nos a todos a ajudá-los a descobrir não só a verdadeira herança apostólica, mas também a fonte e o cume de tudo o que anseiam: comunhão com Cristo na Eucaristia. É aí que encontraremos aquilo pelo qual Ele rezou com tanto fervor em João 17: que sejamos um – uma boa coisa pela qual rezar nesta época de Advento.


Casey Chalk é um autor que vive na Tailândia, onde edita um site ecuménico chamado Called to Communion. Estuda teologia em Christendom College, na Universidade de Notre Dame. Já escreveu sobre a comunidade de requerentes de asilo paquistaneses em Banguecoque para outras publicações, como a New Oxford Review e a Ethika Politika.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 2 de Dezembro de 2017)

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