quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Sobre Sentimentos

James V. Schall S.J.
A direcção de uma grande universidade pediu recentemente informação sobre o sucesso de uma nova iniciativa. Enviou-se um inquérito e pediu-se aos inquiridos que expressassem, de diversas formas, os seus “sentimentos” sobre o programa. Claro que sobre “sentimentos” não pode haver controvérsia ou desacordo. Se nos baseamos na categoria de “sentimentos” para saber coisas, não pode haver discussão. Os “sentimentos”, enquanto tal, por mais fugazes que sejam, são absolutos. Ou os temos ou não temos.

É isso que significa o ditado latino: “De gustibus non est disputandum” – os gostos não se discutem. Num mundo de “sentimentos” não há ponto intermédio. Não existe qualquer princípio comum, salvo: “Sim, eu ‘sinto-me’ assim”, ou “não, não me ‘sinto’ assim”. Suponhamos que alguém diz: “Deixa-me convencer-te que a cerveja que dizes que sabe tão bem, na verdade não é muito melhor que gelatina de limão aquecida”. A sua resposta permanece: “Ainda assim, é a minha preferida”.

O verbo “sentir” tem, em vários casos, substituído o verbo “pensar”. À primeira vista os dois podem parecer sinónimos. Mas olhando mais de perto diferenciam-se de uma forma que indica uma mudança civilizacional. A sociedade que “sente” não é a sociedade que “pensa”. Ambas as palavras têm um sentido específico e pertencem juntos, numa certa ordem de prioridade. Os nossos “sentimentos” estão, ou deviam estar, ao serviço do nosso pensamento, mas na sua devida ordem são claramente reais.

“Sentir” é o verbo que usamos para indicar o estado e a natureza das nossas paixões e desejos. Refere-se às mudanças da nossa alma que estão ligadas ao nosso corpo. Assim, dizemos “Sinto-me doente.” “Estou zangado com o Charlie.” Ou “Eu rio-me da Harriet.” Mas não chega comunicar a alguém a sua doença, estado de espírito ou humor. Também precisamos de saber se esses sentimentos são razoáveis ou não nas circunstâncias em que surgem. Talvez sejam. Mas se forem, isso demonstra como nos “sentimos” mas também se os nossos sentimentos são orientados pela nossa razão. Mais, implica que a razão em si é medida por um padrão que não é subjectivo. O padrão não foi criado apenas a partir dos nossos próprios interesses.

Aqui, Aristóteles continua a ser mestre. Temos conhecimento sensorial. Nós “sentimos” dor. Tocamos em algo morno. Cheiramos o odor terrível. Saboreamos o sal na salada. Ouvimos e compreendemos a mentira ou a piada que o George nos contou. Sem os nossos poderes sensoriais, não poderíamos conhecer estas coisas com as quais lidamos todos os dias. Porém, o sentido do olfacto em si não sabe o que é o cheiro ou como se distingue do paladar. Uma vez que as nossas mentes não são meras extensões dos nossos poderes sensoriais, sabemos o que significam o olfacto, a audição, o tacto e o paladar. Podemos manter todos estes aspectos em simultâneo.

Pessoa ou mero aglomerado de células?
Depende dos "sentimentos"...
Outra coisa que rapidamente aprendemos sobre nós mesmos é que os nossos poderes sensoriais estão sujeitos ao nosso domínio. Podemos aprender porque os temos. Vemos que podemos ficar demasiado zangados, ou insuficientemente zangados. Cada um tem o seu propósito a partir do qual podemos concluir sobre o seu devido lugar nas nossas vidas. Através da tentativa e erro, agindo correctamente ou incorrectamente, desenvolvemos virtudes ou vícios. Habituamo-nos à forma como usamos cada um dos nossos sentidos. O nosso carácter manifesta-se aos outros na forma como habitualmente respondemos aos outros. A questão central da nossa vida moral vem rapidamente ao de cima através da forma como agimos. Somos governados pelas nossas paixões, ou somos nós que as governamos?

Se forem elas a governar-nos, isso interessa? Acontece que a nossa razão está orientada para um fim, para um bem que não é simplesmente arbitrário. As nossas paixões, por outra palavras, são faculdades que procuram orientação na razão. Logo, o bom ou o mau uso revela-se no fim que a nossa inteligência nos leva a escolher e a seguir.

Logo, se as nossas mentes estiverem enviesadas o mais provável é que as nossas paixões também estejam. Neste sentido, o caminho de uma civilização da razão para uma civilização de “sentimentos” é bastante compreensível. Uma civilização que dá primazia aos “sentimentos” sobre a civilização da razão é uma em que a desordem se tornou hábito, personalizada e legalizada.

Não se pode ser civilizado e não ter “sentimentos”. A civilização significa optar livremente por sujeitar os nossos “sentimentos” à razão. Mas significa também orientar todas as nossas paixões para um fim que coloca tudo o resto em ordem. As paixões, quando se lhes é dada primazia, podem tornar-se “razões” sofisticadas para substituir a razão. Mas quando se dá essa troca é porque desviamos deliberadamente as nossas mentes do seu fim próprio.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 17 de Dezembro de 2017 em The Catholic Thing)

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